Vivemos numa Era Pós-Verdade?

(António Gil, in Substack.com, 08/02/2026, Revisão Estátua)


Já estamos para lá disso: Bem vindos à Pós Realidade.


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Muitos de vós talvez pensem que pós verdade e pós realidade sejam a mesma coisa mas não são: há uma enorme diferença em grau e género. Quando se admitia existir apenas uma realidade, mesmo se povoada de mentiras e manipulações, já um número indeterminado de verdades podiam coexistir, mesmo se existisse tensão e contradição entre algumas delas.

Agora, existem várias realidades fabricadas: numa delas, por exemplo, a Ucrânia está a vencer a guerra com a Rússia. Noutra há um impasse militar. Numa terceira a Ucrânia precisa de negociar para garantir a sua sobrevivência como Nação. E ainda há aquela que nos diz que a Rússia não só já venceu a Ucrânia como está a invadir os Países Bálticos e por isso é preciso accionar o artigo 5º da NATO (o que nos conduziria a uma guerra nuclear, pela certa).

Notem que todas elas são promovidas pelos políticos e pela imprensa ocidental, não raro até, alguns dizem uma coisa hoje e dirão outra coisa completamente diversa amanhã, estas dissonâncias já foram normalizadas e poucas pessoas as estranham.

Em cada um destes universos paralelos coexistem ‘verdades’ sabendo nós que mesmo num só desses universos muitas dessas ‘verdades’ excluiriam outras.

Há quem defenda que a pós realidade surgiu graças às IAs (sim, elas são muitas e não dizem todas o mesmo) que produzem vídeos, artigos e outras ‘provas’ da realidade que garantem ser a verdadeira e única. Mas já temos um número incontável dessas verdades ‘únicas’.

De resto, se grosso modo é assim, fino modo isto sempre se fez mas com meios mais limitados. A ficção sempre coexistiu com a realidade e alguém chegou a dizer (Oscar Wilde , creio) que a Vida (a realidade) copiava a Arte ( e o que é a Arte senão uma ficção bem sucedida?).

Deixem-me lembrar-vos só um – entre muitos – dos factos históricos que provam isso: depois de Goethe ter publicado Werther, o trágico romance de um sensível jovem alemão que se suicida porque a sua amada não pode corresponder ao seu amor, já que está presa pelo comprometimento com outro homem e não pode fugir a isso.

Ela não é uma Julieta tardia, é só uma mulher do seu tempo, que está enredada numa teia de compromissos familiares e não concebe sua vida fora desse contexto.

O romance foi publicado e foi um sucesso de tal ordem que muitos jovens alemães se suicidaram, seguindo esse exemplo ficcionado. Goethe respondeu com alguma arrogância a quem o tentou responsabilizar por isso: “todos os anos os nossos notáveis generais prussianos arrastam jovens para a morte em número muito superior e por causas mais frívolas que o amor. Permiti que pelo menos uma vez, um pobre escritor faça algo semelhante mas por algo superior”.

Mas então a ficção era só literatura e ainda assim cobrou seu preço. Hoje ela invadiu todas as áreas da nossa vida e mobiliza todo o tipo de recursos de que a IA já se apoderou, incluindo o das vidas virtuais, que decorrem, por exemplo, nos multiversos da Meta, nossa anfitriã na nossa página do Facebook.

Para quem não sabe, os habitantes dessas vidas virtuais (seus avatares, enfim) até aí compram, com dinheiro real, propriedades fictícias: mansões, fazendas, o que seja.

Pós realidade pois, não é exagero, muito menos ficção: já cá está.

Não se admirem pois, que as pessoas andem tão confusas tantas delas nem sabendo bem a que realidade pertencem nem em qual delas se desenrolam suas vidas. Na dúvida, compartimentalizam e vivem várias vidas o que quer dizer que não vivem vida nenhuma.

Se a isto podemos chamar progresso é muito discutível mas podemos recear que não haja mais, como não houve no passado relativamente a outras aquisições tecnológicas, nenhum caminho de regresso. Melhor não entrarmos por aí – esse é um caminho para a loucura e, quem queira saber o que realmente se passa num certo local, opte por ir lá, para verificar com seus próprios olhos.

Fonte aqui

Sabíamos que isso ia acontecer – mas os sinais foram ignorados

(Elliot Kirschner, in Substack.com, 26/01/2026, Trad. Júlio Mota, Revisão Estátua)


Hoje é dia de eleições. E assim publico um texto de alguém que está a reflectir sobre a situação política nos EUA e nos diz sabiamos, sabíamos e devemos então saber bem quem são os responsáveis  diretos e indiretos pelo situação a  que chegámos e ao perigo latente que se pode ter pela frente. O autor é Elliot  Kirschner, produtor de cinema e televisão.

