Agora vejo ao longe

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/05/2022)

Miguel Sousa Tavares

Esta semana vim a Lisboa — uma semana bem escolhida, a semana dos jacarandás em flor. Já não vinha aqui há dois meses, desde que me mudei, de armas e bagagens, para o Sul-Sul, onde Portugal acaba. Não foi um impulso nem uma decisão covid. Foi um projecto de vida, longamente meditado e amadurecido, que passou por um ano de busca de um local onde plantar uma casa e depois por dois anos de construção da casa, imaginada, desenhada e acabada ao mais pequeno pormenor ao longo de incansáveis viagens e infinitas noites acordado — durante e apesar dos dois anos de covid e confinamentos e dificuldades de toda a ordem. Mas a casa fez-se e plantaram-se árvores, nasceu um jardim, um pequeno pinhal, uma vinha, terraços, fontes, um mar, um céu de estrelas e uma ilusão de eternidade ou de felicidade em frente e para sempre. Mas tudo tem um preço: nada disto teria sido possível sem as redes sociais. E é disto que eu vos quero dar testemunho, não dar exemplo: nada disto me teria sido possível se ao longo destes anos eu tivesse perdido um minuto que fosse nas redes sociais. Eu jamais estive no Facebook, no Twitter, no Instagram, no TikTok, no WhatsApp, no Não Sei Quê — um minuto que fosse. E sabem que mais? Não apenas tenho sobrevivido como tenho aproveitado para viver. Para aproveitar o tempo assim não desperdiçado para imaginar, sonhar, meditar, fazer, construir.

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Agora, lá onde vivo, acordo de manhã, tomo um duche num chuveiro que tem uma janela de onde vejo os melros, os rabilongos, as rolas e os coelhos, depois vou até à aldeia, onde compro os três jornais em papel que leio todos os dias (mais os três que leio online, porque, sim, a net eu uso como instrumento de trabalho), e sento-me a tomar o pequeno-almoço, conversando com os velhos da terra, avaliando de que lado vai soprar o vento e se é dia para ir à praia ou ao mercado do peixe, e em tudo isso eu posso perder tempo porque não tenho de postar fotografias a dizer onde estou nem de escrever posts ou de alimentar as minhas contas de correspondência com gente que não está ali a conversar comigo cara a cara. Assim fazendo, sei que estou vivo e não apenas a imaginar que estou a viver. Porém, é verdade que na sua instantânea sabedoria, na sua irreprimível ânsia de jamais chegarem atrasados ao lado certo de cada causa, os das redes sociais vêem tudo muito mais depressa e muito mais irremediavelmente do que eu, que me tomo de vagares, de dúvidas ou de memórias que tento esclarecer nos livros da estante, de pensamentos ao luar ou de perguntas estúpidas que faço a mim mesmo, sem “amigos” de Twitter para me socorrerem. E, por isso, perdoem-me se me ocorrem comentários porventura tão deslocados como os que abaixo se seguem.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Durante anos fiz a Avenida de Ceuta duas ou três vezes ao dia e não me lembro de ter presenciado mais do que um acidente ou atropelamento. Mas agora que ao fim de longas obras entraram em vigor os novos radares panorâmicos controlando a velocidade máxima de 50 km/hora, assisti a dois acidentes em três dias. Pergunto-me se não terá sido a distração de circular a passo de caracol numa avenida com três faixas de rodagem e que durante o dia está completamente desimpedida que os causou. Agora, um deputado municipal do Livre — aliás, ‘o’ deputado do Livre — lembrou-se de propor, e os outros da oposição de aprovar, a velocidade máxima de 40 km/hora em toda a cidade de Lisboa. Vai acontecer uma de três coisas: ou ninguém cumpre e ninguém consegue fiscalizar, ou ninguém cumpre e a polícia vai dedicar-se a um massacre fiscal sobre todos, ou todos cumprem e o trânsito ficará caótico, as filas imensas e a poluição insuportável. Mas, de caminho, o mesmo deputado e os seus prestimosos apoian­tes aprovaram também a proibição de circulação na Avenida da Liberdade e ruas adjacentes aos domingos e feriados — sem estudos prévios, sem consultar ninguém, sem ponderar os interesses económicos atingidos, sem pensar se as pessoas queriam. Não há pior demagogia do que a destes impulsos pseudomodernos e politicamente correctos, e são sobretudo os partidos minúsculos que gostam de recorrer a eles para dar nas vistas: um só deputado decide sobre a vida prática de milhares ou milhões de pessoas, inchado no seu pequeno-grande poder. E os outros vão atrás, ou porque têm medo de não parecerem “modernos” ou porque a sua grande visão para a cidade é lixar a vida a quem ganhou as eleições. Podiam antes ocupar-se de causas consensuais, tais como proibir a atracagem de navios de cruzeiro, os grande poluidores do ar de Lisboa, enquanto não tivessem terminais de carga eléctricos, ou proibir a poluição visual dos guarda-sóis e cadeiras em cores berrantes dos patrocinadores nas esplanadas da cidade. Mas para isso era preciso coragem, atingir interesses organizados e concretos, não bastando a falsa coragem de atingir a população anónima e silenciosa. Ainda bem que já não vivo em Lisboa.

