Como a Rússia deixou de se preocupar e passou a amar as sanções

(António Gil, in substack.com, 10/06/2024)

 E se um dia esse amor se tornar contagioso?

 Nunca entendi a fé ilimitada do Ocidente nas sanções. A verdade é que nunca vi nenhum país vergado pelas ditas, pelo menos num passado relativamente recente. Cuba, Venezuela, Irão, Coreia do Norte vivem há décadas sob sanções ‘mutilantes’, um adjetivo simpático, introduzido na gíria do economês por cortesia dos anglo-saxónicos, esses grandes defensores dos Direitos Humanos. 

Seguiu-se a Rússia,  na extensa lista dos países sancionados. Os ‘génios’ que (pelo menos nominalmente) mandam no ocidente prometeram que os russos ficariam de joelhos numa primeira fase e logo a seguir revoltar-se-iam a tal ponto que no mínimo, espetariam a cabeça de Putin e seus ministros em várias estacas, ao longo de todo o perímetro do Kremlin.

Bom, ninguém sabe onde, nem como, nem porquê esses cérebros brilhantes adquiriram tal certeza. 

Se uma ilha relativamente pequena como Cuba resistiu durante 3 gerações não só a sanções como a um feroz embargo, esperar resultados diferentes com uma nação imensa e plena de recursos é uma loucura selvagem, no mínimo. 

Não seria sensato pensar que o inverso aconteceria? Que as sanções reforçariam a economia russa em vez de a enfraquecerem? Muitas pessoas previram que assim sucederia. Afinal os russos poderiam produzir eles mesmos o que antes compravam, porque razão o não fariam? Recursos materiais e humanos não lhes faltavam, certamente. 

E entre os muitos que fizeram essa previsão, muitos nem sequer frequentaram uma escola superior de economia, não era necessário. 

Bastaria pensar assim: se eu quero muito comer bolo e vivo a milhas de uma pastelaria mas sei que tenho ovos, farinha, leite, chocolate, frutas e um forno, provavelmente poupo muito tempo e dinheiro fazendo-o eu mesmo em lugar de fazer uma longa e dispendiosa viagem e ainda ter de pagar pelo bolo. 

Com a vantagem de saber que nenhum ovo ou leite estragado entrará na confecção, coisa que não está assegurada quando compro um bolo numa pastelaria. 

Então a sério que isto é surpreendente? – Desde que começou a ser sancionada, a Rússia não parou de crescer economicamente, coisa que o ocidente colectivo não se pode gabar. Recentemente a Alemanha e o Japão ficaram para trás. 

E os EUA que se cuidem pois estão a cair continuamente e nem poderia ser de outra forma, sendo os maiores devedores do mundo. Contrair dívidas nunca foi uma boa ideia para enriquecer e se esse item entrasse nas contas, ninguém sabe para que lugar essa nação cairia. 

As sanções sempre foram utilizadas como arma geopolítica mas agora correm o risco de se tornarem um prémio em vez de um castigo. Talvez ainda vivamos uma época em que os povos supliquem aos sancionadores que os incluam na lista:

– Sancionem-nos, sancionem-nos, não se esqueçam de nós, que mal precisamos de vos fazer para merecer as vossas adoráveis sanções?

Fonte aqui.

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19 pensamentos sobre “Como a Rússia deixou de se preocupar e passou a amar as sanções

  1. De acordo com Frau Ursula von der Lies, a Europa “boa”, a dela, tem 470 milhões de habitantes. Sabe-se que os Estados Unidos têm 334 milhões. Temos ainda o Canadá, com 37 milhões, e mais uns quantos associados menores do abençoado Ocidente alargado, como Austrália, Coreia do Sul, Japão, o mui democrático Israel, etc. Quanto à demoníaca Rússia, esfomeada de “espaço vital” (como escreve, com subtileza de elefante, o Pacheco da Marmeleira), tem presentemente à volta de 145 milhões. Sabendo nós que a Rússia é, em termos territoriais, o maior país do mundo, com o dobro da área dos Estados Unidos e menos de metade da população, fica claro, para quem tenha no mínimo dois neurónios funcionais, que um dos principais problemas da Federação Russa é espaço a mais e falta de gente para o defender, e não espaço a menos e uma alegada vontade de abarbatar mais “espaço vital”, divagação esquizóide parida pelas ligações sinápticas curto-circuitadas do Pacheco, Pluma Caprichosa e restante praga de aldrab… perdão, excelsas e criativas mentes que monopolizam o nosso espaço (vital) mediático.

