Da impunidade dos crimes do Ocidente à impotência coletiva dos povos – Parte I

(Por Erno RENONCOURT, in Le Grand Soir, 04/10/2024, Trad. Estátua)

Podemos afirmar que, na sua forma atual de geoestratégia totalitária da globalização, o capitalismo já não pode ser definido tal como o marxismo o entendia no século XIX, ou seja, simplesmente como um sistema de produção de mercadorias e bens através da exploração do trabalho assalariado.


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Neste texto, propomos uma reflexão atípica, até mesmo herética, para repensar o sentido e reapropriar as questões da noção de “consciência” nas novas formas de luta a serem travadas contra a indigência multifacetada que o capitalismo semeia com grandes ventos apocalípticos sobre todos os continentes e em todas as estações. Esta reflexão parece-nos contextualmente necessária, porque, na sua perspetiva da viabilidade humana da história, o materialismo dialético postulou que a condição sine qua non da revolução dependia da transformação da alienação capitalista em poder insuportável (Karl Marx e Friedrich Engels, in A Ideologia Alemã).

Ora, a observação da evolução do capitalismo como um poder monetário insuportável é reconhecida por unanimidade. Segundo Marc Chesney, professor de finanças da Universidade de Zurique, “nunca na história houve uma concentração de riqueza em tão poucas mãos”. E esta situação é ainda mais insuportável porque é perigosa. Porque, além disso, a oligarquia financeira está tão interessada nos seus ativos económicos que jura apenas pelo crescimento e pela abundância, e está pronta a assar a humanidade que se rebela contra a sua indigência com o fogo nuclear.

Na verdade, esta oligarquia assumiu todos os direitos: manteve durante muito tempo uma grande parte da população mundial na escravatura, especialmente nos países do Sul; derrotou a democracia e o modelo social que tinha, contra a sua vontade, concedido às populações do Norte, depois da Segunda Guerra Mundial, no seu desejo de derrotar o bloco comunista que se impôs, através do seu triunfo sobre o nazismo, como modelo alternativo.

Tendo manobrado até se impor como único modelo dominante, após o colapso do bloco de Leste em 1991, esta oligarquia queria tanto expandir o seu crescimento que transformou o seu modelo económico neoliberal de deterioração dos ecossistemas e dos espaços humanos numa geoestratégia da globalização, com o objetivo de absorver toda a riqueza do mundo.

Compreendemos facilmente porquê. E sentindo-se ameaçada pelas potências emergentes que querem um mundo multipolar, menos sujeito aos ditames do Estado único sob o controlo desta oligarquia financeira e predatória, parece assumir o risco de colocar a humanidade à beira do guerra apocalíptica.

De Gaza ao Haiti: a mesma divagação da consciência humana

E, no entanto, embora esta gangrena, que semeia o caos e a precariedade em prol do seu crescimento e abundância, seja, no final do primeiro quartel do século XXI, unanimemente reconhecida como um poder monetário e totalitário insuportável, a humanidade nunca foi tão impotente e distante das frentes da revolução. Tomando os exemplos de Gaza e do Haiti, podemos modelar os termos dos problemas enfrentados por esses povos por meio de equações equivalentes que envolvem os conceitos de invariância, impotência e errância, interligando-se e entrelaçando-se como variáveis ​​estruturantes de uma mesma representação da realidade. Da realidade do mesmo mundo alienado, do mesmo desejo de quem a todos tem que desumanizar retirando-lhes a sua dignidade; e isto, apesar da distância geográfica, cultural e histórica destes dois povos, e apesar da diversidade de formas e múltiplas manifestações desta desumanização ou desta divagação de consciência.

Assim, podemos propor uma equivalência entre os termos do problema haitiano e os de Gaza, e mesmo os do mundo, da seguinte forma:

Haiti desumanizado = Invariância das raízes totalitárias do Duvalierismo (que são consequências das estruturas esclavagistas) + impotência coletiva + divagação da governação local (perda de inteligência coletiva local).

Gaza Desumanizada = Invariância das estruturas genocidas do Estado hebraico (diversificação das estruturas esclavagistas) + impotência coletiva + deambulação da governação democrática global (perda de inteligência coletiva global).