Iremos mudar de Presidente, e seja ele quem for,  espero que se abra agora o caminho para fazermos o que autor to texto sugere que se faça nos Estados Unidos: uma análise sobre as razões ( e sobre quem são os principais responsáveias) que nos trouxeram até aqui e nos levaram até a colocar a Democracia em perigo. 

(O último parágrafo é uma nota do tradutor).

Estátua de Sal, 08/02/2026


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Agradeço profundamente que cada vez mais pessoas se mostrem estar indignadas com o que está a acontecer em Minnesota, em todo o país e por todo o mundo.

Fico feliz que mais pessoas estejam dispostas a dizer em voz alta que o ICE deve ser abolido.

Que os democratas no Congresso estão a começar a posicionar-se com mais firmeza como um baluarte contra um regime autoritário sem limites.

Que mais meios da imprensa estejam finalmente a resistir à abordagem reflexiva de “ambos os lados”.

Com o facto de a palavra fascista estar a ser cada vez mais aceite como uma descrição precisa de uma força militarizada usada para aterrorizar a população ao serviço de um líder despótico.

Fico feliz que alguns dos que votaram nesse tirano estejam a repensar as suas decisões. Ou que até mesmo tenham começado, ainda que timidamente, a manifestar–se.

Aplaudo aqueles que se manifestaram e demonstraram que a coragem é uma estratégia eficaz, desde muitos nos tribunais federais até em algumas universidades, instituições e empresas.

Fico feliz em ver que a opinião pública está a mudar, à medida que mais americanos afirmem claramente que não é isso que desejam ser.

Mas sejamos claros. Nada disso é surpresa. Nada. Nem a crueldade. Nem a corrupção. Nem a imprudência.

Nem a ilegalidade, a escala do terror ou os danos à ordem mundial.

Não me refiro aos ataques à ciência ou à civilidade, à reescrita da história ou à destruição da nossa ordem constitucional.

Sabíamos que isso ia acontecer.

E quando digo “nós”, não me refiro a um punhado de profetas ou pessoas abençoadas com uma visão especial. O leitor sabia disso e disse isso. Assim como pessoas que você conhece e ama. Assim como candidatos a cargos públicos, ex-presidentes e líderes de toda a sociedade. Dezenas de milhões de eleitores votaram plenamente conscientes de que, provavelmente, isso aconteceria.

Quando a história desta época for escrita, não faltarão evidências sobre o que correu mal. Não haverá alegação plausível de ignorância.

Os estudiosos que procuram saber quais as razões de como chegamos a este ponto analisarão o ecossistema dos média, as longas sombras da pandemia e décadas de ruturas económicas e sociais. Mas, ao catalogarem os discursos, os processos judiciais e os protestos, verão repetidamente como o perigo foi claramente identificado e documentado em tempo real.

Esses futuros historiadores terão à disposição fontes contemporâneas praticamente infinitas alertando para a corrupção no Supremo Tribunal. Que a violenta insurreição de 6 de janeiro deveria ter forçado a uma recalibração duradoura da democracia americana. Que o atual presidente deveria ter sido impedido de concorrer à reeleição. Que a ciência estava sob ataque. Que a corrupção era desenfreada. Que este regime estava sujeito a tiranos estrangeiros e determinado a destruir a democracia no seu próprio país. E a lista continua.

Essas vozes estavam por toda a parte. E ainda estão. Mas isso é apenas metade da história.

Ao analisarmos com mais atenção, aqueles que olharem para trás encontrarão algo mais, que exige explicação. Verão que as pessoas que reconheceram o perigo com maior clareza foram frequentemente afastadas e ignoradas — não apenas pelos verdadeiros crentes do MAGA, mas também por aqueles que se encontravam em posições de poder nos media, na política e nos negócios, e que se vangloriavam da sua sobriedade e pragmatismo. Muitos que compreenderam o que estava para vir foram rotulados como histéricos, alarmistas, radicais, irresponsáveis. Disseram-lhes para se acalmarem, para respeitarem normas, que já estavam a ser destruídas. Foram repreendidos pela média convencional complacente, que priorizava o decoro em detrimento do diagnóstico e o tom em detrimento da verdade.

Agora, o que vem a seguir é crucial. Não bastará substituir este regime por uma administração que prometa um retorno às normas do passado. Essas normas ajudaram a criar as condições que nos trouxeram até aqui. A responsabilização é essencial. Mas também é fundamental uma reflexão sobre como avaliamos e compartilhamos informações, como definimos o que é responsável e aceitável, e cujas vozes são ouvidas ou silenciadas.

