Governar por meio das Fake News – o Irão

(Jacques Baud, in Tertúlia Orwelliana, 8/07/2025, trad. Fernando Oliveira)


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Jacques Baud é mal conhecido em Portugal. Os editores portugueses ainda não o descobriram, apesar da sua vasta e importante obra. Salvo erro, nenhum dos seus livros foi traduzido em Portugal. E é pena porque se trata de um autor imprescindível para se compreender o mundo em que actualmente vivemos.

 Continuar a ler o artigo completo aqui.

Subitamente o humor

(Manuel Rocha, in Facebook, 07/08/2025, Revisão da Estátua)


Os comentadores são hoje visita diária das casas todas. Há quem neles busque orientação, argumento, explicação. Há quem não consiga ter pensamento que não o colhido da comentadoria, há quem procure no comentário a interlocução-à-distância para o seu próprio pensamento. Há quem use as potencialidades da box da TV para ir à cata do comentário de agostinhos, tiagos, brancos e poucos mais; e há quem pulse o botão de zapping, com a energia da repugnância, à vista de ferro-gouveias, irineus, saramagos, milhazes, isidros, solleres, serronhas, portas, e semelhantes anomalias.

A CNN é a estação que mais foi fixando a audiência que quer perceber, entre o nevoeiro das certezas absolutas, as dúvidas que nos servem para orientar escolhas fora do rumo da carneirada. Mas está a perder qualidades – e, no meu caso, audiências. Até há pouco conseguiu compensar o desempenho do seu péssimo elenco jornalístico com o melhor trio de comentadores de política internacional da TV: Carlos Branco, Tiago André Lopes e Agostinho Costa. Porém, um golpe de fanatismo do jornalista Bello Moraes (nome de esmerada ‘ortographia’) provocou uma reação de grande dignidade do Major-General Carlos Branco, saldando-se numa baixa de peso que terá afastado audiência (muitos outros, como eu) do ecrã da CNN.

No meio da desorientação CNNénica aparecem lá pelo estúdio umas aves raras, sempre apresentadas como especialistas de alguma coisa. Há umas que ali esvoaçam mais frequentemente, como um avençado Uriã, ligeiro na forma como debita verdades absolutas, desmentidas pela realidade dos factos logo no dia seguinte. É assim que ganha a vida, o Uriã. Dada a falta de corpo para o mercenarismo de arma na mão resta-lhe o mercenarismo na palavra, seguramente mais compensador e muito menos perigoso.

E de repente o humor. Ontem, quinta-feira 7, tivemos ao serão o comentário do Major-General Agostinho Costa, sempre aferroado pelo pivô para concluir as suas intervenções, acompanhado de duas aves raras – uma de que não recordo nem nome nem verbo, e a outra Cátia Moreira de Carvalho, de sua graça, pelos vistos especialista em direito internacional.

Agora estamos nisto: a CNN, ciente da perigosidade da elevação das inteligências, tenta diluir o comentário de Agostinho Costa e de Tiago André Lopes numa sopa de imbecilidade ou de perfídia (consoante o horário). Sem sucesso, pois o que é sério destaca-se.

Voltando ao assunto: a tal especialista Cátia Moreira de Carvalho, comentando o facto de a União Europeia estar ausente das cimeiras previstas para breve, revelou-se indignada, na qualidade de “portuguesa e europeia”, considerando que (sic) “a União Europeia devia ‘de’ fazer uma autópsia e olhar para dentro”.

Mesmo deixando de lado as questões de sintaxe e de semântica, em que a pobre Cátia revela não ser especialista, merece nota positiva a involuntária clarividência de quem compreendeu que a UE, politicamente, faleceu.

Já a capacidade dos mortos vasculharem as próprias vísceras é desejo só de cátias surpreendidas pelo óbvio, as quais percebem tanto de geopolítica como de medicina-legal.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A União Europeia

(Rui Gomes, in Facebook, 08/08/2025, Revisão da Estátua)


Tanta gente a gritar contra Putin e Trump, a chamar-lhes ditadores – Putin, sem dúvida, sentado no trono há um quarto de século e só sairá de lá quando a biologia o expulsar. Trump? Nem remotamente comparável: eleito com uma maioria esmagadora e limitado a um mandato de quatro anos, sem o poder absoluto que os histéricos lhe atribuem. Mas onde estão as multidões indignadas contra a União Europeia? Onde estão os cartazes furiosos contra esta máquina de poder não eleito que decide o destino de milhões sem um único voto direto?

A União Europeia é um teatro de fantoches onde os cordéis são puxados por burocratas não eleitos, e onde os cidadãos são apenas figurantes sem falas.

Apresentam-nos o Parlamento Europeu como uma prova de democracia, mas é uma farsa tão ridícula que até um manual de propaganda soviética teria vergonha de a imprimir. O único órgão diretamente eleito pelos europeus é também o único que não pode legislar. O povo vota, mas o seu voto vale menos do que papel higiénico já usado.

A Comissão Europeia, uma aristocracia de tecnocratas nomeados em negociatas de bastidores, é quem dita as regras – e o Conselho da UE, uma reunião de ministros que ninguém elegeu para cargos europeus, carimba o que bem entende. Isto não é um governo representativo, é um cartel de burocratas.

A farsa está bem montada: fazem eleições de cinco em cinco anos para um Parlamento sem poder, enquanto a Comissão Europeia – este governo clandestino de rostos cinzentos e intenções opacas – gere a Europa como um feudo privado. É ela que decide as leis, que define as políticas, que impõe regulamentos sem qualquer escrutínio real.

No final, os Estados-membros ou obedecem ou são castigados como crianças mal comportadas. Basta olhar para a Grécia em 2015 para perceber como a “democracia” funciona aqui: um povo vota contra a austeridade, mas a Comissão e os seus comparsas financeiros apertam o laço até que a vontade popular seja irrelevante.

O resultado é um superestado burocrático onde a única coisa que cresce é a centralização do poder. O Parlamento Europeu é uma montra vazia, uma distração brilhante para iludir quem ainda acredita que a sua voz conta. Mas na UE, a voz do cidadão é abafada pela linguagem árida dos tratados e pelo peso esmagador de um sistema desenhado para que a vontade popular seja um detalhe incómodo, facilmente ignorável. Chamam-lhe União Europeia, mas devia chamar-se União Oligárquica.

O que fazer? Continuar a fingir que esta estrutura pode ser reformada é tão ingénuo como acreditar que um lobo pode ser ensinado a pastar. O jogo está viciado, e a única maneira de ganhar é deixar a mesa.

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.