200 anos de fado tropical

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/09/2022)

Miguel Sousa Tavares

A triste prova de que o Brasil é hoje um projecto falhado é que anteontem, no dia em que se celebraram os seus 200 anos de independência, o que ocupava as manchetes dos jornais brasileiros não era nem a história, nem a celebração, nem a exaltação do presente ou a outrora inabalável esperança no futuro, mas apenas o retrato a negro de um país tenso, dividido, onde se fala abertamente de golpe e se discute se a população deve ou não poder comprar ainda mais armas para enfrentar as decisivas eleições do próximo dia 2 de Outubro. De acordo com todas as previsões, Bolsonaro — cujo Governo passou um ano inteiro a desprezar ostensivamente o bicentenário da independência — aproveitou a data do 7 de Setembro para a transformar num misto de demonstração de força militar e intimidação política, transformando as cerimónias num indecoroso comício eleitoral, pondo soldados a desfilar ao lado de camionistas e tractoristas representativos da sua base de apoio rural e dos que desmatam uma área equivalente a 17 campos de futebol todos os dias na Amazónia — e com o nosso Presidente, como também era mais do que previsível, a prestar-se a caucionar aquela indecorosa fantochada. Ao mesmo tempo, Bolsonaro chamava “vagabundo” ao presidente do Supremo Tribunal Eleitoral e convidava para a tribuna de honra do desfile em Brasília, ao lado de Marcelo, oito empresários que, através de um grupo no Whats­App, tinham apelado a um golpe de Estado caso ele perca as eleições de 2 de Outubro. Ora, quando um Presidente da República em funções celebra assim 200 anos de independência do seu país, está quase tudo dito sobre o estado a que chegou esse país e o que ele fez com os seus dois séculos de independência.

