O GPS e a mentira política

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 06/06/2024)


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A mentira política tradicional incidia habitualmente ou sobre segredos autênticos, ou sobre intenções. Atualmente as mentiras políticas manipulam factos conhecidos de toda a gente. A técnica de mentira atual assenta no desvio da atenção e na negação ou adulteração de qualquer acontecimento cuja narrativa convenha ser estabelecida consoante os interesses de um grupo com capacidade para a impor.

Com as técnicas modernas utilizadas pelos massmedia é hoje muito mais fácil realizar a operação de reescrita da verdade do que alguma vez o foi. As duas mentiras políticas do momento dizem respeito, uma à autorização dada ao regime de Kiev pelo “Ocidente alargado” para utilizar as suas armas de longo alcance contra alvos no interior da Rússia. A outra mentira, a de que, de novo o “Ocidente alargado”, em particular os Estados Unidos, o seu cabeça de império, está muito incomodado com o massacre e chacina de Gaza, mas que os israelitas, e o seu cabo de guerra Netanyiahu, não seguem as determinações de moderação.

São duas mentiras. Quer a guerra na Ucrânia quer a chacina de Gaza estão dependentes de um sistema de localização e comunicação de dados que é propriedade do governo dos Estados Unidos: o GPS. O Global Positioning System é um sistema de navegação por satélite que fornece a um aparelho recetor a sua posição, a qualquer momento e em qualquer lugar na Terra. Encontram-se em funcionamento três desses sistemas: o GPS americano e o GLONASS (versão russa do GPS) e o Compass (BeiDou), chinês. Do sistema Galileo da União Europeia sabe-se que é tecnicamente muito bom, mas foi vencido pela concorrência, isto é, os Estados Unidos não autorizam que substitua o seu GPS.

O sistema americano é administrado pelo Governo dos Estados Unidos e operado pelo Departamento de Defesa americano. Tem o seu sistema de comando e controlo no estado do Colorado. A princípio, o seu uso era exclusivamente militar, posteriormente foi licenciado para uso civil, no entanto, acredita-se que num contexto de guerra sua função civil seria revogada para que o dispositivo voltasse a ser um instrumento exclusivamente militar. O sistema assenta numa “constelação” de 24 satélites, construídos pela empresa Rockwell, cada um circula a Terra duas vezes por dia a uma altitude de 20 200 quilômetros Até meados de 2000 o departamento de defesa dos EUA impunha a “disponibilidade seletiva”, que consistia num erro induzido no sinal, impossibilitando que aparelhos de uso civil operassem com precisão inferior a 90 metros. (Atualmente o GPS civil tem um erro entre 3,5 e 8 metros, enquanto o GPS militar tem um erro ´máximo da ordem dos centímetros). Pressionado a assinar uma lei determinando o fim dessa interferência no sinal do sistema o presidente dos EUA revogou essa determinação que pode ser reposta em tempo de guerra ou quando os EUA assim o entenderem. Como equipamento militar o GPS é usado para o guiamento de diversos tipos de armas de precisão, c bombas JDAM (Joint Direct Attack Munition) e mísseis “inteligentes”, para a navegação aérea, terrestre e marítima e até para a orientação individual de combatentes. Sem o GPS fornecido pelos Estados Unidos nenhum míssil disparado da Ucrânia voa para qualquer alvo nem qualquer avião israelita descola para bombardear escolas e hospitais. O GPS é propriedade do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Também debaixo do completo controlo da administração americana está a rede de satélites de espionagem / observação, e de comunicações, incluindo a rede Starlink de Elon Musk que fornece as comunicações na Ucrània. Isto é, toda a informação de referenciação de alvos na Ucrânia, na Rússia e em Gaza está sob o controlo direto dos Estados Unidos. Todos os aparelhos eletrónicos de todos os cidadãos e de todos os dirigentes políticos e militares estão sob o controlo dos EUA.

