( José Manuel Neto Simões, in Diário de Notícias, 13/02/2025)
Refletindo sobre a guerra – Imagem gerada por IA
(Este é o primeiro de 6 textos que constituem um ensaio sobre a Guerra na Ucrânia. Um trabalho sério que trancende ambos os consabidos maniqueísmos quanto à justeza dos contendores: de um lado diz-se que houve um invasor e um invadido; do outro lado que houve um provocador e um provocado. Na verdade, são duas simplificações adequadas para os coros das claques das ambas as partes.
Estátua de Sal, 20/10/2025)
Caracterização do conflito
Este é o primeiro texto de um ensaio sobre a guerra na Ucrânia com uma reflexão critica e análise integrada – ferramentas do Intelligence- que procura ultrapassar as simplificações maniqueístas e minimizar o efeito das percepções inerente à “guerra de informação” dos conflitos, que alimentam a infobesidade mediática. E que vai além do campo de batalha não sendo possível abraçar o pensamento imposto dos detentores das verdades.
A lógica empregue pelas partes em conflito e a indústria da propaganda dos oráculos de sabedoria são uma perversão da “nobre mentira” como dizia Platão. Enquanto em Moscovo há omissão e desinformação, Washington procura, de forma subtil, influenciar as mentes, através de campanhas que impõem, por vezes, uma realidade apoiada por operações de informação e psicológicas clandestinas. Com efeito, há discursos que padronizam a opinião e disciplinam os alinhamentos sobre a guerra que está a destruir a Ucrânia.
A maior guerra, desde 1945, tem a sua génese no fim da Guerra Fria mal resolvido e resulta de uma longa crise de segurança na Europa, que envolve também a NATO, devido às péssimas opções de política externa dos EUA, à frágil política de defesa da UE e às imponderadas lideranças. Os EUA retiraram em fuga desordenada de Cabul, porque o aparelho militar do Afeganistão era necessário na Ucrânia.
As suas origens mais profundas, em rigor, são anteriores à chegada de Putin ao poder. Um conflito multidimensional com motivações existenciais e ondas de choque a nível internacional, tendo sido destruído um dos pilares do equilíbrio das potências nucleares ancorado no Tratado de Budapeste, violado com a inaceitável cumplicidade das potências que o subscreveram.
Esta guerra é uma aberração perigosa que podia ter sido evitada e representa um caso clássico de guerra por procuração, sendo crucial ter presente que o slogan “injustificada e não provocada” foi utilizado à exaustão como pilar da estratégia de comunicação dos EUA. Uma campanha sustentada em queixas -injustificadas na perspectiva do Ocidente-, que o Kremlin viu como provocação para iniciar a guerra contra a Ucrânia.
Há uma evidente ligação entre a invasão da Ucrânia e as condições do passado que ajudam a explicar a complexidade do conflito. E fazer um exercício racional para perceber as teses relativas às causas, com origem em múltiplas dimensões, que se interligam designadamente histórica, cultural, étnica, linguística, religiosa, geoestratégica, geoeconómica e energética. É inegável que há um invasor e nada justifica a violação do Direito Internacional. No entanto, não podemos ignorar a responsabilidade dos EUA/NATO e UE no conflito.
Para Moscovo a intervenção militar na Ucrânia é um desígnio identitário da defesa da comunidade Russkiy mir de milhões de russos deslocalizados com a implosão da União Soviética, cuja rutura cultural e etnolinguística não foi absorvida nos países do espaço pós-soviético. A complexidade da sociedade ucraniana, com divisões culturais e lealdades políticas fragmentadas, foram exploradas pelos projectos nacionalistas concorrentes.
A reportagem revela a ampla parceria de Kiev com a CIA, que culminou com a instalação de um governo pró-ocidental na Ucrânia e mostra como Washington alimentou os receios de Moscovo. Complementando, a Newsweek detalha as operações clandestinas e abordagem incoerente dos EUA, que associado ao relatório de 2009 esclarecem o nível de manipulação na política interna ucraniana que viola a Carta da ONU.
