A doce cartinha de Rutte ao «querido Donald»

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 27/06/2025, Revisão da Estátua)


O que fica destes episódios humilhantes é a certeza de que somos governados por indivíduos e indivíduas mesquinhos, traiçoeiros e sem carácter. Que rastejam perante o padrinho desta máfia sem limites, mas são uns valentes quando se trata de desprezar as pessoas e os seus povos.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Em boa hora o rei da NATO escolheu o cidadão holandês Mark Rutte como secretário-geral da Aliança, para substituir o sombrio norueguês Stoltenberg.

A Europa, a América e o «mundo livre» só ficaram a ganhar com a troca. Rutte trouxe cor e floreados ao cargo, numa NATO que já estava saturada do discurso burocrático, insípido, inspirado na linguagem de caserna do falcão e trabalhista norueguês.

Rutte não é nada disso. Ele veio demonstrar, uma vez empossado como funcionário número 1 da aliança, que o cargo pode ser desempenhado de maneira muito diferente e sentida. Rutte explica a arte de prestar vassalagem com alegria, emoção e gratidão. Ensina-nos a rastejar com estilo e elegância.

Isto é, demonstra que pode fazer-se o que sempre se fez na sua posição, quando se dirige ao bom padrinho das Américas, com sensibilidade e até com ternura, sem temores, nem dores de barriga. Ir de joelhos a Washington é duro, mas não há recompensa e glória sem sangue e sacrifício.

Algo que ninguém «se atreveria a fazer»

A história poderia passar despercebida, devido à modéstia do ex-primeiro-ministro holandês, para quem a pátria é a NATO e deus é americano. No entanto, o verdadeiro chefe da aliança, o mega-empresário da construção civil e presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, não aceitou que tão grande manifestação de afecto para com a sua pessoa, que o carteiro lhe entregou, ficasse no recato das excelsas submissões.

Como é habitual, Donald Trump recorreu às redes sociais para que o maior número de pessoas, não só da América e da Europa, mas de todo o mundo, ficassem a conhecer a devoção de Mark Rutte. A privacidade da correspondência é coisa caída em desuso, como nos ensinaram os Estados Unidos, e o seu presidente não hesitou em divulgar a cartinha que tinha acabado de receber do secretário-geral da NATO. E que este fez o favor de escrever em nome dos países da organização. Estejam os leitores descansados, porque todos ficámos representados em tão oportuno preito de vassalagem.

Não pode dizer-se que Trump tenha ficado impressionado com Rutte da mesma maneira que se sentiu tocado quando foi apresentado a al-Julani, o terrorista que sequestrou a presidência da Síria: «jovem, atraente e viril», apreciou, na ocasião.

À primeira vista percebe-se que Rutte não é muito dotado destes atributos. Mas sobram-lhe ternura, emoção e dedicação para tentar enternecer o coração do chefe.

Numa época em que as comunicações pessoais se baseiam na escrita telegráfica, desinteressante e depurada dos emails, e nas mensagens cifradas dos SMS, Rutte optou pelo tradicional, retro e romântico método da cartinha. Os seus talentos epistolares, hoje em dia apenas ao alcance dos predestinados, os que cultivam o digital, mas não esqueceram o analógico, chegam a ser comoventes.

«Senhor Presidente, querido Donald», começa a missiva. «Felicitações e agradecimentos pela tua acção decisiva no Irão, algo verdadeiramente extraordinário e algo que ninguém podia, jamais, atrever-se a fazer». E mais escreveu: «Donald conduziu-nos a todos a um momento muito, muito importante para América, a Europa e o mundo».

Dizem os cidadãos mais desconfiados, aqueles que desdenham, por vício, da opinião única, definidora do lado dos bons e da razão, que o feito «extraordinário» do presidente norte-americano, ao estabelecer um cessar-fogo com o Irão, se deveu, de maneira prosaica, ao facto de ter percebido, muito depressa, que iria entrar numa guerra nada curta e conveniente, com resultados bastante incertos.

Além disso, não necessitou de recolher muitas informações para deduzir, em três tempos, que o seu amigo e aliado, o carrasco Benjamin Netanyahu, incapaz de se ver livre do Hamas e do Hezbollah, estava outra vez em maus lençóis. Meteu-se com o tubarão, julgando que era sardinha. Nem o Irão se rendia, nem o regime caía. Pelo contrário, os golpes vibrados no território e na arrogância de Israel, nada tinham de superficiais.

Os mais prestigiados analistas militares de Israel foram, aliás, muito rápidos a lançar apelos lancinantes ao governo e às forças armadas para se apressarem a alcançar um cessar-fogo. Cedo perceberam que mais esta aventura militar em que o sionismo se meteu, transformada em guerra de atrito, poderia não acabar bem. O célebre «escudo de ferro» antiaéreo, afinal é de latão. Além disso, as bases do Irão parecem mais fortes do que se supunha. E Trump ficou aterrado com as primeiras respostas do mercado de hidrocarbonetos aos rumores sobre o encerramento do Estreito de Ormuz. Que se acabe a guerra, mandou o imperador, embora saibamos que o assunto não ficará por aqui. Como é indispensável dizer-se, falta sustentabilidade à suspensão do conflito.

