Os asnos de ouro

(A Crónica que Veio do Frio, in Facebook, 08/11/2026, Revisão da Estátua)


Minhas senhoras e meus senhores, boa noite!

Sejam bem-vindos à primeira edição da Gala dos Asnos de Ouro, a cerimónia que distingue as grandes prestações para o panorama político nacional, sobretudo aquelas que demonstram que a incompetência não prejudica uma carreira e que a contradição não compromete um discurso.

Esta noite celebramos homens e mulheres que conseguiram a proeza de transformar problemas em sucessos, polémicas em mal-entendidos e perguntas incómodas em ataques às instituições. Uma geração de políticos que elevou a arte de não resolver nada a um patamar que apenas as grandes produções de ficção científica conseguiram.

O júri teve uma árdua tarefa, não por falta de candidatos, mas porque o regulamento só permite entregar um prémio por categoria. Chegou a ser proposta a atribuição de um Asno de Ouro coletivo ao Conselho de Ministros, mas a organização considerou que seria injusto para os ministros que ainda não tiveram tempo suficiente de fazerem tantas asneiras como os outros.

E sem mais demoras, vamos aos premiados!

O primeiro Asno da noite vai para um homem que ocupa o lugar de protagonista, mas insiste em representar como figurante.

Quando a polícia distribuía bastonadas no Rossio, estava numa escola em Aveiro. Quando o país esperava explicações, não presidiu ao Conselho de Ministros seguinte. Quando o próprio PSD levantou dúvidas sobre a permanência de Luís Neves no Governo, decidiu manter o elenco.

Com 55 imóveis, tem ainda a vantagem de dispor de vários cenários onde pode desaparecer sem sequer sair de casa.

E o Asno de Ouro para Melhor Actor Secundário vai para… LUÍS MONTENEGRO!

Continuamos a noite com a atribuição do galardão a um trabalho de maquilhagem que merece reconhecimento internacional. A premiada consegue disfarçar um sistema de saúde cada vez mais pressionado sem alterar praticamente nada naquilo que está a correr mal.

As listas de espera aumentam, a atividade diminui, os serviços acumulam dificuldades, mas a galardoada continua a garantir que o SNS está melhor. Uma técnica tão apurada que, se aplicada numa ambulância, consegue transformá-la numa unidade de cuidados intensivos.

E o Asno de Ouro para Melhor Maquilhagem vai para… ANA PAULA MARTINS!

Prosseguimos com a entrega do Asno de Ouro para os melhores efeitos especiais que comtempla uma produção que faria inveja a Spielberg, com efeitos que desafiam as leis da física e da própria lógica.

Uma piscina transforma-se num tanque, um atrelado desaparece, bidões com produtos químicos mudam de mãos e dezenas de bastonadas parecem reduzir-se a uma ocorrência isolada de pouca relevância.

O argumento inclui ainda uma empresa que realizou obras na propriedade do premiado em Odemira e recebeu cerca de 1,9 milhões de euros em contratos da PJ durante o período em que o galardoado a dirigia. Pelo meio, surgem 108 faturas, omissões nos rendimentos atribuídas a lapsos administrativos e três inquéritos-crime abertos pela PGR.

Uma produção tão complexa que já nem se percebe se estamos perante um filme policial ou um documentário sobre a arte de fazer desaparecer objetos.

E o Asno de Ouro para Melhores Efeitos Especiais vai para… LUÍS NEVES!

É chegada a vez de premiar um argumento de grande liberdade artística, no qual o protagonista consegue defender uma posição e o seu contrário com exatamente a mesma convicção.

Em Julho, exigiu a demissão de Luís Neves e alertou para o perigo de captura do Estado. Em Outubro, já defendia a atuação da polícia tutelada pelo mesmo Luís Neves e desafiava o Presidente da República a apoiá-la.

Uma reviravolta tão bem conseguida que o próprio argumentista parece ter esquecido o que escreveu na página anterior.

Nem Tarantino dá tantas voltas ao guião, apresenta tantas versões e contradiz-se com tanta segurança que, a determinada altura, já nem precisa de convencer o público. Convence-se a si próprio.

E o Asno de Ouro para Melhor Argumento vai para… ANDRÉ VENTURA!

E a noite continua, desta vez com o prémio para a melhor montagem.

Uma operação de edição em massa que demonstra que, na educação portuguesa, até as classificações podem precisar de uma segunda oportunidade para acertar na primeira.

O Júri Nacional de Exames confirmou 6.314 alterações nas classificações: 6.241 para cima e 73 para baixo. Uma montagem generosa, com milhares de notas a subir como se alguém tivesse confundido o sistema de avaliação com uma promoção para clientes habituais.

O galardoado reconheceu erros, pediu desculpa aos professores e prometeu rigor. Os estudantes, entretanto, sugeriram que quem devia ficar suspenso era o premiado, não as notas.

A Academia reconhece-lhe o mérito de ter transformado um problema de avaliação escolar numa operação de edição que nem os melhores estúdios de Hollywood conseguiriam disfarçar.

E o Asno de Ouro para Melhor Montagem vai para… FERNANDO ALEXANDRE!

A nossa gala esta a chegar ao fim mas antes vamos descobrir o vencedor de uma categoria muito disputada, mas com um premiado que dispensa qualquer amplificação.

O galardoado tem-se destacado pela sua contribuição para a paisagem sonora da Assembleia da República. Interrompe, grita, protesta, grunhe e fala por cima dos outros com uma dedicação que faria inveja a qualquer operador de som.

A técnica é simples: quando faltam argumentos, aumenta-se o volume. Quando alguém responde, aumenta-se ainda mais. E quando o debate ameaça decorrer normalmente, intervém-se para evitar esse cenário absolutamente inconcebível.

Um verdadeiro homem-orquestra, capaz de produzir ruído de fundo, percussão vocal, distorção e efeitos especiais sem precisar de sair do lugar. Há deputados que vão ao Parlamento para legislar. O nosso premiado parece ir para garantir que ninguém consegue ouvir quem o faz.

E o Asno de Ouro para Melhor Sonoplastia vai para… PEDRO PINTO!

E assim termina a primeira edição dos Asnos de Ouro!

Uma noite de grandes interpretações, maquilhagem de emergência, efeitos especiais, montagens inesperadas, argumentos contraditórios e uma sonoplastia que ainda está a ser avaliada pela Proteção Civil.

A organização agradece a todos os nomeados, especialmente aos que não puderam comparecer, aos que não perceberam porque foram nomeados e aos que, depois de receberem o prémio, vão garantir que a culpa é da comunicação social.

Afinal, na política portuguesa, o importante não é fazer bem. É conseguir explicar tão mal o que se fez que, quando finalmente alguém percebe, já estamos na cerimónia do ano seguinte.

Muito obrigado e boa noite!

A saída é pela esquerda. Os premiados podem sair pela direita. Montenegro, se estiver presente, pode escolher qualquer uma das 55 portas disponíveis.

A Estátua de Sal precisa da sua ajuda. Click aqui.

Um pensamento sobre “Os asnos de ouro”

  1. Estou plenamente de acordo com a selecção dos premiados. Merecem o prémio. Feito o esforço, reconhecidos a profissionalidade e o mérito na incompetência, o Asno é-lhes devido.

    Algumas observações insignificantes:

    – O bicho adoptado para o prémio deveria merecer-nos maior respeito, não merece ser associado a actos com esta solenidade. A nossa linguagem está carregada de injustiças. Nenhum Asno deste mundo, no pleno uso das suas capacidades e com todo o mérito dos seus instintos, atinge a incompetência demolidora dos premiados. Na banda desenhada não faltam mitos que melhor traduzem a patologia da malfeitoria.

    – O ouro é um metal nobre. Está em valores estratosféricos. Na próxima edição o prémio pode muito bem ser de folheta reciclada. Dada a sua atestada incompetência, os premiados reconhecerão a profundidade da medida.

    – Sinto a falta do Melo, o Nuno, o dos tanques e das fragatas. Talvez prémio especial da NATO, pelo vigor do disparate.

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