A guerra, a propaganda, e a cegueira

(Por Thierry Meyssan, in Rede Voltaire, 25/10/2022)

O memorial de Babi Yar em Kiev. Cerca de 33. 771 Ucranianos judeus foram ali fuzilados em dois dias, em 29 e 30 de Setembro de 1941 pelas Waffen SS ucranianas e pelos Einsatzgruppen de Reinhard Heydrich. Este massacre foi celebrado como uma vitória pelos nacionalistas integralistas. Actualmente, o governo ucraniano nomeou com o nome do nacionalista integralista Stepan Bandera a grande avenida que ai leva, « em honra » do maior criminoso da sua história.

A propaganda estupidifica. Sabemos que os nacionalistas integralistas ucranianos cometeram abomináveis massacres, particularmente durante a Segunda Guerra mundial. Mas esquecemos o que fazem às nossas portas desde há trinta anos, nomeadamente a guerra civil que levam a cabo desde há oito anos. A nossa estupidez permite apoiar os gritos de guerra dos nossos responsáveis políticos ao lado destes criminosos.


Quando irrompe uma guerra, os governos creem sempre dever reforçar o moral da sua população enchendo-a de propaganda. A parada é tal, vida ou morte, que os debates se agudizam e as posições extremistas ganham terreno. É isto exactamente que estamos testemunhando, ou talvez mais, a maneira pela qual nos transformamos. Neste jogo, as ideias defendidas por uns e por outros não têm qualquer relação com os seus pressupostos ideológicos, mas apenas com a sua proximidade ao Poder.

Em sentido etimológico, a propaganda, é apenas a arte de convencer, de propagar ideias. Mas na época moderna, é uma arte que visa reconstruir a realidade para denegrir o adversário e engrandecer as suas próprias tropas.

Contrariamente a uma ideia feita no Ocidente, não foram os nazis, nem os soviéticos que a inventaram, mas os Britânicos e os Norte-Americanos durante a Primeira Guerra Mundial [1].

Hoje em dia, a OTAN coordena os esforços na matéria a partir de seu Centro de Comunicações Estratégicas em Riga (Letónia) [2]. Este identifica os pontos sobre os quais quer agir e monta programas internacionais para os concretizar.

Por exemplo, a OTAN identificou Israel como um ponto fraco: enquanto o antigo Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu era amigo pessoal do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, o seu sucessor, Naftali Bennett, reconheceu o fundamento da política russa. Ele aconselhou-o mesmo a devolver a Crimeia e o Donbass e, acima de tudo, a desnazificar a Ucrânia. O actual Primeiro-Ministro, Yaïr Lapid, é mais hesitante. Não quer apoiar os nacionalistas integralistas que massacraram um milhão de judeus pouco antes e durante a Segunda Guerra mundial.Mas também deseja ficar às boas com os Ocidentais.

Slava Stetsko, a viúva do Primeiro-Ministro nazi Yaroslav Stetko, abriu as sessões de 1998 e de 2002 da Verkhovna Rada.

Para trazer Israel de volta ao “bom caminho”, a OTAN tenta persuadir Telavive que, em caso de vitória russa, Israel perderia a sua posição no Médio-Oriente [3]. Para isso, difunde o mais amplamente possível a mentira de que o Irão seria aliado militar da Rússia. A imprensa internacional não para de afirmar que, no campo de batalha, os drones russos são iranianos e em breve os mísseis de médio alcance também o serão. Ora, Moscovo (Moscou-br) sabe muito bem como fabricar essas armas e jamais as encomendou a Teerão. A Rússia e o Irão (Irã-br) desmentem repetidamente estas alegações. Mas os responsáveis políticos ocidentais, apoiando-se na imprensa e não sobre uma simples reflexão, impuseram já sanções aos comerciantes de armas iranianos. Em breve, Yair Lapid, filho do presidente do memorial Yad Vashem, será pressionado e forçado a alinhar ao lado dos criminosos.

Os Britânicos, esses, destacam-se tradicionalmente na activação dos média (mídia-br) em rede e na utilização de artistas.

