Entre ruínas e morte

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/04/2020)

Miguel Sousa Tavares
“Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”

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1 O que nos propõem é simples e convém que todos estejam cientes da proposta, para que cada um carregue consigo o fardo da escolha: os que não morreram da doença não querem agora morrer da cura. E morrer da cura é continuar a deixar a economia em coma induzido, sem a trazer de volta à vida. Devagar, por sectores, com vários cuidados recomendados e diversas precauções. E, ao mesmo tempo, libertando a população da prisão domiciliária onde estamos todos encerrados, mas por fases e segundo critérios etários: primeiro, adultos saudáveis, na força da idade laboral; depois, jovens; e, a seguir, crianças. Porém, há uma excepção, e disso depende o êxito — ou a ousadia — de todo o plano: os velhos devem continuar encerrados, porque representam um perigo sanitário público e uma ameaça à sustentabilidade dos serviços de saúde. Devem, então, ser mantidos longe da vista, afastados de qualquer contacto com os outros, até que haja uma vacina e a sua distribuição seja universal — talvez no Verão do próximo ano, na melhor das hipóteses. Encerrados em casa sozinhos e entregues a si mesmos ou fechados em lares, em hotéis, em pavilhões, onde for. Confiados à cura de profissionais, de voluntários ou, se necessário, das Forças Armadas.

Muita coisa vai mudar depois disto passar, dizem alguns. Vamos ter de olhar para a vida de maneira diferente, juram. Uma das coisas que talvez mude é a ideia de que vale a pena viver tanto tempo.

2 Muitos deles, aliás, já cumpriram a sua função, deixando-se abater ao activo, vítimas do vírus ou de outras doenças que, por força do vírus, não foram tratadas ou eles próprios não quiseram tratar. Aqui, como em Espanha, um terço dos mortos da covid ocorreram em lares onde os velhos estavam acantonados e foram apanhados sem defesa, a coberto de uma ilusão de segurança que, de tão frágil, chega a parecer indiferença. Quando um utente infectado num lar é retirado dele, consegue recuperar cá fora e depois é devolvido ao lar onde permanece o foco de infecção, que outra palavra podemos usar que não indiferença?

3 Tal qual como os 90 trabalhadores cingaleses das estufas de Odemira, ou os 70 nepaleses do Algarve, ou os 130 ciganos de Moura — quando aparece ali algum infectado, a solução é simples: fecham-se todos juntos onde puder ser, mesmo que, no limite, isso signifique a infecção de todos. Em Moura, rodeou-se o acampamento cigano de arame farpado e colocou-se a GNR a vigiar todas as passagens, para que ninguém pudesse entrar ou sair. Chamem a isto o que quiserem, eu chamo-lhe um campo de concentração, por provisório que seja. Há dias, a ministra da Agricultura dizia que talvez se pudesse pegar nos novos desempregados e enviá-los para trabalhar no campo. Julgo que a ministra, que já percebi ser uma entusiasta do olival intensivo do Alqueva e desse tipo de agricultura “industrial” predadora, se estava a referir a essa mão-de-obra que agora vai escassear. Que vive em contentores, que trabalha sem horários e que nenhum sindicato protege. E que, acha ela, os desempregados talvez quisessem substituir. Não sabe do que fala.

4 Olho para as previsões internacionais económicas e a primeira conclusão que tiro é de que todos estão à espera que nada de essencial mude depois de tudo isto passar — e se tudo isto passar, o que também têm por adquirido. Aparentemente, a nata dos economistas do mundo acredita que vamos todos produzir o mesmo, consumir o mesmo, viajar o mesmo, trabalhar da mesma maneira, investir igual. E, por isso, assim como prevêem quedas a pique no PIB de todos os países em 2020, logo prevêem substanciais recuperações em 2021. Oxalá, por uma vez, estejam certos!