3 A vida política portuguesa está tão interessante que há dias o principal diário do país fazia manchete com a descida do IVA nos produtos de “higiene menstrual”. Aliás, uma proposta de outro partido de um só deputado, o PAN, pôs a questão menstrual no centro do debate do Orçamento no Parlamento. Em nome “das mulheres e outras pessoas com útero” (é assim que se deve dizer agora), a deputada Surreal queria introduzir uma licença de menstruação laboral, copiando o que terá visto em Espanha. A questão acirrou os ânimos de umas deputadas contra as outras, fazendo estalar a guerra entre o “feminismo bacoco” e o “retrocesso civilizacional”. Senti-me um saloio de visita à capital.

Não há pior demagogia do que a destes impulsos pseudomodernos e politicamente correctos

4 Entretanto, nas suas intermináveis, doutíssimas e chatérrimas alegações a favor da regionalização, a dupla Valente de Oliveira/Miguel Cadilhe veio, entre outros, questionar o argumento de que a coisa engrossaria ainda mais o já desmesurado número de funcionários do Estado. Não, dizem eles, pois que com a transferência de competências do Estado central para as regiões muitos funcionários de Lisboa mudar-se-iam alegremente para a província. Dias depois, ficou a saber-se que o programa de incentivos que o Governo lançou há dois anos — aproveitando as apregoadas novas tendências de trabalho à distância e a apetência pela vida no campo — havia atraído exactamente dez entre 733.495 funcionários públicos dispostos a trocarem o centro pela periferia. Também já se tentaram mudar serviços em bloco — o Infarmed ou o Tribunal Constitucional — e a revolta dos funcionários matou à nascença as iniciativas. Ou se muda radicalmente o estatuto dos funcionários públicos, arriscando uma guerra civil ou não adianta estar com teorias que a realidade não sustenta.

5 Dos jornais cito as conclusões de dois estudos, daqueles que, verdade se diga, nunca se percebe bem com que rigor são feitos, mas que produzem sempre conclusões muito citáveis: “Um terço dos alunos apresenta sinais de sofrimento psicológico; mais de metade dos professores sente-se triste e irritada.” Ao que parece, concluindo, uns e outros não se suportam. Assim vai a nossa escola.

6 Seria sem dúvida interessante — e importante — perceber as diferenças que separam os dois candidatos à liderança do PSD. Mas parece que tal nos é vedado pela sobrecarga da agenda do candidato Luís Montenegro. Seria muito curioso conhecer a agenda do candidato para saber que coisas tão importantes e inadiáveis o impedem de ter uma hora disponível para debater com o seu adversário.

