Um doloroso acordar para a realidade

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 08/11/2022)

O acordar da ilusão é sempre doloroso para os que mergulham a fundo nas mais fabulosas fantasias. Quanto maior o sono, mais difícil o acordar. Não obstante, a realidade, essa fenomenologia material que tem connosco uma relação dialética, é inexorável: tarde ou cedo acaba por se revelar. As dores do acordar, para a Europa, começam a ser difíceis de suportar.

Primeiro foram os franceses, cujo ministro das finanças veio dizer que “a diferença nos preços da energia entre a Europa e os EUA, bem como os subsídios pagos pelo governo federal para atrair investimento externo, coloca os produtores europeus em desvantagem em relação aos americanos, nos mercados globais”. É razão para dizermos: “a sério?”; “eu nem tinha pensado nisso!”; “ná… não acredito!”.

Eu terei sido o último de uma longa lista de opinadores que escreveu sobre isto: toda a marosca ucraniana e a operação anti russa visou impedir a Europa de continuar a contar com energia e matérias-primas baratas, com qualidade e em quantidade. O milagre industrial alemão e da Europa central não existiria sem o gás soviético e, mais tarde, o russo. Os EUA, com a  indústria de aviação na corda bamba, ultrapassada pela Airbus, a indústria automóvel, ou comprada pelos europeus, ou na falência, ultrapassada pelas marcas europeias; a industria de armamento em cheque por causa dos preços exorbitantes por produtos ultrapassados, com os europeus a comprarem, cada vez mais, noutras paragens (Coreia do Sul, p.e.); a indústria de gás liquefeito de fracking a sobreviver com subsídios de biliões do governo, por ser uma indústria deficitária; estava bom de ver que, caso os EUA deixassem a Europa continuar a crescer, ao ritmo que estava, beneficiando da interminável fonte de matérias-primas russas e da cooperação, cada vez mais intrincada com a China (e Ásia), rapidamente ficariam para trás, ficando como um mercado secundário em relação à construção euroasiática, suportada na geografia real que une os dois continentes, e ainda o africano. Não, não podia acontecer.

Quebrar o acesso às matérias-primas, primeiro, e ao mercado explosivo do Oriente, em segundo, constituem os grandes objetivos da política hegemónica americana, visando tratar a UE como uma colónia, apropriando-se do que tem de valor e gerindo, como recursos próprios, a relação entre esta colónia e a Eurásia.

Pode haver Eurásia, mas nos termos ditados por Washington. Eis a razão de mais uma guerra fria, da provocação ucraniana, da contenção chinesa e da provocação a preparar-se em Taiwan. A NATO cumpriu assim o papel para o qual havia sido criada: keep Germany down (manter a Alemanha em baixo); Keep UE in (manter a Europa dentro); Keep Rússia out (manter a Rússia fora).

E tanto que se falou e tem falado disto e dos efeitos nefastos que tal teria na economia europeia, até 2014/15 a ultrapassar o PIB dos EUA e, agora, muito abaixo. Desde 2014 que pudemos ter a certeza de que a estratégia era esta, mas desde 2008 que se falava do problema. Muito antes dos Zelensky e da “tirania” de Putin. A maioria – uns por desconhecimento da História, outros por conluio e traição, outros por ingenuidade e cobardia, outros por qualquer razão doentia -, não conseguiram perceber o que estava em causa. Hoje, uma UE à deriva e à beira de um colapso económico anunciado, é suficiente demonstrativa da razão que assistia a quem tanto tem tentado alertar de que nem tudo é o que parece.

Depois de Van Der Lata falar da necessidade de “desacoplar” da China, o grande investidor atual na UE, constatamos que Washington entra apressadamente na segunda fase. Cortado o acesso à energia e a matérias-primas baratas, segue-se o corte no acesso ao mercado. O mercado chinês é para os EUA, visando criar uma situação de tal dependência da China em relação à economia americana que permita conter o crescimento acelerado do gigante asiático e, com essa contenção, conseguir instabilizar o país e conseguir uma “democrática” revolução colorida. As sanções, já na calha e as que já estão em vigor, serão um dos primeiros passos do processo. É sempre igual, nunca muda. Em 49 a China era o país mais pobre do mundo, a India estava um pouco acima. Passados 70 anos, a China tem a maior economia, o maior número de licenciados, erradicou a miséria extrema e tem um PIB 6 ou 7 vezes superior ao da Índia, que tem quase a mesma população. Um é “tirano”, o outro é “democrático”, num, a vida do povo melhora todos os dias, no outro a vida do povo está como sempre esteve, na miséria extrema. Os EUA não se podem permitir “tiranias” que resolvem os problemas do seu povo.

Mas se a França já desconfia de algo, os industriais alemães já têm a certeza. Eis que Scholz, encostado à parede por quem tem, de facto, o poder político no país, lá teve de pedir uma cimeira ao Sr. Xi, para resolver, no longo prazo, os problemas com que se debate a indústria alemã em desagregação acelerada.

Claro que, no meio da polémica com Annalena Baerbock, qual cavalo de Troia, e Van Der Lata, Scholz teve de incluir na agenda a treta trumpista do Xinjiang (já desacreditada pela ONU) e aquele que é o maior objetivo dos EUA nas relações com a China – como com qualquer país industrializado, suportado num estado forte e cioso da sua soberania -, “exigir que se privatize o sector público industrial, seja aberto o mercado de capitais e parem os subsídios à economia por parte do governo de Xi”. A tríade neoliberal do FMI: privatizar; abrir; desinvestir. Tudo para que venha alguém que compre, invista e controle, aos poucos, mas inexoravelmente, o país que o fizer.

Mas os industriais alemães têm outras ideias: consagrar a entrada do porto de Hamburgo na BRI (já está) e garantir o acesso das empresas alemãs a componentes baratas e ao maior mercado da atualidade e com maior taxa de crescimento (o asiático). Ao mesmo tempo, a China pode reenviar para a Alemanha a matéria-prima e energia baratas vindas da… isso mesmo! Da Rússia!

Mas, perguntam-se, e como aceitou Scholz fazer este flip-flap nas suas intenções de destruição da economia alemã? Terá ele acordado da ilusão? Não. Ele nunca foi dos iludidos. Pepe Escobar explica isto com um toque de investigador privado: parece que o rapaz, quando foi presidente da câmara de Hamburgo, não terá feito tudo bem (parece que é moda entre os governantes europeus preferidos dos EUA); os casos amontoam-se nas prateleiras ameaçando sair para os jornais; os industriais alemães decidiram não esperar mais, sob pena de vermos as Mercedes deste mundo passarem-se para o outro lado do Atlântico. Scholz não teve hipótese senão aceitar a proposta e negociar com Xi. Van Der Lata e Baerbock devem estar com toneladas de ansiolíticos, sob pena de se afogarem na própria espuma raivosa.

Mas não se pense que foram apenas os alemães ricos a acordarem para a vida. Os holandeses já tinham dito que, ou a coisa muda, ou só existem dois sítios para onde ir: a China ou os EUA. A Eslováquia está em processo de renegar o apoio ao gangue neonazi de Zelensky e a Bulgária para lá caminha. A Áustria já manifestou por diversas vezes a sua “neutralidade” e a Hungria já se sabe. Ou seja, parece que os amigos europeus, afinal, não estão todos abraçados.

O serviço privado de comunicação de massas ao serviço da oligarquia, mesmo privado de jornalistas sérios, já começou a fazer algum eco de movimentações que demonstram este nervosismo. O nosso Correio da Manhã, qual marca registada da propaganda atual, a fonte de propaganda em massa que é o New York Times e mesmo o Wall Street Journal, todos, no mesmo dia, vieram falar em perspetivas de se negociar a paz. Como diz o NYT, Washington já terá informado Z. que é para “integrar a abertura a negociar, aos poucos, no seu discurso”.

Agora, não tenhamos ilusões. A razão para estas notícias chama-se “midterms”. Perante a rejeição massiva, pelo povo americano, do apoio a esta guerra (é um apoio à guerra e não à paz, perceba-se), o corrupto partido democrata faz o que qualquer partido oportunista faz nesta altura: promete o que não pretende fazer. Afinal, uma das características do atrasado e ultrapassado modelo de partido liberal, ou burguês, se quisermos (cuja estrutura e doutrina é inspirada na era liberal de há 200 anos), é que o poder lhe importa por si só. Não importa a estes partidos “o que fazer com o poder para melhorar a vida do povo”. O poder, para eles, é apenas o objetivo em si. Hoje, o estado de coisas em que vivemos, demonstra a visão curtinha, míope, do sistema liberal, burguês, herdado da revolução francesa. Teve o seu tempo, como tudo, mas já não serve. Já não são capazes de sustentar uma estratégia de longo prazo que trilhe um caminho sólido de desenvolvimento humano.

Passadas as eleições e ganhando o partido democrata, business as usual, volta o “deep state” à carga e os Sullivans, Nullands e Pelosis à carga. A política externa americana é um amontoado de operações secretas, financiamentos encapotados e processos subversivos dos interesses dos outros povos.

Mais ainda do que na guerra fria, a CIA é uma agência de desestabilização de países soberanos. São peritos em abrir buracos negros sociais que fazem implodir as organizações sociais que tentam resistir. Depois, é o povo quem decide. Se o “regime” (são todos catalogados desta forma) for suportado, de forma real, na vontade popular, com dificuldade, lá se vai aguentando. No caso de o apoio ser contextual, após a primeira saraivada de sanções, lá entra o FMI e acaba o “regime” para se dar início a uma democracia florescente.

Mas isto sai muito caro, caríssimo. Manter um império, implica manter uma máquina militar desproporcionada e um complexo militar industrial, que, sendo privado (como é o caso do americano), consome quase todos os recursos disponíveis, sendo um buraco negro que suga todas as forças vitais de um país, instrumentalizando-o em função as suas necessidades. Foi o próprio Eisenhower, no final do mandato, quem avisou para isto. De nada serviu.

Eis que, passados 21 anos após a cartada da “guerra ao terror” que ainda provocou mais terrorismo, e do plano de invadir 7 países em 5 anos, a desagregação a que assistimos, em andamento, vem forçar (e aconselhar) uma aterragem apressada. A opção de “prá frente é que é caminho” e “venha o caos”, tem os seus dias contados. Afinal, todo o Sul Global já percebeu o que significa continuar a insistir na mesma tecla em que tocam há 500 anos.

Os primeiros sinais de travagem podem vir de dentro, sendo que, esta travagem não implicará uma paragem. Pode significar, apenas, uma inversão de sentido, mas sempre com o mesmo objetivo: o domínio hegemónico; o “governo” mundial; a “nova ordem”; não faltando classificações sobre o assunto. O primeiro sinal veio de uma candidata republicana, ao referir que “com a nossa vitória, nem mais um tostão para o país de Z.”, e “utilizaremos todo o nosso dinheiro para acorrer aos problemas do povo americano”. Ontem, foi o próprio Trump a assumir que, com ele: “Não haveria guerra na Ucrânia”. Agora, veio Musk dizer que, “para equilibrar as coisas, sugiro o voto no partido republicano”. O que isto provocou!

Hoje, o folhetim de serviço ao Partido Democrata americano em que se transformou o jornal Público, já veio dizer que “os famosos estão a fugir do Twitter”, tentando assim ferir Elon Musk, apenas porque ele teve a veleidade de exercer a sua liberdade de opinião, num órgão que comprou, mas que o Partido Democrata usava para censurar as opiniões antiguerra e outras que não lhe convinham.

O nervoso miudinho do mainstream (centrão) partidário ocidental continuou a fazer-se sentir. Atualmente, os partidos mais militarizados já não são os da extrema-direita, mas os liberais e sociais-democratas, nomeadamente os que se colocam na orla do partido democrata dos EUA e da franja neoconservadora do partido republicano, também dos EUA. Por cá, equiparável aos partidos apelidados de “moderados”. São estes, apoiados pelas claques dos partidos identitários, animalistas, “transgenistas” ou pseudo ambientalistas (a que a esquerda de classe americana chama de “shitlibs”), que constituem a grande base de apoio ao Império estado unidense e à sua matriz militarista, cada vez mais agressiva e ingerente.

O comentador de serviço na SIC (não me recordo o nome porque já não os distingo, visto que dizem todos o mesmo) lá veio exprimir a sua preocupação, dizendo de forma inflamada – quiçá inspirado no ódio xenófobo de Milhazes -, que “o que eles não dizem é que tudo começou porque a Rússia não aceitou que a Ucrânia exprimisse o seu direito de entrar nas organizações internacionais que quisesse”. É verdade, “eles” não disseram isso.

Mas, pergunto eu, valerá a pena começar pelo que “eles não dizem”? Teremos, outra vez, de dizer tudo o que “eles não dizem” sobre o assunto? É que, o que “eles”, os comentadores de serviço, de TODA a comunicação social empresarial ocidental, quais homens duplicados, “não dizem”, é infinitamente mais grave, mais manipulador e deturpador da realidade, do que o não dizer que Rússia “desconsiderou a independência da Ucrânia“.

Se alguém o fez primeiro, todos sabemos quem foi. Em 2012, o mapa eleitoral da Ucrânia era bem elucidativo da divisão de forças reinante. Ao contrário do que se repete, hoje, vezes sem conta, como se de verdade se tratasse, a população pró Rússia não era uma minoria, uma mera minoria. Como se o facto de o ser justificasse as agressões que viria, a partir de 2014, a sofrer. Nunca justificaria.

Em 2012 o Partido das Regiões ganhou, uma eleição limpinha, ao Fatherland. Se o Partido das Regiões tinha a sua implantação a leste e em Kiev, o Fatherland tinha a sua implantação a oeste. Com exceção de Odessa, cuja região havia sido ganha pelo Partido Comunista, mais tarde ilegalizado pelos democratas P. e Z., todo o restante país estava dividido, com vantagem para o leste.

A História, aquela disciplina chata, que insiste em revelar-se, mesmo contra a versão do vitorioso, diz-nos quais as razões que justificavam esta divisão:

  1. O facto de a Ucrânia não ser propriamente um país, mas uma região onde se encontravam dois impérios, um que influenciava a fronteira ocidental e outro a oriental; o significado do nome do país é “fronteira” e constituía uma espécie de zona desmilitarizada entre dois potentados militares;
  2. Em 1917, com a entrada da Ucrânia para a república soviética, foi decidido, a régua e esquadro, juntar à parte ocidental e central, a parte oriental, tal sucedendo porque a ocidente a atividade económica predominante era a agricultura; para dar uma oportunidade aquela república recém-formada de se desenvolver, foi decidido juntar-lhe 4 regiões muito ricas e industrializadas (as tais 4), com um senão: estas regiões eram habitadas por gente da Rússia.

Alguma luzinha? Pois. Esta construção artificial criou um país composto por duas etnias, não apenas com língua distinta, mas com religião e cultura distintas. Uns a puxar mais para a Europa central, outros a puxarem mais para a Rússia. As eleições sempre refletiram esta divisão. De Lviv a Odessa é um país, de Odessa a Lugansk é outro. Kiev é uma ilha oriental, do lado ocidental.

Mas o que não dizem “eles” também, é qual a natureza ideológica dos partidos em confronto. Neste quadro, as forças do Fatherland constituem, por natureza, um partido reacionário, composto por outros movimentos de direita conservadora e extrema-direita, todos pró-ocidentais (é isso que os une), sendo o Partido das Regiões um partido composto por outros mais social-democratas, liberais e até esquerdistas (o PC concorreu sozinho). O Fatherland do centro para a direita, o Partido das Regiões, do centro para a esquerda. É por isso que, hoje, na UE, quem for do PS ou do PSD não teria partido em quem votar, pois foram “democraticamente” extintos.

O que “eles” também não dizem é que, para conseguir ganhar o poder, havia que eliminar alguns partidos que apoiavam o Partido das Regiões, ou que ajudavam a desequilibrar o poder para o seu lado (o caso do PC). E como foi que o fizeram?

O segredo mais mal-escondido da história é o euromaidan. Aproveitando uma legítima manifestação anticorrupção, as forças reacionárias ocidentais – que bom foi ver Ana Gomes que se diz de “esquerda” a dar bolinho aos neonazis de serviço, com Victoria Nuland à cabeça -, organizaram uma ofensiva antidemocrática e subversiva, comandado pelo Sector Direito e pelo C14 (juventude neonazi do Svoboda), para transformar os protestos de Maidan, num golpe de estado contra o Partido das Regiões. A partir daí foi fácil.

Disse o secretário-geral do C14 que, “se não pegássemos na coisa e começássemos a disparar sobre os manifestantes, em vez de um golpe, teríamos uma parada gay”. Está na net para quem quiser ver.

Presos, perseguidos e ilegalizados, os opositores (com o célebre e genocida incêndio da casa sindical de Odessa à cabeça), impedidos de votar muitos dos cidadãos orientais, foi assim desequilibrado, a favor da direita reacionária, o poder no país. Hoje, é um regalo ver tanto europeu que se diz de “esquerda” a apoiar nazis, neonazis, neoconservadores, ultraliberais e corruptos oligarcas, apenas porque lhes dizem que são coloridos como o arco-íris e porque, do outro lado, está um urso que não gostará de homofilos.

É toda uma estratégia programada no tempo e bem documentada no célebre PNAC (Plan for The New American Century), mas não só, que apenas é identificada por quem olhar para o nosso tempo como parte de um tempo histórico.

Uma das estratégias mais usadas pelo capitalismo neoliberal para alienar o povo da sua história consiste em concentrar a sua atenção em períodos muito curtos, tão curtos e tão povoados de informação efémera que o impeçam de olhar numa perspetiva histórica mais longa.

Depois diz-se: “ah! Os chineses têm um tempo diferente”. Não, não têm nada. Apenas sabem História e olham para a História quando opinam. Aqui, qualquer um opina sem olhar para a História. E quem não olha para a História, não sabe para onde vai. É hora de deixar de olhar para o chão e olhar para o céu e sonhar em começar algo de diferente!


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O Presente Distópico, o Futuro Ausente

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 25/10/2022)

Com a morte de Adriano Moreira tivemos o “prazer” de assistir ao pináculo da manipulação dos factos históricos, uma deturpação que só é possível no atual nível de concentração dos meios de relações públicas (apelidados de “comunicação social”) que, hoje, as oligarquias económicas têm ao seu dispor, mais do que nunca.

Tal deturpação pôde ser acompanhada em direto na SIC, no “Jornal da Noite”, quando, após peça jornalística na qual se relembrava o facto – verdadeiro, confirmado, documentado – de Adriano Moreira ter mandado reabrir o campo de concentração do Tarrafal, a pivot Clara de Sousa, logo de seguida, mostrando uma urgência fora do normal refere qualquer coisa do tipo “como a verdade é que conta, quero corrigir a peça e dizer que não foi verdade que AM tenha mandado reabrir o campo do Tarrafal”. E mais não disse, e mais não acrescentou, nem prova, testemunho ou documento. Nada!

Não é difícil perceber o que se passou. Perante a peça, verdadeira, que pretendia mostrar a suposta “complexidade” histórica de alguém que foi pilar da ditadura, alguém, de grande importância, terá telefonado para a régie e dito “que história é essa”? “Isso é um ultraje”, “ordeno que seja retirado”. Quem terá sido? Podem ter sido muitos, pois são mesmo muitos os que pretendem, ontem e hoje, o branqueamento do fascismo. Candidatos não faltam, de representantes da Nação, ao mais alto nível, a empresários e figuras do “regime”. O facto é que todos pudemos assistir, em direto, a um exemplo do mais atroz revisionismo histórico.

Esse revisionismo é uma prática comum nos dias de hoje. AM assinou a portaria que reabre o “campo de trabalhos”, mas na capa do pasquim “I”, diz-se que AM foi uma “figura que ilustra a complexidade da história”. A “complexidade”. Quando a figura agrada aos canais de Relações Públicas (R&P) da oligarquia, o termo “tirania”, “ditador”, “carniceiro”, “torturador” e “campo de concentração” para políticos da oposição, em especial, comunistas, são substituídos por “complexidade”. Esta relativização e branqueamento, das personalidades muito caras à oligarquia, são conhecidos. Afinal, George Washington, um esclavagista, racista e xenófobo, é classificado como “um homem do seu tempo”, como se a esse tempo não houvessem já lutas contra a escravatura, a exploração e a tirania. O mesmo é feito em relação a muitas outras figuras, atuais e passadas, que no seu currículo juntam as mais torpes e vis agressões à Humanidade.

Ao mesmo tempo encapotam estas “personalidades complexas” numa áurea de santidade intelectual que tudo desculpa, deturpação que só é possível devido ao controlo económico dos meios de construção da opinião pública.

Por sua vez, podemos ver o movimento inverso quando se tratam de personalidades que não agradam, mesmo nada, ao sistema oligárquico. Vejamos o caso, uma vez mais do “I” (este pasquim é mesmo de arrepiar), relativamente a Xi Ji Ping. Diz então que “encheu a liderança de homens fiéis”. Se não me apetecesse gritar, partia-me todo a rir. Então é só na China de Xi que os líderes se rodeiam de gente de confiança? Bem, então já descobri o problema que nos está a arrastar para a lama. Os líderes no Ocidente, das duas uma: ou não são líderes e não escolhem ninguém, e por isso estão rodeados de traidores, engraxadores, bajuladores e espiões; ou são líderes e escolhem mal os seus apoios, optando por gente de que desconfiam, sobre quem têm reservas e que querem destruir. O resultado de uma coisa destas só pode ser um: a degradação continuada das nossas condições de vida, causada por uma erosão constante das instituições democráticas, habitadas por gente em que não podemos confiar. Na forma são “democráticas”, mas, na verdade, são ocupadas por gente de confiança das oligarquias. Poucos partidos, em Portugal e na Europa, se podem orgulhar de ter nos seus órgãos verdadeiros representantes do povo. Gente cuja chegada ao poder depende, exclusivamente, dessa condição.

E o facto é que eu acredito mesmo que, nas estruturas democráticas, se agrava, de facto, a tendência para esta erosão, na medida em que apenas em órgãos de base (e com pouco poder decisório) podemos encontrar gente cuja chegada ao local não foi determinada em função de interesses exteriores ao processo democrático. Quanto mais subimos, constatamos que, grande parte dos ministros (só para falar destes), de um país como o nosso, não é escolhida em função da confiança, lealdade e identificação para com a liderança saída das eleições de um partido, ou da Nação, mas em função da lealdade a outras instâncias de poder, muito mais abrangentes, mas, ao mesmo tempo, mais distantes dos interesses e ansiedades do povo.

O ministro das finanças tem de ter a chancela do FMI, da UE, mas, sobretudo, dos interesses económicos mais poderosos. Nem que se tenha de ir buscar um ao estrangeiro, como se foi buscar Gaspar. O Primeiro-ministro, regra geral, tem de ser abençoado pelo G7, pelo Fórum de Davos e pelo Bilderberg. É essa a eleição que conta depois para a aceitação da figura pelos magnatas da comunicação social. António Costa, mesmo em 2015, já tinha ido ao beija-mão do Bilderberg. Medina também já lá foi, e isto diz muito de per se. O Ministro da Defesa só entra com a bênção da NATO. Nem se pense que não é assim. O mesmo para o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que tem de passar pelo crivo da FLAD, da NATO, do G7. O Ministro da Economia, é ungido dos mesmos interesses que o das Finanças. Eis, por que razão, se chega ao ponto de naturalizar gente à pressa, como sucedeu no país de Z, ou de os ir buscar às universidades da Ivy League, como sucedeu com Álvaro Santos Pereira ou Úrsula Van Der Lata.

É essa passagem pelas instâncias formativas do poder internacional que confere a legitimidade governativa e garante a defesa dos interesses, mantendo a aparência da alternância de poder. O líder não escolhe as linhas mais importantes do seu exercício; antes, só chega lá o líder que se acomoda, porque, no fundo, a sua liderança é apenas mediática. Mesmo do ponto de vista da atuação governativa, hoje, nos países do Ocidente coletivo, toda a governação está normalizada, dando espaço a muito poucas nuances. Desde a economia, às finanças, ao trabalho, em todas elas, a UE (Comissão), O Banco Mundial, o FMI, o BCE, o FED, OCDE, todas estas instâncias emitem, não apenas, as “recomendações”, como as “avaliações”. Na atribuição dos fundos, a UE emite as “condicionalidades”. Não cumpres a condicionalidade, não recebes o dinheiro. E quem não perceber que isto funciona mesmo assim, de forma a garantir a estabilidade governativa dentro dos parâmetros de interesse da oligarquia globalista neoliberal, então não percebe em que mundo vive e não está preparado para participar democraticamente. Hoje, um país como o nosso, nem o IVA pode alterar sem autorização exterior.

Este sistema afasta, de forma inexorável, as grandes decisões em relação ao processo democrático formalmente em vigor. O procedimento é simples: despojar o sistema democrático de qualquer iniciativa ou proatividade. Daí que Cavaco Silva tenha, aquando da Geringonça, feito o rol de normalizações a que o governo teria de obedecer, e apenas com essa promessa ele o viabilizaria. Percebem agora? Não há autorização para sair do itinerário, admitindo-se apenas mudanças de pormenor.

Mas, a isto chamam “democracia”. Já quando um líder eleito exerce o seu poder, não deixando quem está fora decidir por quem está dentro, cumprindo o que prometeu ao povo, o sistema tecnocrático que funciona para a oligarquia, apelida o dirigente de “ditador”.

Se aqui se prende o Assange e o Snowden tem de fugir, é democracia, se o mesmo se passar na Rússia, é ditadura. Se aqui se controlam, à palavra, as redes sociais, é democracia, se for o governo chinês a fazê-lo para proteger a soberania nacional e o povo, de qualquer ingerência externa, é ditadura. Se Adriano Moreira reabrir o Tarrafal é “mentira” ou, quanto muito é “complexo”.

Se os EUA tiverem um Guantanamo, campos de trabalhos forçados e a Inglaterra tiver inventado os campos de concentração nas suas colónias, são democracias, se a URSS mantém alguns goulags do czarismo, é uma tirania.

Obrigar os empresários a cumprir sanções que levam sectores inteiros à falência, é proteger a democracia. Se um estado nacionalizar ou condicionar a entrada de privados em determinados negócios, de forma a proteger a sua soberania, é ditadura, e por aí adiante. Tudo em função da pretensão e do posicionamento relativo face ao poder estabelecido.

E perante esta dualidade que nega a análise, o debate e castra o nascimento de alternativas reais que respondam aos interesses do povo, como é suposto em democracia, acusa-se quem tentar explicar o que se passa de conivência com o inimigo, num processo inquisitorial que visa calar, condicionar, desmoralizar e desacreditar quem tenta lutar contra esta maré auto suicida.

E neste auto suicídio assistido, temos como assistente mor Van Der Lata. A história de Úrsula é tão escandalosa como obscura. Casada com Heiko Von Der Leyen, Director do laboratório americano Biotech Orgenesis, especializado em terapias celulares e genéticas, e detido pela… Pfizer, Van Der Lata comprou 10 vacinas desta farmacêutica por cada cidadão da UE, gastando mais de 70 mil milhões de Euros, uma parte dos quais terão necessariamente revertido em bónus para os seus bolsos, via marido.

Para se perceber por conta de quem ela governa, vejamos que quando o Parlamento Europeu lhe pediu os contratos assinados com a Pfizer, estes foram fornecidos com mais de 99% das clausulas tapadas, por razões de “propriedade intelectual”. Ou seja, uma tecnocrata gasta mais de 70 mil milhões do nosso dinheiro, e nem os contratos podemos ler, porque ela o diz. O processo de contratação pública foi por ajuste direto, o que descansa ainda menos, quando os escândalos que fizeram esta sinistra figura sair da Alemanha, foram precisamente os escandalosos ajustes diretos. Mas Úrsula estudou na Ivy League, e tem os mais elevados pergaminhos que lhe permitem aceder aos mais altos pódios. Fossem os órgãos de R&P próprios de democracias, e os telejornais teriam de abrir com declarações da diretora da Pfizer para a UE, dizendo como a farmacêutica nunca chegou, sequer, a testar as vacinas em matéria de transmissão do vírus entre pessoas. Apenas testaram para imunização e sem placebo, como foi denunciado nos EUA e como obrigam as normas internacionais. E tal como mentiram nas máscaras, mentem no resto, seja por omissão, seja descaradamente, principalmente porque sabem que os tentáculos do seu “polígrafo” nunca são longos o suficiente para chegarem à sua própria casa.

Para quem não percebe como se produz um estado de letargia, aceitação e até de autodestruição de uma população, veja-se o caso do país de Z, em que os 5 oligarcas mais ricos detêm, igualmente, todos os órgãos de R&P de grande tiragem. Só assim convenceriam uma parte importante do povo que os antes irmãos, passavam agora a inimigos a abater.

E enquanto colapsa o mundo liberal nascido há 500 anos, na era mercantilista (o liberalismo é a ideologia do modo de produção capitalista na sua fase imperial), vítima das suas insanáveis contradições, reduz-se a submissão do Sul Global (e da maioria da Humanidade) ao bloco ocidental, ao passo que os EUA aceleram o processo de pilhagem que outros começaram há 500 anos, numa desesperada corrida para manter a sua hegemonia. E neste quadro, eis que em Portugal se apresenta o nascimento de um partido liberal como uma “modernidade”.

Se um partido liberal já não era moderno há 200 anos, quando se deram as revoluções liberais em Portugal, país sempre atrasado nestas coisas, hoje é simplesmente anacrónico, apenas aceitável e explicável pelo elevadíssimo grau de ignorância política, histórica e ideológica dos quadros corporate, empregados da oligarquia, os quais, dominando muitas vezes a técnica de forma magistral, não consubstanciam tal domínio numa coisa que faz falta a todos: a cultura geral. Só assim se pode acreditar que “liberal” é moderno, precisamente quando em Inglaterra, nos EUA e um pouco por todo o Ocidente, colapsa o que conhecemos por sistema capitalista liberal.

Prova da natureza absolutamente predadora deste sistema, e da forma como tal se agudizou, desta feita para os povos ocidentais – antes mais protegidos da pilhagem, pois era no Sul Global que mais tropelias se faziam -, em resultado das dificuldades crescentes de manutenção dos níveis de dolarização e de ocidentalização das estruturas financeiras, comerciais e produtivas internacionais (e a China é de facto uma ameaça inultrapassável para o mundo capitalista liberal), o que dificulta a recolha de “almoços grátis” de que a recente redução da produção de petróleo da OPEC+, contra as pretensões e Washington, é apenas um exemplo, assistimos, hoje, a um agravamento brutal da exploração entre portas.

Se com a crise de 2008 tivemos um ataque à divida soberana, que submeteu definitivamente as economias de países como o nosso, às exigências dos “credores”; se veio o Covid-19 que representou um prémio absolutamente pornográfico para a indústria farmacêutica privada, principalmente a americana, como usual; hoje, temos de conviver com a especulação energética, a qual, em cima das restantes, leva os lucros a subirem ao mesmo ritmo que se agravam as nossas condições de vida.

Que jeito deram as sanções e a guerra. Se eu não soubesse quem a provocou, diria que era oportunismo. Mas não é… é mesmo planeamento. O controlo monopolista dos canais de transmissão de informação torna possível todo o tipo de tortura social, por ser possível garantir, com elevada taxa de eficácia, que só se fala do que não se deve e não se fala nada do que se deve.

Agora, tempos de inflação, um verdadeiro imposto sobre os pobres. E enquanto se agravam as nossas condições de vida, distraem-nos com o medo do desconhecido… quanto menos os canais de R&P falam do que se passa no mundo, maior o medo em relação à diferença… quanto maior a ignorância, maior a manipulação.

O medo é uma arma poderosíssima… Mas nunca para o progresso. Apenas para o retrocesso. Eu desconfio sempre dos sistemas que apostam no medo, ao invés da confiança! Ler as resoluções do G7, da NATO, do FMI ou do Fórum de Davos é como ler um livro de H. P. Lovecraft. É aterrorizante! Ao invés, experimentem ler as resoluções dos BRICS, da SCO ou da EAEU… Os primeiros apresentam-nos o inferno… Os segundos falam em futuro compartilhado… Uns falam em conter, boicotar, sancionar, pressionar… Os outros em construir, partilhar, cooperar…. Diria que já o tivemos por cá, mas não mais… Hoje é só distopia, passadas as promessas cor-de-rosa pós muro de Berlim. Muitos muros se constroem à nossa volta desde então.

E com este medo se cava, ainda mais, o fosso entre o presente e o futuro!

Sem análise do passado (análise histórica) e sem projeção do futuro, fica apenas um presente distópico, inultrapassável e esmagador…. Há algo melhor do que isto para a letargia? Há algo melhor, para quem manda, do que um sentimento conservador assente em ideias como: “é melhor parar, porque ainda pode piorar”; “é melhor deixar como está, porque há quem esteja pior”? Este reacionarismo, situacionismo e conservadorismo, mesquinho e tacanho, visa colocar-nos em choque… Porque em choque é-nos impossível agir.


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Estou mais descansado; vivemos num “jardim”!

(Por Hugo Dionísio, in Facebook, 17/10/2022)

A Europa é, de facto, um “jardim”, como diz o conselheiro de política externa Joseph Borrel (Ver aqui). Mas trata-se de um jardim que, ao invés de proteger as flores, opta por proteger as ervas daninhas e as pragas.

“Há uma crise”, dizem; “a europa está em guerra”, repetem. Estas são as causas apontadas, para o que vem depois, como conclusão: “a classe média pode deixar de existir”; “o fosso entre ricos e pobres é cada vez maior”; “cada vez há mais pobres na UE e em Portugal ainda é pior”.

E repetem estas conclusões como se de inevitabilidades se tratassem. Aliás, não apenas as classificam como tal, como até as perpetuam: “a situação nos mercados mundiais não anuncia nada de bom”; “a guerra comercial com a China está a perturbar ainda mais as cadeias de abastecimento”; “a guerra (leia-se: “as sanções que os EUA colocam à UE e esta a si própria”) pode colocar em causa o inverno” …

Ouvir as notícias é como assistir a um filme de terror em realidade virtual, vivendo sobressaltos constantes que nos colocam próximo do colapso cardíaco, mas com uma diferença: nós podemos acabar com o filme quando quisermos. Com estes, não é assim tão fácil (embora desligar a TV faça cada vez melhor à saúde mental).

Ao contrário, o filme de realidade aumentada com que nos metralham diariamente é apresentado como se não tivesse fim. “Não há fim à vista e ainda pode vir a piorar”, diz um qualquer politólogo ao serviço da “democracia consolidada” que atingimos. Mais de metade já nem vota, a maioria foge de nós quando lhes queremos falar de política; mas vivemos numa “democracia sólida e sustentada por instituições democráticas”.

Uma dessas “instituições democráticas” que ninguém elege é a que mais ordena. Ordena censura, ordena negação de aconselhamento jurídico, ordena proibição de comércio de determinados produtos e para determinados mercados, ordena a compra de 10 vacinas da Pfizer por cidadão europeu, ordena armas e mais armas para alimentar o genocídio de gente jovem que combate a guerra que aos ricos interessa.

A este respeito, o que dizer dos carros de ucranianos “refugiados” que, regra geral, não custam menos de 70.000,00€ por espécime? Já viram algum que custe 1.000,00€? Eu não! O que mostra quem “pode” fugir e quem lá tem de ficar a “combater pela pátria”. Os pobres no triturador, os ricos no “jardim” de Borrel.

No final de tanta sanção, embargo, bloqueio, apoio financeiro, armas e mais armas, boicote, pressão, bazuca, fundos comunitários e agendas verdes… olhamos, observamos, estudamos, e o que vemos?

Vemos que, a população portuguesa está mais pobre e continua a empobrecer ainda mais. Se retirassem as transferências sociais, feitas pela segurança social que muitos querem privatizar, porque é “moderno”, é “liberal”, o nosso país teria 4,4 milhões de pobres. Quase metade da população! Mesmo com pensões, subsídios, complementos e suplementos, ficam 1,9 milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, o qual, só por si, não retira ninguém da miséria por ter ultrapassado (554,00€).

Portugal tem mais de 1 milhão de trabalhadores, os quais, mesmo trabalhando, não se libertam da pobreza. Será mesmo um dos países da UE com mais trabalhadores pobres. São trabalhadores, produzem riqueza, mas são pobres, porque alguém fica com ela!

Se de 2014 até 2019 o ciclo inverteu-se (porque terá sido?), em 2020, entrados na pandemia, tudo voltou a piorar. Em 21, depois da eleição de um governo, desta feita, “livre das amarras da extrema-esquerda”, o que ficou? Mais pobreza. Ah! Mas é a guerra! O facto é que Portugal está no terço mais pobre da UE.

Mas, se é “da crise”, “da guerra”, “da pandemia” ou, como é realmente, “das sanções que visam desindustrializar a UE e subordiná-la economicamente aos ditames dos mesmos de sempre”, como justificar que os ricos estejam ainda mais ricos?

Penso que já não era segredo para ninguém que, quando víamos um carro novo (daqueles com 4 letras na matrícula), invariavelmente, esse carro é de três tipos: alta gama; média gama, mas TVDE; baixa gama.

O que demonstra esta realidade é que não existe uma crise, propriamente dita. O que existe é um processo de acumulação e concentração de riqueza, sustentado numa realidade apenas aparentemente caótica, para quem está por de fora, mas que, no conjunto dos desequilíbrios, a mesma resulta como uma vantagem organizada para quem detém os meios de ajuntamento da riqueza produzida. É como uma esponja, que tanto mais suga, quanto maior a quantidade de água, sem limite físico que não seja a vontade do povo em desfazê-la um dia.

Esta riqueza, produzida pelo trabalho, ao contrário do que seria suposto num “jardim”, acaba sempre nos caules das ervas daninhas. O que comprova a minha tese: a Europa é de facto um “jardim”, como diz o conselheiro de política externa Joseph Borrel. Mas trata-se de um jardim que, ao invés de proteger as flores, opta por proteger as ervas daninhas e as pragas. Estas pragas cada vez são mais fortes, as ervas daninhas cada vez mais resistentes… As flores cada vez mais murchas.

E, no final disto, tudo o que justifica um mundo onde cada vez vivemos pior é apenas uma coisa: o “jardim” é democrático e a “selva” é uma ditadura! Mesmo que, quando bem-feitas as contas, o “jardim” cada vez seja mais selvagem, e a “selva” cada vez mais ajardinada. Afinal, quando queremos ver crescimento económico rápido, transformações substanciais na qualidade de vida dos povos e progresso e confiança no futuro, é para o oriente “ditador” que teremos de olhar.

O que nos leva a uma grande discussão sobre o que é, de facto, a “democracia” e sobre as falácias que se vendem nos produtores de entretenimento noticioso para adormecer o ouvinte. É que “democracia” significa “governo do povo (demo + cratia)”, ou seja, “em nome do povo”, “no interesse do povo”, “participado pelo povo”… “Democracia” não significa “sufrágio universal”, ou “escolha do governante através de eleições”, no caso presente, eleições extremamente condicionadas pelo poder financeiro de uns e pelo apagamento de outros. Os métodos de escolha podem variar, como os modelos de participação, como os de governação. Este, o “liberal”, adotado pela burguesia revolucionária no período das revoluções liberais (há mais de 200 anos), é apenas o que mais lhe serve.

Quem detém meios e representa os interesses de quem os detém, tem mais horas no “spinning”, tem mais tempo de antena. Em suma, chega mais às massas. O que não quer dizer que o que defenda seja “do interesse das massas”, e tenha em conta a maioria da população.

E a falácia está bem à vista: as massas votam, mas nunca – ou muito pouco – acertam em quem defenda, de facto, os seus interesses. E, se existe falácia maior, é que a realidade que vivemos, caracterizada, desde o início do século, por uma reviravolta na riqueza produzida que é distribuída para retribuir o trabalho (passou a ser menos de 50%); por uma desregulação inexorável dos direitos laborais; pelo ataque às organizações sociais de classe; esta realidade, que só pode levar a um empobrecimento de quem trabalha, resulta inegavelmente do modelo de governação normalizado, padronizado e estandardizado da UE (Michael Hudson no seu ultimo livro bem explica porque é que a UE não pode ser diferente disto mesmo).

É por isso que nenhum partido defensor da UE, na sua atual configuração e ideologia, pode prometer algo de diferente. E porquê? Porque os governos nacionais não podem, se quiserem ser bem-comportados, governar de forma efetivamente diferente, com diferenças substanciais que mudem radicalmente as condições de vida de quem trabalha.

Desde o tratado que institui a UE, adotado sem discussão e votação democrática, aos inúmeros instrumentos de política económica (tecnocráticos e nunca discutidos democraticamente), os quais a Comissão Europeia produz e obriga a adotar sob pena de multas e sanções, o caminho de empobrecimento de quem trabalha está bem trilhado.

E desengane-se quem pense que isto só acontece em Portugal. Não! Acontece em toda a Europa. Claro que os países nórdicos partem de uma base material mais sólida, mas o seu trajeto é igualmente descendente. Em todos os países o trajeto de desregulação do trabalho e a consequente destruição da almofada social que este constitui, é observável de forma científica.

Claro que a EU vem com o bonito e charmoso Pilar dos Direitos Sociais e com a introdução deste nas recomendações do semestre europeu (instrumento de “recomendações” à política económica dos estados membros). Tudo parece glamoroso. Mas não é. No final, o grande sustentáculo da liberdade, da democracia e da segurança, é o trabalho com direitos. Os subsídios são apenas amortecedores sociais, quando o trabalho não funciona. Ora, destruindo o trabalho, tornando-o mas precário, errático, menos humanizado, dando voz à tradição “liberal” de que, trabalhador e patrão estão em “igualdade de circunstâncias”, o resultado só pode ser o que estamos a ver. Não se criam sociedades avançadas com subsídios apenas pagos aos pobres, que nunca os tiram da pobreza. Não se criam sociedades avançadas sem sindicatos fortes, de classe, sem contratação coletiva sólida e sem trabalhadores motivados, qualificados e conscientes. Com carneiros acéfalos, só se criam rebanhos… Nada mais!

E enquanto os riscos aumentam a sua riqueza, os pobres aumentam a sua fome. E acima de tudo, ficam órfãos da tal “democracia” liberal, tudo porque esta existe para defender quem a comanda, e quem a comanda é quem detém os meios de produção, é quem detém a riqueza.

É por isto que não podemos aceitar que, por sermos “democracia”, já podemos aceitar viver mal, porque, afinal “existem ditaduras”. Temos de “comer e calar” porque “há quem não coma”. Então, para que serve? A democracia não é um capricho, um dogma ou uma religião. É um instrumento de governação. Não é, sequer, a governação em si.

Com democracia, governa-se, necessariamente, melhor. E é por isso mesmo que se tem governado tão mal. Quanto mais enfraquecida a democracia, pior a governação, pois a força de uma sociedade reside na diversidade de contribuições que a mesma está preparada para dar. Nesta, opta-se por fomentar o carneirismo. Ataca-se, precisamente, quem pensa diferente. Ora, não existem democracias em que todos pensam igual. Só alienação.

A democracia é um processo, acima de tudo, um processo de autodeterminação, de desenvolvimento humano, individual e coletivo. Se o não for, e se apenas servir a meia dúzia de unicórnios, então, nunca pode ser “democracia”. Tal como uma “ditadura” que governa no interesse da maioria do povo, nunca pode ser, realmente, uma “ditadura”, pois serve ao povo. E esse é que é o aspeto fundamental: se serve, ou não, ao povo.

Quanto muito, existem planos de liberdade, planos de democracia e planos de autoridade, em que uns são mais fortes, num caso, e outros, noutro. E são essas nuances que fazem a diferença e cuja compreensão nos negam, precisamente para levarem o povo trabalhador (a esmagadora maioria) a olhar para a política, não como a atividade nobre que pode resolver os seus problemas, mas como o futebol: uns contra os outros! Seja como for, é por uma democracia que governe no interesse da maioria que temos de lutar, e não por uma que se limite a legitimar o poder de uma minoria, cada vez mais poderosa e autoritária.

E, no final, acabamos a constatar que, já no 9.º pacote de sanções à Rússia a ser discutido, dos 27 países da UE, 6 aumentaram as suas exportações para este país, desde Fevereiro; as importações de lá, para a UE, aumentaram 83% (p.ex. a Espanha aumentou 43%, a Eslovénia, a República Checa e a Eslovénia, na casa das centenas de pontos percentuais…), o que me leva a questionar… Afinal que sanções são estas?

São, acima de tudo, as sanções com efeitos na política energética da UE, aplicáveis a tudo o que é petróleo, derivados de petróleo, gás, eletricidade, urânios… O que leva à minha conclusão: trata-se de sanções que a UE aplica sobre si própria, que os EUA mandam aplicar para a desindustrializarem, para a tornarem dependente da sua energia cara e de má qualidade. E como podemos ver, os ricos continuam a ficar mais ricos e os pobres mais pobres… O que quer dizer que, seja lá o que for, está a funcionar e bem. Apenas não funciona para a maioria da população.

E ver a maioria da população apoiar isto, como se de um “jardim” efetivamente se tratasse… E tudo baseado na lógica de que “ah” afinal somos um jardim”, os “outros são selva”. E tudo sem vermos a “selva” e, sobretudo, sem olharmos para o “jardim”. E perdidos continuamos a ir uns contra os outros.

E se, com isto, ninguém perceber do que trata esta guerra…

P.S. Não tenho a certeza do que andam a armar, mas esta paranoia das “ameaças nucleares” que nunca existiram, tem muito que se lhe diga. Parece que os EUA precisam que a UE aplique à Ucrânia um pacote de apoio – ou investimento -, assim na casa das dezenas de biliões… parece que têm lá muitos Himars e Howitzers para vender. E, para isso, há que nos assustar bem assustados!


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