A encenação. Números de rábula, trata-se de uma rábula para massas crentes, das conferências de imprensa da Casa Branca e as aparições com ar compungido de Biden a garantir que está a fazer os possíveis para acabar com a chacina de Gaza. Esses números de hipocrisia seriam dispensados se ele desligasse o GPS dos israelitas e bloqueasse as informações fornecidas pelos satélites americanos. Também é dispensável a rábula da limitação de emprego de armas ocidentais na Ucrânia. As armas fornecidas pelo Ocidente — sejam espanholas, alemãs, inglesas, polacas, lituanas — são armas americanas, que têm os chips americanos e que só podem ser empregues nas condições que os Estados Unidos, enquanto proprietários, autorizam. E o emprego de outras armas obedece ao mesmo princípio, Todos os aviões F16, tal como os futuros F35, independentemente do seu utilizador, são americanos, apenas podem cumprir missões que os Estados Unidos autorizem ou a que não se oponham. Basta desligar ou interferir nos aviónicos, nos códigos-fonte dos sistemas, que se mantêm na posse dos Estados Unidos. Foi, aliás, o que aconteceu na já longínqua guerra das Malvinas, quando os franceses deram aos ingleses o código fonte dos mísseis Exocet que tinham vendido aos argentinos, para os ingleses os neutralizarem!

Nem Israel, nem a Ucrânia, nem o Reino Unido, a Alemanha, a França, a Itália a Polónia têm qualquer possibilidade de decidir o que fazer ou não fazer sem a autorização dos EUA.

Os noticiários, com reuniões de engravatados e fardados às mesas, as declarações com expressões mais ou menos compungidas ou mais agressivas são meras encenações. Biden e Bliken, são meros prestigiadores. Bastava-lhes um clique no interruptor do GPS e tudo se apagaria e deixaraim de fazer de todos nós meros manipansos, como os cães de plástico que antigamente ilustravam os automóveis abanando a cabeça.

22 pensamentos sobre “O GPS e a mentira política

  1. Sim. Algumas pessoas remediadas ou até pobres faziam das tripas coração para mandar os filhos estudar para colégios que o regime queria que fossem so para gente fina.
    Nem era bem gente fina. Era gente das elites que muitas vezes eram uns bocais, especialmente no trato com os que consideravam inferiores.
    Porque a verdade é que tínhamos um regime que fazia gala de dizer que aos filhos dos operários bastava aprender a ler, escrever e contar. E que os portugueses não precisavam de pensar pois tinham uma cabeça que pensava por eles.
    Pelo que depois dos primeiros quatro anos, mesmo que não fosse interno, o ensino era pago e bem pago.
    Pelo que a esmagadora maioria ficava pelo caminho e era isso que se queria.
    Quem conseguia, a troco de sacrifícios imensos mandar um filho continuar a estudar era muitas vezes malta que só tinha um filho. Não tendo cinco ou seis bocas para alimentar, podiasse sonhar que o único descendente tivesse uma vida melhor que a deles. Que a miseria dos campos e das fábricas.
    E a malta era inventiva.
    Um operário muma fábrica que fazia latas de conserva para a indústria conserveira, respigava o metal que caia, juntava e vendia.
    Para que?
    Tinha um único filho de quem toda a gente gabava a inteligência e o jeito para o desenho. O pai sonhava que ele fosse arquitecto. O jovem também sonhava que um dia desenharia casas a sério.
    Pois outros operários foram chibar ao patrão aquele “roubo” de material que ninguém queria.
    Teve a sorte de o patrão ter um fundo de justiça. O homem explicou isso. Que tinha um único filho de quem toda a gente gabava a inteligência. E ele queria que ele fosse arquitecto.
    Se o patrao fosse um salazarento que partilhasse a cartilha de que aos filhos de camponeses e operarios bastava aprender a ler, escrever e contar o emprego e o sonho do homem acabavam ali.
    Felizmente não era, o patrão autorizou a respiga e deu uma desanda nos chibos.
    O homem viveu tempo suficiente para ver o único filho tornar se arquitecto.
    Mais tarde, já nos anos 60, lá surgiram as escolas industriais e comerciais destinadas a dar uma qualificação melhorzinha aos filhos de operarios e camponeses.
    Nada que permitisse isso de vir a ser doutor mas presumiasse que quem tirasse um “cursozinho” desses pudesse vir a ter um trabalho melhorzinho num escritório. Ou ser chefe numa fábrica.
    Ainda assim não era totalmente de graça nem em todo o lado.
    Outra maneira de mandar os moços estudar, em especial no interior norte e centro do país, era enfia Los num seminário. Nem todos aguentavam os maus tratos, o frio e a fome. Alguns fugiam ou arranjavam maneira de ser expulsos.
    Claro que as excepções havia mas o que não podemos esquecer é que tínhamos um regime que fazia de tudo para desencorajar o estudo entre a maior parte da população.
    E na maior parte dos casos conseguia. Em 1974 a taxa de analfabetismo era de quase 30 %. Mais de um quarto da população não tinha qualquer nível de ensino formal. Era suposto nunca terem ido à escola.
    Era efectivamente um tempo em que o ensino não era para todos nem tal se queria.
    Como dizia uma idosa, “eu queria continuar a ir a escola, mas o Salazar prendeu me a máquina de costura”.
    Uma das minhas avós era uma criatura grande, que se interessava sobre tudo e sabia um pouco de tudo. Não tinha papas na língua e dava um descompostura na cara de um santo.
    Nunca esqueceu o dia em que, terminada a terceira classe, a mãe lhe disse “tu já sabes ler e escrever já chega”.
    E para o regime chegava e sobrava.
    Para os rapazes, a, escolaridade dita obrigatória era de quatro anos, para as raparigas apenas três. Afinal de contas, para que precisavam as fêmeas de andar tantos anos a escola?
    Alguém falou em “masculinidade tóxica”?
    Aos 11 anos ingressou como soldadora numa fábrica, um trabalho de corno que mais tarde foi interdito a entrada de novas mulheres.
    Enfim, todos teem as suas razões, mas que aquilo era um tempo complicado para pobres e remediados que quisessem que os filhos continuassem a estudar era.