    Quanto a material bélico, concretamente forças aéreas, que alguns “especialistas” (Zelensky, Rogeiro e outros) nos dizem que farão toda a diferença num conflito, números recentes (Dezembro 2022), que já aqui despejei em tempos mas nunca é de mais repetir, mostram o seguinte:
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    AVIÕES DE COMBATE:

    América do Norte (EUA + Canadá): 2803

    Europa: 2113

    América + Europa: 4916

    Rússia e CIS*: 1859
    ________________________________

    HELICÓPTEROS DE COMBATE:

    América do Norte (EUA + Canadá): 5581

    Europa: 3323

    América + Europa: 8904

    Rússia e CIS*: 1927

    *CIS: Comunidade de Estados Independentes, que junta Rússia e alguns países da ex-URSS, mas que, em termos operacionais, se resume hoje praticamente à Bielorússia, o que, convenhamos, não é grande coisa.
    ________________________________

    Ou seja, mesmo sem os EUA, a Europa sozinha tem mais aviões de combate (2113 contra 1859) e mais helicópteros de combate (3323 contra 1927) do que a Rússia.

    Há inúmeros outros tipos de aviões e helicópteros, nomeadamente de transporte, vigilância, reabastecimento, etc., mas, em caso de conflito, é fácil de entender que são os aviões e helicópteros de combate que mais peso têm.

    Fonte: https://www.flightglobal.com/reports/world-air-forces-directory-2022/146695.article
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    Contra toda a racionalidade e incontornável peso da realidade, porém, quer esta intelligentsia chalada e burra que, por azar, nos coube em sorte convencer-nos de que o mafarrico Vladimir Putin (cruzes, canhoto, bate nessa madêra!) vai enviar hordas atrás de hordas de pretos das neves para ocupar a Europa toda. E isto para começar. Depois, sabe-se lá, the sky is the limit, talvez o Sistema Solar… ou mesmo a galáxia. Ai meu belo cabo da Roca, só de te imaginar nas garras do Vladimir quase me dá um fanico!

    Mesmo sem o auxílio do outro lado do Atlântico, como é que um país com 145 milhões de habitantes consegue invadir, ocupar e controlar um território onde vivem 470 milhões, se falarmos apenas da Europa? Só um vigarista tentará convencer-nos dessa possibilidade e só um perfeito estúpido e ignorante poderá acreditar não apenas na sua viabilidade mas também na extrema estupidez de que os russos dariam provas se sonhassem sequer com tal “empreendimento”.

    O que nos leva à seguinte conclusão: nunca a Rússia tomaria tal iniciativa, porque está bem ciente de que, numa guerra generalizada, apenas com armamento convencional, seria inevitavelmente derrotada pelo Ocidente alargado. Como ninguém com dois dedos de testa acreditará que a dita Rússia (nem os EUA, já agora) se conformaria alguma vez com isso, um eventual conflito, inicialmente convencional, entre Ocidente e Rússia, ou seja, NATO-Rússia, tornar-se-ia inevitavelmente nuclear, única maneira de a Federação Russa evitar o seu desaparecimento como país.

    Portanto, eu não os mandaria ver se o mar dá choco, que é marca registada do Whale, mas seria bom que a inteligência gripada da nossa intelligentsia chalada não continuasse a tentar convencer-nos de que a caça aos gambozinos no cabo da Roca ou no Poço do Bispo alguma vez dará resultado.

  2. Na obra citada, consta:
    Domínio dos mercados mundiais de matérias primas por corporações internacionais. Desacoplamento dos instrumentos financeiros relativamente à economia real (financeirização da economia). Alastramento das guerras regionais. Agudização das contradições sociais. Crises políticas permanentes. Sublevações.

    Tudo isto dava abundante matéria para análise para economistas e jornalistas preocupados com a importancia informação de qualidade para a vida das pessoas.

    É disso que se deve falar, quando falamos de imperialismo. Em vez disso JPP oferece-nos análises psicológicas de Putin e de Trump.

