Os avós de Schäuble

(João Quadros in Jornal de Negócios, 24/07/2015)

João Quadros

João Quadros

A entrevista de Schäuble, esta semana no Diário de Notícias, confirma tudo o que se esperava: Schäuble é um contabilista básico, com um complexo de superioridade que não tem um vislumbre seja do que for.


“I have an intense, burning indifference”

Dr. Heinz Doofenshmirtz

A entrevista de Schäuble, esta semana no Diário de Notícias, confirma tudo o que se esperava: Schäuble é um contabilista básico, com um complexo de superioridade que não tem um vislumbre seja do que for. Tão básico que faz dó. O ministro das Finanças alemão fala sobre a União Europeia como se fosse uma reunião de condóminos.

 Schäuble, a meio da entrevista, cita a avó: “A minha avó costumava dizer que a benevolência vem antes da devassidão.” Ou seja, Schäuble parece ter um momento de humanidade, mas acaba a citar a avó para dizer uma frase que podia estar à entrada de um campo de extermínio. Por isso, é tão raro o alemão que cita avós. É um risco, porque a maioria andou metida em chatices há 70 anos.

 O que mais assusta não é Schäuble citar uma frase tão triste, é o à-vontade com que o faz. Há 15 anos, a frase “a benevolência vem antes da devassidão” usada por um chefe de Estado alemão, em relação a outro povo, seria uma vergonha e um “despertar de fantasmas”. Depois de ler a entrevista de Schäuble, poderíamos pensar que a maior parte dos problemas da UE se resolve tirando as rampas de acesso ao edifico da CE, mas não é verdade. O problema da Europa é o mesmo de sempre: os alemães.

 As minhas férias deste ano incluíram uma estadia em Munique – achei importante mostrar aos miúdos quem é que manda nisto – e confirmei que os alemães são o povo mais desinteressante do universo. Não faça o leitor confusão, o país tem muito potencial, os habitantes é que, coitados, são uns calhaus. Na realidade, aquilo é um país de mecânicos bem pagos.

Os alemães são gente que raramente sai da Alemanha, a não ser para ir chatear os outros, dado que não falam um palavra de outras línguas. Um museu de história natural, em Munique, é uma cena hermética, quase claustrofóbica, pois toda a informação está apenas em alemão e há um momento em que pensamos que foram eles que fizerem o universo. Parece que tudo em que os alemães tocam fica aquém das suas possibilidades. Por exemplo, a cerveja é óptima, mas não suficientemente gelada. Ou seja, até a cerveja é mal empregada para eles. O que nós faríamos com aquela cerveja.

E são brutos com as crianças. São frios com os miúdos. Não há um sorriso de um funcionário alemão na Legoland de Munique. Tratam as filas de miúdos como se fosse uma bicha de funcionários para marcar o ponto na fábrica. Se, de repente, há um funcionário italiano numa das animações, tudo se transforma.

Resumindo, aquilo que os alemães fazem não chega a ser viver. É uma espécie de visita guiada à vida, mas não se pode mexer na maior parte das coisas. É incrível que povos que amam a vida e a sabem aproveitar, como italianos, gregos, portugueses e espanhóis, se deixem comandar por esta gente. Quem sabe viver e aprecia a vida, não quer viver como aquela gente. Os alemães são um povo sem o menor jeito para o humor e para os filmes pornográficos, e ninguém pode ser feliz se não sabe rir e coisar como deve ser.

Portanto, malta, tenham consciência de que temos mesmo de os vencer porque aquilo é o “dark side of the force”. Na próxima guerra, depois de os vencermos, outra vez, é tirar-lhes a terra e fazer um Israel para eles, lá para os arredores da Groenlândia.

Somos o que os alemães deixarem

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/05/2015)
João Quadros

João Quadros

 

Chegou-me às mãos a biografia de Passos Coelho, “Somos o que escolhemos ser”, uma obra literária que abre novos caminhos ao realismo pós-pindérico. Não é uma biografia, é uma notícia do Correio da Manhã com muitas páginas.

“Somos o que escolhemos ser” é um pensamento de Miss. Porque, a verdade é que não é bem assim. Aposto que há muita gente que não escolheu estar sem emprego. Ou não escolheu ter de sair do país ou não escolheu ser enganada pelo BES. “Somos o que escolhemos ser” só funciona se tivermos um padrinho como o Ângelo. Mas, caso fosse verdade e pudéssemos escolher o que queremos ser, nós já sabemos o que o nosso PM escolheria ser. Passos Coelho escolheria ser um Dias Loureiro, por diversas razões, nas quais podemos incluir o razoável cabelo para a idade. Portanto, o livro podia intitular-se: “Escolho ser um Dias Loureiro”.

No fundo, se formos ver, há até algumas semelhanças entre o que é narrado no livro e a situação actual do ex-conselheiro de Estado. Reparem, e cito a obra: “Fá e Passos dormiam com o colchão no chão e não havia margem para que uma cama não fosse considerada uma extravagância”. Cá está, tal como Dias Loureiro, Passos não tinha nada. Aposto que até o colchão estava em nome da Fá. Aliás, Passos, nessa altura, vivia, como quase todos os jovens: num quarto vazio, só com um colchão, e um poster do Dias Loureiro.

Este exemplo de sacrifício, que inclui um colchão e uma das Doce (numa época em que as Doce eram um Doce), fica a saber a poucochinho em termos de sofrimento. O que Passos nos tem para dar como exemplo de provação é o que queriam 90% dos homens da idade dele naquela altura. Podíamos ficar uma noite a dar exemplos de quão terrível pode ser a vida de um jota da JSD: “Não tínhamos roupa e eu e a Scarlett Johansson tínhamos de andar nus pela praia”. “Passávamos tanta fome que só nos restava o seio da Beyonce”. “O único emprego que arranjei foi como massajador íntimo da Mila Kunis”.

“Somos o que queremos ser” só faz sentido quando podemos escolher alguém do nosso partido para ser nossa biógrafa. Aposto que a autora não escolheu ser biógrafa do Passos. Foram-na chamar. Se eu fosse o Passos, não perdia tempo com a biografia de uma pessoa tão sem história como ele. Se eu fosse o Pedro, pedia à biógrafa que escrevesse a do Dias Loureiro. Depois podiam pôr lá pelo meio um suplemento fininho com a minha, mas, a fazer, era a do Dias. Tudo o que Dias Loureiro tem feito dava um calhamaço, basta ir consultar os arquivos da judiciária.

Conclusão, Passos lava louça, fica bem no sofá, só tinha um colchão, faz papos de anjo, salva a mulher do cancro e bebe vinho enquanto ouve Aznavour – depois deste livro, só queria a nossa dívida indexada à noção do ridículo do nosso PM.