Eterna saudade, CDS

(Por Jovem Conservador de Direita, in Público, 04/10/2019)

O CDS é um partido dividido. Por um lado tem a sua Juventude Popular, cuja principal preocupação é proteger as crianças da ideologia do género e monitorizar a utilização de casas de banho nas escolas. Do outro lado da barricada está a facção liberal do CDS. E é liberal porque, como não tem princípios, o CDS pode ser tudo.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Tudo indica que estas eleições representam o fim do CDS como o conhecemos. Depois de tudo o que este partido deu à democracia chegou a hora do adeus. É provável que fique atrás do PAN e que eleja muito poucos deputados. A própria direcção do CDS já reconheceu o seu fim e tratou de fazer um vídeo de despedida, que eu já comentei. Neste vídeo, alguns candidatos do CDS dirigem-se aos eleitores por tu. É um sacrifício louvável e que exigiu um treino intenso destas pessoas. Consta que tiveram de reanimar várias vezes o Dr. Telmo Correia que entrava em convulsões e tentava engolir a própria língua sempre que pronunciava a palavra “tu.” No final, tiveram de contratar o Dr. Ricardo Carriço para lhe dobrar a voz neste vídeo.O CDS é, neste momento, um partido dividido. Por um lado tem a sua Juventude Popular, cuja principal preocupação é proteger as crianças da ideologia do género e monitorizar a utilização de casas de banho nas escolas. A sua principal bandeira política é garantir que jovens, que ousem identificar-se com um género diferente daquele que lhes foi atribuído à nascença, continuam a ser vítimas do bullying essencial para que continuem a sentir-se mal como são e decidam identificar-se com o género que Deus lhes atribuiu. Mesmo que, numa fase inicial, seja a fingir. O bullying não é mau se for construtivo e é uma excelente ferramenta que permite a crianças normais ajudarem crianças fora do normal, agredindo-as até estas decidirem ser normais. O Dr. Chicão é o líder desta facção de justiceiros do urinol.

Do outro lado da barricada está a facção liberal do CDS, que continua a ser o único partido liberal no nosso panorama político. E é liberal porque, como não tem princípios, o CDS pode ser tudo. Esta facção não se preocupa tanto com as casas de banho mas, sim, com o Estado socialista totalitário, que ousa cobrar impostos para financiar serviços que não sejam os juros da dívida. Defendem que o Estado deve cobrar menos impostos e o pouco que cobrar deve ser dado às pessoas sob a forma de vouchers, para que possam ir comprar serviços ao privado, seja saúde e educação. As pessoas podem ter piores serviços públicos mas, pelo menos, têm mais liberdade de escolha. E isso é que é importante. Ninguém morre à espera de uma operação se decidir nem sequer fazer essa operação porque não tem dinheiro para ir ao privado. Morre na mesma, mas, pelo menos, morre sem essa indefinição de saber se vai ser operado ou não. Isso é liberdade de escolha. O mesmo se passa na educação. O Estado deve poder financiar a liberdade de escolha das pessoas e financiar-lhes colégios para que elas não se vejam forçadas a colocar os filhos na escola pública. A escola pública deve servir apenas para as crianças cujos pais não se preocupam o suficiente com a sua educação.

Apesar de estar nesta encruzilhada, o CDS apresentou uma das melhores propostas para o ensino superior nestas eleições, quando sugeriu que alunos sem média para entrar na universidade possam pagar para entrar. É uma forma excelente de promover a meritocracia no ensino superior público. Se um jovem não conseguir entrar numa universidade pública entra a meritocracia dos seus pais em jogo e garante que eles conseguem entrar. Um pai de sucesso não tem culpa de ter um filho burro que não consegue entrar na universidade. Pode emprestar-lhes um pouco do seu mérito através de dinheiro e dar-lhe uma ajuda. Um sistema unicamente baseado no mérito individual deixa de fora muitos alunos de qualidade que têm como único defeito não terem inteligência ou competência académica.

É injusto que tenham de ser sempre as universidades privadas a absorverem estes jovens com dificuldades, dando-lhes mau nome e fama de universidades de último recurso para burros que nem ursos, a quem os papás têm de pagar os cursos ou, como se costuma dizer, membros da Juventude Popular. O modelo de negócio das privadas é vender cursos a futuros quadros do CDS, mas não tem de ser. A partir do momento em que os “ursos” da Juventude Popular podem pagar para entrar nas públicas, as privadas vão ter de se esforçar para atrair outro tipo de jovens que não sejam da juventude popular. Pode estragar um pouco o ambiente, mas pelo menos aumenta a diversidade.

