Expirou o seguro de vida da “destruição mútuamente assegurada”!

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 31/08/2024)

Zelensky mandou bombardear a central nuclear Energodar NPP de Zaporozhye e ameaçar a central de Kursk, pois a sua saúde – literal – depende de arrastar a Rússia para um conflito duradouro e em larga escala.


(Ontem publiquei um texto, “O abc da geopolítica atual explicado às crianças”, (ver aqui), hoje seguem as letras restantes do abcedário neste magnífico artigo do Hugo Dionísio. Depois da sua leitura, só quem não quiser ver é que não saberá identificar de onde partem todos os males e perigos, que ameaçam atualmente a situação geopolítica mundial e – diria mesmo – a sobrevivência da espécie humana sobre a Terra. E, nesse cenário – cuja ocorrência é cada vez mais provável – não interessa de que lado se está, porque não haverá salvação para ninguém.

Sim, talvez cá fiquem as formigas para contar a história.

Parabéns ao autor.

(Estátua de Sal, 02/09/2024)


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À medida que assistimos ao agravamento das tensões geopolíticas, em especial, nos locais mais ricos em recursos naturais, resultando na ruptura dos canais diplomáticos e na crescente radicalização – pelo menos discursiva – dos oponentes, assistimos, por sua vez, a uma clarificação das posições estratégicas respectivas e da sua direcção.

Todos os mecanismos que antes pensávamos garantirem a segurança internacional, estão historicamente expirados. A profunda crise da hegemonia anglo-americana decretou a sua obsolescência. Nenhuma paz sobrevive a uma crise profunda de um qualquer sistema, muito menos de um que vive da exclusividade e da prioridade na pilhagem e exploração dos recursos.

Por muito que se produzam relatórios fantásticos sobre o quão competitiva é a economia estado-unidense, o quão estável e consistente é o dólar e o quão resiliente é a economia sedeada em Wall Street, o facto é que esse relato está longe de encontrar correspondência, onde mais importa: na vida das pessoas, dos trabalhadores, das suas famílias, ou seja, da imensa maioria que tarda em beneficiar de tão monstruosas injecções de democracia. O processo iniciado com a Guerra ao Terror de Bush, continuado por Obama, encontrou epílogo na situação actual. O termo genérico “terrorismo”, cujo combate visava já a contenção de uns e apropriação de outros, evoluiu novamente para um “eixo do mal” concreto. O tempo acabou por nos contar sobre quem os EUA escondiam atrás de tanto “terrorismo”.

A cortina terrorista, ao cair, desvendou os reais objectivos do seu levantamento e a sua ampla e multifacetada natureza instrumental. Hoje, sabemos bem como o termo terrorista condena, sobretudo, os inimigos dos EUA e da sua deriva hegemónica. Os EUA perdem influência económica (e produtiva) de forma continuada, e com ela, esvai-se também o poder político, ainda imenso e alicerçado num exército formal e informal de agentes – cobertos e descobertos – e “influencers” que movem a sua imensa máquina de formatação. À maior máquina organizacional da história começa a faltar a que é a base de sustentação de qualquer existência política: a base económica produtiva real.

No fundo, a base económica sob domínio norte americano já não corresponde ao poder político inversamente desproporcionado que nela se sustenta. A pirâmide está invertida e nem todo o endividamento do mundo a sustentará. A incapacidade crescente, por parte do aparato político, em impedir a corrosão da sua posição relativa, obriga os EUA a um sobrevivente esforço de mitigação, contenção e reversão do seu perecimento e, por último, da falência de toda uma base económica amplamente deficitária, à qual se seguirá, necessariamente, a falência política. E aqui radica a razão fundamental do agravamento das tensões a nível mundial. Em crise profunda, natural e paulatinamente, a base exploradora vai afastando os obstáculos civilizacionais que separam a ganância do seu objecto.

Uma forma de afastar esses obstáculos radica na sua capacidade subversiva. Nomeadamente em derrubar governos legítimos e neles instalar clientes e outros “entreguistas” que asseguram a traição dos seus povos em favor do benefício do império com sede em Wall-Street. O Bangladesh, Indonésia, Geórgia, Sérvia e Venezuela são apenas alguns dos locais, nos quais, não agradando os governantes às grandes corporações que financiam o poder político em Washington, estes se vêem acossados pelos exércitos de ONG, Think Thank, média mainstream e redes sociais da Califórnia.

