A condição pós-humana

(António Guerreiro, in Público, 24/03/2017)

Autor

António Guerreiro

Há poucos dias, demos pela vinda do pós-humano, quando lemos a notícia de que se realizou com sucesso a primeira implantação, no nosso país, de um coração artificial. Poucos dias depois dessa transformação parcial de um indivíduo humano em cyborg, no Hospital de Santa Maria, pudemos ler, num artigo publicado neste jornal, assinado por Hugo Torres, que “o próximo estado evolutivo dos computadores pode precisar de ADN”. Informava o autor do artigo que vêm aí os computadores quânticos. Os computadores biologizados e o corpo humano computadorizado: eis a prodigiosa reversibilidade que até agora só os utopistas e futurólogos se tinham entretido a imaginar, quando os computadores, mais agarrados à terra do que à cloud, eram ainda máquinas colossais que não cabiam em nenhum escritório. Mas não parece que nós, ainda tão afeiçoados a um humanismo tradicional e aos seus preceitos morais, estéticos e educativos, estejamos preparados para uma antropologia do artificial, capaz de retirar as devidas consequências de uma versão do corpo humano em que os órgão biológicos são substituídos por peças nanorobóticas. Ainda achamos delirante que uma companhia tenha nomeado um computador para um dos seus órgãos directivos (conta o escritor belga Paul Jorion num livro de 2016, intitulado Le dernier qui s’en va éteint la lumière. Essai sur l’extinction de l’ humanité).

No campo filosófico, estas questões que fixaram conceitos como os de pós-humano e trans-humano tiveram o seu momento de emergência mais visível por ocasião da publicação de um livro do filósofo alemão Peter Sloterdijk, em 1999. Chama-se esse livro Regras para Um Parque Humano e é uma resposta à Carta Sobre o Humanismo, que Heidegger escreveu em 1946. Ao defender que o homem é, desde sempre, o resultado de uma antropotécnica que procede por selecção e domesticação do homem pelo homem, Sloterdijk punha fim ao discurso do humanismo e interrogava a condição que nele desempenha o saber filosófico, a literatura e as artes. Mais tarde, numa entrevista, ao falar do “cibernético-biotécnico”, isto é, da convergência do organismo — “o que nasceu” — e da máquina — “o que é fabricado” -, Sloterdijk acrescentou uma outra humilhação sofrida pela humanidade, ao longo da sua história, às três que Freud tinha enumerado: a humilhação infligida por Copérnico, ao revelar que a Terra não é o centro do universo; a humilhação provocada por Darwin, ao revelar a ascendência animal do homem; e a humilhação, da qual Freud se reclamava o autor, infligida pela psicanálise, ao descobrir que o homem é determinado por forças inconscientes que não controla. Essa quarta humilhação acrescentada por Sloterdijk consiste em mais uma etapa na “substituição das descontinuidades metafísicas por continuidades pós-metafísicas”. Traduzindo isto por outra linguagem: a “barreira metafísica” que parecia separar o homem da natureza (primeiro), do animal (a seguir) e da máquina (por último) foi quebrada, dando origem a um ser que resulta da hibridação do orgânico com o cibernético. O que torna obrigatória uma pergunta que um especialista francês das novas tecnologias, Jean-Michel Besnier, colocou no subtítulo de um dos seus livros: “O futuro terá ainda necessidade de nós?”.

O que ainda mal começou a ser pensado é o modo como estas transformações abalam as regras da política e perturbam a própria ideia de democracia. Depois de se ter fixado a ideia de “pós-democracia”, é tempo de nos irmos habituando ao conceito de “transdemocracia”, para pensar a relação mais do que tumultuosa entre a tecnologia e a política.

A economia do enriquecimento

(António Guerreiro, in Público, 18/03/2017)

Autor

   António Guerreiro

Acaba de sair em França um volumoso estudo dos sociólogos Luc Boltanski e Arnaud Esquerre. Chama-se Enrichissement – une critique de la marchandise e é uma imponente análise e descrição de uma transformação económica iniciada no último quartel do século XX: de uma economia industrial passou-se para uma “economia do enriquecimento”. Enquanto a primeira incidia no desenvolvimento da capacidade produtiva de objectos standardizados e extraía valor de um alto nível de exploração do trabalho, a segunda baseia-se no factor do “enriquecimento”. Esta palavra é usada no livro com um sentido ambíguo: refere-se a uma economia inteiramente voltada para o luxo (portanto, destinada prioritariamente aos ricos), mas também às operações de enriquecimento de coisas existentes, no mesmo sentido em que se fala de enriquecimento de um metal. Por conseguinte, esta nova economia própria de um capitalismo desindustrializado não corresponde à produção de objectos novos, mas à criação de valor especulativo em tudo o que já existe e tem um passado. Hoje, como se pode ver em lojas de mobiliário “vintage”, até móveis e objectos do Ikea são vendidos como peças valiosas depois de serem “descontinuados” nas lojas da cadeia sueca. A indústria do luxo, o comércio de objectos antigos e de colecção, a criação de fundações e de museus, as artes e a cultura, a patrimonialização e o turismo: tudo isto faz parte dessa economia que tende a criar “bassins” – bolsas – de enriquecimento (por exemplo, lugares onde há uma concentração de edifícios de culto, por vezes uma cidade inteira). Em certos casos, essas bolsas são induzidas por aquilo a a que Boltanski e Esquerre chamam “patrimonialização provocada”. Foi o que aconteceu em Bilbau, uma cidade outrora industrial, resgatada para a arte contemporânea e para o turismo cultural através da implantação do museu Guggenheim, projectado pelo arquitecto Frank Gehry.

Esta nova economia que injecta valor mas não produz nada explica que os profissionais da cultura tenham duplicado nas últimas duas décadas, informam os autores do livro; e explica também o funcionamento do sistema contemporâneo do mercado da arte e das exposições. Boltanski e Esquerre dedicam um bom número de páginas a fundações e centros, museus, leilões, bienais. Um exemplo destacado é a transformação do edifício da fábrica da Fiat, em Turim, emblema do mundo operário que já não existe, num imenso centro com hotéis, restaurantes, galerias. E, na parte superior, uma cúpula concebida pelo arquitecto Renzo Piano, onde foi alojada a colecção de arte do antigo dirigente da Fiat.

A lógica da política cultural inaugurada por Jack Lang, em França, mas difundida noutros países, segundo a qual tudo se pode tornar cultura e até os estilos de vida participam do processo de “artificação”, foi posta ao serviço da economia. Esta transformação que pôs em primeiro plano a economia do enriquecimento escapa em boa parte à compreensão da ciência económica tradicional (a precisar do auxílio da sociologia) e subtrai-se à marxiana “crítica do valor”.

Para Marx, o capitalismo, precisando de produzir cada vez mais para obter a mesma quantidade de valor, haveria de se autodestruir.Mas na sua crítica da economia política o valor da mercadoria tem como medida única o tempo de trabalho necessário para a produção. Ora, na economia do enriquecimento, o valor já não tem nada a ver com o tempo de trabalho. Marx foi aqui ultrapassado por Mallarmé. Foi o poeta, e não o filósofo, o primeiro a compreender a frivolidade implícita no paralelismo entre a economia e a estética, quando escreveu: “Tudo se resume à Estética e à Economia política”.

O fim dos homens

(António Guerreiro, in Público, 11/03/2017)

Autor

António Guerreiro

As profecias de um feminismo radical estão a cumprir-se e, sem ter sido necessário travar combates sangrentos, está a dar-se a feminização do mundo.


Encontramos hoje na publicidade – sobretudo na radiofónica, que recorre mais à forma do sketch em tom cómico acentuado ou ligeiro – a figura do casal em que o homem é inábil e inepto, em contraste com a mulher, decidida e inteligente. A publicidade, como sabemos, é o medium das nossas fantasmagorias e a expressão de uma moral social (sobre este assunto, foi agora editado em português, pela Documenta/Fundação Carmona e Costa, um livro interessantíssimo de um jovem filósofo italiano, Emanuele Coccia, O Bem nas Coisas, um tratado sobre o discurso moral da publicidade e a felicidade na mercadoria). Esta publicidade, que vira do avesso a teoria freudiana do feminino como um misterioso “continente negro”, segue a par de outras tendências. Uma delas é a progressiva feminização do trabalho, um fenómeno social que compreende dois aspectos diferentes: por um lado, a integração das mulheres em sectores do trabalho que eram exclusivos dos homens; por outro, uma mudança – entendida também como feminização – efectuada pelo capitalismo cognitivo, que coloca no centro do ciclo económico aquilo a que Marx deu um nome inglês, general intellect, operando uma deslocação da produção material para a produção imaterial. E se considerarmos a escola, os fracos resultados dos rapazes em comparação com o sucesso universal das raparigas, quando elas não têm de se confrontar com obstáculos culturais e religiosos, a feminização do mundo parece ser o futuro.

Se os movimentos feministas, nas últimas décadas, chegaram a algumas encruzilhadas e surgiram alguns discursos que desorientaram e suscitaram a hostilidade de sectores da ideologia feminista tradicional, foi porque as reivindicações, até então marcadas pelo modelo da luta de classes, se viram destituídas de fundamento. Um feminismo radical, que vê os homens como uns pobres idiotas que nem vale a pena atacar, começou por ser caricatural. Mas essa é, hoje, uma imagem plausível, como nos mostra a publicidade. E ainda que se mantenha uma sub-representação das mulheres em lugares de chefia, ainda que o machismo se mantenha vivaz, já se fala em toda a Europa de quotas masculinas e discriminação positiva dos homens em sectores onde há desequilíbrios acentuados. Que diria, se fosse viva, Valerie Solanas? Solanas, a quem Norman Mailer chamou “Robespierre do feminismo”, foi uma feminista que, em 1968, disparou um tiro contra Andy Warhol e o pôs em coma durante cinco semanas. Nunca se soube porque é que tinha escolhido aquele alvo improvável, que a tinha usado como actriz nalguns dos seus filmes, onde fazia sempre de lésbica escandalosa. Cerca de um anos antes, ela tinha escrito o SCUM Manifesto (SCUM era a sigla de Society for Cutting up Men), onde defendia que era preciso eliminar o sexo masculino, algo que teria de ser acompanhado pelo derrube do governo e pela eliminação do sistema monetário. O dinheiro, lê-se no manifesto, foi inventado pelos homens, que passam a vida inteira ligados aos seus próprios excrementos e transformam o mundo em merda. E apontando-os como culpados de toda a violência e devastação, Solanas desenvolvia argumentos que alguém classificou como “nietzschianismo mutante”: o homem é uma “mulher incompleta”, geneticamente deficiente devido ao cromossoma Y, por isso gasta todo o seu tempo a tentar ultrapassar essa inferioridade. Não o conseguindo, investe na guerra como compensação. Foi para servir a máquina da guerra que os homens desenvolveram a técnica. Felizmente, dizia Solanas, em breve vai ser possível prescindir dos homens, eles não serão necessários nem sequer como doadores de esperma. Esta Solanas era uma profeta.