  2. Só para chatear um bocadinho, o Galileo pode não ter avançado, mas o EGNOS (ESA) existe e fornece correção em tempo real < 10cm em equipamento profissional. Quanto ao sinal, o GPS tem um canal militar, GPS M-Code, ao qual Israel tem acesso.

  3. Não sei quanto a outros, mas gostei da leitura.
    Gente que se gabava de ser da PIDE havia muitos e também os familiares tratavam do mesmo. Lembrava se a minha avó da mãe de um agente da PIDE que um dia, sem mais nem ontem, disse a uma vizinha, humilde trabalhadora fabril que nem era conhecida por ser do contra “se o meu filho quisesse você não via mais Sol nem Lua”.
    Nesse tempo era assim.

  4. Olha aqui outro “privilegiado”, um dos meus dois companheiros de quarto no Nun’Álvares, eu no 7° ano e ele no 6°. O nosso quarto era no “primeiro andar”, que juntava os alunos do 7°, não me lembro se todos os do 6° e alguns do 5°. Chamava-se Filinto Elísio de Barros e era guineense.

    https://www.goodreads.com/author/show/3393864.Filinto_de_Barros

    O outro era um cretino de Elvas chamado Escarduça (também no 7°). Num dia em que esperávamos os autocarros para ir fazer exames ao liceu de Santarém, estava eu a pensar na morte da bezerra e a fazer tempo, andando de um lado para o outro, no quarto, o idiota salta de repente direito a mim, aos gritos, intimando-me a deixar de “olhar” para o interior da carteira dele, que tinha o tampo levantado. É claro que eu não estava a olhar para a porra da carteira dele coisíssima nenhuma, com o espanto devo ter-lhe perguntado se estava doido ou apenas a ser parvo, não me lembro bem. Eram carteiras de madeira, como na maioria dos estabelecimentos de ensino, mas estas tinham por debaixo do tampo uma espécie de caixote que fechávamos com um cadeado e onde guardávamos o material de estudo, desde livros e cadernos a canetas, lápis, borrachas, etc.