A guerra evitável revela enormes desafios geopolíticos e fortes pressões sobre a segurança internacional e regional na Eurásia. E expõe a péssima gestão dos EUA/NATO do dilema de segurança relacionado com a instalação do sistema de mísseis balísticos (Aegis) no leste europeu e com a expansão da NATO até às fronteiras de segurança e fronteira de interesses da Rússia. Eisenhower alertou que, sem a retirada dos EUA da Europa, a NATO enfrentaria o risco de fracasso. Além disso, a democratização, vista pelo Ocidente como uma oportunidade geopolítica, é encarada pelo regime russo como uma ameaça direta.
A invasão da Ucrânia revela ainda o fracasso da estratégia de dissuasão ocidental. E a impotência do Ocidente para lidar com o conflito não é por ausência de capacidade militar ou económica. Reside em erros de avaliação estratégica e vários factores interligados: o envolvimento das maires potências nucleares; a fragilidade da defesa europeia; o deficiente diálogo estratégico; as dissensões nas lideranças políticas e a estratégia de comunicação incoerente. A questão difícil, nesta guerra insana, é como travar a escalada e encontrar o caminho da paz duradoura, que não seja a rendição da Ucrânia.
Importa sublinhar, que as regras da ordem liberal têm sido defendidas com hipocrisia e argumentação moral pervertida, consoante os interesses das grandes potências! Na verdade, já tinham sido violadas no ataque da NATO à Jugoslávia, sem mandato da ONU, que revelou não ser uma aliança defensiva assinalando o início do colapso da ordem internacional consumado em 2022. O Ocidente fragilizado deu argumentos à liderança russa.
Pela lente de Moscovo e da Igreja Ortodoxa, a Rússia não faz sentido sem a Ucrânia. Esta dimensão religiosa-ideológica é crucial para avaliarmos as motivações de Moscovo numa guerra que consideram existencial. E há ainda um carácter civilizacional na recuperação da esfera de influência, que visa recuperar o estatuto internacional. Os impérios nunca caem em silêncio e as potências derrotadas desenvolvem o revanchismo.
Na realidade, os documentos estratégicos e discursos de Putin enfatizam a necessidade do estatuto de grande potência, que na sua perspectiva foi humilhada pelo Ocidente. E a tentativa de recriar uma nova Rússia imperial reflecte o ressentimento russo à implosão soviética.
Assistimos, há duas décadas, ao confronto geopolítico pelo domínio da Eurásia por duas vias antagónicas – o atlantismo e o eurasianismo -, através de áreas de influência entre a Rússia e os EUA e pela reemergência da Rússia como potência eurasiática. A aproximação da NATO à Ucrânia e tentativa de negação ao Mar Negro, regiões estratégicas para a Rússia, agravaram os conflitos de interesses, ignorando alertas de reputados cientistas políticos, investigadores e historiadores.
Neste contexto, o confronto reflecte a disputa pelo reordenamento no antigo espaço soviético – a Rússia prossegue e o Ocidente contesta –, desafiando a ordem euro-atlântica estabelecida com o fim da hegemonia soviética sobre a Europa de Leste. O erro histórico residiu em ignorar a Rússia enquanto potência que se quer afirmar e a geografia lhe confere, mantendo a independência estratégica nuclear que limita o poder de Washington com a Europa resignada como palco preferencial das disputas entre as grandes potencias.
A guerra na Ucrânia é uma tragédia evitável que resultou de sucessivos erros de avaliação estratégica e dividiu lideranças dos EUA e europeias, com sério impacto na estabilidade europeia e global. E de sistemáticos bloqueios ao funcionamento da diplomacia. Os inúmeros avisos sobre os riscos da arrogância em relação à Rússia e da expansão da NATO, foram ignorados, tendo Fiona Hill alertado para acção militar russa preventiva.