Pavel Durov, co-líder do Telegram, havia abandonado a Rússia por considerar que as exigências de controlo de Vladimir Putin eram uma violação da liberdade de expressão. Agora, aprendeu à sua custa que, na França Macronista liberalfascista, não fornecer tais garantias dá prisão! Os direitos que se prendem para se libertar a expressão! E tudo em nome da “independência” da justiça.

Os indicadores da decadência são tão evidentes e profusos que mereceriam, por si só, uma reflexão aprofundada e até crítica. Mas digamos assim: mesmo nos seus próprios termos, segundo os seus conceitos e tendo em conta os seus dados, a realidade narrada não sorri aos EUA e à sua “liderança”. Nem nos seus próprios termos é possível aos EUA esconderem a sua falência progressiva. Os BRICS ultrapassaram o G7 em PIB e o volume de transacções económicas que escapam ao controlo de Washington cresce todos os dias, mesmo quando essas transacções são realizadas na sua própria moeda. Um exemplo bem evidente da contradição insanável que assola o sistema monetário e financeiro controlado pelos EUA, reside na utilização do dólar pelos próprios “inimigos” de Washington, para estabilizar as suas economias e garantirem a estabilidade das transacções e dos respectivos mecanismos.

A Venezuela de Maduro, outra vez a braços com mais um episódio do filme shakespeariano “Ganhar ou não ganhar eleições, eis a questão?”, dolarizou a economia, usando as reservas chinesas em dólares e o petróleo que tem em quantidade como nenhum outro país. A China, estando a fazer de Hong Kong um Hub de transacções em cripto moeda, usa o Tether – moeda virtual indexada ao valor do dólar – como mecanismo estabilizador do mercado cripto, garantindo a conversão de dinheiro fiduciário e sem flutuações constantes da Bitcoin, Ethereum ou Solana. O seu valor de capitalização já passou o da Bitcoin, por exemplo. A tão propalada “desdolarização”, afinal até poderá não passar, em parte, pelo menos, de uma “desocidentalização” do dólar e a consequente retirada dos dólares dos bancos controlados por Washington.

É com este pano de fundo que devemos observar a realidade e não no pano cor de rosa, que canta falências inimigas, desafios inultrapassáveis e obstáculos intransponíveis, com o que nos pintam, unanime e disciplinadamente, todos os dias, todos os órgãos “mainstream”. Só assim se percebem as manobras “desesperadas” e aparentemente suicidas que observamos um pouco por todo o lado. De contrário, tendo em conta o pano cor de rosa, acabamos a dizer que Netanyahu é louco, mas democrata, Zelensky é corrupto, mas corajoso, e que todos os outros são bandidos, apesar de muitos não serem corruptos, e ainda menos serem loucos.

Uma vez mais, a solução para a crise das crises, e o consequente extremar das posições, reside na ressuscitação do monstro nazi-fascista, mas, desta feita, dando-lhe uma roupagem mais abrangente e diversa. Trata-se, contudo, do mesmo monstro que, a cada crise do sistema capitalista, tal como nos anos 20 e 30, na Europa e EUA, após a primeira guerra mundial, surge para resolver à força o que os outros lhe negavam pacificamente: o acesso aos recursos naturais, leia-se, energia barata, matérias primas, alimento e mão de obra. A solução para todas as crises repete-se, uma vez mais. Uns usavam a salvação das almas, outros a salvação das pessoas.

Logo após a revolução russa de 1917, o bloco imperialista ocidental, em peso, tinha intenção de jogar a mão àquela reserva extraordinária de todas estas coisas. Perante a resistência encontrada, uma invasão organizada por 14 potências imperiais e uma guerra civil, cuja força contra-revolucionária era apoiada pelo ocidente imperial, não foram suficientes para fazer colapsar tal “diabólico” regime. Os povos Russos e Soviéticos não deixaram. Talvez uma espécie de síndroma de Estocolmo, que se viria, curiosamente, a verificar uma e outra vez, até aos nossos dias. Apesar de ainda hoje, segundo acusações dos mesmos, esse povo viver “acossado” por uma “sanguinária ditadura”.

