A política como dramalhão

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 01/10/2019)

Quando daqui a uns anos olharmos para trás e reconsiderarmos esta campanha eleitoral, não será difícil reconhecermos que foi bizarra. O PS desprezou a direita, seguro do encanto do seu Centeno, e namorou as associações patronais, que fizeram romaria para apoiar a maioria absoluta. Embalado pelas palavras de Rui Rio, que levou um ano a dizer que o seu principal objetivo era ajudar o PS a livrar-se da influência da esquerda, o primeiro-ministro acreditou num bloco central espiritual em que tutelaria os restos de uma direita fragmentada. Isso acentuou a sua agressividade e, depois de quatro anos em que dependeu do acordo com os partidos de esquerda, o PS centrou-se numa estratégia de condescendência para com o PCP, para o neutralizar, e de ataque contra o Bloco, para queimar os navios ao chegar à praia da sua esperada vitória esmagadora. Para lhe dar voz, multiplicou os apelos a uma maioria absoluta, que é detestada pela maioria dos eleitores, e colocou na ribalta os que se tinham oposto desde o primeiro dia à geringonça, de um chefe parlamentar quezilento a um ministro que tinha sido o bulldozer de Sócrates. Foi tudo errado e, na reta final da campanha, o preço está à vista. Nem tem a simpatia da direita, nem fala com a esquerda. Assim, o PS ficou refém de si próprio no sonho, sempre repetido, da tal maioria absoluta, e nem sei se é melhor dizê-lo ou disfarçá-lo com palavras de circunstância sobre a “maioria reforçada” ou “absolutamente clara”, um gato escondido com rabo de fora que trata os eleitores como se fossem retardados.

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Mas o que mais será recordado desta campanha eleitoral é a estratégia do dramalhão. Foi em seu nome que a direita se agarrou a Tancos para evitar o naufrágio. Pede ao Parlamento que seja câmara de confirmação, ou de repercussão, de uma acusação judicial, e ainda que aprecie uma insinuação sobre o primeiro-ministro, logo depois de um jogo de sombras para atingir o Presidente. Mesmo sendo tão óbvio, aliás confirmado pelos próprios autores materiais, que a encenação da entrega das armas constituiu um crime de obstrução à Justiça, eventualmente suportado por uma gestão política irresponsável ou cúmplice em cúpulas militares e no ministério, a invocação da culpa do primeiro-ministro ou do Presidente no encobrimento, o que ambos terminantemente rejeitaram, é um artifício da política dramalhão. Na confusão, salvam-se os feridos e ficam os mortos, ou, se a culpa não é sua é do seu colega, tal parece ser o mote da política dramalhão. Que tudo isto é unicamente dirigido pelo desespero eleitoral, só agrava a perceção dessa falta de escrúpulo destes partidos, que tem ribombado na campanha.

Bem sei que alguma imprensa gosta de sangue e que elogia esta resiliência litigante de um candidato que temiam mortiço e de uma candidata perseguida pelos fantasmas do seu partido, que agora renascem em campeonato de lama. E que essa mesma imprensa castiga quem nota que se trata de um truque para nada dizer ao país sobre o que querem estes partidos fazer a partir de segunda-feira. Criar dois discursos paralelos, em que um é excessivo, segura-me que o vou matar, e outro é propositivo, é sempre arriscado no país latino que somos. Creio, no entanto, que essa imprensa não tem razão e vive numa bolha demasiado fechada. O país aborrece-se e irrita-se com o festival de irresponsabilidade que Tancos demonstrou, mas quer mesmo saber como vai ser o salário no fim do mês, se os filhos vão poder alugar uma casa ou se as urgências vão continuar com falta de médicos. As eleições costumam ser sobre escolhas e não sobre ódios e qualquer pessoa prefere saber o que vai acontecer a assistir a um tiroteio sobre o que já se passou.

Por isso, mesmo que incensada pelo espetáculo, a direita corre dois riscos com esta estratégia. Creio que se apercebe de ambos, embora pense que a curto prazo não pesam o suficiente para desincentivar o dramalhão. O primeiro é que isto é um boomerang: com as assinaturas falsas de deputados do PSD num requerimento ao Tribunal Constitucional (ao Tribunal Constitucional!), o seu grupo parlamentar veio lembrar uma especialidade da casa e o debate viverá destes acontecimentos. Tudo se torna hiperbólico neste novo mundo dramatista. O segundo risco é que nada fique da encenação política: no domingo, o CDS continua limitado a disputar com o PAN, e o PSD, que agora festeja uma subida nas sondagens, continua a tentar alcançar o seu pior resultado dos últimos 40 anos. Somados, PSD e CDS continuam em todos os estudos atrás do PS. Só que do dramalhão não há regresso. Por tudo isto, permitam-me o viés de elogiar quem quer mesmo que haja uma campanha eleitoral, sugerindo programas e propostas aos eleitores e esperando que o voto se decida sobre aquilo de que o país precisa a partir da noite de 6 de outubro.