  3. O problema é que o Ocidente sabe que as sanções até funcionam.
    Foram anos de sancoes sobre o Iraque que permitiram que a invasão de 2003 corresse bastante bem aos invasores. Militarmente o país estava de rastos e muita gente achava que pior não ficava.
    E claro que muita gente ficou bem pior, muita gente foi morta e especialmente a vida da metade da população que não tem picha piorou e muito.
    Mas isso não podia prever um povo farto de sanções e das dificuldades diárias que elas causavam.
    No caso da Líbia, Kadhafy acabou a admitir todo o terrorismo e mais algum de que o acusavam para que as sancoes fossem levantadas e assim assinou a sua sentença de morte.
    Cuba e o Irão enfrentam dificuldades imensas e na Venezuela parece que nas próximas eleições finalmente vai ganhar um proxy dos Estados Unidos.
    No caso da Rússia o caso foi diferente porque nunca sancoes foram lançadas contra um país que tem todos os recursos de que precisa para produzir tudo. É que não tem quaisquer dificuldades em produzir alimentos para alimentar decentemente toda a população. A grande dimensão do país permite isso tudo.
    A Rússia não é a desértica Líbia ou os semi deserticos Irão e Iraque. Nem sofre furacões devastadores como Cuba. Poderá ter algumas regiões muito frias mas quase nenhuma simplesmente estéril.
    Por isso pode resistir às “sanções do Inferno”.
    E claro que esta gente, habituada a que as sanções funcionem portou se da mesma maneira com a Rússia.
    Eu pensava justamente na ideia de jumento que tudo isto representava, especialmente na Europa, em que boa parte dos países não teem a ponta de um corno. E que não tem recursos para produzir tudo o que precisa.e que por isso se iria ver num saco de gatos sem a energia barata da Rússia.
    Ouvia a histeria da gente no meu serviço que garantia que Putin teria “o fim do czar” as maos dos oligarcas feridos nos negócios.
    E de uma multidão esfomeada que imvadiria o Kremlin e daria a Putin uma morte que faria a de Kadhafy parecer misericordioso.
    Ou seja, esta gente portavasse como se fossemos nos a ter os recursos e não a Rússia. Loucura da brava.
    Mas a verdade é que pensávamos mesmo que as sancoes em menos de nada vergariam um país que tem tudo e em breve teríamos de graça o que ate aqui tínhamos simplesmente barato.
    Ninguém se lembrou do velho ditado “quem tudo quer tudo perde” e não arrisco prognósticos para este jogo de morte.
    Mas tudo isto poderia ter sido evitado se simplesmente tivéssemos percebido que o tempo do ouro, marfim e escravos por contas de vidro e pano vermelho acabou. Que o tempo da pilhagem é do saque acabou.
    E deixassem de delirar com o “fardo do homem branco”.

  4. Hoje é fácil obter informação suficiente para calar quase todos os falsários que se pavoneiam na televisão, na rádio e nos jormais.

    Quantas bases militares existem nos Estados Unidos da América espalhados pelo mundo?
    Qual o peso do dólar dos Estados Unidos da América no comércio mundial?

    Que estes dois aspectos não sejam considerados por quase todos os comentadores quando falam em imperialismo é compreensível. Trata-se de esconder as características fundamentais desta forma de hegemonia, fazendo inflectir a sua impopularidade sobre a Federação Russa. Que JPP se refira ao imperialismo com a mesma leviandade, porém, não acho digno de quem a si próprio se define como historiador.

    É notável a precisão da análise feita em 1916 na obra ‘Imperialismo, Etapa Final do Capitalismo’, se descontarmos os nomes das figuras históricas aí mencionadas que, compreensivelmente, já não correspondem às dos dias de hoje.

  5. Em complexidade de análise, a abordadegm de JPP sobre o actual momento da União Europeia não excede a história do Capuchinho Vermelho. Como era de esperar, obteve o efeito de fast-food para os comentadeiros infantilizados que antes prognosticavam o colapso da Federação Russa face às sanções draconianas. Nada mais se pode esperar. O professor de Filosofia pode concorrer para guiões de novos episódios de Superman versus Lex Luther. Pelo menos para isso sobra-lhe capacidade intelectual.