Foi preciso preparar uma guerra e tal fez-se através da diabolização, estigmatização, fractura das relações e semeando o medo e o ódio entre as populações europeias mais incautas. Nada de novo, portanto. A desumanização, fermentada na crise económica, na concentração de riqueza e na indisponibilidade das elites em repartir, com o trabalho, o que antes a partir dele haviam acumulado, deu a Hitler (e todos os “Hitlers” escondidos) a justificação, de que necessitava, quando olhava para a URSS como a cura para os males que assolavam a Alemanha: petróleo e minério em abundância, terras férteis e mão de obra barata.

Não fosse, uma vez mais, a insistente capacidade de combate daquele povo e os EUA, a Inglaterra e o Japão tinham esfregado as mãos de contentes com os negócios vindouros. Uma vez mais, enganaram-se. Uma vez mais goraram-se as suas possibilidades. E, uma vez mais, lá teve a Federação Russa de passar por agressora. Vítima de uma invasão ocidental a cada 70 anos, a Rússia passa de invadida em invasora. Um acordo como Molotov-Ribbentrop, sendo tão só o último de todos os que foram celebrados entre a Alemanha nazi e um país europeu, transformaram a maior vítima da segunda guerra em sua co-autora. Uma vitória arrasadora e inesperada – pelo ocidente – sobre o seu recém-criado filho, o nazi-fascismo, transformaram a URSS numa espécie de 3.º Reich vermelho.

De qualquer forma e como programado pelas elites reaccionárias que dominam – e sempre dominaram – os EUA, devido ao jogo nos dois tabuleiros, mesmo que em momentos diferentes, a segunda guerra mundial deixou este país colossal numa posição extremamente invejável, tal como a primeira já havia deixado, resolvendo os danos provocados pelo crash de 1929 e transformando-o numa superpotência, a única. Só por isso, e apenas por isso mesmo, foi possível não assistirmos a uma guerra em larga escala, até hoje, na europa. Até que essa posição invejável tivesse sido destroçada ou ameaçada e até que se gorassem, definitivamente, as esperanças de domínio político da Rússia, China e Eurásia. Esgotado o triunfo obtido com a queda da URSS e vendo a União Europeia beneficiar da cooperação continental daí resultante, voltamos ao reinício de todo o processo desumanizador, uma vez mais da Rússia, mas, desta feita, também Irão e China são premiados. Afinal, até há bem pouco tempo prevalecia a esperança de domínio político da China e do Irão, que a cada nova estação conta com uma nova tentativa de “revolução colorida”, normalmente a partir dos Kurdos, que contam com o apoio de… Israel.

A perda da esperança no funcionamento do “soft power” e a urgência da situação, agravada pela recuperação económica russa, da centralidade chinesa e da regionalidade iraniana, fez expirar o “seguro de vida” planetário, que muitos acreditavam estar na doutrina do “mutual assured destruction” (destruição mutuamente garantida), herdada da guerra fria. A doutrina do “mutual assured destruction” só funcionou porque os EUA cedo constataram que conseguiriam suplantar a URSS e que ainda não seria dessa que o seu domínio hegemónico seria colocado em xeque. A adesão da URSS a tratados de não proliferação armamentista e à instituição de uma arquitectura de poder internacional que beneficiou Washington, deu esperança e consolidou certezas de vitória. O vencedor poderia dar-se ao luxo de ser magnânimo.

Os EUA apenas temiam a URSS do ponto de vista militar, mas sabiam que o militar não subsiste sem o poder político, que este depende da economia e que, essa capacidade económica relativa, era insuficiente para garantir uma vitória da URSS. Por outro lado, mesmo que tal não faltasse, as economias estavam separadas de facto, segregadas e o pano de fundo em que os EUA actuavam não era um pano negro de crise, mas um pano arco-íris de expansão. Foi esse pano de fundo, esse pano arco-íris, abrangente, abraçado pelo “uniparty” (partido único) que reúne democratas e republicanos, que conteve os mais ferozes falcões. O seu domínio económico, a sua estratégia de acumulação, não estavam ameaçadas de morte. O “soft power” foi, então, suficiente. Enquanto a URSS manteve pujança, o mundo assistiu a grandes crises como a dos mísseis de Cuba. Já no final, os EUA deram-se ao luxo de estabelecer o consenso de Washington e iniciar a era neoliberal.