Na verdade, enquanto toda Gaza estava a ser alvo de genocídio em 2024, as classes ricas e médias em França (e em todo o mundo) celebravam os Jogos Olímpicos de Paris 2024. Enquanto o Haiti era entregue à experimentação pelo Ocidente e pelas suas instituições internacionais a um gangsterismo estatal transnacional, que devolve a vida da maioria da população pobre às mesmas condições desumanizantes da época da escravatura, no Ocidente os seus artistas, os seus escritores, os seus intelectuais acotovelam-se nos teatros mundiais para terem sucesso nos sonhos brancos de outros lugares e estão prontos para todas as infâmias, todas as vilanias para se agarrarem a esse sucesso longe desse buraco de merda.

Era como se o Grande Noite da ação revolucionária, destinada a iluminar a festa da humanidade social e genérica, se tivesse esfumado. A aurora de um amanhã cor-de-rosa não dissipou os pesadelos da noite, uma lua opaca de terror passou no ângelus do dia, o velho mundo recusa-se a morrer e o claro-escuro de Gramsci transformou-se num eclipse de horror com a efígie da morte. É como se o grande bárbaro, o eterno carniceiro e coveiro dos povos, tivesse coberto o mundo com a sombra espessa do seu gigantesco manto apocalítico, como um convite para o banquete da humanidade que está prestes a ser assada no altar da sua felicidade pós-humanista.

Mas onde está o erro? Porque é que os raios materiais negros da existência desumanizada, tão carregados de cólera militante, não iluminaram os céus da consciência de classe dos povos para os impulsionar para a história como motores revolucionários?

Transições sistémicas

Não pensem que estamos a utilizar esta metáfora para ridicularizar as perspetivas de uma provável revolução, fazendo o papel de aprendiz de crítico do marxismo. O nosso objetivo é mais estratégico do que académico, mais pragmático do que filosófico. É um esforço de sistematização da dialética materialista para contextualizar as condições de viabilidade humana da história, para além da maturação das forças produtivas e económicas. Porque o marxismo é uma teoria científica, e como tal deve seguir o ritmo da dialética: qualquer mudança na infraestrutura da sociedade deve levar a uma rutura na superestrutura, com novas ideias adaptadas para permitir que a teoria seja ajustada de modo a permanecer viva e atual, reinventando-se indefinidamente.

Podemos afirmar que, na sua forma atual de geoestratégia totalitária da globalização, o capitalismo já não pode ser definido tal como o marxismo o entendia no século XIX, ou seja, simplesmente como um sistema de produção de mercadorias e bens através da exploração do trabalho assalariado. O capitalismo, nas suas estruturas globalizadas, inovadoras, virtualizadas e desmaterializadas, tornou-se um ecossistema de desumanização que, depois de anteontem se ter apropriado gratuitamente das riquezas da natureza através da escravatura do trabalho negro e indígena, e ontem através das guerras mundiais e da colonização, quer agora aniquilar o ser humano, apropriando-se da sua consciência através das miragens da inteligência artificial.

Perante esta inovação perversa, que corrói a dignidade e a humanidade do ser humano através da posse, colocando o poder e o saber no centro da sua existência como artefactos de sucesso do seu condicionamento desumanizador, é necessário um esforço sistémico de reapropriação da noção de consciência, para além da sua leitura “estática dialética” como substrato religioso da alienação (Karl Marx, Os Manuscritos de 1844, Apresentação, tradução e notas de Émile Bottigelli. Paris, Les Éditions sociales, 1972, p. 79).

A consciência, porque intervém, não como emergência dada, na compreensão da existência, mas como construção decorrente da representação, interpretação e modelação das suas reais e complexas dimensões alienantes, participa, portanto, no processo de ação para a viabilização humana da história. E, como tal, vai-se afirmando como uma questão de resistência e um território de luta para a construção de uma insubordinação verdadeiramente internacional. Uma insubordinação que não será uma impostura ideológica, mas uma verdadeira insurreição das consciências, assegurando o endireitar das posturas, para que o corpo e a mente se alinhem permitindo que as pessoas ocupem dignamente o seu lugar na existência, aprendendo a ser elas próprias, apesar das suas circunstâncias precárias, aprendendo a enraizarem-se no solo da sua cultura e a saberem renunciar a certos bens económicos e a certos atrativos de sucesso, que implicam sempre pesados passivos para a humanidade.