7 Depois de sucessivas ameaças à Rússia, Biden foi à Ásia ameaçar a China com outra guerra. Por onde passa, o homem é uma bomba nuclear em movimento. Observadores bondosos trataram logo de classificar as suas declarações como “gafe” — mais uma. Mas logo no dia seguinte, em Davos, o secretário-geral da NATO, Stoltenberg, pegou na “gafe” e avisou os países ocidentais para se restringirem no comércio com a China, pois estava ali o próximo inimigo. Estarei enganado ou qualquer coisa no nome NATO remete para o Atlântico Norte?

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Os bem informados

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/05/2022)

Miguel Sousa Tavares

Os bem informados tinham-nos avisado de que em 9 de Maio, no discurso do Dia da Vitória, Vladimir Putin iria anunciar, cumulativamente ou em alternativa, as seguintes coisas: a vitória militar na Ucrânia, a mobilização geral com vista à vitória, a declaração formal de guerra à Ucrânia ou — o mais assustador de tudo — a ameaça de utilização de armas nucleares para garantir a vitória. Verdade se diga que as suas previsões não se fundamentavam em nada que Putin ou os russos tenham deixado antever, mas sim nas suas particulares fontes e privilegiadas intuições.

E em 9 de Maio, na Praça Vermelha, com o habitual aparato mas menos soldados e sem força aérea, Putin fez tudo ao contrário das doutas previsões dos bem informados. Chamou à colação duas das batalhas históricas dos russos contra invasores externos, para lembrar que as batalhas determinantes da história da Rússia não foram para invadir território alheio mas sim para repelir invasões no “solo sagrado” da “Mãe Rússia”. E, deixando de fora qualquer referência aos 26 milhões de mortos russos na Grande Guerra Patriótica contra a Alemanha nazi, sustentou a invasão da Ucrânia como uma “acção preventiva e sem alternativa”, fundamentada num argumentário em parte já conhecido — o cerco da NATO nas fronteiras da Rússia e a ausência de resposta às propostas de Moscovo para uma solução mútua de segurança — e noutra parte desconhecido e por provar — que a Ucrânia estava a tentar dotar-se de armamento nuclear. Aliás, no capítulo do nuclear — onde tanta especulação e tantos temores tinham sido avançados, e com alguma razão —, Putin, dirigindo-se directamente aos soldados, teve uma frase que, não sendo hipócrita, é merecedora de reflexão: “É vosso dever evitar que o horror da guerra global aconteça novamente.”

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Em suma, o tão temível discurso de guerra de Vladimir Putin desiludiu todos os bem informados e todos os que, a milhares de quilómetros de distância, sentados em frente ao conforto do seu computador e contemplando na televisão as imagens de destruição e morte na Ucrânia, escrevem como Pacheco Pereira: “Estou todos os dias mais belicista. Com isto não é possível nem entender, nem pactuar, a não ser por covardia, nem negociar. Isso mesmo, nem negociar.” E, por isso, no dia seguinte, de Nova Iorque a Londres, de Helsínquia a Lisboa, na ausência de um discurso de guerra de Putin, o “Clube NATO” já tinha uma resposta perfeitamente afinada e sincronizada: “Putin não teve um discurso de vitória para apresentar.” Seria uma oportunidade, então, para lhe propor a paz? Não, pelo contrário. Foi uma oportunidade para o que Lloyd Austin, o secretário da Defesa americano, anunciou serem os objectivos da NATO na guerra da Ucrânia: enfraquecer a Rússia até ao ponto de a deixar impotente. E se Putin, aparentemente, excluiu o recurso à arma nuclear, tanto melhor, a guerra é grátis para a NATO. Só a Ucrânia é que paga.

Aliás, a guerra não só é grátis como é um excelente negócio para a NATO: vende armas a todos os membros, que agora não podem negar-se ao esforço de rearmamento, acrescenta novos membros e nova geografia, ganha nova razão geoestratégica sobre um cadáver anunciado, testa em campo de batalha, e não apenas em manobras de rotina, as suas capacidades militares e de armamento e descobre, com volúpia, as fraquezas do inimigo russo. Tudo graças ao erro de avaliação e à soberba de Putin e ao sacrifício dos ucranianos.