    • Prezada Isabel
      O seu a seu dono, o comentário não é de minha autoria, mas de Agostinho Lopes, que, como comecei por referir, depois de o ter acabado de ler e achado interessante, tomei a liberdade de aqui o reproduzir!

  6. Acabei de ler:
    Os homens mais perigosos do mundo, segundo Pacheco Pereira
    História de Agostinho Lopes • 1h • 10 min de leitura

    O que é extraordinário nesta abordagem de Pacheco Pereira (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza?

    Os homens mais perigosos do mundo, segundo Pacheco Pereira
    Os homens mais perigosos do mundo, segundo Pacheco Pereira
    © Expresso
    Para José Pacheco Pereira (JPP), Putin e Trump são não só dois homens perigosos, mas “Os homens mais perigosos do mundo” (1). Não é fácil ver todos os meandros do seu raciocínio, as curvas e contracurvas do seu deambular argumentativo para tão sonora e taxativa conclusão. Que logo foi consolidada por Clara Ferreira Alves (CFA) (2) na sua Pluma Caprichosa, da Revista Expresso “O Grande Tubarão Branco – Trump e Putin são os tubarões exemplares. Têm em comum a enorme persistência e a resistência à extinção”. Uma notável fábula sobre tubarões, “peixes condíctrios”, que “são grandes e perigosos. Ocupam o topo da cadeia alimentar das espécies marinhas e estão adaptados aos mais diversos ambientes oceânicos. São predadores (…) que atacam e devoram quando farejam sangue. Pressentem a ferida, a vulnerabilidade. Tanto viajam a grande profundidade como atacam à superfície (…)”. Mas os tubarões humanos como Trump e Putin,“tubarões em versão hardcore”, “São muito piores porque agem conscientemente e são dotados de um gigantesco Id, mal controlado pelo ego e o superego residuais. Parecem inamovíveis e são assustadores pela destruição causada”. “Deram à tona em bancos de areia da política, emergindo de múltiplos habitats. A finança, a empresa, o monopólio, a agência do governo, o império ou, simplesmente um dos múltiplos empregos e prebendas oferecidos por tubarões maiores”. Entretanto, parece haver quem se disponha a juntar mais alguns facínoras à lista dos perigosos tubarões de JPP e CFA. No Correio do Leitor, Público, 04JUN24, alguém acrescentava Netanyahu… e não vai ser fácil fechá-la. É que eles são mais que as mães… mesmo se CFA acha “Que não são muitos…”.
    Resolvam-se à partida duas diatribes, que quem gosta deste tipo de análises ou efabulações sempre chama à colação. A mais habitual é a acusação – persistente contra os marxistas – de uma história ou leitura política fixada nas dinâmicas estruturais, subestimando, desvalorizando, negando o papel das personalidades/personagens, dos líderes/chefes, homens/mulheres que assumem/encabeçam/dirigem os movimentos/forças/processos políticos de mudança/alteração/revolução. Ou até o desconhecimento dos acasos/áleas da história, dos que não chegaram a horas ao encontro que a história lhes tinha destinado. Não é certamente o caso, pois não desconhecemos ou negamos a importância das atitudes, decisões que as duas citadas personagens possam tomar, mesmo se é impossível esquecer ou apagar os contextos, conjunturais e estruturais, económico, social, político e histórico em que se movimentam. A outra crítica é a de que quem assim discorre está feito com os “tubarões”, ou, no mínimo, simpatiza com tais personagens, como os que não são “candidatos da democracia e liberdade nas eleições portuguesas”, referidos por JPP. Asseguramos que não se perfilha qualquer idolatria particular ou empatia pelos perfis e opções político-ideológicas daqueles senhores.

    Para JPP aquele par de jarras, Putin e Trump, “tem como objectivo primeiro deter um poder pessoal absoluto nos seus países. Por isso mesmo, são inimigos, antes de tudo, da democracia, o resto vem por acrescento”. O resto (“nacionalismo”, “isolacionismo”, vontade de alargar “o espaço vital”, etc.) são questões “secundárias e instrumentais” para “as suas ambições de poder”! Isto é, para JPP são umas boas promessas de “ditadores”. É claro que há aqui um lapso evidente de JPP: Putin, ao que nos rezam as crónicas e as notícias da “comunicação estratégica” ocidental (fundamentalmente produzida nos EUA e no Reino Unido) já o é há muito! Portanto não precisa de ir ser… já o é, já cumpriu o objectivo de “um poder pessoal absoluto”! Trump é que vai ter mais trabalho e tem que dar ao pedal para lá chegar!