Hoje a realidade é bem diferente. Sabendo que a China não é ainda o adversário militar que a URSS foi, os EUA sabem, contudo, que esta tem a economia de que necessita para o ser. E sabem que, apesar de toda a propaganda catastrofista, esta é sustentável, estável e duradoura. A ameaça ao seu domínio é simplesmente formidável. Acresce que, para o ser, a China conta com os 75 milhões de milhões de dólares de reservas naturais classificadas da Rússia. As maiores do mundo, e por muito. China, Rússia, Irão e Venezuela têm mais, muito mais, do que EUA, Canadá e Austrália. A UE não conta para esta estatística. Por outro lado, não tendo o potencial económico da China, a Rússia é um adversário militar formidável, com um capital político crescente, passível de ser alimentado – como se vê no caso dos milhares de sanções contra Moscovo – pela economia Chinesa. A economia Chinesa, está para a Rússia, como os seus recursos naturais e capacidade militar estão para a China. Complementam-se mutuamente, até ao ponto da simbiose, se necessário for.

Dominar o mundo, o sistema produtivo e respectivas cadeias de abastecimento, uma vez mais, exige energia barata; o fim do fóssil que fez parte de uma estratégia de contenção da China não funcionou, pois esta não mordeu o isco e nunca deixou de garantir o domínio de recursos dentro e fora de portas. A hegemonia requer mão-de-obra barata, que a China também tem em quantidade. E requer alimento, muito alimento. Que a Rússia também tem e muito. Para reconquistar a sua hegemonia, os EUA necessitam da Rússia e do Irão, pelo menos. Mais do que nunca. A qualquer custo. Sob pena de derrota! A pressão a que assistimos hoje exercer-se sobre Lula da Silva, nomeadamente na sua traição a Nicolas Maduro, que esteve sempre com ele, mesmo quando as hordas da extrema-direita colocaram em causa a sua vitória eleitoral, demonstra a importância que o Brasil tem para os EUA. O Brasil pode muito bem ser para o Washington o que o Egipto era para Roma, uma fonte interminável de alimento, a qual, associada ao circo – e nos EUA o circo dura 365 dias por ano -, garante o apaziguamento das massas.

Mas é por isto tudo estar em causa, que a doutrina do “mutual assured destruction” deixou de nos parecer tão segura. O medo, o pânico, o simples vislumbre da possibilidade de derrota e perda do que designam de “liderança” mundial, equivalente a “domínio político abrangente”, torna ferozes, obstinados e obsessivos os falcões do capitalismo globalista, hegemónico, superfederativo. Habituados a mandar, ameaçar, dissuadir, punir, subverter, invadir e aniquilar nações inteiras, baseados em mentiras, e a perpetrá-lo de forma impune, não será a possibilidade da morte em massa que os detém. O que os detém é a garantia de vitória, uma vitória total, inquestionável, eterna e esclarecedora, como a que procuraram e conseguiram com o genocídio de Hiroshima e Nagasaki. Perante a possibilidade da derrota, nada os irá deter.

Os EUA, tal como o Império Britânico, não sabem conviver com meios termos, com impasses e lógicas apaziguadoras. A guerra, para eles, é o meio para a paz. O único meio capaz de garantir a vitória esclarecedora que procuram. Nada de meios termos, apenas a vitória certa.