A intervenção dos EUA e aliados na Ucrânia não pode ser dissociada das acções indirectas, que duram há duas décadas, desde a mudança de regime em Kiev à ajuda militar controlada com restrição gradual do uso do armamento. A forma como tem sido assegurado a ajuda pode ser considerada uma estratégia com táticas de salame. Isto é, um método de alcançar objectivos estratégicos com factos consumados, expandindo a influência através de acções calibradas para punir, mas evitar uma escalada maior.
As indecisões e debates com retórica incoerente, a falta de coesão entre aliados -em tempos tão apregoada- e a fragmentação política estão na origem da ausência de uma estratégia única da coligação internacional para a ajuda militar à Ucrânia, que enfraqueceu a eficácia. Isto acontece entre outros factores, porque há percepções divergentes sobre a ameaça em relação à Rússia e se a Ucrânia pode prevalecer.
Em síntese, o conflito é definidor das relações entre todos os actores do espaço euro-atlântico, numa nova (des) ordem mundial entre blocos assimétricos, constituindo o mais importante desafio estratégico das últimas décadas, cuja resposta só poderá ser político-diplomática.
A União Europeia, constituída por 27 nações, revelou esta semana um plano quinquenal de “preparação para a guerra” com a Rússia.
O chamado “Roteiro para a Prontidão de Defesa Europeia 2030” soa como um manifesto de guerra e uma profecia auto-realizável, colocando a UE numa rota de colisão desastrosa com a Rússia.
Historiador Professor catedrático, Borges Coelho passou seis anos e meio preso entre Aljube, Caxias e Peniche. Quando saiu da prisão, “senti tonturas, não estava habituado à liberdade”
Ela lutou pelos direitos das enfermeiras, ele pela liberdade. Casaram-se na prisão. A ditadura comeu-lhes nove anos de vida em comum. Mas Isaura Silva e António Borges Coelho vingaram-se. Foram inseparáveis. Esta é a sua história, recuperada pelo Expresso no dia da morte do historiador e poeta, aos 97 anos, em artigo originalmente publicado na revista do Expresso a 4 de junho de 2021.
A rua tem uma árvore centenária que, na primavera, exala um aroma perfumado. É uma das ruas centrais da Parede, em Cascais, a artéria onde tudo se passa. O prédio incaracterístico, branco, denota um resto de modernidade no visual simples, nas linhas retas. Um dia tudo isto foi novo e a árvore estreita, miúda. Desde o seu apartamento, António Borges Coelho ouve o comboio a passar, a cada 20 minutos certos, dia após dia. Ele, um historiador que já investigou a ocupação e a herança muçulmana na península, a Inquisição e a expansão portuguesa, a história do país desde a sua formação, nunca escreveu sobre si próprio, sobre os 93 anos do alto dos quais nos observa, com aquela boa vontade e simpatia de sempre, mas não sem algum cansaço. Nesta casa invadida por livros, fotografias e quadros, onde hoje vive sozinho, Borges Coelho viveu com Isaura Silva. Estiveram casados durante 60 anos, tiveram uma filha. A deles foi uma história de amor que, como todas, possui um lado épico, descomunal; que caiu, como todas caem, numa certa irrealidade, a memória a criar um revestimento fosco sobre as coisas. Porém, se todas as histórias merecem ser contadas, a de António e Isaura é daquelas que um bom livro deveria imortalizar. Porque foi quase impossível, quase uma miragem.