Este esforço é tanto mais útil já que, mesmo alguns marxistas parecem esquecer que, fazer história não é a mesma coisa que escrever história. Assim, há nuances a esclarecer entre as diferentes conceções possíveis do materialismo: a do homem como ator da história, a do homem como autor da sua própria história e a do homem como fazedor da história.

Para nós, isto é uma forma de dizer que não são tanto as condições de existência do homem que determinam o seu papel na história, mas sim a sua compreensão dos diferentes papéis que pode desempenhar na história e os sacrifícios que está disposto a fazer para assumir plena e autenticamente as exigências de cada um desses papéis.

 Pois é evidente que cada um destes papéis exige dele posturas mentais e talentos diferentes, consoante a sua lucidez, a sua inteligência, por assim dizer, a sua consciência. A maioria dos marxistas, no entanto, parece ter um horror sagrado a este conceito, que para eles é sinónimo de alienação religiosa. De facto, muitos dialéticos materialistas tendem a esquecer que a ação humana não se põe em marcha sob o pretexto de que as condições históricas estão reunidas. Pois essas condições podem estar historicamente reunidas, mas os homens podem não saber como interpretá-las, nem como explorá-las para as necessidades da viabilidade humana da história. Consequentemente, a ação humana, como veremos, é o trabalho de pessoas que estão até ao pescoço no marasmo da sua existência, plenamente conscientes das suas condições de existência precárias e desumanizadoras, plenamente conscientes das suas responsabilidades no contexto do momento histórico em que se encontram, genuinamente decididas a mudar estas condições falhadas, e sistematicamente equipadas com os meios e ferramentas para levar a cabo esta mudança (Ludwig Von Mises, Human Action, 1949). Se assim não for, a ação pode não passar de um fiasco, como a revolta dos comunistas de Paris (Karl Marx, Les luttes de classe en France (1848-1850), 1850), dando à história motivos para se repetir, passando constantemente da tragédia à comédia, até se impor como a invariância e o eterno recomeço da mesma tragicomédia para a humanidade.

Metamorfoses indigentes

O erro foi acreditar que basta que as pessoas existam em determinadas condições precárias e desumanizantes para que tenham consciência de classe e se improvisem como atores da história, proclamando-se revolucionários.

Esquecemo-nos de que a consciência, como produto da existência, se constrói em relação à existência, e que essa relação conduz a movimentos flutuantes de ida e volta que podem ser inteligentes e estruturantes ou alienantes e desvinculadores; de modo que a realidade nunca é a mesma para um observador, dependendo do ângulo através do qual a sua consciência interpreta a existência. Da existência à consciência, portanto, há estados mentais que os dialéticos não se deram ao trabalho de inventariar para os integrar no seu arsenal de luta contra a desumanização da existência. E, perniciosamente, é destes estados mentais que o neoliberalismo se apropriou subtilmente, tão bem que conseguiu colocar o homem contra o homem num processo paradoxal de desempenho fracassado.

Inicialmente, através de condicionamentos psicológicos e culturais adequados, inculcou nas pessoas o culto do ter (propriedade privada), obrigando-as a submeterem-se às autoridades detentoras dos recursos e a renunciarem à dignidade para garantir a empregabilidade que dá acesso ao poder de compra. Há um paradoxo neste processo, uma vez que o desempenho do acesso aos recursos (o ter) obriga naturalmente o indivíduo a renunciar à sua inteligência e a permitir a erosão da sua dignidade. Como disse muito bem Noam Chomsky:

“Há dois conjuntos de princípios. Os princípios do poder e do privilégio e os princípios da verdade e da justiça. Se perseguirmos o poder e os privilégios, isso far-se-á sempre à custa da verdade e da justiça”.

