Ainda bem que o Covid não nos une

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 09/04/2020)

Ainda bem que podemos continuar a ver diferentes opções ideológicas.

Ainda bem que a propósito de uma lei muito ponderada sobre a libertação de alguns presos para evitar uma catástrofe nas prisões pudemos ver o PSD a lançar a ideia divisionista segundo a qual proteger a saúde pública, os presos e os guardas prisionais é desproteger os idosos. Ainda bem que pudemos assistir ao confronto parlamentar entre aqueles que resistiram ao apelo fácil da demagogia e a soluções impossíveis do ponto vista dos meios e aqueles que preferiram capitalizar alguma coisa com o compreensível nervosismo social. Ainda bem que fica gravado na história deste período terrível quem contribuiu, de facto, para proteger todos, mas todos os espaços da pandemia e, portanto, também as prisões, num justo equilíbrio entre os valores da segurança e da saúde, e quem ficou de fora (Direita e PAN).

Ainda bem que há quem esteja interessado, por mais difícil que isso seja, em falar do que nos divide.

Ainda bem que o tempo do Covid permitiu a Paulo Núncio, ex secretário de estado dos assuntos fiscais entre 2011 e 2015, abrir o apetite à receita falhada de fazer doer nos funcionários públicos. Não tenhamos dúvidas de que a união deste momento, em muito necessária, não impedirá o regresso das propostas da austeridade que pensávamos vencida. Vamos ver quem estará ao lado dos funcionários públicos, hoje tão elogiados e tão necessários ao funcionamento do Estado social, e quem não hesitará em instigar a dicotomia de guerrilha com os trabalhadores do setor privado, exigindo cortes e mais cortes, chamando a isso uma “política reformista”. Tal como na questão dos presos, talvez apareça um porta voz descuidado a dizer que não podemos assegurar direitos aos trabalhadores do setor privado se os assegurarmos aos do setor público.

Ainda bem que para os problemas dramáticos que enfrentaremos relacionados com a pobreza, com a exclusão social e com a discriminação não haverá unanimidade alguma, como nunca houve. Quando construirmos políticas ativas para acudir ao mundo do trabalho despedaçado pela pandemia, o neoliberalismo estará vivo e de saúde, e ainda bem, porque as lágrimas unânimes de hoje pelos trabalhadores aflitos, pelos idosos ou pelas mulheres em risco não se traduzirão num amanhã a exigir em eco intervenção estadual.

Ainda bem. Percebe-se que nestes tempos haja união para muita coisa. Não se percebe que se crie a ilusão de que haverá uma espécie de horripilante união nacional (o termo é propositado) após a epidemia. Precisamos de política, de democracia, das nossas diferenças. Pela minha parte, sei onde estou, onde estarei, sei da barricada democrática do meu combate.

E ainda bem.


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8 pensamentos sobre “Ainda bem que o Covid não nos une

  1. Bem, desculpe lá, mas eu não vou festejar que um partido de tal importância, que vai voltar a ganhar eleições, continue a demonstrar alegremente a sua ignorância económica e o seu desprezo por quem os elege.

  2. Sim, vamos ver quem instigará cortes nos salários da FP e nas pensões de reforma. Não têm sido só vozes do PSD a preconizar essa ideia. Já vi o presidente de Câmara PS a defender a ideia e um ex-ministro das Finanças de um governo PS.

  3. Esta personagem vive do combate ideológico per se, eterno e baboso. Claro que não gosta de ver as pessoas unidas, pois isso tira-lhe o palco e prejudica-lhe a carreira. Temos pena!

  4. Concorde com tudo menos com a libertação dos presos.

    Era o que faltava a uma crise de saúde juntar uma crise de segurança.

    Se são um grupo de risco que fiquem isolados nas celas.

    • No tipo de crimes dos presos em discussão, isso não se coloca. O risco maior será alguém que perdeu a carta pegar no carro.

      • Ninguém vai preso por causa disso.

        Em compensação podemos ter uma vaga de carteiristas e de burlões a dar-nos cabo da vida.

        Nem sei se para os hiper-tolerantes juízes tugas os roubos por esticão não serão considerados inofensivos.

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