Chamava-se Ana Pais e adorava viver

(Bruno Carvalho, in Facebook, 12/07/2025)


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A vida é paraíso para uns e inferno para outros. É única para todos. Ainda assim, há mulheres e homens como qualquer um de nós, com defeitos e virtudes, dispostos a guardar qualquer um dos dias do calendário, incluindo sábados e domingos, para gastar algo que é finito não a cuidar dos seus interesses pessoais mas a morder os calcanhares dos poderosos.

Hoje, morreu uma dessas pessoas (Ver comunicação aqui). Chamava-se Ana Pais e adorava viver. Parafraseando o poeta turco e comunista Nazim Hikmet, gastou (mas não desperdiçou) boa parte dos seus dias a lutar por uma vida melhor para mulheres e homens que nunca havia conhecido, sem que ninguém a obrigasse, “sabendo que a coisa mais real e bela é viver”.

Nesta época terrível de individualismo e arrivismo, recordo muitas vezes as palavras de Bertolt Brecht que viveu aquilo que nos querem vender agora e que pedia às gerações futuras que compreendessem o seu tempo: “Vós, que surgireis do marasmo em que perecemos, lembrai-vos também, quando falardes das nossas fraquezas, lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar. Íamos, com efeito, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos, através das lutas de classes, desesperados, quando havia só injustiça e nenhuma indignação. E, contudo, sabemos que também o ódio contra a baixeza endurece a voz. Ah, os que quisemos preparar terreno para a bondade não pudemos ser bons. Vós, porém, quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência”.

Há uns bons anos, entre o formigueiro de mulheres e homens que lutaram contra um dos piores governos de que há memória no nosso país estava Ana Pais. A emigração disparou, também o desemprego e o número de suicídios. A pobreza alastrou pelo país e muitos perderam as suas casas. Alguns dos governantes actuais, incluindo o primeiro-ministro, fizeram parte daquela associação criminosa que impôs de livre vontade as brutais medidas da Troika. A impressionante resposta popular não teria sido possível sem o esforço suado de milhares de trabalhadores que, através de sindicatos e outros movimentos sociais, fizeram escoar os gritos de revolta de um povo esmagado.

Ana Pais era uma sindicalista de ação e coragem. Uma mulher rija. Revolucionária. Estava em todas as partes, sobretudo com outras mulheres, trabalhadoras como ela. A abrir uma faixa na cara de um ministro, a protestar nas galerias da Assembleia da República, a invadir um ministério, a cortar uma estrada numa qualquer greve geral, a levar bastonadas da polícia em frente à residência oficial do primeiro-ministro, de megafone na mão ou de cravo vermelho ao peito na Avenida da Liberdade. Não se lamentava da vida que lhe tocou. Ria-se de tudo isto porque a luta corria-lhe nas veias e de cada um destes episódios havia sempre uma anedota para contar entre gargalhadas, sobretudo na Festa do “Avante!”, com as suas camaradas, e ainda há poucos dias, falava de recuperar para não perder a próxima edição.

Alguns poderão dizer que viver assim é coisa pouca, mas não. É coisa muita. Para muitos de nós, serão decénios, para outros, séculos, até sermos esquecidos debaixo da sombra da enorme árvore que é a história da humanidade. Sabemos que tantos desconhecidos lutaram entre os escravos liderados por Espártaco para esmagar a opressão, anónimos indígenas resistiram à conquista de portugueses e espanhóis e quantos foram os desconhecidos que caíram a defender a Comuna de Paris? Como se chamavam os que assaltaram o Palácio de Inverno? Quem eram os trabalhadores agrícolas que enfrentaram o fascismo nos campos do Alentejo?

Com avanços e recuos, a nossa história é feita de uma luta constante que Marx analisou através do materialismo histórico. Entre esse enxame que faz avançar a história, estão mulheres e homens cuja herança é coletiva e, por isso, imperecível.

 Um dia, quando chegar o tempo em que não haja ninguém que viva de explorar outro ser humano, esse futuro terá também o sorriso de Ana Pais, de que tantas vezes fomos testemunhas. E isso é algo de que a filha e a sua neta, os seus familiares, assim como as suas camaradas, podem ter muito orgulho. Porque nós não a vamos esquecer.

O SNS que nos querem tirar

(Por Cipriano Justo, in Facebook, 14/07/2025, revisão da Estátua)

Imagem gerada por IA

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Tirando a roupa que vestem, as recordações, e algumas moedas no mealheiro, a maioria dos portugueses pouco mais pode dizer o que é seu. Entre esse pouco conta-se a Caixa Geral de Depósitos, a escola pública e o SNS.