Algumas pessoas acreditam que podem enganar o sistema aceitando o que este lhes dá e afirmando que são agentes de mudança do sistema. O erro é que subestimaram o facto de a consciência se adaptar ao que reforça a sua inércia.

Em segundo lugar, conscientes da metamorfose que o ser humano sofre, através da erosão da sua dignidade, quando é enobrecido pela riqueza e pelos bens, os estrategas do neoliberalismo aproveitaram a evolução tecnológica para desmaterializar as estruturas de alienação, embelezando as suas formas bárbaras de ação, transformando-as em artefactos de direitos e de liberdade: o direito às cópulas intersexo (enquanto se aguarda a sua generalização entre espécies), o direito à gestação de substituição (enquanto se aguarda a sua metamorfose universal em gestação de substituição por outra espécie), o direito à mudança de sexo (enquanto se aguarda o direito à mutação para outra espécie).

Assim, no entrelaçamento temporal desta dupla metamorfose, nasceu um gosto pelo gozo, pelo luxo e pela devassidão que distanciou as pessoas de esquerda do território da consciência, impedindo-as de o verem como uma questão-chave na luta e um espaço mental de resistência contra a indigência que se digitalizou e virtualizou, tomando as trajetórias do imaterial (Jean Clam, CNRS, 2016) para melhor desumanizar a vida.

Esta é a acusação insolente e a dissidência que aqui quisemos trazer, neste tempo apocalíptico e carregado de energia nuclear que despoja cada vez mais os homens da sua humanidade, impelindo-os para os territórios deste fracasso humano através da espiral da mais pura indigência.

Com este libelo herético – para além da fúria apocalíptica deste outono de 2024, que amplifica todos os medos, enquanto esperamos que a humanidade caia no abismo da miséria -, estou aqui para deixar ecoar em ecossistemas tépidos algumas conversas autênticas e intranquilas (num cenário de tecnologias de inteligência e previsão ética para a tomada de decisões através de aprendizagens neuro-turbulentas e sensoriais), e para me libertar um pouco mais das amarras que atrofiam a vivência sensorial e a sublimação da existência, através da plena consciência de si.

Até breve para o resto – a Parte II.

Fonte aqui.


9 pensamentos sobre “Da impunidade dos crimes do Ocidente à impotência coletiva dos povos – Parte I

  1. Sou uma mulher, que quer estar viva, apesar do esforço que o Ocidente (EUA) se tem empenhado tanto em transformar-nos em coisas!
    Gostei muito do seu artigo , porque ele levanta questões muito oportunas. Tenho 72 anos, sou marxista e preciso que me ajudem a transportar o marxismo para a realidade atual.
    Vou ler o seu artigo várias vezes e espero ler novas reflexões brevemente. Bem haja. Saúde