Quando dentro de meses ou anos olharmos para trás e avaliarmos o que se passou nesta semana, notaremos que houve uma viragem na forma de fazer política pelas direitas e que, preso da sua ambição (desmedida, foi o termo utilizado pelos próprios) de maioria absoluta, o PS ficou preso no seu labirinto. São duas más notícias. Os eleitores decidirão o que fazer com elas.

PS longe da maioria absoluta, PSD chega aos 30%

(Helena Pereira, in Público, 01/10/2019)

A maioria absoluta não está ao alcance do PS e o PSD pode valer tanto como nas legislativas de 2015. Estas são algumas das conclusões a retirar da sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica Portuguesa (Cesop-UCP) feita para o PÚBLICO e RTP sobre a intenção de voto nas legislativas de domingo. O PS alcança os 37% e o PSD chega aos 30%. Em terceiro lugar, surge o BE com 10%, seguido do PCP com 6%, do CDS com 5% e do PAN com 3%.

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O trabalho de campo (3226 inquéritos válidos) foi feito entre quinta e segunda-feira, ou seja, depois de ser conhecida a acusação do caso do roubo de munições em Tancos, que entrou pela campanha adentro sobretudo pela mão do PSD e CDS. As projecções foram feitas com base nas escolhas expressas pelos inquiridos que assumiram que irão votar “de certeza” no próximo domingo. A margem de erro é de 1,7%.

Em termos de mandatos, o PS pode eleger entre 97 e 107 deputados, ficando assim sempre longe dos 116 que asseguram a maioria absoluta. O BE pode ter entre 18 e 24 lugares e o PCP de oito a 13. Isto significa que, a verificar-se o pior destes cenários, não bastará ao PS fazer acordos com um só partido para ter a maioria dos votos no hemiciclo. Nas perspectivas mais optimistas, o PS engorda a sua bancada parlamentar em mais 21 deputados (em 2015, teve 32,31%) do que os actuais. De salientar, porém, que, com base nos resultados desta sondagem é impossível estimar a distribuição de deputados pelos círculos da Europa e Fora da Europa, círculos esses em que tradicionalmente os votos são divididos apenas entre PS e PSD.

O PSD, que em 2015 era liderado por Pedro Passos Coelho tendo obtido em coligação com o CDS 36,8%, pode agora chegar aos 30%. Em termos de mandatos, o PSD pode ficar com 79 a 87 assentos no Parlamento (tem agora 89).

Questionados sobre quem seria melhor primeiro-ministro, se António Costa ou Rui Rio, os inquiridos pronunciaram-se largamente a favor do secretário-geral do PS: 51% escolhem Costa contra apenas 25% que apontam o presidente do PSD. 

Em Maio, a sondagem da Católica para o PÚBLICO e a RTP destinada a avaliar as intenções de voto nas legislativas, apontava para a possibilidade de o PS chegar aos 39%, no limiar da maioria absoluta, enquanto o PSD ficava nos 28%. Em terceiro lugar nas intenções de voto, aparecia o BE com 9%, seguido da CDU com 8%, o CDS com 7% e o PAN com 3%.

A tendência é, portanto, de descida do PS e de subida do PSD. Em relação aos restantes partidos com assento parlamentar, a ordem de preferências mantém-se: BE à frente da CDU e CDS sem se deixar ultrapassar pelo PAN.

Queda da CDU e CDS

O BE, por seu lado, tem crescimento garantido de acordo com estes dados. De 19 deputados em 2015, pode ir até aos 24. A CDU, que tem actualmente 17 mandatos, pode ficar entre os oito e os 13. Queda semelhante pode registar o CDS que, com 18 deputados, arriscar ter uma bancada entre 7 e 11. Se assim for, os centristas João Rebelo (Faro) e Hélder Amaral (Viseu) podem saltar do Parlamento, bem como Heloísa Apolónia d’ Os Verdes (Leiria), o líder parlamentar do PCP, João Oliveira (Évora), e o vice-presidente da Assembleia da República, António Filipe (Santarém). Aparentemente, o PCP é o único partido da “geringonça” a sofrer perdas nas urnas, depois dos maus resultados nas autárquicas de 2017 e nas europeias de Maio.

O PAN, que elegeu um deputado pela primeira vez há quatro anos, pode quadriplicar o seu grupo parlamentar: de acordo com estes dados, pode ficar com dois (no mínimo) e quatro (no máximo) mandatos. O distrito onde é mais forte é Lisboa, mas tem possibilidades de eleger também no Porto e em Setúbal.

Olhando com mais pormenor para a distribuição por círculos eleitorais, verifica-se que os únicos locais onde existe alguma hipótese de o PSD poder ultrapassar o PS são Aveiro, Leiria, Bragança e Madeira.

CDU gosta mais da “geringonça” do que BE

No caso de o PS vencer as eleições sem maioria absoluta, 37% dos inquiridos são favoráveis a um Governo apoiado pelo PS e por partidos à sua esquerda. Em Maio, o valor apontado era apenas de 27%, tendo diminuído a percentagem dos que desejam que o PS governe sozinho.