Este trabalho não pode esperar. Ele deve avançar em paralelo com a resistência e a reconstrução, porque tudo isso faz parte de um mesmo contexto se levarmos a sério a preservação da nossa democracia.

Sabíamos o que estava para vir. Nós dissemos isso. Agora estamos a lutar pelo nosso país. E damos as boas-vindas a novos aliados.

Mas “nunca mais” não pode aplicar-se apenas a este regime. Deve aplicar-se também àqueles que tinham o poder de impedir isso antes. Àqueles que ignoraram os que diziam a verdade. Àqueles que desrespeitaram os sinais de alerta quando ainda havia tempo para agir.

Fonte aqui

A grande estratégia “Schengen para a defesa”

(Fórum da Escolha, in Facebook, 05/02/2026, Revisão da Estátua)


A União Europeia cai no ridículo quando descobre que metade dos portos da Europa já são propriedade ou controlados por não europeus, nomeadamente chineses…


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Imaginemos, por um momento, que Bruxelas é como um estudante estudioso que, em vez de fazer a revisão para os exames, descobre no exame final que metade dos portos da Europa são propriedade (ou estão sob o controlo operacional) de empresas chinesas. Não, isto não é uma piada de mau gosto no final do mandato: é o que Il Fatto Quotidiano revela em italiano, numa investigação que causou claramente mais suores frios na Comissão Europeia do que a perspetiva do Brexit 2.0.

Para os planificadores da União Unificada de Gestão de Crises, a imagem é digna de um mau guião de filme de baixo orçamento: o “plano Schengen” de defesa europeu, que prometia harmonizar a mobilidade militar e as capacidades de resposta às crises, corre o risco de ser apenas…teórico. Porquê? Porque as infraestruturas estratégicas, os portos, os terminais e as redes de transporte já não são “legalmente acessíveis” aos estados europeus se forem requisitadas para um esforço de guerra contra um ator como a Rússia.

Uma sequência esclarecedora do artigo: “A Europa, no meio do seu frenesim belicista, está a esquecer-se de um aspecto crucial: algumas das suas infraestruturas estratégicas já não são totalmente controladas por países ou empresas da UE…”.

Sim: enquanto Bruxelas redigia o seu Livro Branco sobre a defesa, a “Preparação 2030” e o seu lendário pacote “ReArm Europe“, destinado a mobilizar mais armas, orçamento e mobilidade militar, parte do acesso físico aos actuais teatros de operações (portos, terminais) já tinha sido vendida, arrendada ou concedida a atores não europeus, nomeadamente chineses.

A ironia estratégica não surge sem precedentes. Em teoria, desde 2016, a UE tem defendido a “autonomia estratégica” – a ideia de que a União poderia agir de forma independente numa crise, sem depender exclusivamente de aliados como os Estados Unidos. Mas hoje, se esta autonomia se concretizasse face a um conflito, esbarraria num muro de terras e em concessões contratuais concedidas pela própria UE em nome do mercado livre.

Um paralelo cruel mas relevante: já em 2023, o Parlamento Europeu apelava a controlos mais rígidos sobre o investimento estrangeiro em infraestruturas críticas – portos, cabos submarinos, redes, etc. – para enfrentar os riscos de dependências estratégicas, particularmente da China. Mas essas recomendações soavam apenas como um tropo literário: “Boa ideia, mas tarde demais”.

Entretanto, a Comissão Europeia está a esforçar-se por reinventar conceitos como a gestão unificada de crises e a mobilidade militar, esta última incluindo tentativas abstratas de criar um Schengen para a defesa que “reduziria as formalidades nacionais em emergências”, por um período limitado de um ano.

Assim, a UE, autoproclamada campeã da integração, do mercado único e da mobilidade sem fronteiras, encontra-se com um pé na autossatisfação doutrinária e o outro no mundo real onde as infraestruturas estratégicas estão potencialmente indisponíveis, no caso de uma grande crise.

Mortalidade estratégica paradoxal: quanto mais a UE se abriu ao investimento estrangeiro para “estimular a competitividade”, mais corroeu a sua própria capacidade de resposta soberana.

Uma lição preocupante? Sim. Não se constrói a soberania estratégica vendendo os portos àqueles que poderiam tornar-se os nossos inimigos em caso de uma crise. Por outras palavras, a União não perdeu uma guerra: simplesmente perdeu as chaves legais dos seus portos.

E isso, queridos leitores europeus, é muito mais mortificante do que um mau guião de um filme de espionagem.

(@BPartisans)