  2. A primeira e mais forte impressão é que o texto, ainda que se diga virado para o pragmatismo, é essencialmente teórico e idealista. De facto, o capitalismo sempre foi e é insuportável. Tal não é novidade nenhuma.
    Sublinho que o modelo social foi um activo exclusivo da Europa e não existe em mais nenhuma zona do mundo.
    É verdade que a Humanidade nunca foi tão impotente e afastada da revolução, mas o autor imputa esse problema principalmente à falta da consciência. Para o caso pouco importam as dicotomias sobre a consciência que o autor insiste em esgrimir, sendo embora bem apropriado o apport de conceitos como invariância, impotência e errância, passem os neologismos.
    O autor chega a perguntar onde estará o erro, ou seja, onde estará a consciência de classe ou até a provável revolução (sic).
    Sendo verdade que o capitalismo se tornou um sistema de desumanização e apropriação (que sempre foi), o facto é que escapa ao autor a caracteristica essencial de hoje, que é a de se ter tornado um sistema global, hegemónico que aspira ao controle total de tudo e todos, tudo submetendo à sua lógica e às suas agendas de açambarcamento, apropriação e desapossamento.
    O autor propõe uma reapropriação da consciência, só que isso está infinitamente longe de ser suficiente, mesmo tendo em conta que o autor desconsidere que a consciência possa ser a emergência da compreensão da realidade (?):
    Ainda que o autor recorra a uma hipotética insurreição das consciências para as pessoas aprenderem a ser elas próprias, tudo isso surge como pouco produtivo, uma vez que em nenhum momento são equacionadas ou sequer aludidas as inúmeras iniciativas das elites oligárquicas, quer materiais quer ideológicas, que asseguram a irreversibilidade dos caminhos tendentes à consecução dos objectivos citados acima de construir a hegemonia e o controle globais. Falo evidentemente da míriade de mecanismos, legislações, regulamentos, pactos, tratados, convenções, alianças, patentes, instituições, think tanks, organizações, clubes, institutos, fundações, dívidas, etc a trabalhar ininterruptamente para fazer passar as ideias que interessam e censurar as que não interessam, para capturar as mentes e as academidas, os parlamentos e instâncias judiciais, governamentais, comerciais ou quaisquer outras que mantenham a funcionar o gigantesco aspirador que conduz a riqueza desde a base ao topo da pirâmide. A ignorância ou a manutenção desse parãmetro fora da equação, só pode conduzir a conclusões demasiado parcelares ou até equivocadas.
    Acresce que a crítica a certas permissas marxistas sobre a inadequação das concepções sobre o capitalismo, passa igualmente ao lado do facto de o capitalismo se ter vindo a transformar e evoluir a uma velocidade vertiginosa. O antigo capitalismo da produção, à volta do qual Marx teceu as suas considerações e categorias, passou hoje para um papel claramente subalterno, sendo o seu contributo para a economia global quase irrelevante em comparação com os outros capitalismos, como o rentista, o da economia de casino, o extractivo e sobretudo o da financeirização, o qual é responsável por mais de 90% da riqueza global, ainda que parte substancial desta apenas exista nos ecrans dos computadores, mas é ela que comanda.

  3. Claro que Churchill aqueceu as costas ao Salazar. O artífice da grande fome de Bengala era tão amigo da democracia como eu sou do sionismo.
    A democracia foi só uma fachada para mostrar mos que éramos melhores que as “ditaduras do proletariado” mas claro que ela podia ser limitada a meia dúzia de países.
    E claro que os latinos não entravam no rol dessa gente que merecia ter democracia. Como não tínhamos muitos recursos, se a sociedade fosse muito desigual claro que muita gente passava larica.
    Como as democracias não queriam combater a desigualdade pornográfica que por cá havia até porque lhes dava jeito a mão de obra barata e, no caso português, a venda a preço de banana dos recursos das colónias, éramos considerados uns malandros demasiado dados a tornar nos comunistas.
    Pelo que precisávamos de ditadura.
    No quintal do Tio Sam seguiu se o mesmo caminho pelo que havia ditadura fascista em todo o lado.
    E também em sociedades asiáticas como a Indonésia, o Irão, a Malásia, a Tailandia e por aí fora.
    Lembro me da minha avó contar que a oposição ao regime, que não era só comunista, teve esperança que no fim da guerra as tais potências democratas acabassem com as ditaduras ibéricas.
    Para ver com horror as polícias secretas inglesas e francesas substituírem a Gestapo como instrutores e Portugal entrar na NATO.
    Em Espanha era pior ainda mas só não entraram logo na NATO por causa da questão de Gibraltar.
    A não ser assim, uma ditadura de crueldade extrema, onde se podia ser morto em plena rua pela Guardia Civil por crimes como não cumprimentar o padre teria sido aceite como defensora do mundo livre.
    Os nórdicos foram usados como prova de que podíamos ser prosperos sob o capitalismo mesmo com um clima assassino.
    Mas assim que o muro caiu os direitos do povao foram também caindo e pouco resta desses estados sociais.
    Como os nordicos teem tanto direito a ser burros como qualquer um de nós também a extrema direita por lá tem crescido.
    E, cereja no topo do bolo, a Noruega participou activamente na destruição da Libia, um noruegues foi até a pouco tempo um dos que mais deu a cara pelo apoio sem lei ao nazismo ucraniano e Suecia e Finlandia estao na NATO.
    No nosso caso concreto, no tempo em que os meus pais foram emigrantes na Alemanha toda a tugalhada sabia que no primeiro ano de contrato 10 por cento do salário ia para as unhas do regime português.
    Era o contrato que havia entre um estado que se dizia democrático e uma ditadura que por essa altura andava a cometer crimes de guerra em África.
    Os desgraçados aceitavam porque conseguir ir para a Alemanha era uma sorte danada ao tempo dado a miséria que por cá havia.
    Ate um polícia do Norte do país trocou a farda por um trabalho fabril na Alemanha. Tinha seis filhos e nunca os poderia sustentar com a miséria do ordenado de polícia por muita pequena corrupção que pudesse angariar. Para a malta portuguesa ficou para sempre conhecido pelo “Manuel polícia”.
    A minha mãe entrava cedo ao trabalho e não se apercebeu do que se estava a passar nessa fria madrugada de 25 de Abril de 1974.
    O mestra da fábrica passou o dia a chegar lhe os cornos com a conversa de que nesse Verão já não iria a Portugal pois que agora iriam para lá os comunistas.
    Sim, era isso que pensavam nessa Europa de prosperidade e democracia. Que a ditadura era boa e nos punha a salvo do comunismo e que com o seu fim era o Inferno na terra que nos esperava. A pontos de que quem estava emigrado não poder cá voltar.
    Por isso esta gente era tão amiga da democracia como eu sou do sionismo.
    E por isso ela tem sido mandada às malvas podendo um desgraçado ir preso por antissemitismo se criticar Israel em muitos países europeus e na Alemanha há porcos a pedir a expulsão dos imigrantes que se manifestem contra o genocídio israelita porque sao antissemitas.
    Em França usar um Keffieh pode dar direito a multa e na Alemanha isso ou uma bandeira palestiniana dao direito a uma caldeirada da polícia. E as manifestações sao dispersas a bastonada.
    Com a queda do muro de Berlim foram também caindo as máscaras dessa canalha vil toda.
    Isto e tudo uma cambada e, com o tempo para a maior parte da população e o marmeleiro e para a elite e a marmelada.
    A censura voltou e fomos pressionados de toda a maneira e feitio para participar mos numa experiência científica que correu mal a muita gente.
    Por isso vao os muito democratas que por cá temos ver se o mar da megalodonte.