Hoje certamente sê-lo-ia. Existem já poucos relatos assim, de clandestinidade e separação, de prisões e desencontros extremos, só passíveis de pertencerem a um tempo e a um lugar: Portugal antes de 1974. Nesse país não tão remoto assim, em que um vizinho podia ser delator, onde a fome grassava nas esquinas vigiadas pela polícia política à caça de opositores, e em que a mulher não tinha direitos, António e Isaura conheceram-se num café chamado Rialto, à Rua Luciano Cordeiro, em Lisboa. O encontro era secreto, entre um dirigente do MUD (Movimento de Unidade Democrática) Juvenil e uma enfermeira empenhada na luta por melhores condições de trabalho e pelo direito ao casamento. “Pareceu-me importante perceber essa luta e marcámos encontro no café, onde nos conhecemos. Só eu e ela. Talvez tivesse havido aí algum sinal”, recorda Borges Coelho. Na segunda vez que se viram, ele levava o livro “A Freira no Subterrâneo”, de Camilo Castelo Branco, o que levou Isaura a temer — e assim o confidenciou a uma amiga — que ele fosse um “beato”. Apesar de ter passado cinco anos no seminário franciscano de Montariol, em Braga, não o era. Há muito que se desencantara da religião, ocupado que estava no combate à ditadura. Quanto a ela, estava nos antípodas da posição que uma educação eminentemente patriarcal lhe reservava. Foi das primeiras mulheres a andar de bicicleta em Portimão, a terra natal. Salvara uma miúda de morrer afogada e ia levando um tiro, diz o marido. “Ela era este tipo de mulher: uma vez, vinha um comboio e na linha estavam um cavalo e uma carroça. Ela tirou a blusa e pôs-se à frente do comboio, para o obrigar a parar. E ainda foi multada.”
Isaura morreu em 2019, “de velhice”. Era dois anos mais velha que António. Nos últimos tempos de vida, dedicou-se a escrever um diário de memórias para o único neto, Francisco. Para lhe contar, através da sua própria biografia, como era o país dela antes de a passagem para a democracia o transformar no país que ele reconhece. “Continuavam os nossos encontros amorosos, e também políticos”, vai narrando num desses papéis, que António lê sentado no escritório, interrompendo a história dela com pedaços da sua, pois ambas estão ligadas como as peças do mesmo puzzle. É preciso, por isso, explicar onde estava ele enquanto Isaura era a primeira a assinar corajosamente um abaixo assinado dirigido ao enfermeiro-mor, ao cardeal Cerejeira e ao mesmíssimo Salazar que, perante a PIDE, lhe valeria o epíteto de “casamenteira”. Ele tinha saído do seminário (implorou ao pai durante um ano que o fosse lá buscar, mas as suas cartas não lhe eram entregues), regressado a Murça e vindo logo para Lisboa, matriculado na Faculdade de Direito. Tinha passado três meses desempregado e alimentado a sandes pagas pelos estudantes de Medicina, um dos quais, de quem conserva a amizade, o inscreveu no curso de Histórico-Filosóficas dizendo-lhe: “Este é o teu curso.” Nesses três meses, “podia ter morrido de fome”, lembra o historiador. Por via de um “truque”, arranjou emprego como escriturário de 2ª classe pago a 1000 escudos por mês — “o que nem dava para o pequeno-almoço”. O ardil a que se refere foi o ter-se dirigido à Junta Autónoma de Estradas e perguntado a um contínuo quem era que mandava ali. Era o Sr. Esteves, de Trás-os-Montes, com quem pediu para falar, apresentando-se como “um conterrâneo”. Este foi sensível à sorte de um jovem da mesma terra que não tinha para comer e instou-o a concorrer ao posto; António ficou em primeiro lugar.
Isaura não vivia melhor. Durante o curso na Escola de Enfermagem Artur Ravara aguentara condições “violentíssimas”, a trabalhar já nos hospitais apenas em troca de comida e dormida, dezenas de raparigas a dormirem “ao molho” num corredor. Uma vez graduada, foi colocada no Hospital dos Capuchos, 12 horas diárias sem ordenado, a pernoitar numa camarata sobrelotada e fardada como uma freira. A cada seis meses, passava um mês inteiro “de vela” (de banco), com uma folga semanal. E não podia casar-se. O abaixo-assinado para corrigir a exploração de que a sua classe era alvo levou-a a conhecer António, em 1952. “Começámos a viver juntos, embora separados. Eu vivia num quarto e ela na enfermaria”, diz ele que, entretanto, se viu forçado a abandonar o emprego porque a PIDE andava no seu encalço. Funcionário do MUD, não tinha casa nem salário certo, dormia aqui e ali, “muitas vezes em casa do [poeta Alexandre] O’Neill”. Umas pseudoeleições no país encorajam o movimento juvenil a abrir uma sede, nos Anjos, e Isaura, convidada a falar sobre a luta das enfermeiras num jantar ali organizado, quis conhecê-la. O companheiro avisa-a para não o fazer, que a sede iria ser “assaltada” pela PIDE. Mas ela vai lá na mesma e acaba presa junto a mais 15 jovens. É o dia 3 de novembro de 1953. “Ainda consegui mastigar a minha intervenção”, engolindo um a um os papéis, mas na mala apanharam-lhe o incriminador convite para o jantar.
