Entre ruínas e morte

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/04/2020)

Miguel Sousa Tavares
“Apesar das ruínas e da morte
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias”

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1 O que nos propõem é simples e convém que todos estejam cientes da proposta, para que cada um carregue consigo o fardo da escolha: os que não morreram da doença não querem agora morrer da cura. E morrer da cura é continuar a deixar a economia em coma induzido, sem a trazer de volta à vida. Devagar, por sectores, com vários cuidados recomendados e diversas precauções. E, ao mesmo tempo, libertando a população da prisão domiciliária onde estamos todos encerrados, mas por fases e segundo critérios etários: primeiro, adultos saudáveis, na força da idade laboral; depois, jovens; e, a seguir, crianças. Porém, há uma excepção, e disso depende o êxito — ou a ousadia — de todo o plano: os velhos devem continuar encerrados, porque representam um perigo sanitário público e uma ameaça à sustentabilidade dos serviços de saúde. Devem, então, ser mantidos longe da vista, afastados de qualquer contacto com os outros, até que haja uma vacina e a sua distribuição seja universal — talvez no Verão do próximo ano, na melhor das hipóteses. Encerrados em casa sozinhos e entregues a si mesmos ou fechados em lares, em hotéis, em pavilhões, onde for. Confiados à cura de profissionais, de voluntários ou, se necessário, das Forças Armadas.

Muita coisa vai mudar depois disto passar, dizem alguns. Vamos ter de olhar para a vida de maneira diferente, juram. Uma das coisas que talvez mude é a ideia de que vale a pena viver tanto tempo.

2 Muitos deles, aliás, já cumpriram a sua função, deixando-se abater ao activo, vítimas do vírus ou de outras doenças que, por força do vírus, não foram tratadas ou eles próprios não quiseram tratar. Aqui, como em Espanha, um terço dos mortos da covid ocorreram em lares onde os velhos estavam acantonados e foram apanhados sem defesa, a coberto de uma ilusão de segurança que, de tão frágil, chega a parecer indiferença. Quando um utente infectado num lar é retirado dele, consegue recuperar cá fora e depois é devolvido ao lar onde permanece o foco de infecção, que outra palavra podemos usar que não indiferença?

3 Tal qual como os 90 trabalhadores cingaleses das estufas de Odemira, ou os 70 nepaleses do Algarve, ou os 130 ciganos de Moura — quando aparece ali algum infectado, a solução é simples: fecham-se todos juntos onde puder ser, mesmo que, no limite, isso signifique a infecção de todos. Em Moura, rodeou-se o acampamento cigano de arame farpado e colocou-se a GNR a vigiar todas as passagens, para que ninguém pudesse entrar ou sair. Chamem a isto o que quiserem, eu chamo-lhe um campo de concentração, por provisório que seja. Há dias, a ministra da Agricultura dizia que talvez se pudesse pegar nos novos desempregados e enviá-los para trabalhar no campo. Julgo que a ministra, que já percebi ser uma entusiasta do olival intensivo do Alqueva e desse tipo de agricultura “industrial” predadora, se estava a referir a essa mão-de-obra que agora vai escassear. Que vive em contentores, que trabalha sem horários e que nenhum sindicato protege. E que, acha ela, os desempregados talvez quisessem substituir. Não sabe do que fala.

4 Olho para as previsões internacionais económicas e a primeira conclusão que tiro é de que todos estão à espera que nada de essencial mude depois de tudo isto passar — e se tudo isto passar, o que também têm por adquirido. Aparentemente, a nata dos economistas do mundo acredita que vamos todos produzir o mesmo, consumir o mesmo, viajar o mesmo, trabalhar da mesma maneira, investir igual. E, por isso, assim como prevêem quedas a pique no PIB de todos os países em 2020, logo prevêem substanciais recuperações em 2021. Oxalá, por uma vez, estejam certos!