  4. Mas quem e que ainda duvida que a democracia e os estados de bem estar só surgiram porque era preciso mostrar que o nosso sistema podia dar prosperidade aos povos, levando a malta a não pensar nessa heresia chamada comunismo?
    Alguém acreditou que de um dia para o outro sociedades como a inglesa ou a francesa, que achavam os membros do povo intrinsecamente inferiores e mais próximos dos animais que dos humanos iam aceitar que se não éramos todos iguais tínhamos pelo o direito a viver com dignidade?
    E mesmo assim esse direito a viver com dignidade não foi estendido a todos os habitantes do mundo livre.
    Estados Unidos e potencias europeias toleraram em plena Europa até aos anos 70 duas ditaduras sangrentas, a portuguesa e a espanhola, bem como o regime dos coronéis na Grecia.
    Boa parte da América Latina tinha ditaduras brutais, o Irão levou com um doente mental até 1979 e a
    Indonésia sofreu as passas do Inferno com
    Suharto.

    • Há excepções, principalmente nos países nórdicos com o Modelo Nórdico de Social Democracia e Sistema de Ghent, mas sim, no geral, a classe capitalista e a sua burguesia amestrada na Europa continental são pouco melhores que os Nazis e outros genocidas como os Nazi-Sionistas ou os imperialistas Anglo-Americanos.

      O pouco de bem-estar que se construiu foi apenas temporário para convencer o povo de que estava melhor sob a “democracia” da burguesia/oligarquia do que na “ditadura” do proletariado.
      Assim que o muro caiu, começou o processo de erosão no Ocidente, o acelerar do cada vez mais agressivo e opressivo NeoLiberalismo, as privatizações, a submissão e destruição da soberania de Estados inteiros, a o fim ou diminuição de tantos direitos laborais que tanto custaram a conquistar, e a ditadura de facto: a UE e o seu €. Ordens dadas por não eleitos, cujo “trabalho” é somente responder às necessidades do grande capital sem pátria, ou com pátria Anglo-americana…