Agora é António quem lê o relato na primeira pessoa da chegada dela a Caxias, a pensar que no dia seguinte a libertariam. “A cela tinha só uma cama de ferro, uma caixa de madeira e um balde para as necessidades. Na manhã seguinte fui despejar o balde e vi que ao longo do corredor havia muitas portas de vidro fumado, de celas, e quando passei por elas vi mãos a acenarem-me. Fiquei muito comovida. Mas na última porta, olhando para cima, vi o retrato de um homem vestido de preto e com uma cara muito branca, que me assustou tanto que deixei cair o balde. O retrato era do Álvaro Cunhal.” Nesse primeiro dia de prisão cometeu a “façanha” de pintar, na casa de banho, com o nitrato de prata, “Viva a paz”. Os interrogatórios oscilavam entre agressões, humilhações, insultos e ameaças que se estendiam a toda a sua família. Pelo meio, conseguiu mandar um bilhete ao companheiro na gabardine branca que levava vestida quando a detiveram e que entregou à irmã numa visita: “Na parte de dentro do forro, ia uma mensagem de amor.” Um dia, relata Isaura pela voz de António, ouviu alguém a cantar numa cela próxima. Era a irmã Hortência, enfiada numa “cela entaipada”, com placas de madeira a tapar a porta e as janelas, presa por lhe apanharem um bilhete onde Isaura anunciava estar a escrever as memórias da enfermagem. “A PIDE fez uma busca para apanhar estes papéis. Fui posta numa cela vazia e queriam que tirasse a minha roupa do corpo, evidentemente que recusei. Fui chamada ao gabinete do diretor para ser revistada por duas apalpadeiras da cadeia do reduto sul, especificamente aos meus órgãos internos, fiquei louca de raiva e ameacei-as com um banco se me tocassem. Disse-lhes a razão da minha prisão, elas não me tocaram. Mas fui punida com 30 dias de cela disciplinar. Apanhei muitos castigos”, escreveu.
De prisão em prisão
Neste ponto, seria de esperar que a história estivesse a chegar ao fim — e a um fim feliz, à desejada vida com António. Porém, essa vida ficou novamente adiada. Porque, antes da libertação de Isaura, começaria a longa e acidentada prisão de António. Ele dispõe-se a contá-la, mas não sem fazer um parêntesis: “Quero dizer que Isaura, na altura, era uma espécie de grande personagem. Esteve internada em dois hospitais, o Santa Marta e o Santa Maria, porque desmaiou várias vezes de fraqueza. Quando a mandaram para o Santa Maria, ia um aparato enorme, carros dos pides à frente e atrás. No hospital estava completamente isolada e ninguém a podia visitar. Houve grandes movimentos cá fora pela libertação dela e das irmãs, de solidariedade pela causa dela, inscrições nas paredes, cartas à PIDE (que estão na Torre do Tombo). Houve um festival da juventude na margem sul com centenas de jovens, onde foi o António Sérgio e a Maria Lamas, e foi representada uma peça de teatro com a vida da Isaura Silva. Todo este movimento ajudou a mantê-la presa, pois a PIDE julgava que ela era um quadro superior do Partido Comunista.”