O MI6 apoia-se num grupo de 150 agências de notícias que trabalham na PR Network [4]. Eles convencem todas estas empresas a retomar as suas imputações e os seus slogans (eslogans-br).

O fundador do nacionalismo integralista ucraniano, Dmytro Dontsov, mostrava um ódio obsessivo contra os judeus e os ciganos. Durante a Guerra mundial, ele deixou a Ucrânia para se tornar administrador do Instituto Reinhard Heydrich. Foi esta instituição, sediada na Checoslováquia, que foi encarregada de planear o extermínio de todos os judeus e de todos os ciganos durante a Conferência de Wannsee. Ele acabou os seus dias pacificamente nos Estados Unidos.

Foram eles que sucessivamente os convenceram que o Presidente Vladimir Putin estava a morrer, depois que tinha ficado louco, ou ainda que enfrentava uma forte oposição e que ia ser derrubado por um Golpe de Estado. O seu trabalho prossegue hoje com entrevistas cruzadas de soldados na Ucrânia. Vocês ouvem os soldados ucranianos dizer que são nacionalistas e os soldados russos que têm medo, mas devem defender a Rússia. Vocês ouvem que os Ucranianos não são nazis e que os Russos, vivendo sob uma ditadura, são forçados a combater. Na realidade, a maior parte dos soldados ucranianos não são « nacionalistas » no sentido de defensores da pátria, mas « nacionalistas integralistas » no sentido dos dois poetas, Charles Maurras e Dmytro Dontsov [5]. O que não é de forma alguma a mesma coisa.

Só em 1925 é que o Papa Pio XI condenou o « nacionalismo integralista ». Nessa altura, Dontsov tinha já escrito o seu Націоналізм (Nacionalismo) (1921). Maurras e Dontsov definem a nação como uma tradição e idealizam o seu nacionalismo contra os outros (Maurras contra os Alemães e Dontsov contra os Russos). Ambos abominam a Revolução Francesa, os princípios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade e denunciam sem descanso os judeus e os mações. Consideram a religião como sendo útil à organização da sociedade, mas parecem agnósticos. Estas posições levaram Maurras a tornar-se petainista e Dontsov hitleriano. Este último mergulhará num delírio místico Varangiano (vikings suecos). O Papa seguinte, Pio XII, revoga a condenação do seu predecessor, pouco antes da guerra rebentar. Com a libertação, Maurras será condenado por convénio com o inimigo (ele que era germanófobo), mas Dontsov acabou recuperado pelos Serviços Secretos anglo-saxões e exilou-se no Canadá e mais tarde nos EUA.

Quanto aos soldados russos que vemos entrevistados durante os nossos jornais televisivos, não nos dizem que são obrigados a combater, mas que, ao contrário dos nacionalistas integralistas, eles não são fanáticos. Para eles, a guerra, mesmo quando se defende os seus, é sempre um horror. É por nos repetirem até à exaustão que a Rússia é uma ditadura que entendemos outra coisa. Não aceitamos que a Rússia seja uma democracia porque, para nós, uma democracia não pode ser um regime autoritário. No entanto, por exemplo, a Segunda República Francesa (1848-1852) era ao mesmo tempo uma democracia e um regime autoritário.

Somos fáceis de convencer porque ignoramos tudo da história e da cultura ucraniana. No máximo sabemos que a Novorossia foi governada por um aristocrata francês, Armand-Emmanuel du Plessis de Richelieu, amigo pessoal do Czar Alexandre Iº. Ele prosseguiu a obra do Príncipe Grigori Potemkin que queria edificar esta região no modelo de Atenas e de Roma, o que explica que ainda hoje em dia a Novorossia é de cultura russa (e não ucraniana), e sem nunca ter conhecido a servidão.