    Reflectindo sobre o assunto não nos podemos admirar do que acontece com Putin. Aquilo, ao que consta dos canhenhos da geoestratégia “ocidentais” faz parte da genética russa. É assim que a multidão de críticos, que acusam o materialismo histórico de estruturalismo, mecanicismo, determinismo, finalismo, tudo simplificam, reduzindo a complexidade ingénita da história a um simplismo atroz. Tudo se resume a “ditadura” naquelas paragens. Primeiro a autocracia czarista que terminou em 1917. Depois a ditadura do proletariado acabou em 1991. E ao breve interregno da democracia alcoólica de Ieltsin (só houve mesmo “democracia” porque os eflúvios de vodka assim o permitiram)… sucedeu a “ditadura” de Putin! Muitos ainda não perceberam aquela sucessão de regimes, como por exemplo JPP que avalia a actual “ditadura” na Federação Russa de Putin como uma emanação directa do “império social fascista”. Era assim que denominava e criticava a URSS nos idos dos primeiros anos da década de 70 do século passado, quando era um M-L encartado em maoísta! Nada a fazer com estes russos! Está-lhes na massa do sangue ou é uma questão de clima… A bendita democracia só reinará quando todo aquele espaço político se fragmentar como há muito se esforça por fazer o “Ocidente cristão”. Outra coisa não pretendeu Napoleão. Outra vontade não tiveram os exércitos das potências capitalistas ocidentais (EUA, RU, França, etc.) ao invadirem a Rússia em socorro dos Brancos para esmagarem a revolução proletária-bolchevique de 1917. Outro desejo não teve Hitler! E continua hoje nos planos estratégicos dos EUA congeminados por Brzezinski e Kissinger. O problema é que até hoje, apesar de muito esforço, o “Ocidente” ainda não conseguiu “democratizá-la”! Isto é, espartilhá-la, balcanizá-la, de forma a facilitar a exploração e colonização do “Ocidente”… alargando o seu (de algumas potências europeias) “espaço vital”. Para JPP Putin anda à procura de “espaço vital na Europa”, provavelmente porque é estreito, acanhado o “espaço vital” russo e não conseguem abrir os braços ou fazer umas passeatas dentro da Rússia! Ou será que Putin procura antes impedir que outros “espaços vitais” lhe calquem o rabo do seu “espaço vital”???

    Já o problema do Trump abre outras perspectivas. Pode ser que não chegue a “ditador”! Mas o problema Trump levanta sérias interrogações, dúvidas, questionamentos que JPP não esclarece. Como é que Trump dá cabo do edifício da democracia nos EUA? Como é que o farol da democracia e dos regimes democráticos, que anda há décadas a exportá-la e exportá-los (nem que seja à bomba!) pode transformar-se numa ditadura, por simples vontade, ambição, manobra de um sujeito que parece um tanto ou quanto baralhado da cabeça… pelo menos às vezes? Uma personagem condenado em tribunais pelas mais diversas violações da lei. Diz JPP, “Como ameaça à democracia” Trump é “mais perigoso, porque actua num país democrático e, num quadro democrático.” Ainda por cima “ele anuncia, sem disfarce, querer subverter” o regime democrático! É mais fácil ao Trump subverter a democracia nos EUA? Então o que é feito e o que fazem as outras instituições do país? Então os famosos “Checks and Balances”, freios e contrapoderes não servem para impedir, derrotar, corrigir tais malignos e maléficos objectivos? Será porque a democracia americana é uma oligarquia, controlada/comandada pelo grande capital nos votos, nos medias, na educação/universidades, e Trump oligarca, é um dos deles?