Para Portugal, o FMI prevê uma queda do PIB de 8% este ano e uma recuperação de 5,5% já em 2021, com a dívida pública — que tanto custou a fazer baixar até aos 120% do PIB — a disparar de novo até aos 135%. Parece-me, apesar de tudo, demasiado optimista, assim como me parece optimista esperar que os 13 mil milhões que o Governo espera despejar nas empresas e nas famílias chegue para segurar as coisas até passar o grosso da tormenta. Porque, mesmo depois disso, vai haver mais subsídios de desemprego para pagar, mais apoios às empresas para manter, menos receitas na Segurança Social e no Fisco, e tudo isso vai entrar por 2021 adentro. Mas há muita gente que ainda não percebeu que, quando tudo isto assentar, a conta terá de ser paga. Como? Conhecem outra maneira que não seja a de aumentar mais os impostos a quem ainda estiver vivo? Como disse o ministro Siza Vieira, “a despesa do Estado hoje são impostos amanhã”. Só não o percebe quem não paga impostos.

5 É evidente que há muitas coisas que a China ainda terá de explicar ao mundo e muitas coisas que a China terá de garantir ao mundo que não voltam a acontecer por lá. E talvez a OMS tenha também de explicar a forma como tratou inicialmente os dados vindos da China, mas isso, como disse António Guterres, é uma conversa para ter depois. Agora, a meio de uma crise de saúde planetária de uma dimensão jamais vista, cortar o grosso do financiamento da OMS, quando ele é mais necessário do que nunca, é coisa que só podia ser levada a cabo por um tipo tresloucado, cruel e obcecado com a sua reeleição, antes de tudo o mais. Numa longa e terrível reportagem em dois hospitais do Bronx, esta semana, “The New York Times” recolheu o depoimento de médicos dizendo o que toda a gente teve ocasião de perceber por si mesma: que as semanas que Donald Trump levou a não querer aceitar a gravidade do coronavírus custaram milhares de mortos americanos. E é por isso, e também por não conseguir explicar como é que o país mais rico do mundo foi apanhado completamente desarmado em termos clínicos para esta crise, que ele procura todos os dias um novo culpado que possa desviar as atenções de si próprio. Este é o homem mais perigoso do planeta e está à frente da nação mais poderosa do planeta. E pensar que Marcelo o convidou para visitar Portugal! E que, para cúmulo da humilhação, ele desdenhou e recusou o convite!

6 “António José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.
— São tristes? — perguntava o velho.
— De chorar rios de lágrimas — garantia o dentista.
— Com pessoas que se amam mesmo?
— Como ninguém nunca amou.
— Sofrem muito?
— Eu quase não consegui suportar — respondia o dentista.
Mas o doutor Rubicundo Loachamin não lia os romances.”

E você, leitor, já leu isto em algum lado? Se não leu, leia agora, porque “o velho que lia romances de amor” já não os escreverá mais. Luis Sepúlveda perdeu para o inimigo sem rosto chamado covid uma vida em que nunca perdera para os inimigos com rosto, chamassem-se eles Pinochet ou outros cujo apelido também era morte. Uma vida que foi em si mesma o maior dos romances que escreveu e que, por isso, só lendo-os se percebe que valeu mesmo a pena ter sido vivida. Faz-me raiva pensar que um tão grande sobrevivente, um tão imenso vivente, tenha sucumbido a uma tão traiçoeira emboscada.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Sete dias de covil: 3/9 de Abril

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/04/2020)

Miguel Sousa Tavares

Para quase toda a gente, os dias são sempre iguais, as semanas arrastam-se, as rotinas repetem-se, e descobre-se que nada passa mais devagar do que o tempo que se suspende. Para variar, então, vou fazer este semanário da covid de trás para a frente.

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9 de Abril. O Eurogrupo retoma hoje a discussão de há dois dias, que é a mesma de há 15 dias. Terça-feira, foram 16 horas de reunião apenas para decidir se o Mecanismo Europeu de Estabilidade empresta a cada país até 2% do seu PIB, a taxas de juro mais acessíveis. É isso em vez da dívida europeia mutualizada — pois que, como disse o ministro das Finanças holandês, eles não querem garantir dívida dos outros. Apenas, acrescento, querem continuar a cobrar impostos que eram devidos aos outros. Para Portugal, este generoso empréstimo representaria 4000 milhões de euros de mais dívida, e a poupança com juros que daí resultaria (em função da diferença entre a taxa garantida pelo MEE e a que Portugal obtém hoje nos mercados) significaria 32 milhões por ano, durante os 10 anos de vigência do empréstimo. 32 milhões: 0,01% do PIB português, eis o que estava em discussão. Mas, mesmo assim, a Holanda boicotou, sozinha e até ao fim, este acordo ridículo, pois exige “condições” aos países aderentes. Quer que eles garantam “contas certas”: a casa está a arder e o dono da casa preocupa-se com a conta da água para apagar o fogo! Na verdade, estou quase a desejar que a Itália dê um murro na mesa, saia do Eurogrupo e estoire com esta União de fachada. E, depois, poderíamos pensar na utopia que, meio a sério, meio a brincar, já aqui defendi em tempos: uma união dos países do Sul da Europa mais os do Norte de África, e os ricos que fossem à sua vida. A primeira medida que a “minha” União faria era instituir um imposto altíssimo a qualquer cidadão dos ricos do Norte que quisesse entrar no Sul. “Querem vir ao Club Med, ver o sol, embebedar-se nas nossas esplanadas, querem ver se somos infelizes? Paguem, paguem caro!”