A esquerda gosta muito de defender a diversidade, mas é importante abrir as portas das universidades públicas a maus alunos. Podem não ter grandes capacidades académicas, mas vão dar um excelente contributo para a praxe. Como estudam menos e os pais têm dinheiro para pagar as suas reprovações animam a vida académica. A praxe dá uma lição de vida valiosa aos jovens: a de que têm de obedecer à autoridade, se quiserem ter sucesso no mercado de trabalho.

Uma lição bem mais valiosa do que qualquer conteúdo científico. Precisamos que haja jovens que tenham disponibilidade para faltar às aulas e ir para a praxe porque, se eles não existirem, quem é que vai ensinar aos estudantes universitários de que não podem ser rebeldes?

É claro que esta proposta também pode causar injustiças. É injusto que um estudante que paga uma propina maior ter exactamente as mesmas condições que aqueles que pagam menos. No fundo, são estudantes premium. Devem ter direito a lugares sentados nos anfiteatros, pipocas e petiscos quando estão nas aulas, duas ajudas durante os exames e poder saltar os anúncios durante as aulas e exames. Eu sei que não existem anúncios nas aulas, mas uma forma de financiar o ensino superior pode ser fazer com que os professores façam anúncios a marcas durante as aulas. É claro que nas aulas dos estudantes premium não têm anúncios. Já pagam que chegue.

Os alunos básicos têm muito a ganhar com os alunos premium. Já sofrem tanto por estarem numa universidade pública, pelo menos, com os alunos premium têm colegas com quem vale a pena fazer networking para variar. Colocar alunos premium em universidades é bom para a meritocracia dos alunos normais porque permite-lhes darem-se a conhecer a quem realmente pode valorizar o seu mérito.

Muitos alunos normais queixam-se que têm de emigrar quando acabam os cursos ou que não têm oportunidades. Mas isso é porque as pessoas que lhes poderiam abrir oportunidades no nosso país estão em privadas. Acabam por conviver apenas com colegas que, tal como eles, só entraram na universidade porque estudaram. Estudar é importante, mas vale muito pouco. Qualquer um pode estudar, mas nem todos podem ser CEO das empresas dos pais. Se deixarmos estes alunos que têm o factor x de sucesso irem para as públicas através de matrículas premium, os alunos normais podem ter a sorte de estes os aceitarem como amigos. Só têm de se vestir bem e não os envergonhar com a sua falta de sucesso.



RIP, Freitas – Ou as lágrimas de crocodilo da direita

(In Blog O Jumento, 04/10/2019)

Num dos momentos mais miseráveis, entre muitos outros, da sua carreira política, Cavaco Silva deixou Freitas do Amaral a suportar sozinho o pagamento de uma campanha presidencial apoiada pelo PSD e pelo CDS. Freitas do Amaral não se queixou e honrou os seus compromisso e pagou as dívidas. Agora que Freitas faleceu o mínimo que se esperava do velho acionista sortudo do BPN era que se mantivesse escondido na sua Quinta da Coelha. Mas não foi isso que o homem fez, foi o primeiro a vir a público chorar lágrimas de crocodilo.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Assunção Cristas chegou ao poder pela mão de outro traste do lado miserável da nossa direita, Paulo Portas, agora comentador político e gestor de influências. Foi com Portas e Cristas que o CDS teve uma das iniciativas mais miseráveis por parte de um partido político, não se limitaram a tirar a moldura de Freitas da galeria dos presidentes do CDS, ainda a mandaram por correio para a sede do PS, num gesto miserável digno dos fascistaszecos à Paulo Portas.

Para se justificar, depois de ter declarado que não sentia qualquer apetência por ser deputado Rui Rio, um dos mais fraquinhos líderes partidários que o país conheceu, decidiu apoucar os deputados para passar a imagem de um ser superior que nunca foi, não é e nunca conseguirá ser: disse que na época em que foi deputado o parlamento tinha gente muito fraquinha. Agora, que Freitas faleceu, tentou dar ares de gente recordando que foi deputado  com ele e recordou aquele que foi o melhor discurso que ouviu.

Freitas foi sempre um homem de direita, de uma direita que não tinha complexos em relação ao passado como evidenciam Portas, sem traumas do passado como é evidente em Portas e de uma classe que Cavaco e Rio nunca conseguirão ter.

