Sete dias de covil: 3/9 de Abril

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/04/2020)

Miguel Sousa Tavares

Para quase toda a gente, os dias são sempre iguais, as semanas arrastam-se, as rotinas repetem-se, e descobre-se que nada passa mais devagar do que o tempo que se suspende. Para variar, então, vou fazer este semanário da covid de trás para a frente.

9 de Abril. O Eurogrupo retoma hoje a discussão de há dois dias, que é a mesma de há 15 dias. Terça-feira, foram 16 horas de reunião apenas para decidir se o Mecanismo Europeu de Estabilidade empresta a cada país até 2% do seu PIB, a taxas de juro mais acessíveis. É isso em vez da dívida europeia mutualizada — pois que, como disse o ministro das Finanças holandês, eles não querem garantir dívida dos outros. Apenas, acrescento, querem continuar a cobrar impostos que eram devidos aos outros. Para Portugal, este generoso empréstimo representaria 4000 milhões de euros de mais dívida, e a poupança com juros que daí resultaria (em função da diferença entre a taxa garantida pelo MEE e a que Portugal obtém hoje nos mercados) significaria 32 milhões por ano, durante os 10 anos de vigência do empréstimo. 32 milhões: 0,01% do PIB português, eis o que estava em discussão. Mas, mesmo assim, a Holanda boicotou, sozinha e até ao fim, este acordo ridículo, pois exige “condições” aos países aderentes. Quer que eles garantam “contas certas”: a casa está a arder e o dono da casa preocupa-se com a conta da água para apagar o fogo! Na verdade, estou quase a desejar que a Itália dê um murro na mesa, saia do Eurogrupo e estoire com esta União de fachada. E, depois, poderíamos pensar na utopia que, meio a sério, meio a brincar, já aqui defendi em tempos: uma união dos países do Sul da Europa mais os do Norte de África, e os ricos que fossem à sua vida. A primeira medida que a “minha” União faria era instituir um imposto altíssimo a qualquer cidadão dos ricos do Norte que quisesse entrar no Sul. “Querem vir ao Club Med, ver o sol, embebedar-se nas nossas esplanadas, querem ver se somos infelizes? Paguem, paguem caro!”

8 de Abril. É quase oficial: passámos o célebre pico. Algures por volta de 27 de Março, muito antes do esperado e sem dar por isso. A curva da morte e do descontrole achatou, aplanou, tomou a forma das planícies alentejanas. E assim evitámos o grande pânico da sobrecarga dos serviços hospitalares. Não desconsiderando por um momento o esforço e a entrega dos nossos profissionais de saúde e se tudo isto se confirmar, a verdade é que, no nosso caso, os heróis foram até agora, sobretudo, os heróis sem máscara, os milhões que se recolheram disciplinadamente a casa, antes até de o Governo o pedir ou o impor.

Mas agora dizem-nos que, tendo assim salvo o SNS e ganho com isso tempo precioso para melhor o equipar, não apenas sacrificámos mais a economia como também tornámos mais obscura e longínqua a derrota do inimigo. Ao fecharmo-nos em casa, tal como nos recomendaram, evitámos a disseminação da infecção, mas, com isso, evitámos também a imunidade de grupo. E agora, conclui quem sabe, só há uma solução boa: continuarmos fechados em casa, tantos mais quanto possível, até que haja uma vacina. Ou seja: não sucumbimos à doença, sucumbimos à prevenção. Eis um infeliz case study.

7 de Abril. Trump descobriu agora que a culpa da absoluta e humilhante impreparação em que os Estados Unidos foram apanhados foi da Organização Mundial da Saúde, que terá reagido tarde de mais a avisar os países. E, vai daí, aplicou à OMS a mesma receita que aplicava na sua vida de empresário quando os negócios lhe corriam mal: não paga mais quotas à OMS. O tempo que Trump demorou a aceitar que o coronavírus não era uma simples gripe terá custado, seguramente, milhares de vidas de americanos. Quando finalmente percebeu a iminência do desastre, quando se deu conta de que o país mais rico do mundo estava completamente impreparado para enfrentar a ameaça e, sobretudo, quando percebeu que a falta de liderança e a insensibilidade de que dava mostras lhe poderiam custar a reeleição, reagiu ao seu estilo, com aqueles olhinhos de capataz zangado com que gosta de ameaçar o planeta: começou por acusar a China, depois a Itália, depois a Europa (com quem cortou todos os voos comerciais de um dia para o outro, sem sequer avisar), de terem exportado o vírus para os EUA — já a OMS o tinha declarado uma pandemia há muito tempo. Depois, humilhou-se a receber ajuda da China e da Rússia e acusou os governadores estaduais de, eles sim, terem acordado tarde de mais para o problema. Agora, cereja no topo, acaba de recorrer ao seu homem providencial para resolver as crises: substituindo a múmia semipresidencial Mike Pence, o homem ora encarregue de dirigir o combate nacional ao coronavírus é o genro presidencial, Jared Kushner. O mesmo que “resolveu” a questão israelo-palestiniana e conhecido nos Estados Unidos como das pessoas ditas mais competentes que jamais fizeram uma só coisa competentemente. E, com tudo isto, o homem sobe nas sondagens e atinge o seu pico — o da popularidade. É extraordinário como é que a nação liderante do mundo livre se deixa desgovernar ao ponto de se tornar a nação mais perigosa do mundo, por se ajoelhar como um rebanho dócil aos pés de um perfeito idiota. E de um idiota cruel. No Brasil, pelo menos, consta que os militares já deram um chega para lá em Bolsonaro, o passo imediatamente anterior a internarem-no no manicómio de onde ele nunca devia ter saído.