Curiosamente, os votantes que gostam mais da solução dita “geringonça” são os da CDU. 83% são a favor de um Governo PS apoiado por um ou dois partidos à sua esquerda. Já entre os votantes do BE, o número desce para 79% e entre os do PS é de 56%. E ainda: os votantes da CDU querem mais o BE numa eventual solução governativa (48%) do que os votantes do BE desejam a CDU nessa solução (33%).

Os votantes do PSD, por sua vez, são mais favoráveis a uma solução de tipo bloco central (33%) ou a uma “geringonça” de direita (27%).



Afinal, o que quer o PS?

(Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 01/10/2019)

Nos últimos quatro anos, o PS sofreu de personalidade dupla. Na primeira metade da legislatura, falou como um partido de esquerda, surpreendendo e reconfortando muitos dos que votam nesta área política. No último ano e meio, regressou às posições centristas de sempre. O que é o PS, afinal?

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Na sua candidatura a secretário-geral em 2014, António Costa procurou apresentar-se como um socialista de esquerda. “Se pensarmos como a direita pensa, acabamos a governar como a direita governou” foi uma das frases que marcaram a sua campanha para as primárias do partido. O significado do mote não era óbvio, mas bastou para fazer a diferença em relação ao governo PSD-CDS e ao rival interno António José Seguro, sinalizando a vontade de ruptura com a política de austeridade seguida até então.

O distanciamento face a um discurso centrista não ficou por aí. Contrastando com o euroentusiasmo típico do PS, o futuro primeiro-ministro afirmava que os socialistas portugueses eram europeístas mas não “euroingénuos”. Quase trinta anos depois da adesão à CEE, um destacado dirigente socialista parecia assim desdenhar a atitude de “bom aluno” que marcou a postura dos sucessivos governos desde 1986.

Logo após as eleições de 2015, o PS voltou a surpreender. Não apenas pelos acordos com BE, PCP e PEV, mas também pelo modo como enfrentou as pressões externas que cedo se fizeram sentir, com destaque para a ameaça de sanções por parte da Comissão Europeia.

Pouco depois do início da legislatura, o governo denunciou os contratos de associação entre o Estado e os colégios privados, uma medida que não constava dos acordos mas que recebeu o aplauso unânime à esquerda, tanto pela sua coerência na defesa do ensino público como pela coragem em enfrentar interesses instalados. Casos como este levaram a que muitos acreditassem estarmos perante um partido transformado.

À medida que a legislatura avançava, a atitude mudou. A polémica em torno da chamada “taxa Robles“, em que o PS afirmou desconhecer uma proposta orçamental que o BE apresentara meses antes, foi o primeiro sinal claro de que os socialistas estavam menos interessados no ambiente de concílio à esquerda. A seguir a esse episódio vieram outros. A decisão de avançar para a revisão da lei laboral sem o envolvimento do PCP e do BE, a tensão em torno da Lei de Bases da Saúde ou as dificuldades em finalizar a proposta de Lei de Bases da Habitação foram outros momentos cruciais em que o PS se mostrou determinado em regressar à sua tradição centrista.

No último ano, a retórica conservadora subiu de tom. O equilíbrio orçamental (e já não a simples gestão responsável das contas públicas) foi erigido como elemento-chave da governação. No conflito com os professores, o primeiro-ministro dramatizou a polémica, colocando uns sectores da administração pública contra os outros e os trabalhadores do sector público contra os do privado, acusando de privilegiados aqueles que protestam e de irresponsáveis os partidos que lhes dão razão. O auge do afastamento do PS face ao discurso de esquerda aconteceu no Verão de 2019, no contexto da greve dos motoristas de matérias perigosas, em que as decisões e afirmações do governo contribuíram para pôr em causa o próprio direito à greve.

Apesar dos alertas contra os perigos de “pensar como a direita”, a postura de António Costa no último ano e meio sugere estarmos perante o regresso ao antigo PS centrista, após um interregno de aproximação à esquerda nos primeiros anos de geringonça.

Uma explicação cínica diz-nos que nada disto tem que ver com hesitações ou opções ideológicas. Que o PS faz o discurso que for necessário para chegar ao governo e nele permanecer, como faria qualquer partido de poder. Demarcar-se da estratégia da troika era necessário para vencer eleições. Agradar ao PCP e ao BE era necessário para aprovar os Orçamentos do Estado. Distanciar-se do discurso das esquerdas permitia aproximar-se do eleitorado ao centro, alargando a base de apoio do governo e até da geringonça. Adoptar uma atitude agressiva contra quem protesta (típica de governos de direita) seria uma opção racional para quem pode aspirar a uma maioria absoluta.

O tempo dirá se esta evolução no discurso é mais ou menos superficial e se contribui ou não para os resultados eleitorais desejados. Mas um problema fundamental persiste: hoje sabemos quase o mesmo quanto sabíamos há quatro anos sobre o que quer o PS.


Economista e professor do ISCTE. Escreve de acordo com a antiga ortografia.