    Regressados a Tomar uns dias depois dos exames em Santarém, o idiota aproveitou um estudo obrigatório nos quartos, em que não podíamos fazer barulho, para nos explicar, a mim e ao Filinto, o motivo da parvoeira de dias antes. Achava ele que eu teria eventualmente visto, na carteira aberta, uma porcaria qualquer (documento? cartão?) que o identificava como agente da PIDE. Claro que o parvalhão era tanto agente da PIDE como eu sou o rei da Prússia. Seria, quando muito, um daqueles pides das cartinhas, aquela gente reles que denunciava, muitas vezes inventando, vizinhos e familiares como comunistas ou, no mínimo, “desafectos ao regime”. Para si próprios, eram “patriotas” e “cidadãos exemplares”. Na realidade, não passavam de bufos de merda! E avisava-me assim o cretino de que, não tendo antes a certeza de que eu teria visto a tal identificação pidesca, a partir desta confissão “oficial” (apenas para mim e para o Filinto) ficava eu a saber que ele sabia que eu sabia, e o Filinto idem.

    E vai daí o Escarduça, em voz baixa por causa do silêncio obrigatório durante o estudo, e fiado na protecção que a nossa obrigação de cumprir o mesmo silêncio lhe conferia, entra a ameaçar-nos, a mim e ao Filinto, de consequências graves se mais alguém no Colégio ficasse a saber da sua heróica pidalhice. Não tendo eu na altura grande consciência política (era apenas “do contra”, como quase toda a gente que conhecia), as ameaças, no que me diz respeito, eram difusas. Provavelmente inventaria qualquer coisa para me lixar. Já quanto ao Filinto, lembro-me exactamente da ameaça que o bufo Escarduça lhe fazia: faria com que, no ano lectivo seguinte, ele não pudesse voltar a matricular-se no Nun’Álvares. Uma ameaça assim a puxar para o castrado, digamos. Escusado será dizer que no dia seguinte toda a gente no colégio sabia que o Escarduça era da PIDE.

    Convencido de que nos estava a meter medo, entra então o Escarduça numa espiral de gabarolice parvalhóide, de que o ponto mais “assustador” (pensava ele de que) era o judo que teria aprendido na PIDE. Gabava-se e regabava-se, e olhava para mim e para o Filinto como pobres cordeirinhos assustados (mais uma vez pensava ele de que), borrados de medo das suas temíveis capacidades físicas como “agente secreto”. Fartei-me de o ouvir e achei que a palhaçada não devia continuar. Assim, levantei-me da carteira, evitando barulhos que pudessem alertar o prefeito que de um lado para o outro, no corredor, velava pelo cumprimento das regras, dirigi-me à carteira do Escarduça e, sem mais delongas, dei-lhe um porradão na testa com as costas da mão direita, do que resultou uma carambola que o levou a malhar com os cornos na parede atrás dos ditos. Ainda o estou a ver, sentado na carteira, olhando para mim com um sorriso idiota, sempre fiado na protecção do silêncio a que estávamos obrigados e no medo que a sua alegada mestria em judo em nós despertaria. E depois a surpresa e o espanto, ao verificar que o silêncio obrigatório não lhe servira para nada. Foi só para o cretino perceber que não metia medo a ninguém. Regressei à minha carteira e o resto do estudo passei-o a ouvir o desgraçado a ameaçar-me com o enxerto de porrada que, com o famigerado judo que a PIDE lhe teria ensinado, me ia dar logo em seguida, na saída autorizada para a cidade.

    Disse-lhe que sim senhor, que ansiava por isso, e assim foi. Quando nos preparávamos para sair do colégio, julgo que a minha insistência em que ele cumprisse a promessa de me “partir todo” levou o heróico Escarduça a pensar melhor na potencial alhada em que, por culpa própria, se estava a meter. Convidou então outro colega nosso, de Elvas como ele, chamado Chamorra, para nos acompanhar ao local do “duelo” (atrás da igreja, nunca mais me esqueço), pensando talvez que o Chamorra o ajudaria se começasse a levar no focinho. O Chamorra, que era um gajo porreiro, acedeu ao convite, mas deixou claro que o problema era entre mim e o Escarduça, ia apenas acompanhar-nos e não tomaria partido. Abreviando: chegados às traseiras da igreja, como se manifestou então o judo que o bufo Escarduça teria aprendido na PIDE? Elementar, meus caros Watsons: pontapés nos tomates, que, como toda a gente sabe, têm tanto de judo como os chocos do Whale têm de robalo de aviário.

