(Por Mikhail Gamandiy-Egorov, in Reseau International, 27/09/2024, Trad. Estátua de Sal)

Os mitos há muito propagados pela minoria global ocidental pertencem definitivamente ao passado. Permitindo ao mesmo tempo dissipar irrevogavelmente todas as ilusões que ainda existem entre alguns.
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Liberdade de expressão e informação, valores democráticos, direitos humanos – estes são apenas alguns exemplos das teses que o Ocidente tem vindo a defender há décadas – propagando o mito de que os “respeita” plenamente. Se há muito que se tornou óbvio que tudo isto foi apenas um golpe publicitário barato, é hoje particularmente claro que a minoria planetária ocidental não só não prossegue em absoluto as teses citadas acima – mas mais do que isso –, nega o direito à existência de qualquer opinião que não coincida com os interesses do espaço miserável chamado Ocidente.
Ausência total de liberdade de expressão no Ocidente
O que aconteceu há poucos dias em Nova Iorque confirmou plenamente que a única motivação da minoria ocidental é tentar com todas as suas forças trazer o mundo de volta aos seus ditames. Nomeadamente, a proibição de entrada imposta pelo regime norte-americano ao CEO do canal de televisão pan-africano Afrique Média, Justin Tagouh, no âmbito da cobertura mediática da 79ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas – e isto apesar de ele ter apresentado todos os documentos necessários, e o seu meio de comunicação estar credenciado pela ONU.
Motivo da recusa? “Teses pró-russas e antiocidentais do canal de televisão”. Ou seja, um grande meio de comunicação de âmbito continental e internacional, na opinião do regime norte-americano – não tem direito a ter uma linha editorial própria – baseada em valores pan-africanos e isto desde o primeiro momento da criação do canal de televisão em 2011. A propósito – bem antes do grande regresso da Rússia à África.
Esta não é a primeira tentativa dos regimes ocidentais pressionarem, provavelmente o principal meio de comunicação africano orientado para os valores pan-africanos e do mundo multipolar. Houve, noutras ocasiões, múltiplas e reiteradas tentativas, mesmo por parte do regime francês, de fechar este canal através de numerosas pressões exercidas sobre as autoridades dos Camarões, onde está localizada uma das sedes do canal. O essencial é que a Afrique Média não só resistiu a todos esses ataques e pressões colossais, mas também ganhou grande autoridade entre os habitantes dos países africanos, bem como junto da diáspora africana.
A necessidade de alargar a proibição da propaganda ocidental
Esta situação provou, mais uma vez claramente, que nos Estados Unidos e no pequeno mundo ocidental em geral, não só existe uma total ausência de liberdade de expressão e de todos os ditos “valores”, apresentados pelos regimes minoritários planetários e pela sua propaganda arregimentada, como também não há espaço para uma opinião alternativa, mas mais do que isso – o Ocidente, plenamente consciente do fim da era da sua ditadura e do seu domínio sobre a Humanidade, está cada vez mais a mostrar a sua única e verdadeira face. A face das mentiras, da ditadura, da mentalidade abertamente neocolonial e do racismo contra a maioria global.
E isso confirma, mais uma vez, várias orientações extremamente importantes. Primeiro, que é necessário responder à minoria ocidental utilizando os seus próprios métodos, de preferência ainda mais radicais. Por cada golpe recebido – devem ser dados cinco, ou melhor ainda – dez golpes de retaliação. Saber que a minoria planetária ocidental só entende a noção de força. Isto obviamente também se aplica à contínua expulsão da propaganda ocidental dos territórios da maioria global. Em última análise – porquê praticar a democracia e a liberdade de expressão com aqueles que tentam erradicar estes conceitos nas suas reações com todos os que pensam de forma diferente? Ainda mais, quando a propaganda ocidental apoia mais abertamente métodos terroristas em diferentes partes do mundo.
A este respeito, vários países do Sul Global, particularmente em África e particularmente os da Aliança-Confederação dos Estados do Sahel (AES) – deram um bom exemplo. Ao introduzirem restrições contra muitos instrumentos de propaganda ocidental. É claro que este processo deve estender-se ativamente a todas as regiões do mundo – representando, em conjunto, a maioria global.
E, falando claro, dos interesses da maioria global, é apropriado recordar mais uma vez a necessidade de lançar uma verdadeira coligação mediática internacional da maioria global. Já existem os primeiros contornos dessa interação no âmbito dos BRICS, mas é mais necessário do que nunca expandi-los em aliança com as nações do Sul Global e direcionar esta iniciativa numa direção ainda mais prática.
Quanto às enésimas violações por parte dos regimes ocidentais, inclusive quando dizem respeito à ONU – formalmente um território internacional – também aí, é claro e é óbvio, que as sedes das “estruturas internacionais” não devem estar localizadas nos países da minoria planetária. E se se tornar impossível, num futuro próximo, transferir aquelas instituições para os Estados da maioria global – será necessário reforçar ainda mais a coordenação das principais organizações da ordem mundial multipolar, representadas pelos BRICS, a SCO e outras organizações regionais, estruturas continentais e internacionais – como sendo as únicas alternativas aceitáveis àquelas em que o lobby da minoria global ocidental continua a manter-se a um nível inaceitável.
Fonte aqui.
Aproveito para publicitar o livro do jurista brasileiro Rubens Casara “A Construção do Idiota: o processo de idiossubjetivação”.
A liberdade de expressão, para começo de conversa, supõe liberdade de informação, ora como a informação de que que a grande maioria dos cidadãos dispõe é veiculada pelas fontes de informação e de comunicação que por sua vez se encontram, de há muito, nas mãos de oligopólios mediáticos, é fácil perceber que se encontra seriamente comprometida e o jogo profundamente viciado.
Claro que o sistema não quer que esta verdade tão simples e compreensível seja percebida, por isso abre umas folgas, vai dando uma no cravo e outra na ferradura para parecer pluralista, pois então!
Têm tudo muito bem lubrificado para enganar os papalvos – que somos a maioria – pois já percebeu que nem é preciso polícia, basta criar um processo eficiente de idiossubjetivação, isto é, de ‘criação de sujeitos idiotas’ que não percebem que estão a apoiar e a defender aqueles que falam frequentemente em seu nome, mas que estão ao serviço de interesses diametralmente opostos aos seus.
Para já este cenário é mais chocante no chamado mundo ocidental que se diz a favor da liberdade e direitos, mas que afinal quer essa liberdade e esses direitos só para alguns, esquecendo piedosamente que não há liberdade sem igualdade, não meramente formal, mas de facto, e que a vasta maioria das pessoas vive numa situação de profunda desigualdade em relaçao às minorias privilegiadas, isto é, que gozam de ‘lei privada’- só para elas; é o que a palavra ‘privilégio’ significa.
O Ocidente – o autodesignado mundo livre – começa até a perder a vergonha porque começa a perceber que tarde ou cedo – esperemos mais cedo do que tarde – perderá a sua posição hegemónica, colonialista e predadora e então como que ‘cai do salto alto’, perde a pose e mostra aquilo que tem procurado esconder.
Mas, desculpem-se a insistência que pode ser percebida como cansativa, será bom não esperarmos, sem mais, que esta perda de hegemonia vá significar que os vícios do sistema não possam emigrar para outras latitudes. Precisamos é de procurar encontrar alternativas que inviabilizem o sistema em qualquer latitude, de outro modo ele vai perdurar, mudando apenas as ‘moscas’ que o parasitam.