Alguns meses após a sua eleição, em 6 de Maio de 1995, Leonid Kuchma, o segundo presidente da nova Ucrânia, dirigiu-se a Munique para se encontrar com Slava Stetsko, a viúva do Primeiro-Ministro nazi ucraniano. Ele aceitou a introdução na nova Constituição de uma referência explicita ao nazismo : « preservar o património genético do povo ucraniano é uma responsabilidade do Estado » (sic).

A propósito da Ucrânia, ignoram-se as atrocidades do período entre guerras e da Segunda Guerra Mundial, e tem-se uma vaga ideia das violências da URSS. Ignora-se que o teórico Dontsov e o seu discípulo Stepan Bandera não hesitaram em massacrar todos aqueles que não correspondiam ao seu « nacionalismo integralista », os Judeus em primeiro lugar, neste país khazar, depois os Russos e os Comunistas, os Anarquistas de Nestor Makhno, e ainda muitos outros. Os «nacionalistas integralistas», que se tornaram admiradores do Führer e profundamente racistas, voltaram ao primeiro plano com a dissolução da URSS [6]. Em 6 de Maio de 1995, o Presidente Leonid Kuchma viajou para Munique (para as instalações da CIA) para se encontrar com a Chefe dos nacionalistas integralistas, Steva Stesko, a viúva do Primeiro-Ministro nazi. Ela tinha acabado de ser eleita para a Verkhovna Rada (Parlamento), mas não tinha podido aí tomar assento porque fora destituída da nacionalidade ucraniana. Um mês depois, a Ucrânia adoptou a sua actual Constituição, a qual dispõe no seu Artigo 16 que: « preservar o património genético do povo ucraniano é da responsabilidade do Estado » (sic). Posteriormente, a mesma Steva Stetsko inaugurou por duas vezes a sessão da Rada, concluindo as suas intervenções com o grito de guerra dos nacionalistas integralistas: « Glória à Ucrânia! ».

A Ucrânia moderna construiu pacientemente o seu regime nazi. Depois de ter proclamado o « património genético do povo ucraniano », ela promulgou diversas leis. A primeira concede o benefício de Direitos do Homem pelo Estado apenas aos Ucranianos, não aos estrangeiros. A segunda define o que constitui a maioria dos Ucranianos e a terceira (promulgada pelo Presidente Zelensky) quem faz parte das minorias. O truque é que nenhuma lei fala de russófonos. Por rotina, os tribunais não lhes reconhecem pois o benefício dos Direitos do Homem.

Desde 2014, uma guerra civil opõe os nacionalistas integralistas às populações russófonas, principalmente as da Crimeia e do Donbass. Cerca de 20. 000 mortos depois, a Federação da Rússia, aplicando a sua « responsabilidade para proteger », lançou uma Operação Militar Especial para aplicar a Resolução 2202 do Conselho de Segurança (Acordos de Minsk) e pôr fim ao martírio dos russófonos.

O Presidente Zelensky e o seu amigo, Benjamin Netanyahu. Este faz hoje em dia do apoio à Ucrânia o seu principal tema de campanha eleitoral. Netanyahu é o filho do secretário particular de Zeev Jabotinsky ; uma personalidade ucraniana que fez aliança com os nacionalistas integralistas contra os bolcheviques. Ele tentou por a comunidade judia ucraniana ao serviço destes anti-semitas, mas foi unanimemente denunciado no seio da Organização sionista mundial do qual se tornara administrador.

A propaganda da OTAN enche-nos com os reais sofrimentos dos Ucranianos, mas ela ignora os oito anos de torturas, assassínios e massacres que a precederam. Fala-nos dos «nossos valores comuns com a democracia ucraniana», mas que valores partilhamos nós com os nacionalistas integralistas e onde está a democracia na Ucrânia?

Nós não temos que escolher entre uns e outros, mas apenas devemos defender a paz e, portanto, os Acordos de Minsk e a Resolução 2202.

A guerra enlouquece. Dá-se então uma inversão de valores. Os mais extremistas acabam triunfando. Alguns dos nossos ministros falam em « sufocar a Rússia » (sic). Não se quer ver que estamos a apoiar as ideias que dizemos combater.