8 de Abril. É quase oficial: passámos o célebre pico. Algures por volta de 27 de Março, muito antes do esperado e sem dar por isso. A curva da morte e do descontrole achatou, aplanou, tomou a forma das planícies alentejanas. E assim evitámos o grande pânico da sobrecarga dos serviços hospitalares. Não desconsiderando por um momento o esforço e a entrega dos nossos profissionais de saúde e se tudo isto se confirmar, a verdade é que, no nosso caso, os heróis foram até agora, sobretudo, os heróis sem máscara, os milhões que se recolheram disciplinadamente a casa, antes até de o Governo o pedir ou o impor.

Mas agora dizem-nos que, tendo assim salvo o SNS e ganho com isso tempo precioso para melhor o equipar, não apenas sacrificámos mais a economia como também tornámos mais obscura e longínqua a derrota do inimigo. Ao fecharmo-nos em casa, tal como nos recomendaram, evitámos a disseminação da infecção, mas, com isso, evitámos também a imunidade de grupo. E agora, conclui quem sabe, só há uma solução boa: continuarmos fechados em casa, tantos mais quanto possível, até que haja uma vacina. Ou seja: não sucumbimos à doença, sucumbimos à prevenção. Eis um infeliz case study.

7 de Abril. Trump descobriu agora que a culpa da absoluta e humilhante impreparação em que os Estados Unidos foram apanhados foi da Organização Mundial da Saúde, que terá reagido tarde de mais a avisar os países. E, vai daí, aplicou à OMS a mesma receita que aplicava na sua vida de empresário quando os negócios lhe corriam mal: não paga mais quotas à OMS. O tempo que Trump demorou a aceitar que o coronavírus não era uma simples gripe terá custado, seguramente, milhares de vidas de americanos. Quando finalmente percebeu a iminência do desastre, quando se deu conta de que o país mais rico do mundo estava completamente impreparado para enfrentar a ameaça e, sobretudo, quando percebeu que a falta de liderança e a insensibilidade de que dava mostras lhe poderiam custar a reeleição, reagiu ao seu estilo, com aqueles olhinhos de capataz zangado com que gosta de ameaçar o planeta: começou por acusar a China, depois a Itália, depois a Europa (com quem cortou todos os voos comerciais de um dia para o outro, sem sequer avisar), de terem exportado o vírus para os EUA — já a OMS o tinha declarado uma pandemia há muito tempo. Depois, humilhou-se a receber ajuda da China e da Rússia e acusou os governadores estaduais de, eles sim, terem acordado tarde de mais para o problema. Agora, cereja no topo, acaba de recorrer ao seu homem providencial para resolver as crises: substituindo a múmia semipresidencial Mike Pence, o homem ora encarregue de dirigir o combate nacional ao coronavírus é o genro presidencial, Jared Kushner. O mesmo que “resolveu” a questão israelo-palestiniana e conhecido nos Estados Unidos como das pessoas ditas mais competentes que jamais fizeram uma só coisa competentemente. E, com tudo isto, o homem sobe nas sondagens e atinge o seu pico — o da popularidade. É extraordinário como é que a nação liderante do mundo livre se deixa desgovernar ao ponto de se tornar a nação mais perigosa do mundo, por se ajoelhar como um rebanho dócil aos pés de um perfeito idiota. E de um idiota cruel. No Brasil, pelo menos, consta que os militares já deram um chega para lá em Bolsonaro, o passo imediatamente anterior a internarem-no no manicómio de onde ele nunca devia ter saído.