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Quase, mas não tudo. É preciso acrescentar que o Brasil nasceu, por mandato divino, como um dos países mais ricos do mundo, no solo, no subsolo e na sua imensa extensão terrestre e marítima, a maior de qualquer país atlântico. Desde a sua descoberta pelos portugueses (sim, descoberta, desculpem lá), o Brasil viveu sucessivos ciclos de riqueza, ditados pela generosidade da sua terra ou das suas entranhas: o da madeira, o da cana-de-açúcar, o do algodão, o do ouro e dos diamantes, o do café, o da borracha, o do gado, o do aço e outros minerais. E agora o da destruição da Amazónia, que, a prazo, será uma tragédia para o Brasil e para o planeta. Acresce que ao longo da sua história, desde a chegada dos portugueses, o Brasil foi ainda beneficiado por uma mão-de-obra escrava, primeiro índia, depois negra: mais de cinco milhões de almas arrancadas de África pelo tráfico negreiro e que construíram o Brasil — uma infâmia só terminada com a abolição da escravatura em 1888, quase 70 anos depois da independência. Assim, já bem entrados no século XXI, podemos dizer que não existiu nenhuma razão — histórica, económica, social ou política — para que o Brasil não fosse hoje um dos países mais desenvolvidos e mais justos do mundo.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Todavia, desde que conheço o Brasil — já lá vão muitos anos e muitas, muitas visitas, desde a Amazónia até lá abaixo —, raras foram as vezes em que, falando da história do Brasil com brasileiros, não tive de escutar um rol interminável de explicações e lamentações com as culpas dos estrangeiros: portugueses, “castelhanos” ou americanos. Mas jamais culpas próprias. Como português, dói-me particularmente, claro, assistir ao amor não retribuído, antes maltratado, que o comum dos brasileiros tem por nós (hoje, é verdade, bastante mitigado pelos brasileiros que se deram ao trabalho de conhecer Portugal e aos 300 mil que aqui vivem). Os estereótipos históricos, culturais ou sociais, do roubo do ouro do Brasil, do azar de Pernambuco não ter ficado holandês ou o do Manel de bigode que só prestava para padeiro, por exemplo, são coisas que os meus olhos e os livros de História me ensinaram serem impiedosas mentiras. O “roubo do ouro do Brasil”, o célebre “quinto real”, era o imposto da coroa, correspondente, portanto, a 20% — tomáramos nós, portugueses e brasileiros, que o Estado nos cobrasse hoje apenas isso! Porém, talvez nem um quinto desse quinto tenha, de facto, chegado ao Terreiro das Naus e aos carrilhões de Mafra, perdido nos assaltos da “estrada do ouro” para Paraty ou desviado pelos cobradores locais; em contrapartida, fez a prosperidade de Minas Gerais e deu berço a São Paulo. E, acima e antes, a Amazónia, que hoje Bolsonaro vende aos chineses sob a forma de soja, deve-a, inteirinha e intacta, ao primeiro-ministro português Sebas­tião de Carvalho e Melo, conhecido por marquês de Pombal, que ali mandou construir sete fortes ao longo das suas imensas fronteiras, com pedras trazidas do reino e para a defender das investidas “castelhanas”, e que para lá mandou povoadores dos Açores, a quem o reino dava alfaias e dinheiro em troca do casamento, de altar e papel passado, com mulheres índias. A grande frustração dos holandeses terem sido desapossados de Pernambuco, ainda hoje alimentada por muitos e em nome da superior colonização flamenga e da “espantosa” embaixada cultural do seu governador Maurício de Nassau, basta ir lá e ver: mal chegaram, os holandeses destruíram e queimaram Olinda, que os portugueses depois reconstruíram e ainda lá está, na sua serena beleza. Mas dos 60 anos de Holanda não há um edifício, um monumento, uma obra de arte, uma igreja ou uma quinta agrícola, pois que eles não foram para cultivar, mas apenas para roubar o açúcar que os portugueses cultivavam. E lá estava também, quando se veio embora D. Pedro de coração inteiro, toda a mata atlântica, hoje praticamente desaparecida, a que os portugueses acrescentaram fortes, portos, praças, vilas e milhões de coqueiros trazidos da Índia, como antes trouxeram a cana-de-açúcar e depois o café ou a árvore da borracha. Mas, enfim, pensando no que foi a África do Sul dos boers ou a colonização holandesa da Indonésia, talvez fosse melhor para alguns que um exército formado por portugueses, índios e negros não tivesse derrotado os holandeses na decisiva batalha de Guararapes, em 1648… A cada um a sua sonhada pátria.

De onde vem então este mal secreto que faz do Brasil um insuportável cemitério de esperanças?

Roubámos o Brasil? Sim, explorámos o Brasil, como qualquer colonizador explora uma colónia, e, no sentido literal, explorar é roubar. Todavia, eu olho para isso sem complexos nem sentimentos de culpa. Há, claro, a questão da escravatura, que mancha toda a história de forma incontornável. Mas ela também envolveu os brasileiros, antes e depois da independência, e a triste verdade é que sem a escravatura não existiria o Brasil de 1820.

Até lá, duvido de que o que roubámos ao Brasil não seja incomparavelmente menos do que o que lá deixámos, mesmo sem contar com dois trunfos inestimáveis: a unidade de um país imenso que não se fragmentou, ao contrário da América do Sul espanhola, e a língua que o une.

Duzentos anos depois, a desculpa da colonização portuguesa não colhe. Mais depressa a herança genética do fado de lamentação, que essa, sim, é uma maldição portuguesa. E, todavia, Deus também abençoou o Brasil com gerações de gente notável: construtores, arquitectos, escritores, artistas, músicos, cientistas, jornalistas e, às vezes, até políticos. De onde vem então esse mal secreto que faz do Brasil um insaciável cemitério de esperanças?