    Escusado será dizer que o esforçado Escarduça não me acertou um único pontapé nos tintins e, nos intervalos das tentativas, lá foi comendo uns porradões no focinho. Acontece, porém, que andar à porrada nunca foi coisa de que eu gostasse e, nas poucas vezes em que a isso fui obrigado, apanhei sempre tipos maiores do que eu e levei quase sempre mais do que dei. Não foi o caso com o pobre Escarduça, que não me conseguiu tocar uma única vez, mas os denodados esforços do “judoca” começavam a cansar-me. Até que, depois de comer mais um murraço, o coitado parou por uns momentos e agarrou-se à boca. Quando afastou um pouco as mãos, verifiquei que sangrava dos dentes de baixo. Farto daquilo e com pena do coitado, aproximei-me imediatamente para o ajudar e recebi, como recompensa, mais umas tentativas canhestras para me chutar os tintins. Decidi acabar com a parvoeira, imobilizei-o de braços e pernas o melhor que pude, mas o coitado ainda tentou, debalde, marcar o ponto de honra. Quando se cansou e acalmou, lá o larguei, com os humildes entrefolhos intocados.

    As minhas desculpas a quem este desabafo chateou, mas olha, pá, só leste até ao fim porque quiseste, ninguém te obrigou.

    • Li até ao fim e com o mesmo entusiasmo com que, na minha infância, lia o «Mundo de Aventuras»! Mas, como cantava o Carlos do Carmo, se uma andorinha não faz a Primavera, o ocasional filho dum «Chico Ferrugem» no Nun´Álvares (com apóstrofe e tudo, tornando-o mais «chique» ou «distintivo»!), por via dum patrão generoso, não fazia dele, necessariamente, uma escola de filhos de proletários! Se era ou não um estabelecimento a que, por regra (e toda a regra comportará a sua excepção), só gente «abonada/fina» a ele teria acesso, eis a questão! Ou não?🧐

      • Amigo Chico Ferrugem, não me parece que Nun’Álvares em vez de Nuno Álvares tenha alguma coisa a ver com “chique” ou “distintivo”, até porque tão legítima é uma grafia como a outra. Acredito mais na intenção subliminar de dar ao colégio, através do nome, uma certa patine de antiguidade, além da vontade de homenagear o próprio Condestável. Tudo isso é legítimo e nada tem a ver com o eventual pretensiosismo de “gente fina” implícito no teu preconceito. Preconceito igualmente legítimo, mas que acho injusto. Da Wikipédia:

        “Nuno Álvares Pereira (O.Carm.), também conhecido como o Santo Condestável, formalmente São Nuno de Santa Maria ou simplesmente Nun’Álvares (Paço do Bonjardim, Cernache do Bonjardim, 24 de junho de 1360 – Lisboa, 1 de novembro de 1431), foi um nobre e general português do século XIV.”

        Aqui:
        https://pt.wikipedia.org/wiki/Nuno_%C3%81lvares_Pereira?wprov=sfla1

        Quanto à questão da “gente abonada” (além de horrorosamente fina), poderás ter alguma razão, mas não tanta como pensas. Sendo verdade que a maior parte das pessoas não podia então (nem pode hoje) pagar um colégio interno aos filhos, é também verdade, quanto ao ex-trabalhador do meu pai, que ele pôs o filho a estudar no Nun’Álvares a suas próprias expensas e contava fazê-lo até ao fim do curso. Só a doença, com o diagnóstico de morte inevitável a curto/médio prazo, lhe torpedeou os planos. Foi como operário que viveu, pagou os estudos do filho e morreu, o meu pai só entrou em cena mais tarde.

        Um dos meus colegas no Nun’Álvares era o Antonico (hoje médico ortopedista), meu amigo desde a infância e companheiro de dias intermináveis de caça em que, na maior parte das vezes, chegávamos ao fim com os pés deliciosamente cansados e apenas com um “chibato” a enfeitar o cinto (“apanhar um chibato” é gíria de caçador para uma jornada com ZERO peças de caça). O Antonico era filho de pequenos comerciantes de uma aldeia do Baixo Alentejo no concelho da vila de minha mãe e os pais tinham uma pequena loja onde me fartei de mamar rebuçados. Os meus preferidos eram os do “Dr. Bayard”, uma maravilha que julgo ainda existir hoje. Tinham apenas um “defeito”: por vezes parte do papel ficava colada e dava-nos um bocado de trabalho deixá-los prontos a lamber. Como vês, Chico Ferrugem, no Nun’Álvares de Tomar nem tudo era gente fina e abonada. Eram, frequentemente, filhos (e filhas) de gente remediada que sabia terem os seus filhos, naquele colégio, um ensino de excelência e uma garantia acrescida de futuro, para o qual não se importavam de sacrificar algum conforto do seu próprio presente.