E é por isto que vemos Zelensky mandar bombardear a central nuclear Energodar NPP de Zaporozhye e ameaçar a central de Kursk, pois a sua saúde – literal – depende de arrastar a Rússia para um conflito duradouro e em larga escala. O objectivo, na minha opinião, consiste em levar a Rússia a uma acção desesperada, por exemplo, uma que consista na utilização de uma arma nuclear – táctica ou estratégica – e que, em decorrência, das duas uma: ou os EUA usam o facto para isolar factual e internacionalmente a Rússia e diaboliza-la a um ponto em que o próprio povo russo se vire contra o presidente Putin, ou, em última análise, se tal for necessário, arrastar mesmo a Rússia para um conflito em larga escala, no qual os EUA julgarão, ainda, ter vantagem. Se não julgassem tê-la, não jogariam este perigosíssimo jogo. Podem estar enganados, mas as suas acções são tomadas com as suas próprias convicções.

Outra hipótese consiste na criação de uma provocação, por via dos bombardeamentos de Kiev, originando uma fuga radioactiva que afecte outros países e, dessa forma, os EUA tenham justificações “plausíveis” para acusarem a Rússia de a ter provocado de propósito, seja porque dizem que foi a própria Rússia a fazê-lo, seja porque dizem que a fuga não é de uma central nuclear, mas de uma bomba suja usada por Moscovo. Dir-me-ão: mas os parceiros da Rússia não cairiam numa coisa destas. Pois, mas o objectivo dos EUA é jogado, também, nos tabuleiros nacionais desses países e com os seus povos, nomeadamente, levando esses mesmos povos a rejeitar governos que não respeitam as regras antinucleares, direitos humanos, convenções anti genocídio e proliferação nuclear e por aí fora.

As possibilidades são muitas e os EUA já demonstraram jogar com elas todas. Não sejamos ingénuos sobre o porquê de, nos anos 80, existir tão grande consenso “antinuclear”. Nem os EUA estavam desesperados, deixando o campo informativo mais livre, nem tinham paridade nuclear real. Necessitavam de parar a proliferação e desenvolvimento nuclear do lado soviético. O que também dava jeito à URSS, pois resultaria num aliviar dos cofres. Os EUA jogavam, portanto, nos dois tabuleiros: tentavam arrastar a URSS para uma corrida armamentista dispendiosa, mas de uma forma que não constituísse uma ameaça estratégica. Existem registos, do tempo do “democrata Ieltsin” que demonstram a intenção, por parte dos EUA, em fazer a Rússia prescindir das forças navais nucleares estratégicas, mantendo-se apenas a aviação e as forças terrestres. Daí a lógica do “escudo antimíssil” que assentava que nem uma luva. Afinal, o que os EUA consideravam como tremendamente ameaçador eram os submarinos nucleares. E Ieltsin foi-lhes fazendo a vontade.

No caso do Irão, o jogo é parecido. Temos um Netanyahu, gémeo político de Zelensky, um sionista, outro sionista e nazi-fascista, ambos patriotas anglo-americanos no seu âmago, cuja saúde política – literal – depende de um conflito duradouro e em larga escala. Também, neste caso, é jogada a cartada nuclear. Bastou Blinken dizer que o Irão está “a uma ou duas semanas” da arma nuclear, e tal tornou-se uma verdade indiscutível gravada na pedra. Referem-se “relatórios confidenciais” da AIEA, que nunca ninguém viu e cujos links conduzem a uma descrição dos acordos nucleares com o próprio Irão, chegando a dizer-se que foi este quem incumpriu os termos do JCPOA.

Num e noutro casos, assume-se que, se os EUA dizem, é porque é verdade. Os EUA dizem que o Irão já quase tem armas nucleares – apesar da Fatwa de Al-Komeini proibindo o desenvolvimento nuclear militar -, e ninguém duvida; os EUA falam de um acordo confidencial da AIEA, ninguém o conhece, é confidencial, mas de uma agência pública “transparente” e “independente”, e ninguém duvida; os EUA dizem que a Rússia bombardeia a sua própria central nuclear ninguém duvida. Aliás, Grossi, presidente da AIEA faz mais: diz que “está para além da ciência” provar a origem dos ataques à central de Zaporozhye. Chamem já a equipa do CSI, e Putin levará mais um processo do TPI.

Com a China, o jogo também se joga. As notícias que dão como certa a modernização das forças nucleares chinesas, a “duplicação” das ogivas, constituem objectivos a que os EUA “não podem virar a cara”, como disseram na Casa Branca. Mesmo que os EUA tenham 10 vezes mais ogivas do que o número que a China terá, quando duplicar – se duplicar – as que já tem.