Para Portugal, o FMI prevê uma queda do PIB de 8% este ano e uma recuperação de 5,5% já em 2021, com a dívida pública — que tanto custou a fazer baixar até aos 120% do PIB — a disparar de novo até aos 135%. Parece-me, apesar de tudo, demasiado optimista, assim como me parece optimista esperar que os 13 mil milhões que o Governo espera despejar nas empresas e nas famílias chegue para segurar as coisas até passar o grosso da tormenta. Porque, mesmo depois disso, vai haver mais subsídios de desemprego para pagar, mais apoios às empresas para manter, menos receitas na Segurança Social e no Fisco, e tudo isso vai entrar por 2021 adentro. Mas há muita gente que ainda não percebeu que, quando tudo isto assentar, a conta terá de ser paga. Como? Conhecem outra maneira que não seja a de aumentar mais os impostos a quem ainda estiver vivo? Como disse o ministro Siza Vieira, “a despesa do Estado hoje são impostos amanhã”. Só não o percebe quem não paga impostos.

5 É evidente que há muitas coisas que a China ainda terá de explicar ao mundo e muitas coisas que a China terá de garantir ao mundo que não voltam a acontecer por lá. E talvez a OMS tenha também de explicar a forma como tratou inicialmente os dados vindos da China, mas isso, como disse António Guterres, é uma conversa para ter depois. Agora, a meio de uma crise de saúde planetária de uma dimensão jamais vista, cortar o grosso do financiamento da OMS, quando ele é mais necessário do que nunca, é coisa que só podia ser levada a cabo por um tipo tresloucado, cruel e obcecado com a sua reeleição, antes de tudo o mais. Numa longa e terrível reportagem em dois hospitais do Bronx, esta semana, “The New York Times” recolheu o depoimento de médicos dizendo o que toda a gente teve ocasião de perceber por si mesma: que as semanas que Donald Trump levou a não querer aceitar a gravidade do coronavírus custaram milhares de mortos americanos. E é por isso, e também por não conseguir explicar como é que o país mais rico do mundo foi apanhado completamente desarmado em termos clínicos para esta crise, que ele procura todos os dias um novo culpado que possa desviar as atenções de si próprio. Este é o homem mais perigoso do planeta e está à frente da nação mais poderosa do planeta. E pensar que Marcelo o convidou para visitar Portugal! E que, para cúmulo da humilhação, ele desdenhou e recusou o convite!

6 “António José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.
— São tristes? — perguntava o velho.
— De chorar rios de lágrimas — garantia o dentista.
— Com pessoas que se amam mesmo?
— Como ninguém nunca amou.
— Sofrem muito?
— Eu quase não consegui suportar — respondia o dentista.
Mas o doutor Rubicundo Loachamin não lia os romances.”

E você, leitor, já leu isto em algum lado? Se não leu, leia agora, porque “o velho que lia romances de amor” já não os escreverá mais. Luis Sepúlveda perdeu para o inimigo sem rosto chamado covid uma vida em que nunca perdera para os inimigos com rosto, chamassem-se eles Pinochet ou outros cujo apelido também era morte. Uma vida que foi em si mesma o maior dos romances que escreveu e que, por isso, só lendo-os se percebe que valeu mesmo a pena ter sido vivida. Faz-me raiva pensar que um tão grande sobrevivente, um tão imenso vivente, tenha sucumbido a uma tão traiçoeira emboscada.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


COVID- 19 – Que fazer no dia seguinte?

(Carlos Esperança, 17/04/2020)

Por maior que seja a incerteza quanto à data do dia seguinte e à tranquilidade possível, há na catástrofe natural que nos flagela, razões para reflexão e para que os cientistas de variadas áreas ajudem os governos a planear o futuro no único Planeta que nos coube.

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Pode faltar outra chance para ponderar o modelo de sociedade e preservar as conquistas civilizacionais face ao aquecimento global e escassez de recursos. Respeitar o ambiente e reduzir o consumo, contendo a explosão demográfica, a fome e a doença, são as mais urgentes obrigações. Esta pandemia e a provável e incerta repetição, com uma bactéria ou outro vírus, demonstram que as fronteiras são acidentes precários no mundo global, para o bem e para o mal.

Pode não se fazer ideia do que é possível fazer, mas há certezas de erros que não devem ser repetidos. O trabalho e os rendimentos serão bens cada vez mais escassos e que urge repartir, para que as desigualdades obscenas entre países e, dentro destes, entre cidadãos não conservem níveis de injustiça a que o neoliberalismo condenou milhares de milhões de pessoas.

