(Por Carlos Serna, in canarias semanal.org, 24/07/2026, Tradução da Estátua)

O jornal financeiro britânico revela o “grande buraco”: 13 mil milhões de dólares em petróleo venezuelano desaparecem do radar de Washington.
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Durante anos, Washington acusou vários governos de corrupção e falta de transparência. Agora, o próprio Financial Times levanta suspeitas sobre a administração americana ao questionar o paradeiro de 13 mil milhões de dólares obtidos com o petróleo venezuelano.
Uma notícia publicada pelo jornal britânico Financial Times trouxe à tona uma questão de enorme importância política e económica: o destino de pelo menos 13 mil milhões de dólares obtidos com a venda de petróleo venezuelano sob controlo dos EUA. Segundo o jornal, esta quantia foi angariada pela administração Trump desde janeiro deste ano com as exportações de crude da Venezuela, sem que até ao momento tenha sido dada qualquer explicação pública e detalhada sobre o destino final destes fundos.
O jornal financeiro britânico afirma que a estimativa provém de cálculos feitos pela sua própria equipa de análise, recorrendo a registos marítimos da empresa especializada Kpler e a estimativas de preços da consultora Argus Media. Com base nestes dados, conclui que o volume de recursos acumulados atinge um valor equivalente a aproximadamente um quarto do Produto Interno Bruto da Venezuela.
Mas o aspecto mais surpreendente do relatório não é apenas a magnitude da quantidade, mas a ausência de uma explicação oficial coerente sobre o seu destino.
Versões conflituantes
Segundo o Financial Times, várias autoridades de Washington ofereceram explicações diferentes. Por um lado, o governo norte-americano afirmou que estes fundos permanecem “mantidos em custódia” para serem posteriormente reinvestidos na recuperação económica da Venezuela através de mecanismos supervisionados pelos Estados Unidos.
No entanto, esta versão entra em conflito com declarações públicas do próprio Donald Trump, que tem afirmado repetidamente que os Estados Unidos estão a “ganhar muito dinheiro” com o petróleo venezuelano. Esta contradição começou a levantar questões até mesmo dentro do Congresso americano.
O jornal observa que tanto os parlamentares republicanos como os democratas exigem informações precisas sobre a gestão destes fundos, sobretudo após a grave deterioração económica e humanitária que a Venezuela tem vindo a enfrentar em consequência dos recentes acontecimentos políticos e dos sismos registados em junho.
Entre os que solicitaram esclarecimentos está a congressista republicana María Elvira Salazar, que defende total transparência em relação à utilização dos fundos. Da mesma forma, Benjamin Gedan, antigo chefe para a América Latina no Conselho de Segurança Nacional durante a presidência de Barack Obama , acredita que, se os democratas recuperarem o controlo de uma das câmaras do Congresso após as eleições intercalares, poderá ser iniciada uma investigação formal sobre estes fundos.
De onde vem realmente esta dívida?
A questão é particularmente delicada porque estes 13 mil milhões de dólares não constituem ajuda financeira dos EUA, mas sim receitas geradas pela comercialização de um recurso que pertence ao Estado venezuelano.
Durante anos, as sanções impostas por Washington contra a PDVSA — a petrolífera estatal venezuelana — perturbaram profundamente o circuito habitual de exportação do petróleo venezuelano. Em diferentes momentos, os Estados Unidos bloquearam os ativos da empresa petrolífera, congelaram contas bancárias, confiscaram receitas de vendas internacionais e impediram o governo venezuelano de distribuir livremente uma parte dos lucros derivados da sua própria produção energética.
Esta situação foi agravada por outras medidas que afetaram os ativos venezuelanos no estrangeiro, incluindo a empresa CITGO — uma subsidiária da PDVSA nos Estados Unidos — cujos dividendos e ativos também estiveram fora do controlo de Caracas durante anos.
A origem económica destes fundos reside, portanto, nas vendas internacionais de petróleo venezuelano realizadas ao abrigo de um sistema administrativo estabelecido pelas autoridades americanas após a reorganização dos controlos de exportação.
Uma questão de enorme importância jurídica
Para além das posições políticas opostas sobre a situação venezuelana, a questão levanta questões relevantes do ponto de vista do direito internacional.
Quando um Estado gere activos ou rendimentos pertencentes a outro país, a rastreabilidade desses recursos constitui uma obrigação essencial de transparência. Precisamente por esta razão, o Financial Times insiste que a falta de informação pública está a alimentar dúvidas até em sectores políticos norte-americanos tradicionalmente alinhados com a estratégia de Washington em relação à Venezuela.
O jornal britânico sublinha ainda que os efeitos económicos prometidos após a nova administração do petróleo venezuelano ainda não se refletem claramente na economia do país, onde numerosos economistas acreditam que não existem sinais suficientes de recuperação, apesar do tempo decorrido desde a implementação do novo regime de gestão.
Transparência pendente
Em síntese, a reportagem do Financial Times introduz um elemento particularmente problemático para a administração norte-americana: o debate já não se centra apenas na legitimidade política das decisões tomadas em relação à Venezuela, mas também na necessidade de prestar contas de milhares de milhões de dólares provenientes de ativos estrangeiros.
Embora Washington afirme que os fundos continuam reservados para a reconstrução da Venezuela, declarações contraditórias emitidas por várias autoridades políticas e a ausência de documentação pública detalhada continuam a alimentar dúvidas.
A exigência de transparência feita pelo próprio Congresso dos EUA transforma agora esta questão em algo que transcende o conflito bilateral entre Washington e Caracas e que poderá, em última instância, levar, caso a pressão parlamentar prevaleça, a uma investigação política de grande alcance sobre o destino de recursos cujo verdadeiro proprietário sempre foi, pelo menos do ponto de vista patrimonial, o Estado venezuelano.
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