A União Europeia dá mais um tiro no pé

(Ricardo Nuno Costa, in X/Twitter, 25/10/2025, Revisão da Estátua)

O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Johann Wadephul,

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Isto é o que sucede quando, em bom português, se “misturam alhos com bugalhos”.

A Autoeuropa poderá vir a parar a sua produção porque muito provavelmente vão faltar os semicondutores para o fabrico dos carros da Volkswagen em Palmela. A fábrica tem material para garantir a produção por mais uma semana.

E porque vão faltar os microchips? Porque eles vinham da Nexperia, nos Países Baixos. Mas o governo holandês no início deste mês nacionalizou a empresa, que é uma filial da chinesa Wingtech Technology, alegando “preocupações de segurança” da UE.

As pressões vieram dos “aliados“ EUA e Reino Unido, este último cada vez mais influente nas decisões europeias desde o famoso Brexit (!). Washington já havia colocado a Wingtech na sua “Entity List”, uma espécie de lista negra do Departamento de Indústria e Segurança, que deve ser seguida pelos seus súbditos europeus.

No Reino Unido, a Nexperia também foi forçada a vender uma fábrica de microchips devido a preocupações com a “segurança nacional”. Note-se o jogo de palavras fabricado pela inteligência britânica, exímia em criar narrativas e mudar a perceção dos grandes públicos (veja-se a história do Instituto Tavistock).

Os europeus, uma vez mais caem numa armadilha montada pelos seus aliados anglo-saxões, em especial pelos EUA, que na sua longa guerra contra a indústria europeia, vão garantir mais uma serie de investimentos e uma mais que provável fuga de empresas para a sua economia falida – mas com um plano claro de reindustrialização, transversal às administrações de Biden e Trump 2.

E quem esperava que a China ia ficar de braços cruzados? É obvio que imediatamente deu ordens para a empresa cortar as exportações para a UE. A isto devem acrescentar-se as restrições à exportação de terras raras, necessárias a várias indústrias.

As implicações para tudo isto, a curto-prazo, são claras: as indústrias automóvel, de satélites, militar, eletrónica e outras, estão agora literalmente a lutar por novos fornecedores, que aparecerão, mas quando e a que preço?

A Alemanha é a mais afetada e já protestou: A indústria alemã “depende desses chips!”, queixou-se hoje a sua ministra da Economia, de viagem em Kiev.

Tal como no tema da energia – que após a explosão dos Nord Stream fica totalmente nas mãos do GNL caro dos EUA -, a Alemanha vê a sua indústria a levar mais uma marretada, agora no sector dos semicondutores, para os quais não tem produção própria nem alternativas imediatas.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Johann Wadephul, queria viajar hoje até Pequim para debater este tema urgente com o seu maior parceiro comercial, e também para insistir com o tema da Ucrânia. Pensava que iria ser recebido pelo ministro do Comércio e pelo primeiro-ministro! Pobre inocência. Pequim terá delegado um funcionário menor para uma curta audiência e Wadephul desistiu da viagem à última da hora, para evitar a humilhação.

A resposta da China não podia ser mais significativa:

Vocês é que precisam de nós, a vossa indústria automóvel sem o nosso mercado tem os dias contados; vocês continuam a meter-se nos nossos assuntos internos; vocês querem que cortemos relações comerciais com o nosso parceiro estratégico, a Rússia; vocês são signatários da política de uma só China e vendem armas aos rebeldes de Taipé; vocês impõem-nos sanções unilaterais (ilegais); vocês restringem o livre comércio internacional… Vocês não são de confiança!

Numa tal situação, os fanfarrões dos norte-americanos, fantásticos jogadores de poker, gritariam “America is back!“, mas os chineses na sua longa partida de Go, jogo do qual são mestres, começam a mostrar os seus trunfos e a dizer que a sua civilização de 5000 anos está aí e o seu poder global vai-se começar a fazer sentir de forma subtil, mas consistente e avassaladora.

11 pensamentos sobre “A União Europeia dá mais um tiro no pé

  1. Custava 12 escudos e quanto é que ganhavam as pessoas.
    Fica uma história desse belo tempo.
    Um casal de operários de meia idade ficou com o casebre praticamente destruído pelo terramoto de 1969.
    Alugaram outra casa por 850 escudos mensais quando ele ganhava mil e ela 1100.
    Ela ganhava mais por ser uma das poucas mulheres que era oficial soldador.
    Por sorte já não tinham filhos a cargo e o homem tinha artes de sapateiro onde se empregava ao fim dos dias de trabalho e aos fins de semana. Não tinha descanso.
    Porque além da renda havia gás, água e luz para pagar e não era assim tão barato.
    O vizinho do lado era guarda fiscal há 20 anos, tinha três filhos e a mulher não trabalhava. Ganhava 875 euros, menos que um operário.
    Claro que era a corrupção e o trabalho nalgumas terras que tinham onde empregava os filhos que lhe permitiam ir safando a vida. Também não tinha descanso nem os filhos férias.
    Num tempo em que segundo reza o CU não havia bandidagem e muito menos corrupção.
    Gosto muito quando chocos vêem com a conversa da treta de que se pagava pouco por isto ou aquilo.
    Esquecem se sempre que os ordenados eram uma miséria e um contrato de trabalho formal era um privilégio.
    E em zonas de indústria conserveira no tempo do defeso, que durava todo o Inverno os trabalhadores não recebiam um tostão.
    Nas zonas rurais era o ritmo das colheitas. No Alentejo também o Inverno era longo.
    Não havia subsídios e por isso passava se fome, muita fome.
    Ou era por estarem a viver bem que cerca de um milhão de tugas daqui fugiram nos anos 60 num êxodo so comparável na Europa ao Exodo provocado pela Grande Fome da Irlanda de 1848?
    Querem ver que se fartaram de viver bem e quiseram experimentar viver em bairros de lata na periferia de Paris com temperaturas que chegavam a 15 graus negativos no Inverno.
    Já sabemos que nem tu nem o CU são gente de Abril e já agora estou me nas tintas para o que disse o homem da CIA em Portugal, o grande amigo de Carlucci.
    Por mim, 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.
    E tu vai ver se o mar da Kraken.

  2. E viva a vossa democracia.
    Com que então os 1.200 esudos não chegavam para o pequeno almoço do prof Borges Coelho em 1952.
    Em 1963 eu fui pagar 600 escudos: quarto cama feita e roupa lavada e comida em Coimbra. No Palmeiras em Lisboa comia-se; sopa, prato um copo de tinto e café por 12 escudos. Haja maneiras!
    E depois: ” Salazar não era fascista…aquilo não era fascismo… era assim uma coisa”. Disse Mário Soares.
    Como dizia Lao Tsé: “Quem conhece os outros é sabido quem se conhece a si próprio é sábio.”
    Salazar também disse: “Os povos antigos ou são cínicos ou são tristes. A nós portugueses calhou ser tristes. ”
    Um sabido não enrola outro sabido. Há sempre um triste tanso. Ler Eça em Cartas de Inglaterra.
    Basta assistir, só alguns minutos para não vomitar, a programas sobre o Putin.
    Se mais de 90% dos actos que praticas no espaço público são de submissão porque não te preocupas com ela? Garanto que a maioria das decisões das autarquias e do estado central contém abuso de poder.
    Snoopy – Todos temos que morrer um dia.
    Charlie Brawn – Se já sabes o que vai acontecer nesse dia porque não te preocupas com os outros?

    • Um saudosista da outra senhora a citar Lao Tsé, já vi de tudo. Só para a PIDE é que não rxistiam pruncípios Taoístas, pois estavam sempre mais preocupados com os outros do que com eles próprios, fanáticos, e distribuíam tau-tau… sinceramentw, estava mais à espera de vê-lo citar Confúcio, mas se calhar ainda era “confusionismo” a mais. É com cada patego que até parecem três ou quatro.

      • * existiam princípios
        ** sinceramente

        Vivia-se tão bem em Portugal nessa altura que nem se falava em “convergência Europeia”! Devia ser porque éramos ricos e facilmente ganhávamos mais que um imigrante em França (e foram poucos a salto, foram…). Aliás, não era à toa que ainda hoje alguns dizem que estávamos quase para ser a nova “Suíça da Europa” (o que quer que signifique esta estúpida expressão), e com Palmeiras…
        …ah, pategos dum €@&%@#!

  3. Mais um tiro no pé, se a União Europeia ainda tivesse pés onde dar tiros, mas isto já não tem pés nem cabeça. A Europa já atravessou o Rubicão há muito, agora é lidar com as consequências. E terão de ser os europeus a fazê-lo, foram eles que cavaram o buraco onde se encontram e o resto do mundo não vai mexer uma palha para os tirar de lá.

    O caso Nexperia está aqui muito bem explicado num artigo que vale a pena ler:

    https://asiatimes.com/2025/10/europes-obedience-test-one-chinese-company-one-us-order/

  4. A Bosch de Braga vai colocar 2500 dos seus 3300 trabalhadores em lay off por falta de chips no mercado.
    Mais uma face das tais sanções que só sancionam quem as emite.
    Tiro no pé? Esta gente já tem pelo menos as pernas desfeitas a tiro.
    E não tarda nada vai o resto.

    • Dizia a Ursa von der Leyen que os russos estavam a retirar chips das máquinas de lavar a roupa porque já não tinham capacidade tecnológica nem bélica.
      Vamos lá então pôr a Ursa a retirar chips dos frigoríficos para manter as empresas a funcionar!

  5. Uma Europa sem energia para produzir aço, vidro, cimento, cerâmica … nem conseguirá no futuro ser uma imensa horta pois tampouco tem energia para produzir adubos nem solo arável disponível pois estão sendo desesperadamente transformados em magníficas hortas de painéis solares e as montanhas florestadas com enormes ventoinhas! É a vitória da IA e da estupidez natural que nos conduz em direcção ao abismo com palermas que gastam tudo o que têm ao leme do destino do país!
    Será certamente muito risonho o futuro dos palermas que gastam tudo o que têm para defender um idiota chamado Zélêndias o grande estratega que empenhado em destruir o sonho de Jacques Delors…O sonho europeu de uma Europa unida, que deveria promover a cooperação e a competição, e um sonho pedagógico focado na educação, vai (foi) pela sanita sempre que Costa, von der Leyen, Kaja Kallas,… puxam o autoclismo depois de cagar!
    Ontem assisti impávido e sereno a comentários de idiotas, um major-general afirmar na CNN que o novo míssil russo é “um conceito de uma tecnologia dos anos 60” …e outro Doutor em Ciência Política (deduzo que a abantesma é professor) que cagou o seguinte: “Não quero descredibilizar os mísseis, mas há o Kh-69, o Zircon, o Oreshnik… e o que a Rússia tem usado são drones”
    Estes gajos ainda não entenderam que a Europa não consegue produzir um díodo para construir uma simples ponte rectificadora

  6. É um novo estilo de dança, a “Dança dos Capados”. Os tomates já marcharam há muito, mas os eunucos têm raiva até aos seus próprios pentelhos e dão o cu e oito tostões para uma depilação completa! O que é novo é o método: depilação à paulada! Confesso que nunca tinha visto nem ouvisto!

    • Sim, é o tango dos eunucos, mas não tem nada de novo, é uma tradição que vem de longe:

      Os eunucos devoram-se a si mesmos
      Não mudam de uniforme, são venais
      E quando os mais são feitos em torresmos
      Defendem os tiranos contra os pais

      Em tudo são verdugos mais ou menos
      Nos jardins dos haréns os principais
      E quando os pais são feitos em torresmos
      Não matam os tiranos pedem mais

      Suportam toda a dor na calmaria
      Da olímpica visão dos samurais
      Havia um dono a mais na satrapia
      Mas foi lançado à cova dos chacais

      Em vénias malabares à luz do dia
      Lambuzam de saliva os maiorais
      E quando os mais são feitos em fatias
      Não matam os tiranos pedem mais

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