        No que respeita à “gente fina” do meu lado, o meu pai era um pequeno empresário, um pequeno-burguês, filho de pequenos comerciantes de uma aldeia minúscula da zona de Peniche, onde me lembro, quando lá ia, de papar igualmente uns belos rebuçados. A minha mãe era filha de proprietários rurais alentejanos, mas só começou a receber algum (pouco) rendimento depois da morte do meu avô materno. Durante praticamente toda a minha infância, apenas a actividade do meu pai pagava as contas. Foi assim com o Nun’Álvares, para onde fui desterrado como castigo por ser calantrão e porque os meus pais acreditaram, erradamente, que era a única maneira de não chumbar o 7° ano (actual 12°, julgo eu), o que quanto a eles seria inevitável se continuasse no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, onde até então fizera todo o curso dos liceus.

        Azar dos Távoras, foi ao contrário. O curso dos liceus tinha exames apenas nos 2°, 5° e 7° anos. Como atrás disse, e repito, fui calantrão durante todo o curso, com passagens praticamente automáticas nos anos sem exame, em que quase não olhava para os livros. Nos anos com exame, laureava a pevide até ao último momento, para não destoar, mas, como não era estúpido de todo, tinha boa memória e não queria chumbar, metia a matéria toda na cornadura durante os aproximadamente 15 dias das chamadas “férias de ponto” (antes das provas escritas) e acabava sistematicamente dispensado das orais. Até ao 7° ano nunca fiz uma oral, livrei-me delas, com uma perna às costas, tanto no 2° como no 5°.

        Os meus pais meteram na cabeça, vá-se lá saber porquê, que não conseguiria repetir a proeza no 7°, que quanto a eles era “diferente”, e espetaram comigo no Nun’Álvares no terceiro período, a seguir à Páscoa, como castigo pela calantrice e, acreditavam eles, para me disciplinar e salvar o ano. O sistema de ensino no colégio, porém, era completamente diferente do do liceu. Enquanto, neste, quase todos os professores andavam sistematicamente até à última aula do ano lectivo para despejarem, muitas vezes a martelo, a matéria toda, com óbvias consequências negativas para a aprendizagem, no Nun’Álvares toda a matéria era dada até ao fim do segundo período e o terceiro era reservado a revisões e exercícios práticos. No 7° ano dos liceus, a disciplina de Matemática tinha, tanto quanto me lembro, quatro subdisciplinas: Álgebra, Trigonometria, Aritmética Racional e Geometria Analítica. No Pedro Nunes, em Lisboa (e julgo que o mesmo se passava em todos os liceus), todas as quatro subdisciplinas eram ministradas por um único professor, que, como disse atrás, se via à rasca para encaixar tudo no ano lectivo. No Nun’Álvares, a disciplina de Matemática era distribuída por dois professores, um para Álgebra e Aritmética Racional e outro para Trigonometria e Geometria Analítica, se não estou em erro. Chegados às férias da Páscoa, toda a matéria tinha sido dada e o terceiro período, como disse atrás, era usado para revisões e exercícios. O mesmo para Físico-Químicas. No Pedro Nunes, apenas um professor. No Nun’Álvares, um professor para Física e outro para Química. Escusado será dizer que, lá caído do céu aos trambolhões a seguir à Páscoa, não havia professor que me desse a matéria que ficara em falta no Pedro Nunes e o resultado foi inevitável: andei três meses a apanhar bonés e (no que para mim foi uma estreia) acabei a coleccionar uma série de “raposas”, daquelas que nem ao menos servem para aquecer o pescocinho na gola de uma samarra.