No mesmo dia 9 de Maio, Zelensky resolveu responder à parada da Praça Vermelha desfilando sozinho numa das principais avenidas de Kiev. A cena foi patética: vestido com o habitual uniforme militar, o herói de nenhuma batalha travada, o Churchill da Ucrânia, pop star de todos os Parlamentos e descrito como um génio da comunicação, dizia a Putin que em breve iria ter dois dias da vitória para celebrar contra nenhum do russo. Há um mês, Zelensky desdobrava-se em ofertas de negociações, dizia já ter abdicado da Crimeia e da NATO e acusava o Ocidente de estar a prolongar a guerra à custa da destruição da Ucrânia. Hoje mudou radicalmente: diz que não cederá nem um centímetro de território, que está a lutar contra nazis e que só a vitória lhe interessa. O que mudou, entretanto, foi que a NATO o convenceu de que, com o apoio que não lhe faltaria, ele iria derrotar os russos e entrar para a História como o homem que venceu o Exército Vermelho, mesmo que à custa da destruição da Ucrânia. Um grande líder patriótico dirige a resistência do seu povo a uma invasão externa — e isso Zelensky soube fazer. Mas também sabe negociar quando percebe que é melhor para o seu povo um acordo com o invasor do que a glória pessoal de uma hipotética vitória militar sobre ele. E isso Zelensky já deixou de estar interessado em fazer. Dir-me-ão que Putin também não, e eu estaria de acordo até segunda-feira passada. Mas, se é possível ler entre linhas, o discurso da “não-vitória” de Putin talvez tenha mostrado um líder cansado de uma guerra que o arrasta cada vez mais para um beco sem saída. Já sucedeu antes no Afeganistão, e a então URSS retirou-se.

O problema também é que, neste momento, Zelensky é prisioneiro da imagem que o Ocidente criou dele, a de um herói da liberdade, numa sociedade e em tempos sem heróis a sério e com heróis instantâneos, prontos a consumir. Políticos medíocres, sem nenhuns horizontes além das próximas eleições, como Boris Johnson, encostam-se a Zelensky vegetando na sua boleia, da mesma forma que a NATO enfrenta a Rússia à boleia da Ucrânia. E isso é facilitado por uma coisa que já antes aqui escrevi e que tem passado tranquilamente face à indiferença geral: estamos perante a mais unilateral cobertura mediática de um conflito a que alguma vez assisti. Não culpo por isso directamente a imprensa ou os jornalistas, que relatam o que vêm e o melhor que podem, cumprindo a sua missão de denunciar o horror de uma guerra e o estendal de morte e destruição que a Rússia levou à Ucrânia. A questão é que eles estão apenas junto de um dos lados e reportando apenas aquilo que esse lado deixa e só depois de as coisas acontecerem: não assistem aos combates nem aos invocados massacres, não falam com o outro lado nem têm acesso à sua versão do mesmo acontecimento. E é sobre isso que depois os “analistas” e os “especialistas” extraem as suas conclusões, sempre de sentido único.

