A necessidade de pensar o impensável

(Boaventura Sousa Santos, in Meer.com, 09/06/2025)

Judeus ortodoxos em frente à Downing Street protestando em solidariedade com a Palestina

Já publicámos aqui muito bons textos, mas permitam-me que sublinhe a qualidade e a atualidade deste trabalho. Se mais pensadores existissem com a capacidade de reflectir aqui evidenciada, e admitindo poderem ser as suas ideias divulgados com profusão, e o mundo seria um lugar mais amistoso e habitável. Parabéns ao Boaventura Sousa Santos de quem tive o prazer de ter sido aluno, na já longínqua década de 70 do século passado.

Estátua de Sal, 12/06/2025)


Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores.


Este título não é uma proposta contraditória. É um apelo a que des-pensemos muito do que nos habituámos a pensar para poder enfrentar o maior desafio de sempre: o perigo de deixar de pensar. Novalis estava certo quando escreveu Die Philosophie ist eigentlich Heimweh, ein Trieb überall zu Hause zu sein (Na verdade, a filosofia é saudade, uma pulsão para se estar em casa em qualquer parte).

Por filosofia entendo todo o pensamento estruturado pela busca da verdade sem recurso a tecnologias que, em vez de se manter nos limites de instrumentos para ajudar o pensamento a pensar, pelo contrário, procuram substituir-se ao pensamento. Se deixarmos de pensar, equivale a sermos expulsos de casa e a vaguear sem abrigo nem sentido num mundo caótico e distópico de monstros engravatados que nos governarão em palácios de luxo e converterão em lixo tudo o que se interpuser no trânsito das suas viaturas híper-blindadas contra a busca da verdade.

O perigo iminente é que deixemos de ser seres pensantes (res cogitans de Descartes) para passarmos a ser seres pensados (res cogitata). Ser pensado é ter deixado de pensar, quer por não ser necessário pensar para viver tranquilamente nesta sociedade, quer por ser tão perigoso pensar que equivale ao risco iminente de ser morto ou, em alternativa, de se suicidar. Eis os perigos mais imediatos.

O perigo de pensar que os certificados da mediocridade não são válidos

Se os sistemas de educação e as universidades continuarem na senda da ignorância programada para os estudantes esquecerem tudo o que não interessa aos donos dos algoritmos e do poder, serão, em breve, lares para idosos de tenra idade onde aprendem o que já sabem há muito graças à magnanimidade das redes sociais, e onde o conforto e o isolamento do mundo real são fundamentais para os preparar para uma morte serena, isto é, para viverem nas bolhas onde toda a gente vive morta sem saber.

E viverão certamente com o mesmo conforto que aprenderam e, por isso, tudo o que fizerem ou ordenarem tem a marca da objectividade. Estou certo de que, quando tal acontece, os deuses e as deusas devem levar mãos à cabeça, tapar os olhos para não ver e os ouvidos para não ouvir. Mas como tal desastre não os afecta, continuarão imperturbados nos seus afazeres divinos. O problema para a humanidade e para a natureza é que, quando os medíocres conseguem provar o que são, a sua objectividade é, afinal, abjectividade. É próprio da mediocridade não poder confrontar-se consigo mesmo, precisamente por ser medíocre.

O perigo de pensar que as liberdades autorizadas são uma fracção das liberdades possíveis

Esta sociedade permite-nos ser intransigentes com a mediocridade desde que sigamos no caminho traçado pelos medíocres; sermos intransigentes contra a corrupção, desde que aceitemos ser governados por corruptos; sermos radicais, desde que cegos para sermos facilmente atropelados pelo trânsito dos tanques civis e militares; sermos ousados, desde que inexactos ou descuidados num detalhe para sermos duramente criticados e cancelados pelos guardadores da normalidade; sermos lúcidos na denúncia da hipocrisia, desde que convivamos amigavelmente com os hipócritas; sermos jovens desde que drogados para nos esgotarmos em criatividades e rebeldias inócuas e autodestrutivas; sermos velhos, desde que murmurando uma sabedoria que ninguém tem paciência para ouvir ou entender. Esta sociedade é um monstro de Goya porque a razão dorme um sono profundo.

O perigo de pensar que o que se vê é, de facto, horroroso

O horror vivido pela maior parte da humanidade, diariamente, sempre diferente e sempre igual, desmente tudo o que pensámos sobre o progresso da humanidade. O horror, quando pensado a fundo, corre o risco de ser horror vivido por solidariedade com quem o sofre. Isso obrigaria a ir para a luta concreta no socorro, no estancamento da morte inocente, na destituição dos governantes cúmplices com a morte inocente. Mas como isso dá trabalho e obriga a riscos tão graves quanto desnecessários, o melhor é não pensar, não saber, fingir não saber, admitir que talvez seja um mal-entendido.

O genocídio do povo palestiniano, transmitido em directo todos os dias, é a primeira guerra conduzida conscientemente contra mulheres e crianças, os dois inimigos principais de uma limpeza étnica perfeita. Tem toda a lógica. Lógica e o apoio activo dos nossos governantes democratas.

Tal como Himmler, arquitecto do holocausto, entrava em casa à noite pela porta traseira para não acordar o seu canário de estimação, os arquitectos do genocídio de hoje fazem uma pausa no morticínio para fazer as suas orações e ajudar os filhos nos trabalhos de casa. Isto degrada a tal ponto o que resta de humanidade na nossa raiva impotente que o horror de pensar tem de se reduzir a pensar o horror sem correr o risco de o viver por solidariedade.

Torna-se impensável pensar que enquanto o Nazismo foi a grande incarnação do mal no século XX, o Sionismo é a grande incarnação do mal no século XXI. Torna-se impensável que as grandes vítimas se tenham transformado, no tempo exacto de um século, nos grandes agressores. Torna-se impensável pensar que, tal como não teve êxito a solução final contra eles por parte dos Nazis, também eles não terão êxito na solução final que pretendem infligir ao povo palestiniano. E como tudo isto é impensável, é melhor mudar de canal e voltar às redes sociais ou comentar o trágico-cómico entretenimento das zangas entre dois gorilas, Donald Trump e Elon Musk (sem ofensa aos gorilas).

O perigo de pensar que a comida mental está na mesa e que quem não comer morre de fome

A Inteligência artificial (IA) nada cria nem transforma. Apenas acumula e sintetiza segundo critérios opacos apenas acessíveis aos donos dos programas dos algoritmos, isto é, aos donos do mundo. A inteligência artificial refere-se a máquinas que executam tarefas cognitivas como pensar, perceber, aprender, resolver problemas e tomar decisões. Não é a primeira vez que se atribui inteligência a máquinas. Na década de 1950 era comum designar os computadores emergentes como “cérebros electrónicos”. Actualmente, a maioria das aplicações populares de IA – o reconhecimento de voz e imagem, o processamento de linguagem natural, a publicidade direccionada, a manutenção preditiva de máquinas, carros sem condutor e drones – envolve a capacidade das máquinas para aprenderem com os dados sem serem explicitamente programadas.

Trata-se de uma mudança de paradigma na tecnologia informática. O que vai realmente fazer a diferença na corrida às aplicações de IA é a disponibilidade de dados; o elemento crítico é a abundância de dados. Mais dados conduzem a melhores produtos, o que, por sua vez, atrai mais utilizadores, que geram mais dados para melhorar ainda mais o produto. A escala de dados necessária para desenvolver aplicações avançadas de IA é a base do impacto da centralização e monopolização da IA. As grandes empresas americanas de tecnologia lideram o mundo em aplicações de IA, mas a China é um gigante em ascensão. Isto conduz a um duopólio da inovação da IA: EUA e China.

A IA é o caso paradigmático de uma tecnologia que visa ultrapassar os limites do instrumento que ajuda a pensar para se transformar no pensador que dispensa e substitui o pensador humano. A vertigem da sua ilimitada expansão está a entrar em todos os domínios da actividade humana, da medicina ao direito, da comunicação à guerra, da educação aos mercados financeiros. O que significa ser humano na época da IA?

No fundo, a IA funciona como um dispositivo estatístico, mas, devido ao número infinito de dados que gere e aos algoritmos que regem o seu funcionamento, a IA projecta a ideia de criar conhecimento a partir do nada, de inventar. Ou seja, a IA dá a impressão de funcionar como um ser humano, ainda que de forma infinitamente mais eficiente. Daí as designações utilizadas para a caracterizar – inteligência artificial, aprendizagem profunda – características até agora reservadas aos seres humanos ou, no máximo, aos seres vivos. Estas designações são utilizadas de forma metafórica, mas mostram até que ponto a IA parece estar a atingir níveis de compreensão e de transformação ainda reservados aos seres humanos.

O efeito de realidade é impressionante, porque enquanto cópia parece criativa, enquanto extractiva parece inventiva, enquanto reprodutiva parece produtiva, enquanto baseada em correlações parece oferecer novas relações. À luz da credibilidade desta “aparência”, as questões sobre o que conta como ser humano ou se a IA significa uma mudança civilizacional têm sido levantadas por pessoas em lados opostos do espectro político e ideológico.

Não gosto de citar criminosos de guerra, mas neste caso faço uma excepção para citar Henry Kissinger. Escrevia ele em 2018:

O Iluminismo procurou submeter as verdades tradicionais a uma razão humana liberta e analítica. O objetivo da Internet é ratificar o conhecimento através da acumulação e manipulação de dados em constante expansão. A cognição humana perde o seu carácter pessoal. Os indivíduos transformam-se em dados, e os dados tornam-se reinantes.

No início do texto Kissinger interrogava-se:

(…) “Qual seria o impacto na história das máquinas de auto-aprendizagem – máquinas que adquiriram conhecimento através de processos particulares a elas próprias, e aplicariam esse conhecimento a fins para os quais pode não haver nenhuma categoria de compreensão humana? Estas máquinas aprenderiam a comunicar umas com as outras? Como seriam feitas as escolhas entre as opções emergentes? Seria possível que a história da humanidade seguisse o caminho dos Incas, confrontados com uma cultura espanhola incompreensível e até inspiradora para eles? Estaríamos nós no limiar de uma nova fase da história humana?

Com Chomsky a meu lado, considero que:

a mente humana é um sistema surpreendentemente eficiente e até elegante que funciona com pequenas quantidades de informação; não procura inferir correlações brutas entre pontos de dados, mas sim criar explicações… Por muito úteis que os programas de IA possam ser nalguns domínios restritos (podem ser úteis na programação de computadores, por exemplo, ou na sugestão de rimas para versos ligeiros), sabemos pela ciência da linguística e pela filosofia do conhecimento que diferem profundamente da forma como os humanos raciocinam e utilizam a linguagem. Estas diferenças impõem limitações significativas ao que estes programas podem fazer, codificando-os com defeitos inerradicáveis…

De facto, estes programas estão presos numa fase pré-humana ou não-humana da evolução cognitiva. A sua falha mais profunda é a ausência da capacidade mais crítica de qualquer inteligência: dizer não só o que é o caso, o que foi o caso e o que será o caso – isto é descrição e previsão – mas também o que não é o caso e o que poderia e não poderia ser o caso. Estes são os ingredientes da explicação, a marca da verdadeira inteligência… O pensamento humano baseia-se em explicações possíveis e na correcção de erros, um processo que limita gradualmente as possibilidades que podem ser racionalmente consideradas.

Na sua obra-prima, O Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer ([1819] 2020) faz uma distinção entre talento e génio. Enquanto a pessoa talentosa alcança o que os outros não conseguem alcançar, o génio alcança o que os outros não conseguem imaginar. O génio tem uma capacidade superior de contemplação que o leva a transcender a pequenez do ego e a entrar no mundo infinito das ideias. O génio é a faculdade de permanecer no estado de perceção pura, de se perder na perceção, o poder de deixar os seus próprios interesses, desejos e objectivos inteiramente fora de vista, renunciando assim inteiramente à sua própria personalidade durante algum tempo, de modo a permanecer um puro sujeito conhecedor, com uma visão clara do mundo.

À luz disto, podemos especular com segurança que, se Schopenhauer vivesse hoje, defenderia que a IA, por muito estimulantes que sejam as suas realizações, nunca poderá atingir os patamares da possibilidade humana. No máximo, poderá atingir o nível do talento. A genialidade é inacessível à IA. O génio é o limite superior da IA. O limite inferior é a actividade humana não registada ou, melhor ainda, a actividade humana que é registada e armazenada de formas que desafiam o extractivismo de dados.