6 de Abril. Um dos mistérios mais preocupantes e inexplicáveis para mim é como é que a ministra Marta Temido insinuou, dois dias a fio, que os serviços de urgência estavam à beira da exaustão. Porque a exaustão, se bem percebo, dá-se nos cuidados intensivos e aí o número de ventiladores, se bem que alarmantemente escasso, foi sempre, no mínimo, quatro vezes superior ao número de doentes internados em UCI. Aliás, esse número nunca ultrapassou os 271 doentes e está agora nos 245 — o mesmo que estava no dia 3 de Abril, quando um report da Universidade de Washington veio dizer que nesse dia faltaram 118 camas para doentes em UCI em Portugal. Mas, afinal, onde estão as 2000 camas de que falou o primeiro-ministro? E as 500 lançadas com pompa e circunstância num hospital de campanha montado no Estádio Universitário de Lisboa e de que nunca mais se ouviu falar?

5 de Abril. A discussão que a DGS alimenta, sem tomar uma posição clara, sobre se se deve ou não usar máscaras e se se deve ou não generalizar os testes, tem, obviamente, na base de todas as hesitações e contradições, uma única razão de ser: não há máscaras nem testes que cheguem. Aproveitando ver uma farmácia absolutamente sem ninguém, em Lisboa, resolvo fazer o teste da máscara: avio uns remédios que não têm nada a ver com a covid e depois pergunto se têm desifectante para as mãos. “Só álcool a 70 graus”, responde a menina. “E máscaras?”, pergunto.

De repente, ela põe-se a olhar para o computador e de soslaio para a colega e responde a meia voz: “De momento, não.” Colado no balcão está um discreto letreiro com o desenho de uma máscara e a indicação do preço: 5 euros (dez vezes o preço de custo). Percebo: são 5 euros, se houver muitas para vender; são 10 euros para as que estão reservadas, se forem poucas.

4 de Abril. Se a estratégia era, como todos recomendaram, a de contenção da dimensão da infecção, de modo a salvaguardar a capacidade do SNS, é forçoso reconhecer que o Governo actuou bem e a tempo. E os erros que tem havido e vai continuar a haver foram quase todos de responsabilidade técnica e não política. Basta comparar com o que sucedeu noutros países — e, desde logo, com Espanha e o desastre personalizado pela dupla Pedro Sánchez/Pablo Iglesias — para perceber, de boa-fé, que assim foi. Mas parece que o reconhecimento geral disto está a pôr segmentos da nossa direita de cabelos em pé.

Temos o eurodeputado Paulo Rangel às voltas com a dificuldade em explicar porque não propõe, preto no branco, a expulsão do Fidesz do grupo parlamentar europeu de que faz parte, mas que ainda arranja tempo e pretexto para se indignar com a “bravata” de António Costa face ao ministro das Finanças holandês, acusando-o de “navegar à vista” nesta crise e ameaçando-o de que “não pode falhar”. (Porque não empresta Rangel a sua infalível bússola ao PM?) Temos Alberto Gonçalves, no “Observador”, com uma tamanha raiva contra Costa que mesmo os leitores do “Observador” se insurgiram contra ele, levando-o a carpir pungentes lágrimas de genuína estupefacção e dor. E temos João Miguel Tavares, no “Público”, que, depois de ter escrito um patético artigo a exigir ao Governo uma data para “isto” acabar, levou também de volta com a revolta expectável dos leitores, acabando a reclamar-se vítima da liberdade de imprensa e do “pensamento único”, antes de, finalmente, achar por bem escrever novo texto em que reconhecia que, de facto, ninguém, a começar pelos cientistas, podia dizer quando e como é que isto podia acabar. Não havia necessidade… Vem aí uma crise económica feia como tudo e onde a direita terá certamente ocasião de brilhar. Um pouco de pa­ciência, senhores!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Sete dias de covil: 27 de Março/2 de Abril

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/04/2020)

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27 de Março. Sozinho na Praça de São Pedro deserta, o Papa percorre a imensa superfície apenas acompanhado por dois acólitos até um cadeirão montado sobre um palco, virado para a invisível multidão de fiéis. Então, começa a falar-lhes, como se eles estivessem ali a escutá-lo. De todas as impressionantes imagens que tenho visto nestes dias, esta foi a que mais me marcou e que, estou certo, guardarei para sempre, sobrevivendo à memória destes tempos de pesadelo. “Pai, Pai, porque nos abandonaste?”, pareceu-me ouvir Francisco gritar no silêncio daquela praça, que nenhum Papa e nenhum outro homem escutara antes dele. Os deuses abandonaram os seus crentes. Só a ciência — os médicos, os enfermeiros, os cientistas, os investigadores — pode salvar a Humanidade, não a fé. Até disso se fez prova agora.