[1] “As Técnicas da moderna propaganda militar”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 17 de Maio de 2016.

[2] “A campanha da Otan contra a liberdade de expressão”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Dezembro de 2016.

[3] «Irán, Israel y Rusia», Voltaire, Actualidad Internacional – N°11 – 21 de octubre de 2022.

[4] “A Rede de Propaganda de Guerra anti-Rússia”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 31 de Março de 2022.

[5] “A ideologia dos banderistas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2022.

[6] “Ucrânia : a Segunda Guerra mundial continua”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Abril de 2022.


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Em Itália, reclama-se a paz e a saída da NATO

(In AbrilAbril, 01/11/2022)

Centenas de pessoas participaram, em Ancona, na mobilização organizada pelo comité local «Não à Guerra, Não à NATO», exigindo o fim da «participação» italiana na guerra e o fim da escalada em curso.


A mobilização deste sábado na capital da região italiana das Marche é uma de várias que têm tido lugar no país transalpino em defesa da paz, contra a sujeição de Itália aos mandamentos da União Europeia (UE) e pela saída do país da Aliança Atlântica.

Segundo refere o portal cronacheancona.it, a manifestação na cidade adriática foi organizada conjuntamente por vários movimentos da sociedade civil e contou com a participação de representantes sindicais, de partidos políticos e diversas associações.

Com o lema «Itália fora da guerra, Itália fora da NATO», os manifestantes seguiram até à Praça Cavour, onde deixaram clara a sua discordância com as opções políticas de governos anteriores e do neofascista que acabou de tomar posse.

Segundo referiram os representantes das organizações promotoras nas suas intervenções, estes governos são «fiéis executores dos ditames» da Europa do capital e «não defendem os interesses do povo italiano».

Em seu entender, o dinheiro que os governos têm gasto e gastam com armamento devia servir para a construção de casas, escolas e hospitais.

Além disso, consideram que se assiste a uma «perigosa escalada» na Ucrânia e que tal se deve à «intransigência da NATO, que «se recusa a negociar com a Rússia», e, nesse sentido, insistiram na saída de Itália do bloco militar, bem como no fim do envio de armas para a Ucrânia. [Ver vídeo de Comitato No Guerra No Nato Ancona.]

Guerra económica contra os povos europeus

Outro aspecto que foi destacado na mobilização é o facto de o povo italiano e os povos europeus já estarem a sofrer «uma guerra económica», pois as «sanções contra a Rússia são apenas o pretexto para justificar a especulação sobre os preços da energia (que aumentaram para níveis incomportáveis para as famílias e as empresas, que estão fechar aos milhares)», denunciaram.

O objectivo desta especulação é levar à «desindustrialização da Europa», para «benefício do sistema de produtivo norte-americano e britânico», afirmaram os promotores, defendendo que o «grave momento histórico […] requer uma grande coragem e o empenho de todos».

Na manifestação, em que o conhecido jornalista Manlio Dinucci alertou para o nível de «desinformação» existente, exigiu-se também a libertação de Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, bem como o fim da russofobia, «pela paz e a fraternidade entre os povos».


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O futebol é lindo, este Mundial é uma vergonha

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 04/11/2022)