Para já, Zelesnky garantiu a impossibilidade de quaisquer negociações de paz nos próximos tempos e nem a visita – qual pagador de promessas – de Modi muda o cenário.

Como gémeos siameses, Zelensky e Netanyahu demonstram que a cooperação entre nazis e sionistas não apenas é possível como desejável e que o antissemitismo, que caracterizava os anos 30, se tratou de uma contingência casuística e nunca de uma realidade profundamente contraditória em si. Zelensky prova que o interesse hegemónico dos EUA fecha o acordo entre Sionistas e Nazi-fascistas.

À data, os falcões imperiais viam nos bens de judeus uma riqueza a haver; hoje vêem nos judeus uma riqueza em si e que já é sua e a dominam como instrumento de ocupação territorial, estabilização monetária e controlo de fontes energéticas e outros recursos naturais.

Um e outro jogam um perigoso jogo, do qual são peças estratégicas. Cabe-lhes criar uma realidade que torne impossível a convivência, ao ponto de o “mutual assured destruction” deixar de ser uma limitação. O vislumbre de um Irão nuclear é um desses casos e tudo justificará. Lembram-se das “armas de destruição em massa”? “Terroristas, loucos” e muçulmanos com acesso a armas nucleares? Assim, depois de toda a islamofobia em preparação no ocidente e capitalizada pelas correntes neofascistas, que declaram os muçulmanos e asiáticos – pobres, apenas os pobres – uma espécie sub-humana, uma praga invasora? Será apenas um pormenor. O terreno está lavrado e bem preparado.

Alguém acredita ainda em linhas vermelhas?

Fonte aqui.


6 pensamentos sobre “Expirou o seguro de vida da “destruição mútuamente assegurada”!

  1. Também nunca tive pachorra para redes sociais. O que poupa muitas irritacoes de fígado pois que os ecos que me chegam dizem me que por lá não se aprende nada de bom.
    E não tenho muita vontade de perder o tempo a mandar ir ver se o mar da choco todos os idiotas úteis que põem no perfil bandeiras da Ucrânia ou de Israel.

  2. Não tenho, nunca tive e não tenciono vir alguma vez a ter Facebook ou Twitter. Ao primeiro, prefiro chamar Fecesbook ou Faecesbook, nomes que traduzem melhor a sua verdadeira natureza. Ao segundo, rebaptizei-o como ToEatYou, ToCheatYou & ToShitYou, designação que reflecte com mais rigor o processo de “deglutição, digestão e evacuação” a que voluntariamente se sujeitam milhões de totós deslumbrados com a feira de vaidades em que burramente exibem banalidades e vacuidades, ilusório palco global em que se tomam por actores importantes, convencidos de que, vencido o angustiante anonimato de vidas sem Norte, Sul, Leste ou Oeste, são vistos e apreciados por todo o universo e arredores.

  3. E, no entanto, é fácil reduzir as tensões: Basta deixarem de considerar que são os únicos detentores de um bem absoluto, com a missão divina de o impor a todos, deixarem de impor sanções generalizadas àqueles que não se querem submeter às suas injunções e à sua “lei” de geometria variável, deixarem de bombardear “pelo respeito dos direitos humanos”, deixarem de apoiar a ocupação de todo o planeta por bases americanas; em suma, deixarem de meter-se na vida dos outros, acusando-os de se meterem na do ocidente.

    O segredo da paz é “cada um por si” e apoiar aqueles que são atacados sem provocação. Não precisamos de mais exércitos, precisamos de menos exércitos, porque, quando se gasta quantidades absurdas de dinheiro com eles, acabam sempre por ser tentados a utilizá-los para obter um retorno do investimento.

    E, sobretudo, o abuso de poder por parte do Ocidente, seja em África, na Ásia ou no Médio Oriente. A pseudodemocracia através de bombas e do derrube de poderes e Estados já não é aceitável. O apoio cego a Israel também não. O fim da hegemonia do dólar e a degeneração do sistema financeiro, bem como a democracia dos Estados ocidentais, já não podem servir de modelo! Sim, estamos a caminhar para um conflito armado em grande escala, um mundo dividido em blocos, mas a Europa falhou mais uma vez na sua missão de paz. Já não dispomos de competências, e os povos votam nos seus carrascos. As tentativas de infiltração na Ásia e em África estão a falhar umas atrás das outras!