28 de Março. A discussão sobre a falta de legitimidade que teriam agora perdido os defensores da saúde privada — nomeadamente, na gestão dos hospitais públicos — face aos méritos demonstrados pelo SNS nesta crise não faz qualquer sentido. Tirando o caso extremo e ridículo de André Ventura e a sua proposta de extinção do SNS, uma coisa não tem nada que ver com a outra. A saúde privada existe para quem a pode pagar e não custa um tostão aos contribuintes, funcionando ainda como complementar ao SNS, que tantas vezes a ela recorre para suprir carências próprias e que, sem isso, deixaria as pessoas desamparadas. O SNS existe exclusivamente suportado pelo dinheiro dos impostos pagos pelos contribuintes e, por mais que sejam legítimos e justos os elogios que lhe façamos (e legítimas também as críticas), não seria expectável outra coisa que não vê-lo a responder agora, com todas as suas forças e toda a sua dedicação, a todos, sem excepção. Como está à vista, o problema do SNS, da sua sobrecarga crónica e do seu custo sempre crescente e cada vez mais difícil de comportar está nos abusos dos seus utilizadores, incentivados por medidas políticas demagógicas, como a isenção de taxas moderadoras. Na notável entrevista que deu a este jornal na semana passada, o director do Serviço de Infecciologia do Hospital de São João, António Sarmento, teve a coragem de falar no problema dos custos e da insustentabilidade do seu financiamento sem limite quando, por exemplo, se pensa no preço exorbitante dos novos medicamentos contra o cancro ou a hepatite. As sociedades de bem-estar, onde nos habituámos a achar exigível viver até aos 90 anos de perfeita saúde, têm o custo correspondente. Que é o de, numa crise de saúde pública extrema, faltarem camas em cuidados intensivos, faltarem ventiladores para salvar vidas, faltarem máscaras e material de protecção para os que têm de salvar vidas. Porque gastámos o dinheiro em TAC e RM que todos se acham com o direito de exigir por uma simples dor de barriga.

30 de Março. Por estes dias, sabe bem escutar o incorrigível optimismo de António Costa: a nossa estratégia está a ter “belíssimos resultados”. Oxalá. Eu, que não sou muito optimista por natureza, continuo sem perceber se os nossos números são bons, olhados a frio, ou se são alarmantes, medidos em comparação com o número de habitantes. Vejo que o número de recuperados é quase sempre o mesmo e que estão sempre para chegar mais ventiladores, mas que o seu número mantém-se o mesmo do início, igual à data da fundação da nacionalidade: 1143. Não consigo enxergar qualquer estratégia, antes ou agora, para deter a progressão triunfal do vírus nos lares e não consigo perceber porque são precisos tantos dias, tantos estudos e tantos diplomas diferentes para pôr fora das prisões quem é mais perigoso lá dentro do que cá fora. E a senhora que me perdoe, mas a dra. Graça Freitas, quanto mais fala, menos confiança me inspira — talvez, justamente, pela volúpia com que se agarra ao microfone.

31 de Março. Afinal, não sou só eu que não consigo enxergar claro. Da reunião ao mais alto nível entre os políticos e os técnicos saiu apenas uma conclusão consensual: “Ninguém sabe ao certo o que se passa.”

Sabemos, talvez, que o monstro se aproximará do ponto de saciedade em Itália, mas que está descontrolado em Espanha e em França. Que finalmente reduziu Trump à insignificância da sua idioteira nos Estados Unidos e que o seu discípulo Bolsonaro irá pelo mesmo caminho, quando vidas perdidas significarem votos ou apoios perdidos. E sabemos que a covid-19 significa uma oportunidade de luxo para os ditadores disfarçados de democratas fazerem mão baixa sobre a liberdade dos seus cidadãos — Netanyahu em Israel e Orbán na Hungria, esse país onde há muito a UE deveria ter forçado a escolha: ou Orbán ou a expulsão.