2 Eu faço parte dos portugueses que se sentiram gratos e quase resgatados na sua honra com o pedido formal e espontâneo de desculpa que António Costa fez em Maputo a propósito dos 50 anos do massacre de Wiriyamu. Não venham cá com argumentos de que só podemos pedir desculpa se os outros também pedirem ou de que, de desculpa em desculpa, nunca mais acaba a história. É preciso ter a noção da diferença entre o que é circunstancial e o que é intolerável e a noção da simples decência: um massacre é um massacre, não há mas nem todavias que o justifiquem. Em Wiriya­mu, uma tropa portuguesa, armada e fardada para defender o que então lhes disseram ser a pátria, abriu fogo sobre a população civil indefesa de uma aldeia moçambicana, deixando por terra 400 mortos, entre crianças, mulheres e velhos. Se hesitamos em entender isto como uma vergonha sem nome na nossa história, também não a podemos defender quando ela merece e precisa de ser defendida, como acima faço.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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A era da estupidez

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 26/08/2022)

Miguel Sousa Tavare

A guerra na Ucrânia fez seis meses e nenhuma das partes envolvidas — Rússia, Ucrânia e NATO — dá sinal de pretender sequer ponderar abrir negociações para lhe pôr termo. Não sei o que se passa na Rússia, com a sua opinião pública e os seus comentadores (se é que ainda os há, que possam escrever em liberdade). Mas aqui, no lado ocidental da opinião, a simples menção à necessidade de encontrar uma saída para a guerra faz desabar imediatamente em cima de quem se atreve a sugeri-lo a acusação de fazer o jogo de Putin e o epíteto, hoje insultuoso, de ‘pacifista’. E, enquanto se cobre a NATO de elogios e se louva a unidade inabalável dos europeus no apoio à Ucrânia e na defesa dos princípios democráticos, vemos a Suécia e a Finlândia entregarem refugiados políticos curdos a Erdogan como preço a pagar por entrarem na NATO, vemos Joe Biden a atravessar um oceano e um continente para se ir curvar aos pés do príncipe saudita que cortou um jornalista às postas e que espalha o terror islâmico em casa e financia-o fora de portas. E escutamos o apelo dos países bálticos para que todos os cidadãos russos sejam proibidos de entrar na Europa.

Mas a verdade é que se começa a temer o aparecimento de brechas nesta tão elogiada unidade europeia, à medida que o Inverno se aproxima e que mesmo a total subversão de todas as metas acordadas em Paris para conter o aquecimento global não dissipam o medo que o corte de fornecimento de gás russo à Europa faça as pessoas exigir o fim da guerra. Porque se as drásticas e “nunca antes vistas” sanções à Rússia para castigar a sua agressão atingiram praticamente todas as exportações, elas deixaram prudentemente de fora o petróleo e o gás, de que grande parte da Europa depende para se aquecer e fazer funcionar a sua economia.

E, depois de tantas sanções à Rússia, o cúmulo da ironia é ouvir falar da “chantagem russa” quando a Gazprom anuncia três dias de suspensão do fornecimento de gás através do Nordstream I. Mas apesar de tudo, e apesar das previsões sombrias da OCDE para a economia europeia no próximo ano, parece que a guerra está para continuar indefinidamente, e que vale a pena.

Pelo menos é o que tenho lido na pena de alguns sábios economistas, que nos garantem que, se nós estamos mal, na Europa, a Rússia está pior, com as sanções. Eis o que não pode deixar de servir de conforto suficiente, sobretudo num Verão em que vemos todos os rios da Europa secos como nunca, as florestas em chamas e o planeta a caminhar inexoravelmente para um desastre cujo combate deveria ser a prioridade absoluta de quem nos governa.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Estava o mundo neste pé, quando Nancy Pelosi resolveu melhorar ainda mais as coisas indo a Taiwan provocar a China. Explicou-se dizendo que a China é uma ditadura que não respeita os direitos humanos, que cometeu o massacre de Tiananmen sobre os seus dissidentes, que ocupa ilegalmente o Tibete, que mantém os uigures em campos de concentração, que violou os acordos feitos com a Inglaterra sobre Hong-Kong, que não desiste da unificação com Taiwan e que é uma ameaça regional e planetária. Tudo verdades incontestáveis e sabidas há anos. E então? Quantas mais ditaduras há por esse mundo, e algumas amigas e aliadas dos Estados Unidos e do Ocidente, que a senhora Pelosi queira ajudar a derrubar? De que serviu a viagem senão para reforçar internamente o poder e a vontade expansionista do ditador chinês, para aumentar a um ponto extremo a instabilidade na região e para sabotar anos de esforços diplomáticos de aproximação entre dois mundos completamente diferentes, com resultados palpáveis e agora destruídos, como a cooperação no domínio das alterações climáticas?

