(Por José Gabriel, in Facebook, 08/10/2024)

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A propósito da conferência “O Futuro dos Media”, em que Montenegro botou discurso, gostaria de deixar aqui duas ou três notas.
1 – Notei que nenhum jornalista abandonou a sala, como deveria fazer quem ainda tem a coluna vertebral no lugar – eu sei, a dependência, o patrão, o medo, a vidinha. Quando não, a cumplicidade.
2 – Montenegro sonha montar uma limitação de liberdade de expressão – a começar pelas redes sociais -, onde há, acha ele, abuso de opinião que é preciso controlar. Salazar não diria melhor.
3 – O 1º ministro quer meter no bolso o que resta – que não é muito – da autonomia da RTP, retirando-lhe a publicidade o que, parecendo uma medida virtuosa, deixa a estação na total dependência do governo. Isto só poderia ser feito aprovando uma rigorosa legislação cautelar que protegesse a independência da RTP. Não vejo sinais de que tal possa acontecer.
4 – O tom severo-paternal usado chegou à repreensão pelos auriculares dos jornalistas, acusados de sopro alio-auditivo, momento cómico da tarde.
5 – Montenegro deixa escapar sinais uma cultura (?) autocrática – isto é um eufemismo – cujas sintomas parecem ser, ao próprio, opacos.
6 – A conferência do 1º ministro proporcionou a André Ventura a espantosa oportunidade de lhe fazer uma crítica pela esquerda!
7 – A sensação de irrealidade que estes eventos nos provocam, nem sequer tem o mérito de nos fazer flutuar numa elegante e imaginativa cena surrealista; apenas, na sua mediocridade, nos dá a ideia de que, em vez de água, chove merda.
Sóciopaticamente patológica como é, esta aventura autocrática do monte negro, constitui apenas uma brincadeira comparada com a lei que o min. saúde irlandês pretende aprovar. Senão vejamos:
Abrange todas as pessoas, todos os seus pertences e propriedades, documentos, animais, obriga a vacinações forçadas, exames e testes médicos e afins, na ânsia de implementar as emendas preconizadas pela OMS e seus czares de serviço, o tio Gates e o aprendiz Tedros. Quando passar à prática, poderemos dizer adeus aos direitos civis, autonomia sobre o corpo, direitos de propriedade, direitos parentais, direitos de posse, liberdade de associação, direito ao trabalho e ainda cair num regime de sobrevigilância. Isto é claro, sem a mínia referência a práticas preventivas, políticas de boa saúde nem análises de custo-benefício. Aliás, quem precisa disso se as vacinas eficazes e seguras serão ministradas a todos, queiram ou não, a bem da súcia (dade).
Montenegro disse finalmente ao que vem e vem para dar continuidade ao programa neoliberal de privatizações, ou melhor de ‘privataria’.
De facto as medidas que propõe para a RTP vão no sentido de sucatear o serviço para de seguida, a seu tempo, ser vendido a preço da uva mijona. Sucatear ate nem é difícil porque ele esta longe de ser brilhante; mas, mesmo assim, como ainda tem algum potencial porque não está diretamente nas mãos de corporações capitalistas, interessa cortar cerce esse potencial.
Para atingir tal objetivo, importa dificultar-lhe a vida, investir na politica de terra queimada para depois ‘vender a madeira barata’; cortar a publicidade tem duas vantagens poderosas: por um lado a televisão pública vai servir pior e deixar a população indiferente a uma próxima privatização porque conclui, à maneira do senso comum idiota, que afinal a RTP não serve para nada. Por outro, facilita a vida a outras estações de televisão privadas que vão abocanhar o que for possível. Uma espécie de dois em um.
Ora, ao contrário, o importante seria permitir a continuação da publicidade como fonte de receita, precisamente para garantir alguma qualidade ao serviço e para tirar força ao argumento daqueles que a acusam de ser muito onerosa para os contribuintes.
Hoje já se percebeu que através do soft power (da comunicação social) se pode manipular com grande sucesso as pessoas; a violência pura e dura é evitável e pode sempre encher-se a boca com a liberdade de expressão e com o facto de não se viver em ditadura. Por isso, enquanto puder, o neoliberalismo e os seus agentes vão apostar no soft power e é nessa conjuntura que a sua privatização faz sentido e que a intervenção de Montenegro se inscreve.