Um bom exemplo disso é o que se passou com os civis encurralados com os militares na fábrica Azovstal, em Mariupol. Durante dois meses foi-nos contado que mais de 1200 civis, mulheres e crianças, estavam refugiados nos subterrâneos da Azovstal, impedidos de sair pelos russos, que violavam sistematicamente todos os acordos de evacuação estabelecidos, incluindo os propostos pelos próprios russos. Ninguém nunca contestou a versão ucraniana e ninguém no terreno a confirmou. Mas quando António Guterres conseguiu colocar pessoal da ONU em Azovstal, em dois ou três dias, como que por milagre, todos os civis que quiseram foram evacuados sem qualquer incidente. A pergunta é: por que razão nunca alguém levantou a hipótese de os civis estarem a ser retidos pelos próprios militares do Batalhão Azov, que os usou como escudo, tentando assim garantir uma coisa impossível na guerra — saírem em liberdade juntamente com os civis sem terem de se render? O mesmo aconteceu em relação às incansáveis imagens de destruição de edifícios civis bombardeados pelos russos e às infindáveis entrevistas aos sobreviventes civis desses bombardeamentos. As imagens são tão revoltantes como as de qualquer outro conflito, como no Iémen ou na Síria, só que aqui, em maior escala e diariamente filmadas por centenas de jornalistas, transmitem uma narrativa de absoluto caos e de destruição quase sem precedentes. Em contrapartida, são escamoteadas quaisquer imagens dos alvos militares onde se sabe que os russos têm concentrado o grosso dos seus bombardeamentos, de modo a passar a ideia de que o alvo é indiscriminado e atinge sobretudo civis. E, todavia, segundo os números divulgados pela ONU em 9 de Maio, morreram na Ucrânia, ao fim de 75 dias de guerra, 3381 civis, embora estes números possam vir a ser “consideravelmente maiores”. Mas sabem quantos civis morreram no bombardeamento aéreo de dois dias dos Aliados a Dresden, durante a II Guerra Mundial? 22 mil. E em Hamburgo 50 mil. E 100 mil em Hiroxima e 70 mil em Nagasáqui, só no primeiro dia após despejada a bomba atómica, sem que em nenhum caso se tenha falado em “crimes de guerra” ou em “genocídio”, como agora se fala a propósito dos mortos civis na Ucrânia. Sendo que em Dresden bombardeou-se deliberadamente o centro da cidade, com o objectivo declarado de atingir a “força de trabalho alemã” — ou seja, as mulheres, visto que os homens estavam na guerra. Aqui, na guerra da Ucrânia, confunde-se o horror que qualquer guerra é com o horror particular que se pretende atribuir a esta, como se houvesse guerras limpas em que só morrem combatentes.

Nada disso torna a invasão e a guerra que Putin levou à Ucrânia mais justificável ou menos condenável. Esta é, como disse Charles Michel, uma guerra do século passado, que julgávamos já não ser possível no século XXI. Porque acreditávamos que existiam suficientes mecanismos internacionais capazes de a evitar, assim houvesse vontade. Mas esses mecanismos falharam e continuam a falhar, como está à vista. E, se há um só culpado pela invasão, há mais culpados pela continuação da guerra, e a desinformação, a informação truncada, incompleta ou unilateral é a sua principal arma. Um dia saberemos a história toda.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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O Ocidente

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 06/05/2022)

Miguel Sousa Tavares

O colossal erro político e estratégico de Vladimir Putin ao invadir a Ucrânia tem conseguido, até agora, produzir todos ou quase todos os efeitos opostos àqueles que ele visava com essa invasão. Na exacta medida em que ele, ditador iluminado, conseguiu confundir a Rússia com a sua própria pessoa, está a caminho de transformar o país num Estado pária e de desencadear um sentimento universal de russofobia, que vem a par com a exaltação, por contraponto, do que chamam as “sociedades liberais” — ou seja, as democracias ocidentais ou o Ocidente tout court. Este movimento, fomentado por jornalistas, políticos e intelectuais — e, na sombra, por outros poderes menos inocentes —, é em si mesmo perigoso, antes de ser arrogantemente inculto.