Miguel Sousa Tavares

No próximo dia 20 começa no Catar o 22º Campeonato do Mundo de Futebol, envolvendo 32 selecções, entre as quais a nossa. Antes que as nossas varandas se cubram de bandeirinhas nacio­nais e as crianças se vistam de camisolas do Ronaldo, antes que as televisões, os anunciantes e o Presidente Marcelo comecem a vomitar o insuportável discurso patrioteiro sempre associado aos feitos da selecção, convém pensar que não é nenhuma honra, antes uma vergonha, participar neste Mundial. Não sei se a nossa Federação de Futebol fez parte das que votaram contra o Mundial no Catar, das que votaram em consciência a favor ou daquelas cujos dirigentes se deixaram comprar para votar a favor. Espero bem que não tenha sido a última hipótese, mas todas são possíveis, pois só através da corrupção do colégio eleitoral — em grande parte provada — foi possível atribuir o Mundial a um país que, por razões climáticas, é forçado a organizá-lo pela primeira vez no Outono do Hemisfério Norte, forçando a alteração dos calendários estabelecidos na Europa para as provas nacionais e internacionais. Um país cujos nacionais se estão nas tintas para o futebol e cuja selecção (classificada no ranking da FIFA em 102º lugar e com o recurso a 17 estrangeiros em 23 jogadores) jamais conseguiria, não sendo anfitriã, apurar-se para um Mundial.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Em 24 de Outubro, o dirigente vitalício do Catar, o emir Tamin bin Hamad Al Thani, explodiu de indignação com as “críticas feitas de invenções e duplos padrões” dirigidas ao seu país e “sem precedentes em relação a qualquer outro país organizador”. E com razão. Além da questão da corrupção na escolha do Catar, da questão do clima e das nulas credenciais do país em matéria futebolística, e apesar de toda a cobertura dada pela FIFA, o Catar tem sido alvo de um rol de críticas relativas à forma como conseguiu pôr de pé este Mundial e, designadamente, construir de raiz 10 estádios, que, a seguir ao evento, não servirão para nada, num país em que não há memória de um jogo de futebol alguma vez ter tido mais do que mil espectadores num estádio. Mas, em contrapartida, o Catar tem muito, muito dinheiro: tem, por exemplo, a maior reserva mundial de gás natural, agora tão precioso. E consta que o emir, ao contrário dos seus súbditos, gosta muito de futebol, tanto que, através da Qatar Sports Investments, além de patrocinar a Roma e o Bayern de Munique, é dono do PSG — onde, troçando das regras do fair-play da FIFA e UEFA, que só se aplicam a pobres, juntou um trio atacante composto por Mbappé, Neymar e Messi, que custam em salários, sem contar com direitos de imagem, mais de €250 milhões por ano. Mas para organizar este Mundial, que o extasiado presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirma que será o melhor de sempre, o emir não olhou a despesas: foram €330 mil milhões de custos, o equivalente a toda a riqueza produzida em Portugal durante um ano inteiro. Só que Portugal tem 10 milhões e meio de habitantes e o Catar tem três milhões, dos quais só 320 mil são catarianos, gozando de todos os direitos de cidadania, como o de não pagar impostos. Todos os restantes são emigrantes asiáticos, dos quais 72% homens trabalhando na construção civil e 28% mulheres trabalhando como empregadas domésticas. Claro que foram estes homens que o regime empregou para construir os estádios e tudo o mais, trabalhando oito a 12 horas por dia, seis dias por semana, debaixo de temperaturas extremas e em condições iguais aos que nós contratamos para as estufas de Odemira ou os olivais e amendoais do Alqueva: entregues à protecção de um kafala, com o passaporte retido, amontoados como gado, sem quaisquer direitos sindicais ou sociais. 6500 deles morreram a construir os 10 estádios onde as vedetas e os seleccionadores pagos a peso de ouro e especializados na fuga aos impostos se vão exibir para o mundo inteiro, não se esquecendo de cantar os respectivos hinos a plenos pulmões para que o povo em casa ou nas bancadas pense que eles se batem pela pátria.

Antes que as televisões, os anunciantes e o Presidente Marcelo comecem a vomitar o insuportável discurso patrioteiro sempre associado aos feitos da selecção, convém pensar que não é nenhuma honra, antes uma vergonha, participar neste Mundial