3 No momento em que escrevo desconheço ainda o resultado das eleições angolanas, mas prevejo mais uma inevitável vitória do MPLA — com batota ou sem ela. Será uma desgraça e uma imensa oportunidade perdida para Angola. 48 anos de poder e 46% de pessoas a viverem abaixo do limiar da pobreza num país tão rico como Angola dizem tudo sobre a obra do MPLA.

4 As duas primeiras vezes que me deparei de caras com a agora chamada “linguagem inclusiva” aconteceram no Brasil e apenas me fizeram sorrir, longe de imaginar que mais tarde se tornaria moda e que de moda passaria a certidão de bom comportamento cívico e daí a quase imperativo — tão inútil, tão absurdo e tão idiota quanto o ridículo Acordo Ortográfico da língua portuguesa: o mais patético e humilhante documento jurídico alguma vez assinado por um Governo português.

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A primeira vez, aconteceu estava eu a fazer um filme de 60 minutos para a RTP sobre a história da colonização portuguesa da Amazónia — (um projecto editorial que hoje, apenas pelo seu objecto, obviamente não seria autorizado). E estava então em trânsito numa daquelas cidadezinhas amazónicas com nomes do Ribatejo — Santarém ou Almeirim, já não recordo —, quando uma noite me deparo com um comício eleitoral para a prefeitura local, a decorrer numa praça ao ar livre. Sobe ao palanque um candidato com pinta de jagunço dos livros do Jorge Amado, bate três vezes no microfone para se certificar que funcionava, e começa: “Meus povos…” Porém, detém-se, olha a plateia, faz uma pausa e recomeça. “E minhas povas.” Estávamos em 1987.

A segunda vez aconteceu vários anos depois, em Brasília, quando fui entrevistar Dilma Rousseff, acabada de ser eleita Presidente do Brasil. Antes de entrar para a entrevista, uma sua assessora perguntou-me se eu estava ciente de que a Presidente Dilma gostava de ser tratada por “presidenta”. Na verdade eu já tinha ouvido uns zunzuns sobre isso, mas fiz-me de parvo: “Sabe, eu falo português de Portugal. E lá, o substantivo presidente não tem género, tanto se aplica a um presidente homem como mulher. Se eu tratasse a presidente Dilma por ‘presidenta’, teria de tratar um Presidente homem por ‘presidento’. E, mais ainda: a senhora, por exemplo, teria de tratar o polícia federal que está ali fora por ‘senhor polício’.”

Apesar de tudo, e apesar das previsões sombrias da OCDE para a economia europeia no próximo ano, parece que a guerra está para continuar indefinidamente, e que vale a pena