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Mas comecemos pelo princípio. A ideia de Ocidente não é hoje um conceito geográfico, mas sim político ou geopolítico: não abrange África, excepto alguns países do Norte que estão a ser subtilmente comprados pelo Ocidente “democrático”, nem a maioria dos países da América Latina, mas incluí países asiáticos como a Índia e o Paquistão. No conceito de Ocidente cabem, então, todos os países que o “núcleo duro” das democracias liberais aceita dentro do seu clube e que, umas vezes melhor, outras vezes pior, cumprem um mínimo de regras que o clube apregoa defender: eleições livres, liberdade de expressão e de imprensa, justiça independente, economia de mercado, liberdade de circulação de pessoas e bens. Na prática, porém, o cumprimento das regras é tão elástico quanto as necessidades políticas conjunturais do clube o justificam. Assim se passa com Israel sempre, com países como o Chile ou a Argentina em períodos alternados, com a Índia ou o Paquistão em época de monções, com Angola em alturas de oportunidades ou, na própria Europa, com a Hungria ou a agora “heróica” Polónia. Mesmo a Rússia de Putin, antes da funesta decisão de entrar Ucrânia adentro, era tolerada dentro do clube, apesar das suas eleições muito pouco livres, de Navalny e de outros dissidentes misteriosamente envenenados.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Mas, politicamente, o clube está certo nos seus fundamentos. Qualquer cidadão do clube prefere ser “árabe” em França do que palestiniano em Israel, prefere ser da oposição em Itália do que ser dissidente na Rússia. Mas o clube faz as suas próprias excepções: o príncipe e regente saudita Mohammed bin Salman, que mandou matar e cortar aos bocados o jornalista saudi-americano Jamal Khashoggi na Embaixada da Arábia Saudita em Ancara, continuou um respeitado parceiro de negócios do clube; e os melhores amigos de Putin, os salteadores da arca russa, vulgo “oligarcas”, eram os melhores amigos dos tories e da elite inglesa até há dois meses, quando Boris Johnson descobriu em Putin um novo Estaline e em Zelensky um novo Churchill. Mas essas excepções casuísticas às boas regras não invalidavam aquilo que constituía um dos melhores atributos das nações democráticas, actuando sozinhas ou em conjunto, que era a sua capacidade para entenderem e se relacionarem com outras nações de crenças e ideologias diferentes, estabelecendo pontos para o comércio justo e a convivência pacífica.

A democracia é, por definição, o sistema que não exclui nem persegue os que pensam diferente. E a Europa, onde hoje se pensa acriticamente a reboque da vontade de ingleses e americanos, era um belo exemplo disso — embora infrutiferamente, como agora nos contam. Desde que existe qualquer tipo de organização política nas sociedades humanas, nenhuma foi tão longe e foi tão perfeita em matéria de garantia de direitos individuais e de solidariedade entre Estados como a União Europeia.

A tal ponto que até podemos dizer que o país-farol da democracia, os Estados Unidos da América, se quisessem aderir à UE, não cumpririam os critérios de adesão, de tal forma a sua “democracia liberal” consente a usurpação de direitos individuais que os europeus têm como adquiridos e é baseada numa absoluta libertinagem do mercado, corrompendo os fundamentos da própria democracia, como Elon Musk acaba de demonstrar.

Aliás, os Estados Unidos são o melhor exemplo da dificuldade em apresentar um padrão de conduta que justifique a invocada superioridade moral, adquirida e permanente, das “democracias liberais” sobre tudo o resto. Em todos os campos — científico, artístico, económico, militar — os Estados Unidos são capazes do melhor e do pior. São capazes de liderar pelos direitos humanos e depois transformarem-se quase num Estado teocrático, ao nível das comunidades, dos Estados, do Supremo Tribunal; são capazes de derramar o sangue dos seus para socorrerem os aliados, mas também de os abandonar no campo de batalha, como fizeram com os afegãos e os curdos da Síria; são capazes de se moverem por princípios mas também de conviverem e conspirarem com assassinos da América Latina ou do Médio Oriente. A sua bússola moral varia conforme as maiorias no Congresso e no Supremo Tribunal e conforme o ocupante da Casa Branca: depois de um Kennedy vem um Nixon, depois de um Carter vem um Reagan, depois de um Clinton vem um George W. Bush, depois de um Obama vem um Trump. Toda esta gritaria que Biden faz agora em nome do Bem contra o Mal, não existiria se ele tem perdido as eleições há ano e meio: com Trump reeleito, a Ucrânia estaria entregue à sua sorte.