Ah, e há os holandeses, os novos-ricos da Europa, actuando como gauleiters da Alemanha. O país que enriqueceu graças à UE e que rouba parte dos impostos devidos aos outros países europeus vem depois pregar-lhes moral financeira! Há quem diga, desculpando-os, que os holandeses estão a atravessar um momento delicado da sua política interna e com pulsões nacionalistas e visões engrandecedoras do seu passado colonial. Balelas! Qual grandioso passado colonial — o da pirataria, da pilhagem do que outros descobriram, plantaram, erguerem, o do apartheid?

E, já agora, tirando o “Século de Oiro” da pintura holandesa, abrangendo o último quartel do século XVI e a primeira metade do século XVII, o que deu a Holanda à Europa? Van Gogh, na pintura, e Johan Cruyff, no futebol, são as únicas excepções. De resto, e sobretudo comparando com a Espanha e a Itália, nos últimos quase 400 anos, eles não deram à Europa um escritor, um músico, um compositor, um arquitecto, um estadista, um economista, um cientista, um automóvel, um desenho de sapatos, um filme inesquecível, uma marca de vinho, uma receita de cozinha, uma nova borboleta…

Emmanuel Macron, que viu o seu SNS, o mais caro da Europa, falhar por todos os lados, que testemunhou a indiferença inicial para com os apelos à ajuda da Itália e assiste agora ao egoísmo dos ricos europeus no combate à crise económica, parece estar a aprender a lição. “Isto passado”, disse ele, “se a Europa quiser continuar a existir, as duas palavras-chave são soberania e solidariedade. Soberania para nunca mais sermos apanhados desprevenidos nos meios essenciais para acorrermos aos nossos povos e solidariedade para enfrentarmos as crises juntos.” Mas será que alguém se lembrará disso passada a tormenta?

1 de Abril. Henrique Raposo sugeriu uma coisa com todo o sentido e justiça: que as grandes cadeias de supermercados distribuam os lucros extraordinários que agora estão a ter pelos seus trabalhadores — que lá estão, trabalhando mais e arriscando muito mais para nos servir e proporcionar esses lucros. Eu já me contentava em saber que pelo menos parte deles eram entregues aos trabalhadores, e não apenas a remuneração normal das horas extraordinárias, a acrescentar aos salários de miséria que recebem. Na Alemanha, o Governo estipulou que as empresas que beneficiem de ajudas do Estado estão proibidas de distribuir dividendos pelos accionistas enquanto durarem essas ajudas. Isso, e a proibição de pagar prémios de gestão aos administradores, é também o mínimo exigível.

2 de Abril. Rui Rio avisou também que seria inadmissível que a banca tivesse lucro este ano e no próximo, aproveitando as linhas de crédito extraordinárias para emprestar dinheiro às empresas. Sim, seria um escândalo que fosse levantar dinheiro junto do BCE à taxa negativa de 0,75% para o emprestar a 2% ou 3%. Ou que o Novo Banco se lembrasse de vir pedir mais uma fatia de dinheiro aos contribuintes. Tenham muito cuidado, o que aí vem pode ser bem perigoso! E na linha da frente para servir de alvo primordial da ira dos desesperados vai estar a banca.

Mas devemos ter fé na espécie humana, mesmo com todos os seus defeitos. Claro que haverá sempre gente como o recém-entronizado Rei da Tailândia, Rama X, que fugiu do seu país mal ouviu falar do coronavírus e se enfiou com toda a sua corte de centenas de pessoas, incluindo um harém de 20 concubinas, num hotel da Baviera, reservado para a sua quarentena. Mas há também todas as nossas empresas que não deixaram de trabalhar e que, pelo contrário, se estão a adaptar a uma economia de guerra, tentando produzir o que agora mais nos falta: máscaras, testes, ventiladores. E os camionistas que continuam a percorrer as estradas desertas para trazerem o que não pode faltar. E as Forças Armadas reconvertidas em forças amigas. E tantos outros exemplos que nos orgulham. E há, sobretudo, milhares de investigadores e cientistas que, no mundo inteiro e financiados por milionários diferentes do Rei da Tailândia, procuram sem descanso a bala de prata capaz de matar o Monstro que por aí anda espalhando o terror onde antes havia vida. Mas, ó Henrique Raposo: a natureza não nos vai dar um segundo aviso. E não se trata de um “ambientalismo esquerdista”. O planeta não é de esquerda nem de direita: é só este.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia