O general Isidro Pereira e a candidatura a Presidente da República

(Carlos Esperança, in Facebook, 01/07/2025)


O general tem sobre mim a vantagem de ter melhor ouvido. Eu precisaria de que me gritassem para ouvir, na rua, um pedido para me candidatar a PR, e tenho suficiente lucidez para me rir e pudor bastante para não me gabar do apoio do Chega.

Bem sei que a conduta dos dois últimos inquilinos de Belém degradou tanto o cargo que qualquer idiota pode julgar-se capaz de o ocupar. Mas Cavaco tinha enorme experiência política, só lhe faltava cultura, e Marcelo tinha ambas, só não resistiu à perversidade intrínseca e à sua matriz reacionária e conspirativa.

O sr. Isidro Pereira que currículo tem? Deslumbrou-se com o número de horas pagas na CNN, sem perceber que não é pelas análises que faz, mas pela propaganda que debita.

Quanto ao olho que pisca ao Chega não conte que o André se monte em tão fraca pileca, já lhe bastou apoiar o Almirante que, por estratégia, o desfeiteou. Imagine que todos os comentadores televisivos das guerras, próximos do Ventura, resolviam ser tão néscios! Tínhamos o Milhazes, o Botelho Moniz, o Rogeiro, o Poêjo Torres, a Diana Soller e a mais desejada por Israel e pelo chanceler alemão, Helena Ferro Gouveia, esse portento mitómano, vesga e insensível às atrocidades em Gaza!

Olhe que lhe sucede o mesmo que ao Marques Mendes, com outra envergadura política, sai de comentador a troco de nada. Mas o Mendes corre para o segundo lugar e não põe o País a rir.

Perante o general Isidro, até o Tino de Rãs parece uma figura de Estado. Nada indica que seja menos inteligente, e é seguramente melhor pessoa. Só lhe faltam estudos, e não é mais ignorante.

Mal imagina o sr. Isidro como é fácil saber quem está próximo do Chega, mesmo que o Chega não se chegue, basta estar atento à gramática. Na CNN, com a sua prosápia, não se atrevem a ensinar-lhe a conjugar o presente do conjuntivo do verbo chegar. Olhe que é dê e deem, não é deia e deiam, formas tão arcaicas como o oficial-general oriundo de Infantaria que merece o brevet de aviões pelo tempo que passa no ar na CNN.

Boa viagem para Belém, sr. Isidro, bem precisamos de quem nos faça rir.

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Notas soltas – ou do desplante à subserviência

(Carlos Esperança, in Facebook, 29/06/2025)

A fotografia com Trump vai sair cara aos países da UE e só Pedro Sánchez reservou um espaço sanitário a separá-lo dos vassalos felizes na companhia do Imperador!

1 – O PGR Amadeu Guerra, no caso Spinumviva, promete abrir inquérito a Montenegro “se houver fundamento”, mas não pode a investigação preventiva justificá-lo se a PJ só obtiver os documentos que ele quiser disponibilizar. A investigação preventiva parece criada para arquivar sem investigar. E o PGR já manifestou à Renascença “admiração” pelo PM!

2 – Soube-se que uma morte, durante a greve, foi atribuída a profissionais do INEM. A ministra da Saúde recusa tirar ilações e vai continuar no Governo até cumprir o desígnio de privatizar o SNS, tarefa inadiável dos partidos que votaram contra a sua criação.

3 – Portugal participou na agressão dos EUA ao Irão, através da Base das Lajes, e o PR disse que os EUA pediram autorização ao Governo para 12 aviões de combustível, para navios e aeronaves. Afinal, houve autorização ou, como disse o PM, foi de acordo com o tratado de cedência da Base?  E o que disseram os candidatos presidenciais?  Gouveia e Melo disse que não se pronunciava; Marques Mendes que era “uma não questão” e Seguro não se pronunciou. É desta gente que temos de escolher o PR!

4 – O PM foi a Haia comprometer-se a gastar 3,5% do PIB, até 2035, só em armamento. Não sei se isso se pode fazer, poder pode, porque fez, mas é legítimo tomar medidas tão gravosas para Portugal sem terem sido discutidas na campanha eleitoral? E ao almirante candidato a PR só ocorreu dizer que considera 5% do PIB “meta ambiciosa”!