Mas acima de ser de direita era um democrata e um português, como democrata sempre veio em defesa dos seus valores e como português sempre fez as opções que entendia serem as que melhor servia o seu país. Mas muita gente ainda não consegue ser de direita sem os velhos fantasmas e os velhos valores. É por isso que Cristas tentou recordar um ou dois episódios com quarenta anos para transformar Freitas em mais uma das suas pedras com que anda à pedrada com “as esquerdas”.

Cavaco sentiu a grandeza de Freitas e achou que o engrandeci com um comunicado oportunista e Rio até se lembrou de um deputado maior do que ele.

Enfim, um bocadinho de vergonha na cara não lhes faria mal nenhum.



Ai, liberdade!

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/10/2019)

Miguel Sousa Tavares

1 Eu, por mim, dispenso mais esclarecimentos sobre o sórdido caso de Tancos. O que li já me permite tirar as minhas conclusões, sem medo de ir ao engano. Temos o principal (embora haja tanto esforço para o tornar secundário): a vergonha do roubo em si mesmo e a inimaginável moscambilha montada pela PJM, em colaboração com a GNR, para se atribuir os louros da recuperação das armas, depois de uma negociação com o próprio ladrão, a quem ofereceram a impunidade contra as armas. Ficará para sempre como dos episódios mais vergonhosos das Forças Armadas portuguesas, em que um sector do Exército manchou a honra de todos os outros e das outras armas. Porém, se se tivesse seguido o curso da história tal como planeado, as consequências internas e únicas teriam sido a promoção e condecoração dos responsáveis militares envolvidos. Isto ficou perfeitamente esclarecido, documentado e provado. E diz muito sobre o estado a que as coisas ali chegaram.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Desmascarados pela PJ civil, seguiu-se o segundo episódio, em que os implicados trataram por todos os meios de se tentarem safar, implicando, como coniventes do seu infame segredo, os políticos ao seu alcance: o ministro da Defesa, o primeiro-ministro e, já agora, o Presidente da República. Com essa manobra, visavam desviar as atenções do principal e atraí-las para o acessório, refugiando-se atrás dos políticos (que passam a vida a criticar), como forma de não terem de enfrentar a responsabilidade dos seus actos e omissões. Isto diz muito também sobre esta gente, que eu quero acreditar e acredito que não representa os nossos militares.

E vem o terceiro episódio, a entrada em cena do Ministério Público, essa Sagrada Família que se atribui a si mesma o monopólio das virtudes cívicas e patrióticas, face a um meio devastado pela corrupção da política e dos políticos — todavia, eleitos e removíveis pela vontade popular, ao contrário deles. Apanhando, sôfregos, as bóias lançadas pelos implicados no crime, os magistrados do MP viram ali mais uma oportunidade de exercerem o seu imenso e insindicável poder de colocar os políticos à defesa, chamando-os para interrogatório — o que, como bem sabemos, é o primeiro passo para lançar na opinião pública uma suspeita que se instalará como verdadeira e inabalável enquanto durarem os anos necessários para que um processo chegue, se chegar, a um julgamento onde tudo poderá ser esclarecido.

Começou por ser um hábito, hoje é um vício: em processos mediáticos, o MP não afirma, insinua; não conclui, suspeita; não prova, supõe; não aposta na sala de audiências, mas nas fugas de informação para a imprensa. De todo o modo, por mais que já habituados, não deixa de ser espantoso que com base em simples recados e insinuações dos provadamente implicados, o MP se tenha atrevido a ir tão longe como pretender interrogar, como suspeitos da ocultação do crime, o PM e o PR.

E que apenas o bom senso do director do DCIAP os tenha travado — mas, mesmo assim, com o consentimento indignado deles. Isto demonstra bem até onde chega a surda luta pelo poder do MP e por que razão é determinante para eles manterem a maioria de membros da sua corporação no Conselho Superior do Ministério Público — o único órgão que teoricamente os poderia limitar e controlar nos seus devaneios. Viver assim é perigoso.

Claro que não esqueço que falta ainda esclarecer o que sabia ou não sabia Azeredo Lopes — antes da ocorrência da farsa montada para recuperar as armas, porque só antes é que isso terá relevância jurídica e política. Sabia o que os militares estavam a preparar ou apenas a sua tola vaidade e o respeito reverencial para com os militares (típico de quem desaguou ali sem saber como) o fez cair na armadilha que eles lhe montaram? Mas também, e mesmo que tenha sido José Sócrates a recordá-lo, não deixa de dar que pensar a coincidência de o MP conseguir envolver sempre o PS em casos de polícia, verdadeiros ou inventados, em períodos eleitorais: foi assim com o caso Casa Pia (que custou a eleição a Ferro Rodrigues), com o Freeport, com a Operação Marquês e agora com Tancos. Sabendo isto e tendo-se atrevido a ser o único que ousou pôr em causa o poder sem controlo do MP, é lastimável que Rui Rio não tenha resistido a cavalgar a oportunidade de fazer disto uma arma de campanha eleitoral. Apesar de tudo e ao contrário de Assunção Cristas e do seu vazio CDS, o PSD não está sob ameaça de extinção.