Porém, o que então me parecia anedótico agora é real. Mas não porque os princípios tenham mudado ou porque a necessidade de lutar por eles tenha cessado. A luta contra a discriminação de género mantém-se actual e imperiosa em muitos lugares e muitas situações; o mesmo contra a discriminação sexual e mais ainda contra o racismo. O que mudou foi o discurso e, sobretudo, os intérpretes do discurso: esta auto-instituída vanguarda de aiatolas do pensamento autorizado e do protagonismo consentido que decretou quem é que pode falar em nome dos discriminados e defender os seus direitos, quem é que está autorizado a homenagear a sua cultura e respeitar os seus modos de vida, ficando todos os outros reduzidos ao silêncio, sentenciados como hipócritas e expiando as culpas seculares dos seus antanhos. A única coisa que os distingue dessa nobre Comissão para a Promoção da Virtude e Repressão do Vício que zela pela pureza islâmica na Arábia Saudita é que a estes ainda não lhes é possível cortar as mãos aos infiéis, mas apenas cortar-lhes as boas intenções, nessas madraças do terrorismo de massas que são as redes sociais (e é bem feito para as suas vítimas; ando há anos a pregar-lhes a solução: se se atreverem a viver sem as redes sociais, o que não custa nada, o veneno das víboras não os atinge, transforma-se em baba dentro da boca destas). Dá assim dó ver esses incautos que saem à contenda, carregados de boa consciência e boas intenções, contra os novos aiatolas e os seus mandamentos sobre a “linguagem inclusiva”, a “apropriação cultural” e o “movimento woke”, convencidos, ingenuamente, de que vão ao encontro de uma discussão séria. Não vão: estes fanáticos não querem nem discutir nem convencer. Querem proibir, atemorizar, afugentar da luta contra o racismo e a discriminação quem não pertence à tribo: “Se és branco, és necessariamente racista; se és heterossexual, és homofóbico; e se és homem, és obviamente machista.” A extrema-direita agradece e, graças a eles, cresce.

Mas isso pouco lhes importa. Aliás, nada mais lhe importa; e basta lê-los na imprensa de referência que lhes dá acolhimento: nem a guerra que devasta a Europa, nem os miseráveis que morrem afogados a atravessar de África para um paraíso sonhado, nem o planeta que se extingue à nossa vista. São capazes de fazer abaixo-assinados a apelar aos jornais para censurarem quem não escreve segundo a novilíngua, mas dormem tranquilos enquanto os talibãs proíbem as mulheres afegãs de irem à escola ou de trabalharem; são capazes de se indignarem porque a Rita Pereira põe tranças afro, o que acham uma usurpação cultural, mas estão-se nas tintas para os desgraçados escravos asiáticos da agricultura alentejana — porque são apenas amarelos e não pretos. Na verdade, não enxergam nada de mais importante além do próprio umbigo. Como se a auto-invocada superioridade moral da sua litigância e do seu protagonismo os dispensasse de olhar para o mundo. No fundo, não passam de uma gente sem causas que importem.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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A rendição

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 22/07/2022)

Miguel Sousa Tavares

Em Maio, quatro dias antes de completar 99 anos, Henry Kissinger foi a Davos, o fórum dos bem-pensantes donos do mundo. Embora Davos tenha servido sempre para que os grandes se acomodassem quanto ao essencial, fingindo diferenças no acessório (normalmente a cargo de cantores rock ou ambientalistas sazonais), desta vez a agenda era inteiramente monocórdica e pré-formatada: o apoio incondicional à Ucrânia e à continuação da guerra contra a Rússia de todas as formas e a qualquer custo. Mas alguém se esqueceu de avisar disso a velha raposa da política externa americana, mestre da realpolitik, doutor honoris causa do cinismo e o Prémio Nobel da Paz com mais mortes na consciência de toda a história da Academia Sue­ca. E assim, julgando que as coisas ainda eram como antes e que o que se esperava de si era um conselho feito de experiência e visão do futuro, num mundo sem ilusões de amanhãs cantantes — ao contrário das patetices ditas e agora recuperadas por Fukuyama —, Kissinger disse o que lhe parecia avisado: a) que era urgente terminar com a guerra na Ucrânia, que em nada servia ao Ocidente e, em particular, à Europa; b) que, para tal, era necessário dar uma saída a Putin; c) que essa saída teria de passar pelo reconhecimento da anexação da Crimeia e um estatuto especial para o Donbas — (o regresso à situação anterior à invasão e aos Acordos Kiev-2) — ou mesmo a cedência de território por parte da Ucrânia; d) que a verdadeira ameaça à Europa e aos Estados Unidos não vinha da Rússia, mas da China.