Para concluir diria que faríamos um bom serviço público se denunciássemos a politica de privatizações como uma estratégia para garantir a continuação da hegemonia do sistema capitalista nos diferentes países e sociedades. E o slogan pode ser este: PRIVATIZAÇÃO É PRIVATARIA
Mas estamos espantados com o que? O jornalismo e as redes sociais estão sob fogo em todo o lado e não e de hoje.
As redes sociais foram muito boas quando deram jeito ao Ocidente para mobilizar populações contra regimes que não nos faziam o frete como foi o caso da Libia.
E até para difundir notícias falsas como a do bombardeamento aereo de manifestantes e outras aleivosias.
A direita caceteira Venezuelana também foi mobilizada via Facebook e outros e fake news de toda a maneira e feitio para desacreditar regimes que não eram amigos foram regularmente plantadas em redes sociais.
O problema foi quando pelas mesmas redes sociais se foram plantando conteúdos de que não gostávamos.
Ai e que todos acordaram para o perigo de fake news ou até conteúdos perigosos mas redes sociais.
Como quando nos quiseram enfiar pela goela abaixo as vacinas COVID.
Tratou se imediatamente de enfiar no mesmo saco idiotas que garantiam que a COVID se podia curar bebendo urina humana e gente que duvidava da bondade de uma vacina feita em menos de um ano e usando uma tecnologia que nunca antes tinha sido usada em vacinas.
Mas aí souberam usar as mesmas redes sociais e o jornalismo em geral para colar todas as dúvidas a extrema direita, ao fascismo e ao dirigente brasileiro Jair Bolsonaro.
Os não vacinados foram retratados como gente que queria matar outros e as redes sociais foram tão eficazes na promoção do ódio que ninguém se espantou quando em países como a Alemanha houve gente condenada a mais de uma década de prisão por alegadamente ter “morto” gente que alegadamente tinha contagiado e que até estava vacinada.
Foi por essa altura que o algoritmo se aperfeiçoou em redes como o Facebook.
Com a escalada da guerra que desde 2014 se desenrolava na Ucrânia com a intervenção da Rússia no conflito a coisa densificou se.
Recorreu se, no campo jornalístico, a censura pura e dura e até a perseguição de jornalistas divergentes.
Não foi só a censura da RT e de outros canais considerados pro russos.
Foi dois jornalistas alemães terem tido de se exilar justamente na Rússia porque na Alemanha o seu destino era a prisão por retratar crimes ucranianos, casos cruéis como o de Gonzalo Lira e casos como o de Pablo Gonzales a quem de nada serviu ter pago impostos em Espanha uma vida inteira. Só saiu de uma masmorra polaca onde estava há dois anos sem culpa formada porque a Rússia se meteu no assunto. De Espanha nem um pio.
Como de Portugal não sairia certamente um pio, a não ser para enterrar mais o homem, se este tivesse caído nas garras dos nazis ucranianos.
E, claro, os nazis ucranianos desapareceram praticamente das redes sociais e tem de se buscar muito para encontrar qualquer referência quando, por exemplo, em 2018 as referências eram muitas e assustadoras.
E se aparecer alguma tem muitas vezes um rodapé a dizer que tal não significa apoio as alegações de Putin justamente sobre nazismo a moda antiga na Ucrânia.
Ai entrou o algoritmo e também a censura pura e simples de conteúdos divergentes por ofender “as regras da comunidade”.
Com o genocídio em curso em Gaza a coisa tem sido mista mas e preciso googlar muito para encontrar qualquer referência a crimes israelitas.
Já sobre o Holocausto, o passa culpas preferido dos sionistas, encontrasse assim assim. Muita coisa sobre a morte de judeus e quase nada sobre ciganos, minorias sexuais, eslavos, deficientes e dissidentes em geral.
O Telegram assumiu se durante algum tempo como uma espécie de outsider, sempre associado a extrema direita ou pior, pois claro, até que alguém se fartou da brincadeira, o seu fundador foi preso e já rachou. Dado que isso de ter a espinha direita nunca foi apanágio dos russos que viram a luz em nações que sempre quiseram a destruição da sua.
E já não contamos com acusações de antissemitismo a torto e a direito e gente que tem perdido os seus cargos em países como os Estados Unidos por apontar os hediondos crimes de Israel.
Por isso não sei a quem pode surpreender este discurso de Montenegro. Este e só mais um sintoma da podridão daquilo a que chamamos o Ocidente alargado.
Portanto, nada de novo embora tenhamos de reconhecer que e de dar a volta as tripas.
” não sei a quem pode surpreender este discurso de Montenegro.”
Tal e qual; não basta deitar a baixo o discurso, o problema é o orador
Muito bem.