5 – Pedro Sánchez, PM de Espanha, já tinha problemas com a direita, a extrema-direita, os bispos, a Opus Dei, a Justiça e a Nato. Agora afrontou Trump e os sionistas! Recusa sacrificar o Estado social ao armamentismo da UE, cada vez mais subserviente a Trump e ao seu capataz na Nato, Mark Rutte. E anunciou a defesa em Bruxelas da suspensão imediata pela Europa do Acordo de Associação com Israel “por lhe repugnar a violação constante de direitos humanos na Faixa de Gaza”.

A subserviência aos gazes imperiais... 🙂

 6 – A ameaça de Trump a Espanha, se não cumprir a meta imposta de despesa militar, aliás, da competência exclusiva da UE, esbarrou no vergonhoso silêncio da UE e dos restantes países da Nato. Trump veio à Europa verificar a falta de coluna vertebral dos europeus, extasiar-se com as bajulações e oferecer um boné igual ao seu ao lacaio Mark Rutte. Todos, exceto Sánchez, o ouviram embevecidos a falar “do amor e paixão dos líderes europeus, da vontade de proteger as suas nações e do desejo de que os EUA os ajudem” (sic). Que nojo de gente, Imperador e vassalos!

7 – Montenegro gabou-se de Portugal ser um País fundador da NATO! Ignora que Salazar procedeu à assinatura e promete gastar, ainda neste ano, mais mil milhões de euros, sem precisar de Orçamento retificativo. Que grande herança lhe permite ser tão perdulário! O que assusta é o desejo de recorrer a crédito da UE que pode ser ocultado no OE, mas para pagar, empréstimo e juros, é um ónus para as futuras gerações! Quem o autorizou?

***

Nunca, como com Trump, foram tão desprezados os direitos humanos, desrespeitadas as alianças internacionais e ridicularizadas as organizações multilaterais, incluindo a ONU e a UE, até a própria Nato pelo PR dos EUA, país ao serviço de quem tem estado.

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Lagos – 10 de junho de 2025

(Carlos Esperança, in Facebook, 10/06/2025))


A Pátria, em dívida com benfeitores e filantropos ávidos de veneras, cachaços à espera do aconchego do colar, peitos insuflados para aguentarem o impacto da medalha, foi a Lagos afagá-los em cerimónia vigiada.

Os agraciados são numerosos, mas há outros a quem nunca a venera baterá no peito, sem títulos académicos, militares ou eclesiásticos, simples Pereiras, Silvas ou Oliveiras, sem dinheiro para brasão na casa ou laço de banda de qualquer colar, para a lapela.

É divertido ver o ar dos agraciados e a forma eficiente como os embrulham, com mais esmero do que nas ourivesarias atam as caixinhas das alianças, e dói a manutenção da coreografia, até a soturna evocação, “morte de Camões”, de quem devia celebrar-se a vida dada a incerteza da data e local de nascimento.

O 10 de Junho, cuja simbologia Jorge Sampaio resgatou, há vinte anos que remete para o passado sombrio da ditadura, com gente de negro, pais a receberem medalhas dos filhos, mulheres de maridos mortos e crianças amestradas, junto de Américo Tomás, para lhes ensinarem que deviam estar gratas pela orfandade que as atingira.

A liturgia regressou ao Portugal de Abril, com um presidente eleito a repetir gestos de antigamente, num palanque onde sobem atentos e veneradores os agraciados, com ar de quem vai cumprimentar os familiares do morto.

Está anunciada a outorga de uma venera ao general Ramalho Eanes pelo Comandante Supremo que não foi à tropa, talvez para pedir perdão de o ter combatido na candidatura a PR, ao lado, como sempre, dos piores, para apoiar o general que tinha dirigido um lúgubre presídio, o Campo de S. Nicolau em Angola.

Não simpatizo com o dia, apesar do amor ao poeta e aos dez cantos d’Os Lusíadas. Não vejo televisão nem oiço rádio. Recuso-me a ver cerimónias do passado em ‘playback’.

Prefiro esquecer o épico cosmopolita de que a ditadura se apropriou para a exaltação da suposta raça, ideia de panegiristas de má raça que adularam Salazar. Nem o discurso de Lídia Jorge, cujo mérito é indiscutível, redime a cerimónia lúgubre. Vou ler o poeta lírico:

Sôbolos rios que vão

por Babilónia, me achei,

Onde sentado chorei

as lembranças de Sião

e quanto nela passei.

Ali, o rio corrente

de meus olhos foi manado,

e, tudo bem comparado,

Babilónia ao mal presente,

Sião ao tempo passado.

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