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Como era de prever, caíram todos em cima do “velho”, que só não foi acusado de alta traição e de estar ao serviço de Putin porque, enfim, tinha atrás de si um sólido currículo de inestimáveis serviços prestados à causa ocidental, sem olhar a meios nem a escrúpulos. Mas o escândalo foi tamanho, as pressões devem ter sido tantas, que os amigos ou ele próprio (o mais provável) viram necessidade de uma retractação pública, universal e completa. O resultado dessa auto-humilhação a que o celebrado autor de “Diplomacy” se submeteu puderam lê-lo nas páginas da última Revista do Expresso, num artigo sindicado da “Sunday Times Magazine”, em que o seu biógrafo, Niall Ferguson, simula uma entrevista com ele que nem na forma nem no conteúdo é entrevista alguma: é uma série de citações indirectas de pretensas respostas que Kissinger terá dado a perguntas cirurgicamente pensadas para desdizerem tudo o que ele havia dito em Davos, evitando, assim, elaborar o que quer que fosse acerca da sua discordante leitura da situação na Ucrânia e da saída para ela. Uma absoluta humilhação infligida a um homem centenário cujo prestígio político e académico influenciou gerações de diplomatas e governantes de direita. Felizmente para ele, o “velho” vive numa democracia, onde, mesmo neste tempo do pelourinho das redes so­ciais, as penas máximas são a autoflagelação ou o insulto “viral”; se vivesse no estalinismo, aquilo que teve de passar em nada se distinguiria dos “processos de Moscovo” e o que o esperava era o fuzilamento ou a Sibéria. Mas que mesmo alguém como Henry Kissinger se tenha de submeter a isto só porque ousou exprimir uma opinião diferente sobre o conflito na Ucrânia diz muito, muito mesmo, sobre o mal que a Ucrânia está a fazer às nossas democracias: ao jornalismo, à liberdade de opinião, às instituições democráticas. Temo que essa venha a ser a maior vitória de Putin.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

2 Kissinger é das personagens que eu mais me habituei a desprezar entre os fazedores da História. Nunca esquecerei que foi ele quem convenceu Gerald Ford a entregar Timor à Indonésia e, antes disso, quem, em nome do cinismo determinista com que sempre olhou para o mundo, tentou explicar a Mário Soares que ele ia ser o Kerensky da Ibéria e defendeu que Portugal deveria ser abandonado para Moscovo em benefício da doutrina da “vacina”. Não impede que, em minha opinião, tenha estado do lado certo da análise histórica quando avisou, há mais de 20 anos, que a progressiva expansão da NATO a leste era um erro de geopolítica que um dia poria em causa tudo o que se tinha ganho com o extraordinário fim da URSS e do Pacto de Varsóvia. Por essa altura, Mikhail Gorbatchov veio a Lisboa fazer uma conferência na Gulbenkian. Estava ali o homem que tinha mudado a história do século XX, que tinha posto fim ao “equilíbrio do terror” em que a Europa e o mundo haviam vivido nos últimos 40 anos. Mas, mesmo assim, aventuroso e despreocupado, José Pacheco Pereira acusou-o de ter desmembrado levianamente o antigo império soviético sem cuidar dos perigos daí resultantes para a estabilidade europeia: levou uma resposta arrasadora sobre a diferença entre governar um país como Portugal ou um país com 11 fusos horários e 40 nacionalidades diferentes (ninguém me contou, eu estava lá, sentado na mesa entre eles, e nunca o esqueci). O curioso da História é que hoje o mesmo Pacheco Pereira acusa ferozmente Putin de tentar repor a ordem imperial soviética que antes, segundo ele, Gorbatchov terá destruído irresponsavelmente.

É certamente provável que haja alguma nostalgia imperial no jogo de xadrez de Vladimir Putin: não é o único dos grandes do mundo que a tem. Mas o que há seguramente, também, é aquilo que Kissinger avisou: a sensação de que a Rússia estava a ser sufocada pela NATO, passo a passo. Por razões históricas e geopolíticas, Putin escolheu a Ucrânia como a última trincheira admissível do avanço da NATO. E essa é a tragédia da Ucrânia: foi escolhida por Putin como o terreno de confronto com a NATO, mas também foi escolhida pela NATO como o campo de confronto com a Rússia, pois que há muito que a NATO armava e treinava o Exército ucraniano, julgando inevitável uma invasão russa.