        Como podes ver, o sistema do Nun’Álvares era muito mais racional e eficaz em termos pedagógicos, com consequências logicamente positivas para a aprendizagem, e esse era um dos factores que lhe davam merecida fama. O outro era a disciplina a que estávamos obrigados, nomeadamente com os períodos de estudo obrigatório. Fora isso, se não metêssemos a pata na poça, até tínhamos bastante autonomia e liberdade, com saídas diárias para a cidade de Tomar, completamente entregues a nós próprios. Aos domingos (não tenho a certeza se também aos sábados) tínhamos duas saídas, depois do almoço e depois do jantar. É claro que, não estando habituado aos costumes e disciplina de um colégio interno, me fartei de, inadvertidamente, meter a pata na poça. O principal prefeito do meu andar (o Courinha), um tipo porreiro, enorme, que segundo me disseram tinha residência fixa em Tomar por razões políticas e era vigiado pela PIDE (não me admiraria que fosse essa uma das “missões” do bufo Escarduça), disse-me no fim do ano, com alguma bonomia, que eu lhe dera mais trabalho do que o primeiro andar todo. Não era por mal, havia simplesmente coisas que eu não sabia que não podia fazer.

        Pois é, amigo Ferrugem, o Nun’Álvares de Tomar era muito mais do que uma coutada de gente fina e abonada. O Lopes (director e alma daquilo tudo) não dormia em serviço, era um visionário e um pedagogo de eleição e o resto não interessa ao Menino Jesus.

        Saiu mais um lençol, mas ajudou-me a recordar tempos bons e a homenagear o colégio. Peço desculpa, mas não vou pedir desculpa, nem sequer pela aparente “falta de sentido” das duas últimas linhas. É dialéctica quântica, pá! Saravá!

        • Amigo Camacho, se, como tu próprio afirmas, «o Nun´Álvares era mais de que uma coutada de gente fina e abonada», não estarás a reconhecer que dita não deixava de uma coutada de gente «fina» ser, ainda que sendo mais do que isso, como possuindo as virtudes que lhe apontas e eu não discuto, até porque não tive o «privilégio» de a frequentar?
          Quanto a mais um lençol saído, nada, pois, que pedir desculpa, tanto mais que eu, também, à medida que os anos vão passando – vá se lá saber porquê -, me sinto, igualmente e cada vez mais, a recordar «aventuras» vividas no passado, como aquela, nos meus 16 anos e com cabelo à «Beatle», de querendo «conquistar» uma gaiata de idade igual, melhor «mimo» não encontrei do que lhe dizer «És tão sexy!», ao que ela, «insensível», me respodeu «Hã, qué isso?». A procura de «conquista» ficou por ali, porque, afinal, ela não se mostrava tão «madura» quanto imaginara!

          • Amigo Chico, se eu disser que a Sharon Stone é mais do que uma loura burra e ignorante, certamente que não estou a dizer que, mulher comprovadamente inteligente, é também burra e ignorante. Dito isto, certamente que haveria no Nun’Álvares de Tomar muitos alunos oriundos de famílias abonadas, além das remediadas, mas garanto-te que era “assunto” em que nenhum de nós gastava um segundo de atenção. Já quanto a “gente fina”, foi coisa que nunca lá vi. Admito como possível que alguns, muito poucos, lá tenham entrado assim, mas garanto-te que perderam as peneiras um dia depois de lá chegarem.

            • Amigo Camacho e se eu disser que «a Sharon Stone é mais do que uma loura e burra, quando cruza as pernas deixa o pessoal a «transpirar»? Este «defeito» retira-lhe a «qualidade» de burra?
              Qunto a «gente fina», segundo os dicionários:
              Gíria] Pej. Diz-se de quem sabe se comportar em situações específicas ou em eventos requintados, geralmente se relaciona às pessoas com posição social e/ou dinheiro: festa para gente fina!
              Ora já imaginaste no «Nun´Álvares» o filho de um «Chico Ferrugem» a «tirar macacos no nariz»?🧐

              • Não me lembro de nenhum «filho de um «Chico Ferrugem» a «tirar macacos no nariz» no Nun’Álvares (as minhas memórias agarram-se a imagens mais agradáveis ou, por qualquer outro motivo, merecedoras de recordação), mas não tenho dúvidas de que aconteceu, não uma mas milhões de vezes. E o que não tenho dúvidas de que também aconteceu, sem a honra de um miserável espacinho na minha memória, mas igualmente milhões de vezes, foi filhos de gente fina do Nun’Álvares a fazerem exactamente o mesmo. Posso garantir-te, ainda que de tão magna questão não tenha memória nem guarde registos, que o filho de gente fina que sou o fez (e por vezes ainda faz) milhares de vezes, antes e depois do Nun’Álvares. Tenho a certeza de que não fiz qualquer esforço para me abster de tão corriqueira, mas sofisticada, operação de limpeza enquanto por lá passeei os ossos.