A guerra não é uma fatalidade, é uma fonte de riqueza para alguns e de sofrimento para multidões, que urge erradicar. Os arsenais nucleares são inúteis, perante as catástrofes, e obsoletos os mísseis para lhes porem termo.

É preciso ser demasiado ingénuo ou excessivamente crédulo para imaginar que a brutal destruição de bens, de postos de trabalho, do tecido económico e perturbação social não terão reflexos no bem-estar de cada um, num mundo empobrecido onde a satisfação das necessidades básicas se tornará o alvo principal a atingir.

Só o medo da perda da vida pode levar os avarentos a prescindir do supérfluo, e nunca mais deixará de ser o Estado, a nível nacional, regional ou global, a obrigar-se a definir as regras pela quais todos teremos de nos pautar.

Apavora a possibilidade de um Estado totalitário substituir democracias pluripartidárias, e a de outra civilização, alheia à matriz greco/romana e iluminista, acabar por se impor à Europa e a nível global.


Não perecendo da doença, iremos morrer da cura?

(Joaquim Vassalo Abreu, 15/04/2020)

Eu adivinho que a reflexão que faço me trará críticas infindas e, sei lá até, impropérios sem nome mas, por dever de consciência e sabendo estar a expôr algo de politicamente incorrecto, e para muitos blasfemo, mesmo assim não deixarei de o fazer.

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E não deixo de o fazer pois vou percebendo existir nesta crise, que a grande maioria de políticos e comentadores, de todos os quadrantes credos e estratos sociais, afirmam nunca vista, algo de tão paradoxal que ferindo a minha capacidade de entendimento me obriga a questionar da sua proporcionalidade.

Em 13 de Março p.p., perante a declaração de Pandemia por parte da OMS, num texto que escrevi titulado de “RELATIVIZAR É PRECISO” , eu já demonstrava algum cuidado de análise e relevava o facto de este vírus, ao contrário de muitos outros seus antecedentes, apresentar uma característica algo inovadora: o de ser de algum modo “democrático”. De atingir todos de igual modo, sejam ricos ou sejam pobres, conhecidos ou desconhecidos, importantes ou ignotos. Dizia eu a 13 de Março p.p.

E também escrevia:

Por isso se vê tanto afã de todos os governantes e poderosos do mundo de tão assustados que também estão, pois não podem comprar o seu não contágio”. E também:

Mas, por outro lado, é também preciso relativizar pois o seu efeito devastador não é maior do que o para todos já normal surto de gripe em alturas críticas do ano. Este ano ainda não sei mas lembro-me que em anos anteriores esses surtos de gripe sazonais foram responsáveis por mais de mil mortes por ano, de pessoas de maior risco naturalmente, e as urgências e os hospitais entraram em ruptura.

Mas é essencialmente necessário relativizar e aproveitar para relembrar que morrem de fome mais de 25 mil crianças por dia no mundo e nunca se vislumbrou qualquer medida ou sentimento de culpa por parte desses mesmos governantes e poderosos.

“ O que se devia agora que estão tão preocupados e assustados, tanto como todos os outros era, à boleia desta pandemia, exigir-se mudanças de políticas a nível global que reparem essa autêntica calamidade que é a fome.” Dizia eu…

E, acrescento, como em relação aos Refugiados, nunca vislumbrei, para além de qualquer sentimento de culpa, qual específico apoio, seja financeiro seja humanitário. Era (e é) um problema de outrém…É e será perante qualquer catrástrofe, a menos que directamente nos atinja, problema de outros…

Mas quem? Os que morrem de fome, da malária, de desnutrição e de total abandono em África, no Médio Oriente pejado de guerras que nunca compraram, das populações indefesas da Síria, do Iraque, do Yemen, do Afeganistão, do Líbano, da Faixa de Gaza…os que de modo ignoto e sem menção nos noticiários e jornais perecem todos os dias?