O erro estratégico e político de Putin será estudado durante muitos anos em todos os cursos de Ciência Política. E dele constará o essencial: o crime da invasão da Ucrânia cujas provas nos são servidas todos os dias num ecrã perto de nós. Aquelas caras de sofrimento, aquelas imagens de destruição são de um povo e de um país que não tem culpa nenhuma da sua contenda com a NATO (não obstante a imprudência gratuita do pedido de adesão à NATO). Mas o crime é bilateral, pois que, se a Ucrânia ainda não entrou formalmente na NATO, a NATO entrou em força na Ucrânia e ali está deliciada. Ainda não consegui perceber qualquer vantagem da guerra para a Rússia, mas as vantagens dela para a NATO e para os Estados Unidos são gritantes: além do confessado interesse no enfraquecimento militar de Moscovo, do teste no terreno a novas armas e no alargamento a novos países, há as fabulosas oportunidades de negócio já antes experimentadas na guerra contra a Sérvia — primeiro destrói-se, depois reconstrói-se. E a Ali Burton e as outras agradecem.

3 O problema do pensamento único imposto a tudo o que respeita à guerra na Ucrânia — incluindo a informação reportada e a que é escamoteada, a unilateralidade da cobertura da guerra e a falta de contraditório de cada vez que há alguém importante à frente de um microfone — é que ele não apenas distorce necessariamente a verdade dos factos, em Lisboa como em Moscovo, como também pode prestar um mau serviço à causa que se quer servir. Vou dar apenas dois exemplos.

Em Mariupol, na fábrica Azovstal, durante dois meses relatou-se que 2 mil civis estavam encurralados dentro das instalações porque os russos, que cercavam a fábrica, impediam a sua saída em segurança — o que estes negavam. Mas bastou que António Guterres fosse a Moscovo falar com Putin e a seguir mandasse uma delegação da ONU a Mariupol e, em dois dias, todos os civis saíram em segurança para a Ucrânia. Afinal, e como era fácil de adivinhar, estavam, sim, reféns dos combatentes ucranianos do Batalhão Azov, entrincheirados dentro da fábrica e que só os deixavam sair utilizando-os como escudos, para não terem de se render aos russos. Agora a cena repetiu-se com as toneladas de cereais ucranianos retidos no porto de Odessa, porque, segundo os relatos do lado ucraniano e “nosso”, os russos não os deixavam exportar, “utilizando a fome como arma de guerra” — coisa que, como garantiu um exaltado político ocidental, decerto absolutamente ignorante de História, nunca antes tinha sido vista. Mas bastou que a ONU entrasse mais uma vez em cena, que os turcos se oferecessem como mediadores e que todas as partes garantissem aos russos que os navios que irão buscar os cereais não levarão na ida armas para os ucranianos para um acordo estar iminente. Afinal, os russos negoceiam, mesmo que o acordo apenas interesse à Ucrânia e mesmo que, entretanto, a brava Lituânia, invocando as sanções europeias à Rússia, tenha ameaçado pôr tudo em causa, boicotando a passagem pelo seu território de mercadorias provenientes da Rússia para o seu enclave de Kaliningrado — ou seja, da Rússia para… a Rússia!

Em ambos os casos, no mínimo, perdeu-se tempo e acumularam-se danos, não resolvendo situações que se poderiam ter resolvido antes se a prioridade não fosse fazer passar por verdade a propaganda que interessava.

Mas se até as guerras ditas justas precisam de mentiras para afirmar a sua justiça, essa é mais uma razão para que a informação isenta e completa seja uma exigência. Numa guerra, toda a gente pode tomar partido pelo lado que considera justo, esquecendo tudo o resto. Mas o jornalismo não.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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