Tudo o resto foi adquirido pelos de fora, ou faz parte desse modelo de gato escondido com o rabo e fora, que são as parcerias público-privadas, como vai acontecer com a TAP, por exemplo. Saciar o apetite e a ganância de quem quer comprar para, dessa maneira, poder estender o seu domínio às decisões tomadas nas cimeiras anuais de Davos, foi a contrapartida que o Estado português teve de aceitar para fazer parte da elite europeia, representada na figura da União Europeia (EU). Por enquanto, mas talvez por pouco tempo se nada for feito, uma daquelas exceções tem resistido ao vendaval provocado pela flatulência das barrigas dos comensais daquela cidade Suíça.

No seu afã de vender toda a prata da casa, a direita, no caso o atual Governo, está envolvido num esforço para entregar os restantes 45% do orçamento do SNS a quem os quiser comprar. Para isso, na ilusão de que só um ministro sairá reduzido a cinzas dessa contenda, reconduziu a atual Ministra da Saúde, qual cordeiro de Deus, para ser sacrificada no altar do bezerro de ouro.

Talvez não contassem, é com a resistência que tal empreendimento iria enfrentar. Sejam quais forem os planos e os caminhos escolhidos para atingir aquele objetivo, encontram sempre pelo caminho obstáculos à sua concretização, não se importando, contudo, de arredar dos seus lugares todos os que lhes pareçam incómodos, na ilusão de tornarem mais fácil a caminhada.

Cometem um grave erro, porque irão sempre ter pela frente as pessoas. Tendo a estas sido tirado quase tudo, elas não querem ficar sem o último reduto das suas vidas, o serviço público de saúde.

É que, além do valor de uso do SNS, já está enraizado na consciência das pessoas o seu valor afetivo: ele foi o responsável, num qualquer momento das suas vidas, por ter salvo a vida a um ente querido. É com essa perceção retirada da experiência que o Governo não está a contar pelo que, a manter a sua orientação de esvaziamento do SNS, lhe irá custar caro.

General Carlos Branco: “Não lhe admito, o Sr. não tem idoneidade”

(Estátua de Sal, 13/07/2025)

Continua a CNN a convidar o Major-general Carlos Branco para opinar sobre a situação geopolítica do momento, mas sempre com marcação homem a homem para que a narrativa do consórcio EUA/UE/NATO não saia muito beliscada pelos factos que aquele militar revela nas suas intervenções. Desta vez não foi o Bello – que é feito dele que nunca mais se viu?! -, nem a Soller ou a Ferro Gouveia. Foram buscar um neófito na marcação, um tal Uriã Fancelli.

Fui ver quem é esse suposto especialista em relações internacionais, já que me causou alguma estranheza irem buscar um brasleiro, como se nós cá não tivéssemos especialistas para dar e vender Mas devem ter seguido o exemplo do futebol – é do Brasil que se importam craques da bola a bom preço -, julgando que este é que iria pôr na linha o Major-general. Em síntese o homem fez dois mestrados em relações internacionais na Europa e em 2022 foi, no Brasil, candidato às eleições pelo partido PODE, partido brasileiron conservador de centro-direita.

O episódio da infeliz prestação do Fancelli. ocorreu no CNN Meia Noite de dia 12. A emissão até começou cordata e serena, até ao momento em que o nosso especialista quis provar que a Ucrânia não está a perder a guerra e que, Carlos Branco, se esquece deliberadamente de referir que a Rússia anda a atacar sistematicamente alvos civis porque é conhecida a sua russofilia!

O que ele foi dizer. Sendo incapaz de contradizer os factos aduzidos pelo Major-general, só lhe restou o ataque ad hominem. Carlos Branco, deixou-o falar e, sem perder a compustura, ripostou com toda a justiça em defesa da sua honorabilidade. E assisti à maior sova verbal dada em televisão que me recorde. Mas, mais do que eu possa dizer, o melhor mesmo é verem no vídeo abaixo, a partir do minuto 5.

Coitado do Fancelli, foi à tosquia e saíu tosquiado. Mas não se iludam, estamos a viver tempos perigosos com a ascenção larvar de todos os fascismos e seus homens de mão. É que eles sempre foram assim. Quando não podem mais mistificar a realidade e as ideias dos que a eles se opõem, os alvos deixam de ser as mensagens e passam a ser os mensageiros.

Estátua de Sal, 14/07/2025


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