    Ben Salmane, o líder da Arábia Saudita, teria sido outrora assassinado pela CIA por se atrever a aceitar outras moedas que não o dólar americano em troca do seu petróleo, mas “graças” à proteção russa, os EUA já não podem semear o terror a seu bel-prazer, como uma máfia em expansão. O império da mentira dos EUA já não pode reprimir a seu bel-prazer, mesmo sem mandato da ONU, sob os falsos pretextos das armas de destruição maciça no Iraque ou dos falsos ataques químicos na Síria.

    Em termos concretos, isto significa que devia-mos reforçar a nossa soberania alimentar e energética e, evidentemente, garantir o nosso acesso aos recursos naturais essenciais. Apostamos fazer exatamente o contrário e ver o termómetro subir.

    É precisamente este o principal ponto de discórdia entre a NATO e os Brics+, liderados pela Rússia: eles (os russos e os chineses) censuram-nos por termos baseado tudo na lei, a nosso favor (e quando nos convém), em vez de basearmos tudo em decisões internacionais que incluem todos os países.

    O uso da força é desinibido e parece ser a forma mais forte de impor a vontade do ocidente e resolver disputas”. Há muito tempo que o uso da força não é “desinibido” pelos EUA/Reino Unido, a NATO e os seus lacaios da UE: Sérvia, Iraque, Líbia, Síria, Ucrânia, para não falar de todas as pseudo “revoluções coloridas” desencadeadas pela CIA em benefício exclusivo dos EUA, em detrimento dos direitos mais elementares, e para não falar de Israel e do caos no Médio Oriente, provocado pelo Tio Sam, que nunca deixou de subsidiar os islamitas para manter a desordem em todo o lado.

    A Líbia, o Iraque… Os russos ainda estão zangados por não terem podido impedir a remodelação anglo-saxónica do Médio Oriente, mas começaram a mostrar os dentes na Síria assim que puderam. Quem diz que a Rússia invadiu o Dombass deve estar a dizer que a França invadiu o Ruanda em 1994. Em suma, os anglo-saxões que dirigem a NATO e que pretendem um poder indivisível sobre o mundo entrarão em guerra contra o outro lado para manterem as suas mãos no prémio.

    Este mundo não foi construído sobre o direito, mas sobre a escravatura, a rapina, a violência, o roubo, etc, etc, etc…..

    De facto, o objetivo dos BRICS+ é libertarem-se da extraterritorialidade do direito americano e do domínio do dólar, que funciona como uma arma.

    Enquanto as forças dominantes existirem e quiserem persistir, não nos devemos surpreender se a situação exigir ainda mais recursos. O mundo mudou e cada vez mais países subdesenvolvidos estão a acordar para séculos de opressão ocidental. A reação é inevitável, mas sem voltar a pôr tudo em cima da mesa e persistir neste modelo, não se pode esperar nada de positivo na Europa ou nos EUA, que estamos a seguir cegamente. A nossa história dá-nos agora razões para ter medo. O Ocidente quis armar os seus submissos, sem pensar que estes não os usariam contra ele.

    Vai ser um longo inverno!

  4. Não e certamente a fazer o jogo dessa gente que se livra dos seus ataques.
    E abre um precedente perigoso em todo o lado com essa gente a achar que pode e deve recorrer a violência para pedir repetição de eleições até que lhes saia um resultado a gosto.
    Pedir repetição de eleições num país em que os resultados já foram validados pela justiça desse mesmo país abre um precedente perigoso e e um péssimo serviço prestado a democracia.
    E sim os cultos protestantes evangélicos são um mosquito propagador do fascismo puro e duro e por isso teem a chancela USA.