      No texto fala-se do Haiti, e isso liga perfeitamente com o que disseste. O Haiti esteve até recentemente a pagar uma “dívida” à França, ao facho-capitalismo Francês, imperialista genocida, pelo “crime” de se terem libertado da escravatura e da colonização, o que fez com que os porcos em França (e não só) tivessem ficado com menos lucro do que o esperado.
      Esses eram a burguesia que antes estava no poder, e são a oligarquia que hoje manda também. Porque é que de repente se teriam transformado em gente boa? O lucro (e as heranças de cada uma das gerações desde então) deles nunca na vida foi garantido com respeito, honestidade, ou sequer direitos humanos. Foi garantido violando tudo isso!

      Na China, um regime bem diferente, para muitíssimo melhor, os que enriqueceram graças à organização do povo e do partido que os representa, são hoje milionários ou milionários, mas não são porcos capitalistas como no Ocidente. Na China, é normal um bilionário debater, tal como um cidadão comum, sobre o nível de equilíbrio entre a actual dose de Capitalismo e de Socialismo. Debatem sobre o Presente sem nunca esquecer a história, e sempre de olhos postos no futuro. Um futuro que só vale a pena se for para todos.

      Nessa mesma China, é comum em debates económicos ouvir bilionários convidados a dizerem que se em certo momento foi preciso mais Socialismo e Proteccionismo, noutro momento foi útil mais Capitalismo e comércio, e há poucos meses ouvi um a dizer que está novamente no momento de aplicar mais Socialismo de forma a distribuir melhor a riqueza, de modo a não cometer os erros do Ocidente on alguns porcos acumularam tudo e criaram o actual cenário de desigualdade pornográfica, onde nos mesmos países em que alguns vão de jacto privado jantar a Paris partindo de Los Angeles, outros moram em tendas debaixo da ponte e têm de ir para filas pedir comida.

      Os mesmos desenhadores, arquitectos, engenheiros, e polícias do actual regime opressivo e genocida do Ocidente colectivo, são os herdeiros dos donos de escravos, dos colonizadores de África e das Américas, da “nobreza” que lucrou com as Monarquias absolutistas, da burguesia que lucrou com as ditaduras fascistas. São hoje a oligarquia da ditadura NeoLiberal. E têm ora capatazes bem pagos, ora seguidores idiotas, em muitas casas ocidentais onde entra diariamente a sua propaganda, através dos MainStreamMedia de que são donos, 24 horas por dia a debitar mentiras e propaganda para manipular quem ainda se ilude com o voto num sistema que de facto NÃO é representativo, ou melhor, só representa alguns, entre 1% a 10% da população de cada país ocidental.

      Para hoje não escrever, vou já comprometer-me em acabar por aqui, subscrevendo o teu comentário, e fazendo só um pequeno comentário adicional a esta tua frase certeira:

      «Estados Unidos e potencias europeias toleraram em plena Europa até aos anos 70 duas ditaduras sangrentas, a portuguesa e a espanhola, bem como o regime dos coronéis na Grecia.»

      — o comentário que quero acrescentar é o que ouvi dizer, e concordo, num documentário Francês. Foi recentemente, pelo que fiquei admirado. Se calhar, escapou ao crivo da actual máquina de censura do pensamento único. Parafraseando, o locutor Francês dizia que o ditadora fascista assassino Oliveira Salazar, garantiu um seguro de vida para si e para o seu nojento regime (opressor dos Portugueses e ainda mais dos povos invadidos em África) ao negociar com Winston Churchill (e não só), a adesão de Portugal logo como co-fundador, da NATO.

      Sim, foi a NATO quem garantiu que Portugal se tenha tornado na mais longa ditadura fascista da Europa. Podia ter caído mais cedo, podia ter tido uma intervenção Anglo-americana como bem sabemos que aconteceu com outros. Mas não. Manteve-se para além de 1945 e até 1974, graças à adesão à NATO em 1949.
      Nem sequer uma brutal guerra de agressão injustificada e não provocada, contra os democratas e independentistas em África, que nada mais faziam do que lutar pelo seu Direito Humano à Auto-determinação, nem sequer esta brutal e sanguinária guerra levou a que Portugal fosse expulso da NATO ou a que os porcos imperialistas fascistas Anglo-americanos olhassem sequer de lado para Salazar e companhia.