Até que parece ser proibido, porque demasiado violento(?) , ver imagens de crianças em Campos de Refugiados de fronteiras Europeias descalças pisando neve… As suas mortes nunca serão notícia e nunca para qualquer estatística contarão. São os “Ningunos”, como profetizou Eduardo Galeano.

Passado um mês, reflectindo profundamente, olhando para os anos recentes, para a última década, para as Pandemias entretanto surgidas e rapidamente debeladas ( Gripe das Aves, Gripe Suína etc..) e para o ressurgimento/ estabilização das economias dos países do sul e para onde as crises económicas foram mais cirúrgicamente enderessadas, causa-me uma intrigante estranheza a desproporção entre a sua realidade e as suas consequências económicas.

E a primeira pergunta que me surge, sabendo estatisticamente que a larguíssima percentagem dos óbitos supostamente provocados por este novo Corona Vírus é em idades superiores aos 80 anos, é: tendo-nos hoje sido transmitido que neste período de cerca de mês e meio foram contabilizadas 599 mortes por ele provocadas, quantas pessoas pereceram em Portugal neste mesmo período na sua totalidade?

É que seria da maior importância termos um número comparativo para aferirmos, ou não, da sua relatividade! Quantas pereceram por outros motivos já que do COVID 19 sabemos. E em mesmo tempo no ano anterior?

O que eu estou questionando é a “relatividade” e a “proporcionalidade”! O que eu estou questionando é o facto de, mais uma vez relativizando e não mais que isso, passado o primeiro impacto, aferido o comportamento global da nossa população, da sua consciência e dos inerentes perigos de postura daqui para a frente e ainda mais num período de debelação, virmos a sofrer mais pela cura do que pela doença.

Perante os números que são avançados a nível global de quebra da riqueza produzida (PIB) num só mês e meio e, pior ainda, do tempo que será preciso para retomar uma normal estabilidade nas relações a todos os níveis entre os Países, eu pergunto-me:

Mas, presumindo a crise estabilizada, é claro, estando os instrumentos de estabilização financeira promovidos e prontos a serem utilizados, para quê afectar-se o futuro de gerações e de um modo quiçá “normal” conduzir o País e as suas gentes a uma pobreza da qual não se saberá o fim, adiando o reatamento da Economia? E depois:

Para mim existe algo que não faz nem tem sentido. Estes programas em catadupa de apoios, de linhas de crédito, de programas financeiros, do BCE, do BEI, FEE, do sei lá que mais, um maior que o outro, um em paralelo e outro na perpendicular, um para isto outro para aquilo, mas que vão todos, se forem, desaguar à Banca, onde só numa ínfima parte serão disponibilizados não lhes parece um paradoxo? Vêm de onde? De que cofres sairão todos esses “triliões”, a serem efectivamente reais?

Isto não lhes parece, como a mim, uma coisa programada?

Será que o “cerco” às economias e às soberanias dos Países mais débeis, à boleia do Vírus, não tem nome? Tem e chamam-se Fundos, soberanos e não só, donos da maior parte das empresas no mundo, donos das Bolsas, sempre sedentos de “sangue” e poder e têm nomes: BLACKROCK, o rei dos reis, (só o nome já assusta), PIMCO, VANGUARD, BRIDGEWATER etc e demais Fundos Soberanos dos quais o mais forte é o Fundo Norueguês do Petróleo, administrado pelo Norges Bank, mesmo sendo tido como o mais transparente de todos.

A eles pertence 75% do PIB Mundial!

Para eles uma crise é sempre bem vinda! Dos escombros retiram mais riqueza… E à custa de quem? Dos de sempre e retirando sempre e sempre o pão à pobreza…

PS– Nunca mais me esqueço. Trabalhava eu em Paredes de Coura na década de 80 num Banco e tínhamos um cliente emigrante e empresário no Brasil e que todos os anos nos vinha visitar e um dia eu perguntei-lhe: Sr. Cerqueira, como consegue gerir os seus negócios com uma inflação daquelas (chegou a mil por cento ao mês ou dia, já nem sei, quando houve a conversão do Cruzeiro para Real, penso)? Ele respondeu-me: Sr. Vassalo, para mim quanto mais bagunça melhor!