Em Lisboa, uma tarde, o historiador viu na rua um homem de “mãos muito lavadas e macacão de operário” que lhe pareceu suspeito. Estava habituado à vigilância, mas há seis meses que era funcionário do PC e o cerco parecia estreitar-se. No dia seguinte, enquanto se dispunha a almoçar, as brigadas da PIDE entravam na casa da Rua dos Ferreiros, a Santa Catarina, levavam-lhe as coisas e encostavam-no à parede. Lembra-se do grito que deu — “o maior da minha vida” — quando o empurravam pelas escadas do prédio: “Viva a liberdade, viva a democracia, abaixo a PIDE”, disse a plenos pulmões, e muitos dos que lá fora ouviram o termo ‘PIDE’ deram meia volta e retrocederam nos passos, cedendo ao medo. Tinha sido delatado pelo senhorio. “Senti uma tranquilidade infinita. Podiam fazer-me tudo, matar-me, era igual”, diz hoje. Despediu-se “como quem já não volta”. Meteram-no como um saco dentro do carro, rumo à sede da PIDE, mas à noite mandaram-no para o Aljube. Passou lá 180 dias, seis meses, dentro da cela nº 1, “um buraco, cuja largura era a do corpo com um braço estendido e onde havia uma meia luz contínua”. Dava-se um passo à frente e outro atrás. E a cama, presa à parede, descia-se para dormir. “Havia um guarda no corredor a vigiar-nos. Estávamos permanentemente à espera do interrogatório ou da tortura. Para muitos, também para mim, isto era pior do que o espancamento.” Uma greve de fome ainda lhe valeu duas semanas numa cela sem luz.
Depois do Aljube, Borges Coelho foi levado para Caxias. Sabendo que no andar de cima estavam as mulheres, entoou a canção ‘Paloma’, uma espécie de senha que Isaura, se a ouvisse, iria perceber. Ela percebeu. Mas não tardaria a ser libertada, em 1957, no âmbito de uma amnistia decretada por ocasião da visita da Rainha Isabel II a Portugal, mais ou menos na altura em que ele é levado para o Porto, para ser julgado no processo do MUD Juvenil ao lado de outros 51 réus. A consequência do julgamento não foi apenas ter sido condenado à pena máxima, de dois anos e nove meses de prisão. Foi ter visto a sua Isaura que, já em liberdade, mas há um ano desterrada em Portimão, decidiu ir vê-lo ao Porto. Sem dinheiro, ela conseguiu através da irmã acomodação numa casa de família, de cinco pessoas “num quarto dividido ao meio por uma cortina, de um lado dormia-se, do outro cozinhava-se”, como ela deixou escrito no seu diário. Cederam-lhe o quarto, deram-lhe de comer. E, no dia seguinte, levaram-na ao Tribunal. “Havia quatro anos que não nos víamos. As lágrimas corriam-me pela cara abaixo, e de tal forma que um dia o Óscar Lopes, que era um dos réus, disse que nunca tinha visto as lágrimas saltarem assim dos meus olhos, como se fossem cascatas”, relata Isaura. “Eu estava no tribunal separado, isolado, não sei se nos abraçámos ou não. Sei que nos vimos”, diz por sua vez António, que se lembra de se dirigir ao juiz na hora da sentença para lhe dizer que não, não compreendia que fosse condenado por defender a paz e os interesses dos jovens. “Aquilo provocou um escândalo e um homem, um matemático, rompeu o cerco e abraçou-se a mim a soluçar. Eu sentia a barriga dele na minha. Tive de fazer uma força doida para não soluçar com ele.”