  5. De fato, Lula e a maioria do Partido dos Trabalhadores nunca foram anti-imperialistas. A maioria do Partido dos Trabalhadores defendia (não sei se ainda defendem) a teologia da libertação. O Departamento de Estado dos USA reagiu apoiando de todas as maneiras e modos a introdução no Brasil das denominações pentecostais e outras, que agora dominam o cenário político no país. Lula governa com um parlamento constituído por deputados e senadores retrógrados, reacionários, os quais consideram Maduro um ditador, conforme a doutrina dos USA. Claro que estes não são anti-imperialistas, eles adoram os USA, batem continência para a bandeira estadunidense. Para eles a Federação Russa é comunista :-).
    Não foram o 580 dias de prisão que amaciaram Lula. Ele não foi amaciado. Ele precisa atender as demandas internas, contornar os ataques da direita e dos jornais influentes, procurando desviar as objeções, o que nem sempre é possível.

  6. A ideia peregrina de Lula da Silva de repetir as eleições na Venezuela foi certamente a maior prova de como e fácil domesticar gente que se diz de esquerda, anti imperialista ou seja lá o que isso for.
    Mais de um ano na cadeia sao uma maneira de domesticar alguém tao boa como qualquer outra mas mais que uma traição uma posição destas e um perigo e não so para a Venezuela.
    Porque abre caminho para, em todo o lado, a extrema direita e outros amigos da democracia reagirem violentamente caso os resultados eleitorais não lhes corram de feição.
    Ou seja, se o resultado não agradar vamos para a rua exigir a repetição das eleições até que o resultado nos agrade.
    A posição do dirigente brasileiro não mudou mesmo quando o Supremo Tribunal da Venezuela validou o resultado.
    E si, das duas uma, ou o homem está a começar a sofrer danos cognitivos estilo Biden ou foi mesmo muito bem domesticado com o mais de um ano passado a sombra ou foi corrompido.
    Uma coisa destas nem Freud explica pois que ele próprio se viu a contas com uma contestação violenta dos resultados quando bolsonaristas atacaram em Brasília e Bolsonaro apelou a uma revolta militar.
    E quando um dirigente nestas circunstâncias tem a ideia peregrina de pedir repetição das eleições noutro país está a abrir caminho para que o mesmo seja feito no seu.
    Por isso ou o homem e mesmo corrupto e pensa vender o seu país a preço de saldo pelo que pensa há não ter a temer as manobras do Império ou a cachaça lhe anda a cair mal.
    Se e este o caso tens cuidados porque o Império não quer só barato, quer tudo. Se vender barato fosse suficiente a Rússia nunca teria sido invadida e hoje estaria em paz.
    Quanto a outros cenários como o do Durov foi mais um que sofreu um rude despertar das suas ilusões.
    E esta e a diferença quando estamos a contas com as nossas democracias ou aqueles a quem chamamos autocracias.
    Se cair mos nas unhas das autocracias somos uns heróis e se fugirmos antes de ser presos temos passadeira vermelha.
    Claro que sempre há casos que podem correr mal como o do Navalny que estava já em lista de espera para a próxima troca com o Ocidente mas acabou por servir para mais uma vez diabolizarmos o Putin.
    Mas quando se vai preso em democracia o negócio pia mais fino.
    Gonzalo Lira morreu numa masmorra ucraniana, Assange foi libertado transformado num farrapo humano e ainda obrigado a pagar o voo charter que o levou para a terra dele.
    Um jornalista descendente de espanhóis exilados que viveu desde os nove anos em Espanha, e aí pagou os impostos todos tendo até um nome espanhol, o que lhe valeu foi uma troca de prisioneiros com a Rússia para sair de uma masmorra polaca onde estava há quase dois anos sem culpa formada. Pela efusão com que cumprimentou o presidente russo já devia estar a ver a vida dele a andar para trás.
    Há pelo menos dois jornalistas alemães exilados na Rússia porque arriscar as cadeias alemãs está fora de questão.
    No Reino Unido jornalistas vao dentro por postagem conteúdos contra o genocidio do democrata Netanyahu e todos achamos tudo isso normal.
    Mas tudo isto e democracia e no raio que os parta.
    E assim vai a nossa democracia.
    Tenham vergonha no focinho e vao ver se o mar da megalodonte.

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