(João-MC Gomes, In VK, 09-12-2024, revisão da Estátua)

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Há opiniões que afirmam que Turquia, Israel e EUA deram um golpe de mestre e infligiram uma derrota estratégica à Síria, à Rússia e ao Irão no Oriente Médio, basicamente transformando a Síria em “uma Líbia”.
Das análises que são permitidas fazer, face aos cenários descritos em várias fontes, ainda julgo ser cedo para tirar essa conclusão. Como diz o velho ditado “muita água ainda correrá debaixo da ponte” até que se possa concluir que se se tratou de uma frente “Turquia, Israel e EUA” ou de uma frente “Turquia, Rússia, Irão”, com beneficios momentâneos para Israel e relativos “ganhos” provisórios dos EUA durante algum tempo.
A análise que faço baseia-se no facto de que havia dois países a precisar de resolver a “questão Assad” – que tinha cada vez menos apoios populares no seu país e a diminuição das suas condições militares no presente. Esses países eram a Turquia e a Rússia, a primeira com um já longo período de lutas fronteiriças com os curdos refugiados na Síria e, a Rússia, com um momento importante qme que precisa jogar toda a sua força militar para resolver – em definitivo – a sua vitória sobre a NATO e sobre a Ucrânia, não se desgastando numa luta estratégia e militar que se enquadra numa região com outras lutas por resolver.
Aliás, os sucessivos recuos e desmobilização dos militares sírios pró-Assad mostraram a inexistência de um controle firme na sua força militar e a Rússia, pelo seu lado, não podia investir a sua força militar na Síria sem diminuir o seu “projeto Ucrânia” onde continua a criar condições para fazer a ocupação e avançar em todas as áreas que lhe interessam, mantendo inteligentemente a área de Kursk em “lume-brando” para que as forças da NATO/Ucrânia presentes não possam retirar e ajudar na frente leste.
É clara a intenção da Rússia estar numa posição de grande força quando, no dia 20 de janeiro de 2025, Trump tomar posse e quiser negociar um Acordo que terá que servir todos os interesses russos: Crimeia, Kherson, Zaporidje, Donbass e Lugansk serão parte da Federação Russa no futuro, a NATO não aceitará a Ucrânia nem empregará qualquer força naquele território e o regime de Kiev cai e será desnazificado. A troca da Rússia foi, portanto, um abandono tático da Síria, permitindo que a Turquia – uma força NATO – assuma o controlo da região que lhe interessa, reduzindo a oposição curda e afastando-a das suas fronteiras. Essa situação, aliás, fará com que a Turquia, força integrante da NATO, combata os proxys curdos que são apoiados pelos EUA, a maior força NATO, na área do petróleo, mais a sudoeste da Síria. Teremos assim, pela primeira vez na sua história, duas forças da NATO digladiando-se pelos mesmos interesses.
Mas Israel recebe, assim, a dose mais conflituosa deste problema, pois terá que lidar, junto á sua fronteira da Síria, com as forças da Al Qaeda que tomaram a cidade de Damasco, onde tentam controlar a cidade na ideia de que – quem controla Damasco – controla a Síria. No entanto, como a tendência é a formação de várias regiões na Síria sob o controle e poder de diferentes forças, Damasco irá perder a sua importância estratégica e cada região verá criada a sua cidade-base para a formação dos governos regionais que controlarão as diferentes regiões sirias no decurso da guerra civil que já se iniciou. A Rússia, até ver, terá conseguido negociar a sua permanência na área do Mediterrâneo, restando saber se a Turquia não violará os acordos feitos secretamente com Putin. A saber: a Turquia – interessada na estratégia BRICS face á rejeição da entrada na UE e que vê nessa organização algum poder económico e estratégico para o futuro, ajudará com as suas forças militares a manutenção de uma área estratégica de acesso ao Mediterrâneo onde a Rússia e as forças leais a al-Assad farão a sua região e montarão o seu sistema de defesa fronteiriço que terá, a sul, o Libano como “tampão”.
Quanto ao Irão, o maior prejudicado nesta “nova configuração” da Síria, terá que se contentar com a área da fronteira com o Iraque – a sul – onde apoiará os seus proxys e com a Rússia – mais tarde – para fazer chegar (via Líbano) as ajudas ao Hezbolah e Hamas.
Imagino que é esta configuração estratégica e geo-politica que mais se aproxima daquilo que terá sido o pensamento do eixo Rússia-Turquia-Irão e em que os EUA, a sudeste e Israel a ocidente sul, aproveitam para manter as suas posições e interesses. Na prática – e apenas o futuro dirá se assim é, os proxys da Al-Qaeda ficam rodeados de forças adversas, embora na região de Damasco onde existe o maior número de população e que, naturalmente e de acordo com as suas escolhas, iniciará um longo caminho de fuga para as regiões onde se estabelecerem as forças que apoiam.
Veremos, assim, a Síria, nos próximos meses, num longo processo migratório para o interior e exterior, e lutas constantes entre os diferentes grupos.
O ano de 2025 será um ano longo de lutas e dependerá de um eventual acordo de “fim de conflito” na Ucrânia a possibilidade da Rússia inverter a sua politica para a Síria apresentando uma “nova resistência” que usará a área do mediterrâneo para sustentar as novas forças que terão como missão a luta contra a Al-Qaeda e a libertação futura de Damasco, com o estabelecimento eventual de um governo democrático, sem Al-Assad e com as antigas forças apoiantes do seu regime, mas num novo formato de conciliação com os restantes grupos não Al-Qaeda, não sendo de desprezar a ideia de algum refugio aos curdos que a Turquia quer afastar das suas fronteiras.
Mas esta ideia “futurologista” conta apenas com o raciocínio lógico que é dado pela leitura da presente situação. Lembremos que estamos numa região em grande conflito há dezenas de anos e que a presença de Israel pode transformar, rapidamente, em alterações de tipo estratégico entre os vários grupos e a própria Turquia e Rússia. Mas recordemos que nenhum dos atuais dirigentes presentes nesta equação é eterno e que as políticas de Trump podem trazer algumas novidades, eventualmente de contrariedade deste cenário.