2 No primeiro dia do seu mandato, Marcelo Rebelo de Sousa resolveu agraciar Cavaco Silva com a Ordem da Liberdade, no seu mais alto grau, o Grande Colar. Fiquei estupefacto: o que fez Cavaco Silva pela liberdade em Portugal, antes ou depois do 25 de Abril? Que feitos lhe permitem ser comparado a um Mário Soares ou a um Salgueiro Maia? Depois, foi a vez de Maria João Pires receber também a mesma condecoração. Porquê, voltei a perguntar-me? Há outras condecorações reservadas a quem se distinguiu, como ela, nas artes, mesmo a altíssimo nível, mas a Ordem da Liberdade, porquê — por se ter auto-expatriado no Brasil, dizendo mal de Portugal, quando se lhe fechou a torneira dos apoios públicos?

Chegou agora a vez de António Lobo Antunes receber a mesma condecoração — “de surpresa”, por um súbito impulso de Marcelo, que disse estar a “interpretar a vontade do povo”, e não podendo dar ao escritor o Nobel pelo qual ele espera e desespera há tanto tempo. Ora, eu faço parte da geração que devorou, entusiasmada, os primeiros livros de Lobo Antunes, até ao “Fado Alexandrino”. Daí para a frente é outra história, que não interessa a ninguém, assim como não me interessa a ridícula discussão sobre se ele merece ou não o Nobel. A questão é que eu nunca soube nem dei notícia de que Lobo Antunes alguma vez se tivesse envolvido em qualquer combate sério pela liberdade, qualquer liberdade — igualmente antes ou depois do 25 de Abril. Antes, aliás, enquanto milhares de jovens portugueses se exilavam por objecção ao regime e à guerra de África, António Lobo Antunes servia na guerra colonial de Angola — e, a avaliar pelo afã com que tenta estabelecer um passado de herói de guerra, deve tê-lo feito com verdadeiro fervor patriótico, ou por devoção ao que então o regime entendia por Pátria. E, depois, quando outros se batiam para defender a liberdade acabada de conquistar e logo ameaçada, não me recordo de ver Lobo Antunes em trincheira alguma, a não ser em vagos flirts com os que ameaçavam essa liberdade.

É bem feito para Marcelo que Lobo Antunes, ao agradecer a “surpresa”, tenha feito um discurso em que, sem surpresa alguma, jamais entrou a palavra liberdade ou uma palavra de homenagem aos que por ela se bateram. Apenas, e como sempre, um discurso onde o único tema foi ele próprio, as “namoradas e namoradas e namoradas” que tinha com o seu sucesso literário e a crítica que, ao contrário dos seus milhares de leitores, não gostava dele porque “era bonito e tinha olhos azuis” (uma inverdade histórica: a crítica sempre o levou ao colo, até hoje; os leitores é que se cansaram dos olhos azuis). Eis como se banaliza a liberdade.


3 Os cidadãos da Guiné Equatorial — aquele país que, a troco da promessa (não cumprida) de injectar 100 milhões de dólares no Banif, comprou o direito de pertencer à CPLP — podiam ser os mais ricos de África, visto que o país tem o maior rendimento per capita de África. Mas metade deles vive abaixo do limar de pobreza porque as riquezas do país são roubadas há décadas pela restrita elite governante desta ditadura tropical. Esta semana, e para evitar o prosseguimento de um processo por corrupção e desvio de dinheiros públicos levantado pelas autoridades suíça, o filho do ditador, “Teodorin” N’Guema Obiang, concordou em “oferecer” para solidariedade 25 carros do seu parque automóvel estacionado na Europa: Ferraris, Lamborghinis, Bentleys, Aston Martin, Rolls Royce. Tudo junto rendeu 27 milhões de dólares em leilão — o suficiente para tirar da fome muitos dos seus compatriotas. Cada dia que passa sem que Portugal exija a expulsão da Guiné Equatorial da CPLP é um dia mais de vergonha nacional.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia