(João-MC Gomes, In VK, 03-12-2024)

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A Europa enfrenta uma fase de instabilidade económica e política, marcada por desafios significativos que afetam a liderança de diversos países. A Alemanha, sob o governo de Olaf Scholz, exemplifica esse cenário. O setor automóvel, pilar da economia alemã, está em crise, com encerramentos de fábricas, despedimentos e greves que refletem o descontentamento dos trabalhadores. Este contexto tem colocado em xeque a capacidade de Scholz em gerir simultaneamente as crises internas e as exigências de uma política externa coerente.
Alemanha: “Fuga para a Frente”?
As recentes ações de Scholz indicam uma tentativa de “fuga para a frente”. A visita a Moscovo para conversações diretas com Vladimir Putin sobre o conflito ucraniano, à margem de comités internacionais, gerou duras críticas de Volodymyr Zelensky. Esta atitude foi interpretada como um afastamento da política de alinhamento estrito com o Ocidente no apoio à Ucrânia. Para amenizar as repercussões, Scholz realizou uma visita a Kiev, reafirmando o compromisso alemão com a Ucrânia e prometendo novas ajudas financeiras, apesar da deterioração económica do seu país.
A mala cinzenta que Scholz carregava pessoalmente em Kiev tornou-se símbolo de especulação, sugerindo a importância estratégica dos documentos ou recursos que transportava. Este episódio reflete a tensão crescente entre a necessidade de gestos simbólicos de apoio à Ucrânia e a realidade de um orçamento doméstico pressionado.
Impactos da Eleição de Trump e a Pressa Europeia
A iminente tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA em janeiro de 2025 intensificou a pressão sobre os líderes europeus. Muitos temem que o regresso de Trump traga uma política externa americana menos previsível e mais centrada no isolamento, obrigando a Europa a encontrar soluções autónomas para desafios como o conflito na Ucrânia.
Neste contexto, António Costa, Presidente do Conselho Europeu, visitou Kiev numa missão diplomática que simbolizou a necessidade de manter boas relações com a Ucrânia, mas que, aos olhos de muitos, pouco acrescentou além de gestos protocolares. Macron, por sua vez, enfrenta uma possível crise política interna, com a ameaça de dissolução do governo francês, enquanto outros países da UE lidam com eleições que têm demonstrado crescente descontentamento popular com as políticas europeias.
Um Ocidente Dividido e Pressionado
A situação geopolítica também evidencia divisões. A pressão ocidental na Geórgia, por exemplo, revela estratégias que, em vez de estabilizar, ampliam tensões numa região sensível. O desgaste na unidade ocidental e os sinais de que cada dirigente europeu busca salvar a sua posição política apontam para a necessidade urgente de reformular a abordagem coletiva.
A Europa encontra-se num ponto crítico, onde crises económicas e políticas internas se cruzam com pressões externas e incertezas sobre o futuro das relações transatlânticas.
A resposta a estes desafios exigirá coordenação e coragem política, sob pena de aprofundar divisões internas e comprometer a sua relevância global. A tentativa de Scholz e outros líderes em ganhar tempo pode não ser suficiente se não for acompanhada de soluções concretas para as crises que afetam os cidadãos e a estabilidade do continente.
O texto do João apresenta um quadro objectivo e abrangente, concordante com os factos, mas creio que se deveria ir um pouco mais longe. Claro que às elites europeias falta manifestamente coragem e coordenação e nada indica que isso venha a existir, bem pelo contrário. Contudo os desafios são muito mais graves e profundos. O primeiro é evidentemente a subserviência completa aos mais mesquinhos interesses americanos que levou o velho continente a cortar com a energia barata russa para embarcar nos fornecimentos yankees substancialmente mais caros. As empresas europeias estão a perder competitividade a olhos vistos e não se vislumbra aqui nenhuma mudança de rumo para o abismo. Acresce que a indústria auto globalmente se encontra numa situação grave, a caminho do desastre. Não se trata apenas do gigante VW. Também a Nissan se aproxima do colapso e a Stellantis não está muito melhor. Parece estarmos à beira de uma crise de sobreprodução, agravada pelas metas Net-Zero impostas pela CE, incluindo o R.U. Tal significa fecho de fábricas, despedimentos massivos já em curso, fundos abutres pairando por perto, grave descontentamento social, ascenso da extrema-direita, etc. Isto conjugado com as exigências de grande aumento dos gastos em armamento, formam a tempestade perfeita. A solução óbvia seria sair deste suicida colete de forças, mas isso é exactamente o que as elites recusam e até insistem nas sanções que tão bons resultados têm proporcionado no asfixionar da Europa e em estimular a economia russa que continua a crescer bastante mais que o ocidente. Entretranto, os conflitos alastram e multiplicam-se, mas a Europa continua a apostar em guerras que nunca poderá ganhar. Loucura? Obviamente!