Os dois anos e nove meses transformaram-se em cinco. O prolongamento da pena teve a ver com a famosa fuga de Peniche, na qual dez detidos, entre os quais Álvaro Cunhal, se evadiram daquela prisão. Por ter ficado — “não queria voltar a ser funcionário do Partido” —, ele e mais três sofreram graves represálias. A António foi-lhe reservada a ‘estátua’ no Aljube, a tortura na qual o preso ficava de pé até cair e, se adormecesse, acordavam-no a reguadas. Após a fuga, Isaura temeu o pior, não sabia onde ele estava. Localizou-o no Aljube, enviando para lá um lanche, para testar se era ou não entregue — foi. Não a deixavam visitá-lo por não ser parente, pelo que decidiram casar-se. E assim teve início uma nova fase, a da luta por preencherem todos os requisitos e autorizações para o casamento, e de conseguirem que este fosse celebrado na cadeia. Só em 1959 tudo isso foi atingido, e num 3 de janeiro, a Isaura de fato cinzento claro e o António de fato escuro, composto pelo alfaiate da cela ao lado, deram o ‘sim’ perante o funcionário do Registo Civil, as testemunhas — Alexandre O’Neill e Maria Amélia Padez —, e os sogros, vindos de Portimão. Só faltavam os pais dele, que “não se opuseram, mas não foram”. A seguir, um almoço de duas horas comprado na vila selou o festejo, embora o sogro, “que era de gritos”, tivesse de levantar a voz e ameaçar com sair pela porta fora para que os noivos pudessem sentar-se lado a lado. No fim de tudo, ele voltou para a cela e fez um poema. Ela regressou a casa. Mas já podia visitá-lo. Eram marido e mulher.
A dureza da liberdade
Claro que esta não seria a vida deles se tudo ficasse por aqui. A distância impôs-se por mais dois anos, com ele a acabar a pena em Peniche e ela a tentar recomeçar em Lisboa. Viam-se a cada 15 dias, e isso “deu origem a um rosário de cartas”. Isaura teve de persistir para arranjar trabalho e o primeiro que surgiu foi na Liga de Amigos dos Hospitais, uma clínica privada — o sector público estava-lhe vedado — onde ninguém sabia nada do seu passado. O médico cirurgião, que segundo ela era bom quando estava embriagado, nomeou-a, em apenas seis meses, responsável pela área cirúrgica. Mas uma troca de palavras com outro médico simpatizante do regime acabou com as boas graças, e Isaura foi expulsa e proibida de entrar na clínica. “Dois anos mais tarde, a irmã foi ali operada e não a deixaram entrar. Imagine como é que eram!”, acrescenta Borges Coelho. A mulher pediu então uma entrevista com o Prof. Pulido Valente, a quem visitou no seu consultório, “uma sala imponente” com um senhor de “cabeleira solta, quase branca” à sua espera. Falou-lhe logo da situação de ex-presa política, e o médico disponibilizou-se para a ajudar. Um dia depois, recebeu um recado do Dr. Pedro Monjardino, genro de Pulido Valente, a convidá-la para trabalhar na clínica Pro-Mater — que iniciou o parto sem dor no país —, situada na Avenida da República. Ali ficaria por dez anos. E ali estava quando, em 20 de maio de 1962, seis anos e meio após ter sido apanhado, o marido saiu da prisão.
“Hoje vai ser libertado.” O guarda teve de repetir a frase três vezes até António realmente a ouvir. Iam deixá-lo sair, mas queriam que lá deixasse tudo o que escrevera, os apontamentos de anos de estudo e reflexão. Ele vincou o pé, negou-se: “Então eu também não vou. Arranjem um novo processo.” Por fim cederam e ele encaminhou-se com duas malas para a saída da cadeia de Peniche. Os guardas da PIDE estavam à porta, e devem ter ficado surpreendidos quando, após a atravessar, uma mulher que por ali passava se aproximou dele e lhe deu um abraço. “Fiquei transtornado, comovidíssimo. Tinha tonturas, não estava habituado à liberdade, vinha de cinco anos metido numa cela”, diz Borges Coelho. Apanhou a camioneta, tinha de ver a Isaura, lembrou-se do café na Rua Duque de Ávila onde ela costumava almoçar, apareceu-lhe de rompante, nem tinha havido tempo de a prevenir. Ela estava lá acompanhada de uma amiga, olharam-se, uma ínfima hesitação fê-lo sair do café, e ela deu um grito, foi atrás. Abraçaram-se. Tinham estado nove anos separados, a manter-se unidos obstinadamente num parêntesis da duração da vida de uma criança, ou de todo o tempo em que Blimunda procurou Baltasar no “Memorial do Convento”, nove anos, nove longos anos.
