(João Gomes, in Facebook,01/11/2025)

(Interlúdio literário. Com tanta fealdade, retratada nas imagens do mundo de hoje, a agredir-nos, que a beleza das palavras e da escrita nos povoe o ânimo e sirva de lenitivo.
Estátua de Sal, 02/11/2025)
No primeiro sopro frio de novembro, as cidades acordam como corpos sem alma. Já não se ouvem sinos, apenas o rumor metálico do trânsito e o brilho inexpressivo dos ecrãs que substituíram o lume das velas. É o Dia de Todos os Santos – dizem os calendários -, mas quem o recorda verdadeiramente? O dia passou a ser apenas mais um, diluído no ruído apressado das rotinas. As flores de plástico duram mais do que as memórias, e o silêncio dos cemitérios é agora mais honesto do que o das praças.
Houve um tempo em que o homem, ao olhar para o outono, via nele um espelho. As folhas que tombavam lembravam-lhe a brevidade da vida, a beleza que há em partir. Celebrava-se então a ligação invisível entre os vivos e os mortos, entre o fogo e a terra, entre o corpo e o espírito.
Samhain ou Todos os Santos, pouco importava o nome – havia, acima de tudo, um reconhecimento humilde de que pertencíamos uns aos outros, vivos e defuntos, humanos e divinos, frágeis e eternos.
Hoje, porém, a humanidade parece ter esquecido o fogo que a iluminava. As novas sociedades, envoltas na luz fria do progresso, afastaram-se da chama que unia as mãos. Construímos altares à eficiência, templos à produtividade, e sacrificamos neles a compaixão. Já não se acendem velas pelos mortos – acendem-se ecrãs pelos vivos, que se distraem do abismo do outro com a ilusão de estarem acompanhados.
Há um silêncio que grita por detrás dessa modernidade luminosa: o da solidão coletiva. Nunca estivemos tão ligados, e nunca estivemos tão sós. O culto do “eu” tornou-se a nova religião, e a fé no “nós” dissolveu-se nas redes onde cada rosto é um reflexo autocentrado. Perdemos a antiga arte de escutar o outro, de partilhar o pão e a esperança. Substituímos o gesto pela reação, o abraço pelo emoji, o encontro pela pressa.
Mas talvez ainda haja tempo. Talvez, neste 1º de novembro – dia de fronteiras subtis entre mundos -, possamos reaprender o sentido do lume. Não aquele que consome, mas o que aquece. Talvez seja hora de acender uma vela, não por tradição, mas por lembrança: da nossa humanidade esquecida, da ternura que deixámos cair como folhas secas no chão do progresso.
O Dia de Todos os Santos nunca foi apenas um ritual para os mortos. Foi, sempre, um apelo à vida. Um convite para reconhecermos a santidade que existe no simples gesto de cuidar, no olhar que acolhe, na mão que se estende.
Que as novas gerações, tão habituadas à claridade artificial, saibam um dia reencontrar a escuridão fecunda das coisas verdadeiras. Que voltem a acender luzes, não em altares digitais, mas no interior dos seus próprios corações.
Porque só quando recordarmos os outros – e nos recordarmos uns aos outros – é que seremos, de novo, dignos de ser lembrados.
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