«A Europa irá pagar-te EM GRANDE»

Os combates pararam, Trump recolhe os louros, Netanyahu canta vitória e Mark Rutte, em nosso nome, não lhes pode estar mais grato. «Conseguiu o que NENHUM presidente fez em décadas», escreveu na missiva. Um pormenor de bom aluno: Rutte não se esqueceu de realçar palavras completas em maiúsculas, como costuma escrever o chefe nas suas mensagens – um sinal da esmerada educação que o distingue.

A gratidão do secretário-geral não tem fim, e ele faz questão de manifestá-la com promessas assumidas em nome de todos nós. «A Europa irá pagar-te em GRANDE, como deve, essa será a tua vitória».

Ai vai pagar, vai, porque os nossos governantes amam os negócios da guerra e dispõem, como querem, das contas bancárias dos contribuintes. Vai pagar EM MUITO GRANDE, até. Cada um de nós irá desembolsar a respectiva fracção de pelo menos 15 mil milhões de euros do cheque que Montenegro, sem precisar de nos consultar, já começou a passar. Investir na morte é lucro garantido, dir-se-á.

«São trocos», apressou-se a dizer aquela que poderá ser considerada, entre nós, a decana, ou mesmo a bastonária da ordem do comentariado. E aproveitou para zurzir o mesquinho chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, por ainda ter a dignidade de pôr o seu país a salvo dos tais 5% do PIB, destinados a pagar «a vitória de Trump». E que este, desprendido como é, utilizará para nos abastecer com fantásticas máquinas de morte, compradas a preços de novas nos saldos dos refugos da indústria imperial de armamento. Tudo isso é indispensável para a nossa «defesa», para a nossa «segurança», diz a NATO. Lembrem-se das advertências do perspicaz Almirante vindo do fundo dos mares: temos de nos precaver, porque os bárbaros russos estão a chegar e, se não capricharmos, quando cá estiverem já será tarde. Se assim é, 5% deve ser pouco. Mais valia perder o amor a 10%, ou 15%, liquidar de vez a educação pública, o Serviço Nacional de Saúde e outras coisas desnecessárias quando sobre nós paira, como sempre, a «ameaça russa», agora reforçada com o «perigo amarelo».

Sánchez atreve-se a não contribuir com os sagrados 5%, «mas vai pagar o dobro», assegura o imperador Trump, o fiscal do funcionamento da democracia liberal. Para Sanchez e os espanhóis aprenderem que têm de sofrer pesadas consequências por teimarem no capricho de cultivar velharias, como a dignidade e a coluna vertebral.

A Espanha «é terrível», «é irritante», acusou Trump. Não se desafia assim a «ordem baseada em regras». Sánchez foi até mais longe na heresia, e atreveu-se a dizer que os gastos feitos pela Espanha para a NATO já são suficientes. O país está seguro e, ao mesmo tempo, pretende preservar o Estado social. «ESTADO SOCIAL?» Quem se permite falar nisso, nestes tempos da democracia neoliberal? Maus exemplos como o do chefe do governo espanhol não podem ficar impunes. Trump, o seu serviçal Rutte, os governos da NATO e a direita apátrida espanhola – que não descansa enquanto não derrubar o executivo –, não o permitirão.

Os Estados Unidos de Trump não chegam a gastar 4% para a NATO, mas isso deverá compreender-se. O papel de polícia do mundo exige despesas muito mais elevadas em tarefas que o país executa sozinho, ao desempenhar a sua missão filantrópica global «defensiva», para o bem de todos nós.

Com delicada sensibilidade, Mark Rutte esforça-se para que Trump não desampare a Europa e a NATO, o que deve ler-se nas entrelinhas da sua epístola. Ele compreende que, para «fazer a América grande de novo», o presidente terá de assumir opções susceptíveis de obrigar o Velho Continente a ficar mais por sua conta, o que há muito desaprendeu.

O «comprometimento» custa 5%

Rutte sabe também que, para o actual presidente dos Estados Unidos, a utilidade da Europa é a mesma que um rolo de papel higiénico. Compete-lhe limpar os dejectos que os Estados Unidos deixaram na Ucrânia desde 2014, e já não é pouco.

Ciente da orfandade que ameaça este lado de cá do Atlântico, Rutte engendrou uma barganha e, para isso, alimenta a esperança de que a velha vassalagem das colónias europeias ainda seja capaz de polir o ego do imperador, talvez amansar a fera.

O próprio secretário-geral da NATO desvendou um pouco a sua ideia, antes da cimeira da organização, em Haia. «Trump está comprometido com a NATO», disse ele, quando todos sabemos que, pelo menos até agora, o que o presidente dos Estados Unidos tem dito e feito é em sentido contrário.

O trunfo na manga de Rutte é o de garantir, em troca desse «comprometimento», os 5% do PIB de todos os Estados membros, para financiar o orçamento da aliança e aliviar, assim, a carga norte-americana. De maneira a que tudo regresse aos bons velhos tempos da absoluta tutela colonial. Isto é: os países da NATO pagarão cerca de três vezes mais caro pelas tropas, os mísseis, as bombas e o (decadente) know-how militar dos Estados Unidos. Ser uma colónia está a tornar-se uma comodidade cada vez mais dispendiosa.

Acreditamos que, ainda a bordo do «Air Force One», de regresso a Washington, Donald Trump teve novas ideias e tomou decisões contrárias aos seus «compromissos» assumidos em Haia. É assim que gere o império: hoje sim, amanhã não, depois de amanhã talvez. E todos marchamos, bem comportados (com excepção de Sánchez, a ovelha ronhosa), enjoados, por um arriscado caminho sinuoso e que vai sendo desbravado à beira de um abismo, que pode ser existencial.

Rutte pode escrever-lhe cartinhas delicodoces para lhe polir a vaidade. Costa pode oferecer-lhe, com vénias tão deslumbradas como basbaques, a camisola de Cristiano Ronaldo. Trump precisa de adulação como de ar para respirar, gosta de graxa, mas despreza os graxistas. O seu «comprometimento» com a NATO será o mesmo de antes da cimeira de Haia, mas assegurou que os súbditos serão generosos no momento de liquidar o dízimo imperial. Essa foi a sua vitória.

O que fica destes episódios humilhantes é a certeza de que na União Europeia, na NATO, nos nossos países, somos governados por indivíduos e indivíduas mesquinhos, traiçoeiros e sem carácter. Que rastejam perante o padrinho desta máfia sem limites, mas são uns valentes quando se trata de desprezar as pessoas e os seus povos.

A sabujice de Rutte não é uma característica pessoal. Afecta todos os comparsas da Europa e da NATO, com a já citada excepção. Os outros talvez não tenham, porém, os seus dotes epistolares para exercitar em cartas a que o chefe dará o destino habitual das coisas inúteis e desprezíveis.

Salvé democracia liberal.

5 pensamentos sobre “A doce cartinha de Rutte ao «querido Donald»

  1. O problema é que se dependermos dos nossos sistemas de defesa anti aérea isto pode correr nos tão bem como correram as cidades israelitas estes primeiros 12 dias de guerra com o Irão.
    Aquilo são cúpulas de latão e onde e que vamos encontrar gente tão indefesa como os habitantes de Gaza para atacar?
    Com um pouco de azar isto vai e tudo raso se houver mesmo guerra.
    Mas não é guerra que esta gente quer. Esta gente quer fazer grandes negócios as nossas custas.
    Para fazer uma guerra que justifique la temos os nazis ucranianos e os mercenários do Brasil a Nova Zelândia.
    Entretanto a Rússia vai se rindo disto tudo vendo nos perder tudo, enquanto a Sollerias garante há quase quatro anos que eles e que estão a colapsar.

  2. Nem era preciso ser grande patriota para recusar esta negociata mafiosa.
    Bastaria algum respeito pelas nossas vidas.
    Os 5 por cento vão ser roubados às nossas vidas. A saúde, a educação, a cultura, até às infra estruturas.
    Se por falta de manutenção das pontes voltarmos a ter outra catástrofe como a de Entre os Rios a culpa voltará a morrer solteira?
    Há serviços públicos com as instalações a cair de podres. Se um dia por três tostões de abalo de terra a casa cair em cima de utentes e funcionários de quem e a culpa?
    Se mais gente morrer a espera da ambulância ou na lista de espera para a cirurgia será que servira de consolo para os familiares a ideia de que pelo menos estamos protegidos de uma invasão russa?
    Mas como essa gente se está nas tintas para as nossas vidas isso não interessa mesmo nada.
    Vão ver se o mar da megalodonte.

    • Pontes a cair? Isso na América é frequente, e na Europa já começa a ser habitual. Literal e metaforicamente…
      Também, se a ponte não cair de usada e gasta, deteriorada pela erosão ribeirinha e desgastada pelo tráfego intenso, e a exposição à luz e ao calor solar, e aos rigores dos invernos, aos ventos e corrosão pela água da chuva, será por ocorrência de um terramoto, um cataclismo, um míssil balístico-estratégico, um míssil de defesa antiárea transviado, um ataque nuclear ou uma invasão estraterrestre, ou até mesmo o regresso do Messias, no Dia do Juízo Final… depois logo se constrói uma nova… vamos antes apostar em rearmar os exércitos da Europa e do Ocidente colectivo, ao serviço da NATO que fundámos em nome das “relações trans-atlânticas”, que é muito mais nobre e altruísta que gastar a reparar as armaduras das pontes, que a qualquer catástrofe podem naturalmente colapsar… assim fazemos as pontes dos “desalinhados e infractores da ordem baseada em regras” cair primeiro que as nossas, arrasando-as “preventiva e defensivamente”, em nome dos “nossos valores partilhados e da demo-cracia”!

  3. Numa Hungria ou Eslovénia os governos poderão ser de direita, mas, ainda assim, possuídos de algum patriotismo. Por cá, tem-se uma direita sem espinha alguma, tal como uma certa autodenominada «esquerda»!

Leave a Reply to Zé PovinhoCancel reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.