A certeza de um destino a dois
Instalaram-se numa marquise em casa da irmã de Isaura, e depois numa casa que dava para as traseiras do cemitério de Benfica. Havia uma viagem há muito combinada, uma volta a Portugal que se apressaram a dar, com dinheiro poupado por Isaura. Foram ao Algarve, a terra dela, a Trás-os-Montes, a dele, passaram por Sagres, deram um salto a Espanha. Ele, desempregado, conta que depois teve uns 20 empregos — num deles, ia de porta em porta a perguntar “quantas pastas de dentes” aquela família gastava por mês. Deu explicações de história e de filosofia. E fez traduções. Até que começou a dar aulas num colégio e, logo no primeiro dia, uma brigada da PIDE aguardava-o à porta. “Eu estava proibido de tudo, até de dar aulas. Não tinha direitos políticos.” O segundo colégio que o aceitou tinha nome de poeta, Fernando Pessoa, e aí esteve vários anos, ao ponto de a responsável decidir pedir-lhe o diploma de ensino privado. Ele alertou que era inútil, e de facto foi. “Três meses depois chama-me ao gabinete a chorar, não lho tinham dado. Mas ela disse-me: ‘enquanto eu for diretora, dá as aulas que quiser’.” Assim fez. Com o 1º ano de Histórico-Filosóficas concluído antes de ser preso, matriculou-se no 2º ano. Em 1968 licenciou-se com uma tese sobre Leibniz. Mais tarde iria escolher a Inquisição de Évora como tema de doutoramento.
Ainda foi um dos fundadores de “A Capital”, um jornal “preparado para quando Salazar morresse”. Era um repórter que ainda cumpria a obrigação de se apresentar na PIDE aquando do nascimento da filha Sónia, em 1969, e essa notícia tardia na vida de António e Isaura foi objeto de uma crónica da Isabel da Nóbrega. “Julgávamos que já não iríamos ter filhos, ela engravidou aos 42 anos. Tinha um medo terrível, porque trabalhava com prematuros. Mas veio bem e inteirinha, não houve complicações além de uma cesariana”, frisa ele. O 25 de Abril mudou a ambos as perspetivas. Ele pôde começar a carreira académica, chegando a professor catedrático de História e a presidente do Conselho Pedagógico da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, jubilando-se em 1988 — com a última lição dada a 11 de dezembro. Ela concorreu e foi reintegrada na Função Pública, recusando a recontagem dos anos de serviço, pois “não queria privilégios”. De enfermeira-chefe na Maternidade Alfredo da Costa passou a diretora da secção de prematuros, cargo que ocupou até à reforma. Apesar de todos os adiamentos e esperas, viveram as vidas que lhes estavam destinadas. Sabiam, diz António, que iam ficar juntos, que era uma questão de tempo. Há dois anos, em 2019, separaram-se. Isaura tinha 92 e já se debatia com quedas e perda de movimentos. “Mas era muito corajosa, imagine que uma vez teve um tumor e não disse a ninguém, coisa maluca, foi para o IPO sozinha ser operada.” Morreu um 11 de junho, a pouco dias de completar os 93 anos.
“É uma falta muito grande, irreparável”, confessa António, que há dois meses publicou mais um livro de um catálogo que ultrapassa as duas dezenas. Mais um comboio passa, lá fora, a alertar para a hora do almoço, que o historiador tem de respeitar para a diabetes não lhe pregar das suas. Borges Coelho guarda os papéis escritos por Isaura e por si cuidadosamente sublinhados, e abre a porta que dá para a escada do prédio. À saída, a árvore centenária continua a exalar o perfume a que a obriga a primavera, e os carros passam apressados na rua mais concorrida da Parede. Um dia tudo isto foi novo e a árvore estreita, miúda. Um dia, alguém contará a sua história.