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Pois, o emir está zangado com tudo isto. O emir não percebe como é que as melhores empresas de consultadoria de imagem inglesas e europeias ou vedetas como Xavi Hernández ou o pateta do David Beckham, que só sabia marcar cantos e variar de penteados, não conseguiram mostrar ao mundo como o Catar — que até sedia uma televisão, a Al Jazeera, tantas vezes melhor do que as grandes marcas internacionais — não era aquilo que um relatório da ONU de há um par de anos classificava como “uma sociedade de castas de organização medieval”. É verdade que o próprio Governo do emir não ajudou muito quando começou a divulgar conselhos ao milhão de visitantes previstos para o Mundial de que deveriam “respeitar os costumes do país” e aos milhares de jornalistas que irão cobrir o evento avisos de que não poderão entrevistar pessoas na rua ou em suas casas, em especial os trabalhadores estrangeiros, ou entrar em edifícios públicos. Acontece que entre os costumes do país está a proibição da homossexualidade, que lá é crime, e o Governo fez saber que tolerará a sua entrada (como não?) mas não tolerará as suas manifestações. Quanto às mulheres, estão autorizadas a conduzir automóveis mas não se aconselha que saiam à rua sozinhas: Alá não gosta e, além disso, o Catar é suspeito de tolerar, sim, simpatizantes da Irmandade Islâmica e do Daesh.

Eis, a traços largos, o retrato do país que albergará o próximo Mundial de Futebol. Mas o futebol não tem culpa nenhuma disto. Algures, em estádios do antigamente, como o La Bombonera, em Buenos Aires, onde Diego Armando Maradona começou a elevar-se aos céus ao serviço do Boca Juniors, ainda hoje a multidão enche o estádio sem precisar de ir ao engano, porque aí ainda o futebol é genuíno. Feito de arte, geometria, dor e alegria. A toda a volta, onde estão os ídolos que as televisões e os jornais promovem e as massas idolatram, há toda uma teia de sanguessugas — na FIFA, na UEFA, nas federações nacionais, nos grandes clubes — que explora a “festa do povo” em seu benefício próprio e que de há muito perverteu tudo. O jogo agora chama-se dinheiro. E a cobiça é tanta que, depois de a UEFA ter inventado um outro Campeonato da Europa de Selecções a que chama Taça das Nações e que alterna com aquele a cada dois anos, é a vez de a FIFA querer também um Mundial de dois em dois anos e de os grandes clubes da Europa congeminarem outra Champion’s League só para eles e com lugar cativo para eles todos os anos. Tudo isto, claro, é feito à custa de uma overdose de jogos absurda e de uma exploração extrema do esforço dos jogadores. Mas os grandes jogadores aceitam porque também a eles só uma coisa verdadeiramente lhes interessa: o dinheiro. Já alguém viu um jogador de futebol, nas imensas viagens que faz ou nos intermináveis estágios em que tem de permanecer, ocupado a ler um livro ou um jornal que não seja desportivo? Já alguém o viu de visita a um museu, um monumento, umas ruínas históricas? Não, ocupam todos os tempos livres a jogar futebol na PlayStation, a postar imagens das férias no Instagram ou a debitar banalidades para os seguidores no Facebook.

E tudo isto, claro, alimenta-se do terceiro factor: o público. No dia em que não houver público nos estádios o futebol definhará até morrer, como se viu durante a covid. E é uma pena se o que nos leva ao estádio, seja tanto a beleza do jogo como a descarga de adrenalina e tudo o mais que precisamos de descarregar e que um jogo de futebol permite como poucas coisas mais, não seja também uma oportunidade para descarregar contra todo o universo sujo escondido por detrás do jogo.

Se os espectadores soubessem (se os jornalistas desportivos lhes contassem…) o luxo em que vivem e viajam os dirigentes dos clubes, das organizações de futebol, das federações, os agentes que chulam os clubes, os da UEFA e da FIFA, a riqueza que acumulam enquanto eles, espectadores, só gastam o seu dinheiro a manter o negócio milionário dos outros, talvez as coisas fossem diferentes.

Se a multidão que enche os estádios com o seu amor à camisola (o único que é genuí­no) tivesse o mesmo espírito crítico para com jogadores e dirigentes — em matéria de corrupção, de fiscalidade, de negociatas — que tem para com os políticos, talvez o futebol fosse menos indecente. Ou, ao menos, mais envergonhado. Não estou a ver as opiniões públicas a engolir um prémio das Nações Unidas para os direitos humanos atribuído ao Catar.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

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