(José Gameiro, in Expresso, 18/12/2020)
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Tudo começou no jantar de 24. Uns dias antes tivemos o cuidado de fazer novos downloads do Zoom, do WhatsApp, do Skype, para estarem fresquinhos para os dias intensos que se avizinhavam. A minha senhora cozinhou um bacalhau com broa, divinal, que espalhámos pela mesa de Natal. Ao bater das nove horas servimos os pratos, bem regados com um Douro de 15 graus. Ligámos as câmaras. Perdemos a cabeça, comprámos três, o Natal deve ter uma abordagem multifacetada.
Somos uma família com quatro gerações, não nos queixamos dos genes. Como sabíamos que não ir ser fácil, começámos as negociações com muita antecedência. Mal nos começaram a dizer, ou se portam bem, ou não há Natal para ninguém, decidimos que dois de nós iriam estabelecer um guião das ligações digitais. Sabíamos que não iria ser fácil. Somos uma família moderna, daquelas em que alguns acreditam piamente no casamento e já experimentaram mais do que um.
No decurso das conversas, difíceis, os negociadores perceberam que alguém iria ter de fazer alguma formação em audiovisuais. Uma mesa de mistura, um software de divisão dos ecrãs, que permitisse, simultaneamente falar com os adultos e ver as crianças a abrirem os presentes, seriam necessários para simular uma noite de Natal clássica. Apesar de sermos todos muito “para a frente”, as novas uniões e os filhos de vários pais e mães nem sempre são bem aceites. Se nos Natais anteriores alguns aspetos já tinham sido geridos com pinças, este ano, qualquer descuido a ligar e desligar câmaras podia ser fatal.
Dividimos as festas em dois atos. Afinal, o Natal para algumas famílias é uma peça de teatro… No primeiro ato representámos a família na atualidade. Bisavós, avós, filhos, netos, noras e genros atuais, cada núcleo em sua casa. Destacámos um dos netos para fazer companhia à bisavó e, ao mesmo tempo, ser operador de câmara. Correu tudo muito bem. As compras para o repasto foram todas feitas online. Nas semanas anteriores importámos da net umas fotos de brinquedos, baratos, para não sermos acusados de consumistas, e umas fotos das roupitas do catálogo da Primark, tudo a menos de €10. Só não nos socorremos da Feira de Carcavelos, porque ainda vivem na era pré-covid. Durante o jantar tudo correu bem. Os miúdos não perceberam nada, mas como tinham uns hambúrgueres e Coca-Cola — um dia, não são dias — estavam felizes. No meio das maiores javardices, diziam-nos adeus.
No segundo ato as coisas complicaram-se. Por exclusiva culpa e ingenuidade nossas. Avós dos primeiros e segundos casamentos, maridos e mulheres de 1ª e 2ª geração, filhos, enteados, netos e bisnetos. Aparentemente todos aceitaram de bom grado e até estavam dispostos e servirem de exemplo para contrariarem a cultura negativa que temos em relação aos divórcios. Somos dos europeus que mais se divorciam, mas depois ficamos muito zangados…
O número de casas online aumentou, a complexidade digital também. Seguimos o mesmo processo, cada um em sua casa, mas com ementas iguais e presentes digitais. A primeira hora correu muito bem. Foi surpreendente como é que pessoas que dormiram juntas durante anos se tratavam com tanta cerimónia. Os filhos, fartos de conhecerem as parvoíces dos pais, sorriam, com um ar de gozo.
De repente, uma frase dita com um tom mais agreste, lançou fogo ao Natal. Tão simples quanto: “Estás na mesma, não mudaste, não sei como é que a tua atual mulher te atura.” Gerou-se o pandemónio, voaram câmaras, o som foi cortado, por um filho cheio de bom senso. A covid continuou, mas o Natal acabou. Moral da história. Os portugueses são mansos para fora e valentes para dentro.
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