6 de Abril. Um dos mistérios mais preocupantes e inexplicáveis para mim é como é que a ministra Marta Temido insinuou, dois dias a fio, que os serviços de urgência estavam à beira da exaustão. Porque a exaustão, se bem percebo, dá-se nos cuidados intensivos e aí o número de ventiladores, se bem que alarmantemente escasso, foi sempre, no mínimo, quatro vezes superior ao número de doentes internados em UCI. Aliás, esse número nunca ultrapassou os 271 doentes e está agora nos 245 — o mesmo que estava no dia 3 de Abril, quando um report da Universidade de Washington veio dizer que nesse dia faltaram 118 camas para doentes em UCI em Portugal. Mas, afinal, onde estão as 2000 camas de que falou o primeiro-ministro? E as 500 lançadas com pompa e circunstância num hospital de campanha montado no Estádio Universitário de Lisboa e de que nunca mais se ouviu falar?

5 de Abril. A discussão que a DGS alimenta, sem tomar uma posição clara, sobre se se deve ou não usar máscaras e se se deve ou não generalizar os testes, tem, obviamente, na base de todas as hesitações e contradições, uma única razão de ser: não há máscaras nem testes que cheguem. Aproveitando ver uma farmácia absolutamente sem ninguém, em Lisboa, resolvo fazer o teste da máscara: avio uns remédios que não têm nada a ver com a covid e depois pergunto se têm desifectante para as mãos. “Só álcool a 70 graus”, responde a menina. “E máscaras?”, pergunto.

De repente, ela põe-se a olhar para o computador e de soslaio para a colega e responde a meia voz: “De momento, não.” Colado no balcão está um discreto letreiro com o desenho de uma máscara e a indicação do preço: 5 euros (dez vezes o preço de custo). Percebo: são 5 euros, se houver muitas para vender; são 10 euros para as que estão reservadas, se forem poucas.

4 de Abril. Se a estratégia era, como todos recomendaram, a de contenção da dimensão da infecção, de modo a salvaguardar a capacidade do SNS, é forçoso reconhecer que o Governo actuou bem e a tempo. E os erros que tem havido e vai continuar a haver foram quase todos de responsabilidade técnica e não política. Basta comparar com o que sucedeu noutros países — e, desde logo, com Espanha e o desastre personalizado pela dupla Pedro Sánchez/Pablo Iglesias — para perceber, de boa-fé, que assim foi. Mas parece que o reconhecimento geral disto está a pôr segmentos da nossa direita de cabelos em pé.

Temos o eurodeputado Paulo Rangel às voltas com a dificuldade em explicar porque não propõe, preto no branco, a expulsão do Fidesz do grupo parlamentar europeu de que faz parte, mas que ainda arranja tempo e pretexto para se indignar com a “bravata” de António Costa face ao ministro das Finanças holandês, acusando-o de “navegar à vista” nesta crise e ameaçando-o de que “não pode falhar”. (Porque não empresta Rangel a sua infalível bússola ao PM?) Temos Alberto Gonçalves, no “Observador”, com uma tamanha raiva contra Costa que mesmo os leitores do “Observador” se insurgiram contra ele, levando-o a carpir pungentes lágrimas de genuína estupefacção e dor. E temos João Miguel Tavares, no “Público”, que, depois de ter escrito um patético artigo a exigir ao Governo uma data para “isto” acabar, levou também de volta com a revolta expectável dos leitores, acabando a reclamar-se vítima da liberdade de imprensa e do “pensamento único”, antes de, finalmente, achar por bem escrever novo texto em que reconhecia que, de facto, ninguém, a começar pelos cientistas, podia dizer quando e como é que isto podia acabar. Não havia necessidade… Vem aí uma crise económica feia como tudo e onde a direita terá certamente ocasião de brilhar. Um pouco de pa­ciência, senhores!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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