    Trump, afirma JPP: “Alterará o equilíbrio de poderes, exercerá o poder presencial sem qualquer limitação constitucional, e, talvez o mais importante, perseguirá todos os que se lhe opuseram, numa vingança que conduzirá o mais longe que puder”. Como é isto possível? Não haverá um tribunal ou juiz do Supremo, decisão do Congresso, cadeia de médias, e etc., etc., que se lhe oponha e o impeça de tal? Então o que faz o Congresso e a Câmara dos Representantes? E a CIA e o FBI? Então o Partido Republicano, e o Partido Democrático, e o Supremo Tribunal Federal? E os “Think-Thank”, e as Fundação Soros e a Rockfeller? E a National Endowment for Democracy, NED, “Suporting Freedom Around the World” que semeia por todo o mundo dinheiro para fazer brotar a democracia? E as Universidades tão entretidas que andam a chamar a polícia para malhar na estudantada pró-palestina? Chamem a Guarda Nacional e o Ku-Klu-Klan! Muito mal vai no reino dos ianques a democracia, exemplo único e supremo ideal de todos os adeptos da dita democracia liberal, aqui e nos algarves e na excelsa União Europeia. A Teresa de Sousa vai ficar muito triste…

    Querem ver que para salvar a democracia americana, vamos ter que enviar uma delegação europeia do Grupo Bildeberg chefiada por Pinto Balsemão e a Teresa de Sousa a Washington?! Ou pedir à Sr.ª Von der Leyen que mande a UE decretar sanções económicas? Tudo às costas de Trump é um absurdo.

    É o Trump um “isolacionista” como diz JPP? Sim mas já o Obama tinha sido e o Biden também não quer outra coisa, e em grau superlativo se tivermos em conta as recentes subidas de tarifas aduaneiras de 100% e outras medidas proteccionistas. É o que dá a “pessoalização” das maldades… Dizer tal não significa qualquer atributo de Trump porque é o resultado da resposta do grande capital americano ou de alguns dos seus sectores aos problemas de uma economia em declínio no confronto com a China e que quer garantir a continuidade da supremacia americana. Não é uma “característica”, ou “natureza” ou sequer “opção” de Trump. O Trump é um “nacionalista”? Mas qual o Presidente da República dos EUA, republicano ou democrata, que não assumiu “motivações nacionalistas” na definição das suas políticas externas? A defesa da globalização e da liberalização do comércio internacional, a criação da OMC, o comportamento face à ONU e às suas Organizações, alguma vez tiveram outra finalidade que não a defesa da “nação americana”?

    É o Trump que “levará, como já de algum modo faz, os EUA a um clima de pré-guerra civil, e só a moleza dos democratas permitirá que ganhe”, como quer JPP??? Parece que se troca a causa pelo efeito: Trump é o resultado, não a causa de um Estado à beira da guerra-civil, “vítima” da crise do sistema capitalista e imperialista, das suas contradições, antagonismos e impasses e da vontade sem limite das suas oligarquias de continuarem a assegurar o poder dentro e fora dos EUA! Muita gente e insuspeitas personalidades o afirmam. Trump aparece para algumas dessas oligarquias como a hipótese de salvaguarda do essencial. É o capital, ou uma importante fracção do capital norte-americano, de que Trump faz parte, que o “fabrica” e o promove, e o faz eleger! É ver quem lhe paga as campanhas eleitorais. Tudo o resto é treta… O que não quer dizer que o Trump não dê uma mãozinha. A 19 de Abril, a Revista do Expresso publicou um interessante (e ao que se pensa, insuspeito) texto de Ricardo Lourenço (3): “A polarização nos Estados Unidos, que as presidenciais de novembro agudizam, gerou o receio de uma nova guerra civil – um cenário explorado agora na literatura e no cinema. O Expresso avaliou esse sentimento coletivo a partir de dezenas de conversas com americanos espalhados pelo país.” Que as diversas facções estão armadas – há milhares de milícias organizadas – não parece haver dúvidas, faces aos tiroteios e morticínios que vão acontecendo um pouco por diversos locais e regiões – “83 massacres registados no ano passado em estabelecimentos de ensino nos EUA” (3)!