      Pelo contrário, hoje conhecem-se os documentos desclassificados da CIA e MI6, em que a sua única preocupação era com o facto de os revolucionários de 25-Abril-1974 poderem vir a tirar Portugal da órbita do império genocida ocidental. Para garantir que muito mudava sem nada realmente mudar, fez-se o 25-Novembro, pressionou-se Soares, financiou-se laranjas e azuis, e pôs-se o FMI a mandar logo desde bem cedo. E na NATO nunca se tocou. Portugal, mesmo com uma revolução exemplar e popular, nem mesmo assim teve o direito sequer de se tornar decente ao nível dos então neutrais Suíça, Irlanda, Áustria, Suécia, e Finlândia, entre outros.

      E no eixo económico, depois do pouco que se fez em termos de Social-Democratização, desde os anos 90 que tudo tem sido revertido e destruído. Para isso, foi usada a “NATO económica” chamada UE, e a “NATO monetária” chamada €uro, duas ditaduras de facto, que fazem de Portugal uma República das bananas, mais um colonato do que um “protectorado”, e um estado sem qualquer futuro.

      Mas, se perguntares às “elites” de Lisboa e Porto, cujas casas de família foram pagas pela escravatura, pelo roubo colonial, e pela exploração dos porcos capitalistas no tempo do fascismo, nada os preocupa. Desde que os donos do regime comam as suas fatias do bolo, e os seus capatazes avençados e seguidores acéfalos comam migalhas suficientes, os restantes 90% dos Portugueses podem muito bem voltar a passar fome.

      • Mas eu hoje vim aqui por outro motivo: pedir à Estátua de Sal que publique uma notícia que de certeza será censurada pelas presstitutas nazi-fascistas-sionistas genocidas da máquina de propaganda do império ocidental. A fonte na qual vi primeiro é o Rybar, um excelente OSINT Russo. Segue o copy & paste:

        «Today, as a result of a car explosion in Enerhodar, one of the employees of the Zaporizhzhia Nuclear Power Plant was killed. The regional authorities reported that the incident was an act of terrorism organized by the special services of the so-called Ukraine.

        The car was blown up using a homemade explosive device planted under the body. The deceased, Andrey Korotkiy, was the head of the pass service at the ZNPP and previously served on the city council. He died from his injuries in the hospital. The Investigative Committee of the Zaporizhzhia Region has opened a criminal case on the “murder committed in a generally dangerous manner” in connection with the killing.

        ❗️The murder of an employee responsible for the security of the nuclear power plant is part of the Kyiv authorities’ strategy to damage the energy infrastructure in the liberated parts of the Zaporizhzhia Region.

        For several months now, Enerhodar and its surroundings have been subjected to regular shelling and drone attacks, targeting energy and water supply facilities. The death of one of the key employees of the ZNPP further exacerbates the problem of ensuring the safety of the plant and its workers.»

        Link: https://t.me/rybar_in_english/18201

        O regime vassalo/corrupto de Portugal (que alberga tudo desde a metade traidora do BE até ao Chega, passando por tudo pelo meio, e onde as excepções decentes são o PCP, a metade honesta do BE, e muitos independentes), está a obedecer a um império genocida nazi-sionista, e a financiar operações TERRORISTAS (!) contra CIVIS que trabalham na área da segurança em centrais nucleares fora do ocidente.

        Onde andam os Capitães quando mais precisamos deles? Os da outra geração fizeram mais do que a sua obrigação, mas será que na geração actual não se aproveita um? Está tudo de cérebro lavado pelos “treinos” junto de instrutores Anglo-americanos nas bases da organização fascista-terrorista chamada NATO?! Se sim, então está tudo perdido!! Fomos definitiva e irremediavelmente colonizados. Um dia destes tiram o verde da bandeira, e substituem-no por azul, ou quiçá deixam de usar a própria bandeira, e usam só as 3 bandeiras dos donos: EUA, UE, NATO.

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