Graças a Putin, aqui, no Ocidente, estamos confrontados com uma ofensiva dos novos Cruzados para quem, sorte a deles, tudo se tornou cristalinamente claro

Mas agora, graças a Putin, aqui, no Ocidente, estamos confrontados com uma ofensiva dos novos Cruzados para quem, sorte a deles, tudo se tornou cristalinamente claro e quem assim não vê é fuzilado na praça com um rol de novas ofensas: “antiamericanos”, “iliberais”, “russófonos”, “diletantes”. Presumo que tanto fervor ocidental tenha ainda por matriz filosófica a louvada civilização judaico-cristã, mãe inspiradora de todos os nossos valores. Lamento, mas não é a minha. Eu sou filho dilecto da civilização greco-romana-árabe, a que nasceu e floresceu no Mediterrâneo, a civilização da luz e da liberdade, dos pátios, dos terraços e dos templos, e não a das catedrais e do terror, a civilização que derrotou os “bárbaros” (alemães e povos do Norte), a que construiu o único império onde os conquistados preferiam reger-se pela lei do conquistador (Roma) do que pela própria lei, que lhes parecia mais injusta. A minha “casa” na Europa fica nas ilhas gregas, em Roma ou em Taormina, em Trás-os-Montes, em Córdoba ou em Lisboa, e mesmo no Rio de Janeiro ou em Buenos Aires. Não fica em Frankfurt, nem em Manchester ou em Varsóvia, por muito que eu goste de ir a toda a parte e em toda a parte goste de voltar para casa.

Em “O Sentimento dum Ocidental”, Cesário Verde escreveu: “Ocorrem-me em revista exposições, países:/ Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo”. Fosse hoje, e ele teria de cortar São Petersburgo da lista, pois que, pelos novos mandamentos, a Rússia deixou de ser sinónimo de Europa e de “mundo”, no sentido de civilização ocidental — ou apenas de civilização — que ele lhe deu no seu poema. E, todavia, poucas cidades são hoje tão europeias, sob todos os pontos de vista, como São Petersburgo. E não apenas porque Pedro, o Grande sonhou com uma Nova Amesterdão ali, no Báltico, e trouxe alguns dos melhores arquitectos europeus para a desenharem e Catarina, a Grande encheu o Hermitage com milhares de obras que testemunham séculos da melhor pintura europeia. Apesar de Putin e tudo o resto, apesar do discurso de Putin sobre o destino euro-asiático da Rússia (de que não foi o inventor nem o único sonhador e que é natural num país que se estende de Murmansk e Vladivostoque, ao longo de 12 fusos horários), a verdade é que São Petersburgo, tal como Moscovo, é hoje uma cidade exuberantemente europeia. Nas “noites brancas” de São Petersburgo, os extraordinários restaurantes da cidade estão abertos até às duas da manhã e há uma animação e uma história latente em toda a cidade que contrasta de forma chocante, assim que se faz a curta travessia férrea para Helsínquia, com a desolação e a tristeza fúnebre da capital finlandesa, onde os restaurantes fecham às 8 da noite e a grande distração dos locais é atravessar de ferry para Taline, na Estónia, para irem comprar álcool mais barato. No meu conceito de civilização, São Petersburgo é irremediavelmente ocidental, geneticamente europeia e até tem qualquer coisa de estranhamente mediterrânico; Helsínquia… não é nada, é como se nada ali tivesse acontecido. Mas parece que agora, indo paradoxalmente ao encontro das ideias de Putin, a Rússia deixou de ser Europa e Ocidente aos nossos olhos, enquanto que a Finlândia — futuro membro da NATO, terra de pilotos de rallies e Fórmula 1 e pátria de dois arquitectos notáveis, Alvar Aalto e Eero Saarinen, e nada mais — é um verdadeiro símbolo dos nossos valores culturais e civilizacionais. Assim sendo, só resta regressar, concordando, a “O Sentimento dum Ocidental”: “Nas nossas ruas, ao anoitecer/ há tal soturnidade, há tal melancolia/ Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia/ Despertam-me um desejo absurdo de sofrer”.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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