    Mas o grande problema para JPP (4) é que face aos comportamentos “perigosos” de Putin e Trump a Europa fica “entalada” “entre os dois”! Para JPP “Os termos do dilema são muito simples (…): ou se armam e se preparam para garantir a sua defesa sem terem os EUA de Trump como seu aliado” “ou ficam sem política externa e de defesa própria, como aconteceu com a Áustria e a Finlândia no pós-guerra.” Isto para a Europa Ocidental, porque a do Centro e Leste fica sob suserania russa.”! Valha-nos deus! E porque este “entalanço”, este dilema, é existencial, logo devia ter sido o centro/objecto das eleições para o PE, pelo menos dos “candidatos da democracia e da liberdade nas eleições portuguesas, que não são todos”. E porquê? Porque “a Europa é um continente de guerra” como nos diz a história (“com h minúsculo”) e logo… prepara-te para a guerra. O pequeno problema, que JPP não refere, é que essas guerras foram sempre desencadeadas pelas grandes potências da dita “Europa Ocidental”, França, Alemanha, Reino Unido, etc. até à penúltima na Jugoslávia… no Continente e muitas fora do Continente, como nos esclarece a história com “h” pequeno!

    O que é extraordinário nesta abordagem de JPP (e de outros e outras) do estado actual do mundo e da Europa é que tudo se resuma ao papel destas duas personagens, Trump e Putin, aparentemente sem nada a ver com as placas tectónicas do imperialismo em movimento e a profunda crise do sistema capitalista. (Basta ver a quantidade de “salvadores”/profetas que por aí andam a escrever livros/tratados/receitas para o salvar… Mas será que Putin e até Trump são também responsáveis pelo genocídio em Gaza???

    Nada que não esteja presente como “filosofia” e “metodologia” histórica dos que só conseguem olhar a ditadura fascista portuguesas ancorada na figura e comportamento “perigoso”, ditatorial, de Salazar, sem invocar a “infraestrutura” dos monopolistas, latifundiários e do imperialismo/NATO. Ou do regime nazi em Hitler, esquecendo o papel do grande capital alemão na sua chegada ao poder, na alimentação da máquina de guerra e até na sobrevivência das raízes económicas do nazismo e figurões nazis no pós guerra. (5) Aliás, esta visão da história tem uma grande vantagem: mata-se o bicho, acaba-se a peçonha… e muitos historiadores ficam com a vida simplificada: a causas das ditaduras é dos ditadores…

    (1) “Os dois homens mais perigosos do mundo: Putin e Trump…”, José Pacheco Pereira, Público, 01JUN24.

    (2) “O grande tubarão-branco”, Clara Ferreira Alves, Revista Expresso, 07JUN24.

    (3) “Estados Unidos da América: um país em estado de guerra”, Ricardo Lourenço, Revista Expresso, 19ABR24.

    (4) “Coincidência” notável, na 2.ª feira 10JUN24, nos comentários aos resultados eleitorais para o PE, em Portugal e na UE, vários são os artigos que reproduzem as teses de JPP. No Público, Manuel Carvalho escreve “(…) que o PCP acredite que entre imperialismos agressivos e democracias só há uma escolha.” E António Barreto aflige-se com a “Europa sempre a sofrer dos ataques dos seus tradicionais inimigos, dos impérios que a rodeiam!”, “A Europa está ameaçada pelo afastamento americano. A Europa está posta em perigo pelo imperialismo agressivo russo.” É pena que não identifiquem os “outros imperialismos agressivos” e “os impérios que a rodeiam”, “seus tradicionais inimigos”! Mas parece não haver dúvidas, o “comunismo russo” está de volta…

    (5) É muito esclarecedor o recente livro “Milionários Nazis – A história negra das maiores fortunas alemãs”, de David de Jong, Desassossego, 2023.

    Expresso
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    • Bom trabalho caro amigo! Receberam todos dos “donos disto tudo” instruções para nos convencerem que, mno momento atual, a História é feita por heróis e por vilões da Marvel… E cumprem o guião na perfeição e sem rebuço… 🙂

    • E o Pacheco ainda não sabe que o furúnculo no cu que o vai atazanar a partir da próxima semana é obra do Putin, por via de um supositório de Novichok com sabor a baunilha ministrado por um insuspeito criptoputinista infiltrado na Quinta da Marmeleira. Não sabe o Pacheco mas sei eu, porque mo disse um passarinho. Ou passarinha, não sei bem, estava escuro e não deu para apalpar os entrefolhos do penugento emissário do Creme Lin.

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