Este jogo homem-máquina deixa escapar um ponto crucial: o facto de os seres humanos não existirem em abstracto, mas sim em contextos históricos, sociais e culturais específicos. Os exercícios sobre características universais construídas abstractamente convertem características locais centradas no Ocidente, capitalistas, colonialistas e patriarcais em características universais derivadas do conhecimento “visto a partir do zero”. Os preconceitos ontológicos e políticos são assim transformados em artefactos neutros em termos de IA.

O perigo de pensarmos que o que cai fora do algoritmo não existe é a nova forma do que tenho designado por sociologia das ausências. O perigo de pensar que o algoritmo é a única comida mental ao nosso dispor é o mesmo que pensar que o hamburger da MacDonald’s é a única comida ao nosso dispor.

O perigo de pensar que o pós-humano pressupõe que já fomos plenamente humanos

Desde o início do milénio tem havido um debate sobre o pós-humano. A morte do ser humano vinha de longe: de Nietzsche, de Heidegger, de Foucault, de Barthes, de Deleuze. Mais recentemente, a ideia do pós-humano centrou-se nos seres humanos sujeitos a xenotransplantes (transplantes de células, tecidos ou órgãos de outras espécies animais) ou vivendo com objectos tecnológicos inseridos no seu corpo. A ideia do pós-humanismo implica a crítica do antropocentrismo, a negação de qualquer privilégio ao ser humano no conjunto dos seres viventes do planeta.

Não vou neste texto discutir os méritos desta concepção. O que me interessa questionar é ideia de humano que subjaz à de pós-humano. É uma ideia substantivista e abstracta que pressupõe a existência prévia de uma natureza humana mais ou menos fixa. De resto, a questão de saber se há ou não uma natureza humana não é a questão que me preocupa. É antes a ideia de que os seres humanos foram sempre tratados como seres privilegiados e abstractamente iguais.

O perigo de pensar que, na verdade, isso nunca aconteceu na era moderna é um dos mais aterradores para a boa consciência liberal que formou a nossa consciência desde o século XVII. Ao longo dos anos, tenho mostrado que, com o colonialismo histórico, se traçou uma linha abissal, tão radical quanto radicalmente invisível, entre os seres tratados como seres plenamente humanos (a zona metropolitana) e seres tratados como seres sub-humanos (a zona colonial).

Essa linha abissal dura até hoje e a sub-humanidade que ela desenha abrange mais populações no mundo que durante o período do colonialismo histórico. Que o digam os imigrantes deportados com algemas e enviados para campos de concentração em El Salvador e em outros lugares de que um dia teremos notícia. Ou os camponeses da República Democrática do Congo martirizados pela maldição do lítio e dos minerais raros. O espectro da sub-humanidade paira sobre cada um de nós.

De um momento para o outro, como previa Brecht, pode caber a qualquer de nós ser atirado para a zona colonial onde as declarações universais dos direitos humanos e as garantias constitucionais não são mais que mentiras piedosas. Pensar que isto é um retrocesso é pensar que houve progresso. Claro que houve progressos, mas não houve Progresso com P maiúsculo.

Todos estes perigos obrigam a uma tarefa de des-pensar e de desaprender antes que seja possível dar sentido ao que não tem sentido.

Fonte aqui

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17 pensamentos sobre “A necessidade de pensar o impensável

  1. Quem branqueia e apoia, mais ou menos dissimuladamente, mas sem renegar 1 vez, quanto mais 3, banderistas, neonazis (Ucrânia), sionistas (Israel), jihadistas como Al-Julani (Síria), que tem no currículo a Al-Qaeda, a Al-Nusra, o ISIS e a o Hay´’at Tahrir Al-Sham, poderá ter a audácia de perante uma pessoa lúcida e instruída auto-intitular-se “moderado”? De “direita moderada”? Então como vai sentir-se um “radical de direita” que apoia de igual modo os mesmos “extremistas” acima referidos, se calhar com mais pruridos quando se trata do jihadista islâmico, que no entanto é a coqueluche mais recente dos “grandes líderes do Ocidente colectivo”?
    Os algoritmos da IA, e os seus engenheiros e programadores, também servem para isto, confundir e dividir a população, propagando e disseminando xenofobia, ignorância, preconceitos, desinformação, e assim mais facilmente possibilitar e faciliar o controlo das massas e as dirigir no rumo pretendido.
    Por isso tanta propaganda é disseminada pelas corporações que gerem a informação, a informatização e as redes informáticas.

  2. Ao manipularem o RASI para excluir o capítulo referente à criminalidade da extrema-direita, os governantes e burocratas não apenas manipularam as “percepções de insegurança” (sic) dos portugueses, fomentando o foco na “imigração desregulada”, incitando a “xenofobia” (que anda a par com a “russofobia”, a “islamofobia”, etc)…
    … os governantes e burocratas manipularam e puseram em causa a própria “consciência da segurança” dos cidadãos e do Estado, e a segurança dos cidadãos e do Estado!
    Não brinquem connosco que nem todos somos grunhos e pategos, ou cobardes!

  3. É curioso que encontram sempre uma forma de relativizar as agressões e o discurso do ódio, os crimes da extrema-direita, o quanto são nefastos. Nos estúdios dos canais informativos, quando estes assassinos e agressores são tema, rapidamente a conversa se torna “abrangente” e “o perigo” deixa de ter um nome preciso e uma origem objectiva para passar a envolver um conjunto vasto de “extremismos”, por vezes até invocando primeiro e de forma mais veemente os “de esquerda”, e origem indefinida e diáfana, espectral. Mas curiosamente são os capítulos relativos à “Extrema Direita” que são apagados do RASI… por que será? Responsáveis até hoje não existem para a omissão, mas o governo vem prontamente com mensagens de repúdio, indignação e solidariedade com as vítimas destes crimes de ódio e agressões. Porém nomear e identificar os responsáveis, sem hesitações ou pruridos, já não é com eles. Apaga-se um capítulo aqui, reescreve-se a história ali, promove-se propaganda, copia-se a agenda e os tópicos da extrema-direita, tenta-se cativar os seus eleitores mais, ou menos, pategos… não há escrúpulos, apenas paninhos quentes e muita manipulação e aproveitamento. Os portugueses empobrecem, e querem fazer dos imigrantes que tentam escapar da miséria em que vivem e vêm para cá ganhar a vida, trabalhando e por vezes mal pagos e sem direitos, fazendo os trabalhos e desempenhando as funções mais ingratas e puxadas, enquanto os governos escapam entre os pingos da chuva, e as políticas que aplicam, cada vez mais orientadas e condicionadas pela UE e a NATO, são anunciadas como soluções e curas infalíveis para os nossos males, agravando a cada dia a desigualdade, a pobreza, a decadência, a ausência de convergência social, de políticas de redestribuição e empoderamento das populações, e de cada cidadão no seu contexto local e nacional.
    Quando se trata de distribuir os males pelas aldeias, só resulta se for para encobrir a “deriva direitista e de cancelamento cultural” vigente, que se tornou exacerbada com a reeleição de Trump (2.0), e abarcar os extremos todos, num discurso pretensamente “moralista e salomónico”, e torna-se difícil quando é para ser “salomónico” no que diz respeito a Israel e a sua acção de limpeza étnica e genocídio em Gaza (“somos todos israelitas”, “desta vez vocês é que começaram”…), ou do conflito na Ucrânia – Rússia (“Putin é um ditador genocida, Zelensky um defensor dos nossos valores e da demo-cracia”)… esta ambiguidade de tratamentos, nos mesmos canais, nos mesmos painéis, pelos mesmos opinadores, pivots e comentadores, é gritante… e resulta sempre, mas sempre, no branqueamento das agendas, das políticas, das campanhas bélicas ou de psy-ops da extrema-direita.
    Está na altura de confrontar os que manipulam e deformam a realidade e a sociedade para seu proveito com isso, mesmo que o façam apenas para receber um chorudo bónus no fim do mês, e não tenham outras intenções que não a de servirem de papagaios. Também os contadores de lérias do costume, com a sua hipocrisia e os seus dois pesos e duas medidas, além de constantes deturpações e omissões, não devem deixar de ser confrontados, e todos os poucos comentadores e opinadores de “esquerda fofinha” serão cúmplices se não ressalvarem a sua dualidade parcial.
    O Sadoka fazia-se útil se fosse reconstruir a Ucrânia, mas como essa seita está mais focada na guerra contra a Rússia “custe o que custar, dure o que durar”, e de viver à custa dos pategos que encantam com os contos do vigário Goebellianos da extrema-direita, que tantos ignorantes, crédulos e idiotas já encantou durante o último século e mais uns pozinhos, é natural que prefira fazer de propagandista e viver comodamente cá longe. Mais depressa vão para lá os mercenários portugueses ou de outro lado qualquer que os Sadokas desta vida, nem que seja para ajudar os compatriotas a recuperarem e a enterrarem condignamente os seus mortos de guerra.
    Os nazis deixam de ser nazis e passam a “extremistas” equiparáveis a qualque “extremista de esquerda”. Os Sadokas e os M&M’s proliferam e prosperam. Os RASI são manipulados para não “ferir susceptibilidades” e parecer que os (neo)nazis são piores e mais perigosos que os “extremistas” em geral. Os governos repetem o que recanta a UE e os EUA e assobiam para o lado, empobrecendo os cidadãos e mandando vir mais levas de imigrantes para as corporações e as multinacionais continuarem a enriquecer à custa de todos, e do estado. É este o ciclo que tem de ser denunciado, é a propaganda que promove isto que tem de ser desmontada, são os esbirros e facilitadores deste discurso, que é cópia chapada dos argumentos dos AVentureiros desta vida, que têm de ser desmascarados.

    • *Os portugueses empobrecem, e querem fazer dos imigrantes que tentam escapar da miséria em que vivem e vêm para cá ganhar a vida, trabalhando e por vezes mal pagos e sem direitos, fazendo os trabalhos e desempenhando as funções mais ingratas e puxadas, os responsáveis pela desordem, o saque, a inflação, o crime

    • *“o perigo” deixa de ter um nome preciso e uma origem objectiva para passar a envolver um conjunto vasto de “extremismos”

      Há o “perigo vermelho”, tão difundido pela máquina de propaganda da mass midia norte-americana, de Hollywood, etc… há o “perigo amarelo”, que assume outras formas, como a de “vírus chinês”, disseminada pelos MAGA, nas FOX News, nas NOW e nas CMTV, como o “perigo vermelho” nas CNN, e suas sucursais internacionais… mas de repente é tabu falar em “perigo branco”, mesmo que ele tenha manisfestações ultra-violentas, agressivas, abafando-se as polémicas e os RELATÓRIOS de SEGURANÇA INTERNA com ele relacionados… e vejam bem, que o “perigo castanho” (os hispânicos nos EUA, ou os árabes, semitas e turcos na Europa) e o “perigo negro” (os afro-americanos ou euro-africanos, ou simplesmente africanos) é que vão desestabilizar o sistema político, mesmo que sejam eles a força de trabalho mais explorada e mal paga que alimenta esse mesmo sistema globalista, capitalista e corporativista neoliberal.

      Vão ver se o mar dá Moby Dick.

    • *”Perigo castanho” (os hispânicos nos EUA, ou os árabes, semitas e turcos na Europa, e também os magrebinos, os indostânicos, banglas, etc)

      Por menos já vi o AVentura e a pategada do “costume” acusar Marcelo Rebelo de Sousa de “traição à pátria”. Mas será que foi ele que mandou apagar o capítulo sobre a Extrema-Direita do RASI? Parece-me uma medida demasiado “radical”, até para o Marcelo Primaveril II.

  4. Pois, os extremos sao todos iguais. Quando e que alguém daquilo a que se chama extrema esquerda agrediu alguém? Nomeadamente migrantes? Ou actores? Ou quem quer que fosse?
    E porra, alguns ate mereciam umas chapadas a padrasto como o nazi do Pavko Sadoka que teve a pouca vergonha de apelar a cara podre a ilegalização de um partido politico só porque este não apoia o governo fascista do seu país.
    Um governo que ilegalizou o partido congénere lá do sítio e mata, prende, tortura e envia para a frente de combate membros do tal partido tal como os fascistas faziam por cá antes do odiado por essa canalha 25 de Abril.
    Nem sequer o mandaram ir ver se o mar da megalodonte.
    Por isso o Moedas teve noção que estava a dizer uma grande baboseira, mas disse a na mesma.
    Vá ver se o mar da megalodonte.

  5. Se o Dr. Rui Pereira, esse douto jurista de painel CMTV, insinuou e pôs a correr a tese de “Terrorismo” no ataque à Academia Sporting em 2018, está à espera de quê para categorizar o que se passou na Barraca como ataque terrorista?
    Já agora, sobre outro acontecimento no mesmo dia, o ataque dos “casuals” do Sporting aos adeptos do FCP, que feriram e destruíram o automóvel, pegando-lhe fogo, e colocaram em risco a vida dos ocupantes – não haverá “autoria moral” a assacar? Terão agido a mando de alguém? Ou só em 2018 deu jeito ir buscar um “mandante”, para tirar de lá o “maluco”? Já não há “Terrorismo”, e já não há “mandantes”.

    Mas a extrema-direita campeia, cada vez mais solta e confiante, enquanto os “puristas” de painel colocam os “extremismos” em pé de igualdade” (são muito igualitários, nestas questões), e os iminentes burocratas apagam do RASI os capítulos que não interessam à narrativa do momento, por forma a que não haja marés contrárias às ondas que se propagam…

  6. O apagamento do capítulo do Relatório Anual de Segurança Interna relativo à Extrema-Direita teve origem política?Qual foi a motivação por trás dessa omissão deliberada, alegadamente da autoria do Ministério da Administração Interna? Pretender que a Extrema-Direita não é um perigo real, e apenas a imigração descontrolada? Promover a agravação da deriva direitista, encoberta pela auto-proclamada “direita moderada” e instigada pela “direita radical” e seus financiadores, facilitadores e esbirros, que é patrocinada pelo poder político, corporativo, mediático a nível nacional e internacional?
    A agressão ao actor do Teatro a Barraca, por um grupo de neo-nazis, também será omitida no próximo RASI, par efeitos de manipulação de dados e “percepções de segurança”?
    Fará Luís Montenegro uma declaração ao país às 20h para serenar a “percepção de insegurança” dos portugueses que não são pategos, xenófobos, saudosistas, ignorantes, nem têm tendências fascizóides dissimuladas?
    Quantos mais RASI serão censurados para que os dados se adequem às narrativas dominantes que propagam ódio, xenofobia, divisões socio-económicas (de “classe”), mentira e falsidade, irracionalidade, culpando os imigrantes de todos os males e desculpando os “bem intencionados” criminosos portugueses por causa da sua pretensa “pureza” e “nacionalismo” exacerbado?
    Este “novo ciclo político”, que imita o do século passado por volta da mesma altura, e evica uma Primavera Marcelista reversa, que vai no sentido regressivo e não progressivo, tem responsáveis políticos, ideológicos e actores comprometidos com ele, assim como opinadores e comentadores “puristas”, mais parciais e manipuladores que os paineleiros do comentário futebolístico. São todos eles cúmplices de toda esta deriva fascizante, e enquanto isso o compadrio, a corrupção e o empobrecimento generalizado da população prosseguem, com os imigrantes pobres, a maioria deles trabalhadores assalariados, a servirem de bode expiatório. Os dos vistos gold e dos grandes fundos de investimento ou das fortunas, representantes máximos do globalismo, expoentes do capitalismo selvagem neoliberal, destegrado ou com regras fritas à medida, esses são venerados, principalmente se forem anglo-saxónicos, nórdicos, franceses, judeus endinheirados, e “investirem” no país, ou seja, o comprem a retalho. Para esses haverá sempre passadeiras vermelhas, e serão os “ultra-nacionalistas” os primeiros a estendê-las.

  7. O texto de BS Santos é bem interessante e sintomático dos dias que vivemos. Sobre a IA, o académico contornou um ponto essencial sobre que convém reflectir. O facto de a IA dispor de quantidades quase infinitas de dados e de ter a larga capacidade para os organizar e recombinar das mais variadas maneiras, faz com que o humano fique a anos-luz dessas capacidades, como é evidente. Daí que as artes produzidas pela IA se estejam a aproximar perigosamente do que os humanos conseguem fazer. Mas para mim, o mais grave nem é isso. O facto é que essas capacidades infinitas estão sim a ser usadas contra o ser humano, para o cotrolar, redireccionar, influenciar, domesticar, matar até, a uma escala nunca vista, sempre é claro, embrulhada nas roupagens mais diáfanas que a nojenta propaganda consegue. As armas autónomas estão a tomar conta dos campos de batalha e isso sim representa o maior perigo, pois ameaça escapar ao controle humano. Depois disso, tudo, mesmo tudo pode e vai acontecer. Já aí está e nós vamos fazer o quê? Carpir? Lamentar?

  8. Por alguma coisa a extrema direita de hoje elegeu como inimigos os muçulmanos e e ferozmente pro israelita.
    Sabe os bandidos com que teria de se haver se continuasse a eleger os sionistas como bode expiatório.
    Que afinal de contas até há boas razões para todos os que tenhamos um pingo de humanidade sermos ferozmente anti sionistas.
    Mas eles sabem o que lhes convém e não querem ver se a contas com a Mossad, o Shin Beth e outros bandos de assassinos sionistas.
    Mas a verdade e que o discurso sordido da extrema direita não funciona sem a eleição de um inimigo pelo que foi preciso arranjar outro.
    Já que outros velhos inimigos dos nazis, os ciganos, não chegam para o gasto.
    Então elegem os muçulmanos e no caso concreto português estão a usar uma situação cruel de um passado da marmita que matou duas mulheres muçulmanas para cascar nos muçulmanos em geral.
    Faz um sentido do car*lho usar a morte de mulheres muçulmanas por um passado que nominalmente tem a mesma religião, pois que pelo seu discurso ca me parece que o sujeito não se lembrava do Corao nem de porra nenhuma, para cascar em toda a malta muçulmana que ca está.
    Gente que boa parte da qual esta aqui há décadas, e que ja disse alto e bom som que não sai porque a sua terra e aqui.
    Viva a coragem porque bem precisamos dela.
    Fascistas e sionistas, faces da mesma moeda, vão ver se o mar da um grande cardume de tubarões brancos famintos.

  9. Mais umas achegas sobre o comportamento exemplar do “exército mais moral do mundo”.

    “Desde a fundação violenta de Israel em 1948, as mulheres palestinas têm sido submetidas à violência sexual sistemática, permitida pelo Estado — usada como arma de guerra, controle e apagamento. Da humilhação nua em postos de controle ao estupro em salas de interrogatório, esses testemunhos expõem um legado brutal há muito enterrado sob o silêncio e a impunidade.”

    https://youtu.be/GDoAd6TUCLk?si=s1bk5sejSfVCR1w3

  10. “na já longínqua década de 70 do século passado”, caríssima Estátua? Estou a ver que és quase tão jurássico como eu! Lembras-te daquele pedagógico passatempo que tínhamos na juventude, de tentar adivinhar se o bicho que víamos lá em baixo, no vale, junto ao rio, era um T-rex, um brontossauro, um braquiossauro ou um triceratops? Ou eras dos que preferiam jogar ao bilas com ovos de pterodáctilo?

  11. Bandidos associam-se a bandidos, é a ordem natural das coisas.

    “Inside Gaza’s criminal gang backed by Israel. In a segment released on Tuesday, the UK’s Channel 4 News reported on the rise of the Israel-backed militia in Gaza led by former drug trafficker Yasser Abu Shabab. Reportedly numbering around 300 men according to Channel 4, the militia grew infamous in Gaza over the past year as residents accused the gang of looting aid trucks entering the strip in areas under Israel’s military control. For months, many questioned how Israeli forces could let the gang loot aid in areas under its control without intervening. Since then, Israel’s Prime Minister Netanyahu admitted his government was supporting the gang. Abu Shabab has now been placed in charge of aid distribution at sites run by the Gaza Humanitarian Foundation, where several shootings of Palestinians seeking aid have taken place over recent weeks.”

    Aqui:

    https://youtu.be/tRxaf91WXT0?si=9kAjt9uNQ_3NmPff

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