                • Mas presumo que entre gente «fina» tiravam os «macaquinhos» do nariz com um alvo lencinho branco e não os comiam! Ou, pelo menos, assim deveriam fazer!:)))))))))))))))))))

              • Em tempo: não sei quantos macacos do nariz a Sharon Stone já caçou em toda a sua vida, mas aposto o tomatinho esquerdo e metade do direito em como foram milhares, de pernas cruzadas ou não.

  5. No tempo da «outra senhora» ou «madrasta», se bem me lembro, como diria o Vitorino Nemésio, a entrada no Colégio de Nuno Álvares, em Tomar, não seria, propriamente, para filhos de «Chicos Ferrugens»!:) Seria fino demais para eles!:)

    • Pois… todos uns privilegiados, os alunos do Nun’Álvares. Um desses privilegiados era o filho de um ex-trabalhador do meu pai, operário, operador de máquinas, que pôs lá o filho a tirar o Curso Comercial. Um filho de operário a estudar num covil de gente fina, imagine-se o descaramento! Entretanto, contraiu silicose e acabou por morrer. Já muito doente, preocupava-o o facto de o filho não poder acabar o curso porque, com a morte do pai, não haveria quem o pagasse. Outro pai, o meu, seu patrão, sossegou-o prometendo-lhe que custearia o curso do filho até ao fim, nesse antro de privilegiados onde só bastante mais tarde eu, de castigo, malhei com os cornos. O homem morreu descansado, porque sabia ser o meu pai um homem de palavra. E assim foi. Esse privilegiado filho de proletário tirou o Curso Comercial no Nun’Álvares, do princípio ao fim, a princípio pago pelo seu próprio pai e depois pelo meu, e quando lá fui despejado, de castigo por ser calantrão, continuava por lá, já não como estudante, mas como prefeito (o que nos liceus chamavam “contínuo”). Pois é, pá, sempre a velha questão do preto ou branco, só mesmo os excêntricos conseguem distinguir tons variados de cinzento.

  6. No caso de Israel nem precisavam desligar GPS nenhum. Se estivessem mesmo preocupados com o genocídio simplesmente deixavam de fornecer armas aos genocidas.
    Se no caso da Ucrânia ninguém se espanta que os Estados Unidos e outros forneçam armas aos nazis, pôis que isso se funda na mentira de que a Ucrânia é coitadinha,no caso de Israel não se consegue descortinar um bom motivo para dar aos genocidas todas as armas de que necessitam.
    De início também se tentou passar a imagem do Israel coitadinho que foi atacado sem fazer mal nenhum.
    Mas os israelitas tornaram a tarefa complicada. E não fui só por imediatamente começarem a bombardear e matar civis a torto e a direito. Foi pelas atrocidades que a sua corja dirigente disse, do qual a história dos Amalequitas foi só uma das “pérolas”.
    A soldadesca fez questão de se filmar a torturar e matar, ao contrário dos ucranianos que poem a culpa nos russos sempre que podem. Porque sabem que quem foi o grande impulsionador da sua criação nunca os abandonará façam o que fizerem. Sabem que são precisos no trabalho de desestabilizar o Médio Oriente para melhor controlar os seus recursos.
    E, claro, aqui entra também o seu complexo de superioridade. Montados em 200 armas nucleares, os do povo eleito estão se nas tintas para o que os gentios infiéis pensam deles.
    Se ainda há quem apoie Israel é mesmo pelo racismo anti árabe e anti islâmico que fomos engolindo ao longo dos tempos e porque é realmente grande o poder da propaganda. E das tais mentiras.
    Mas esta gente sempre viveu de mentiras, desde o tempo em que justificamos as pilhagens e substituição de populações com a suprema necessidade de civilizar os selvagens.
    Hoje tratasse de impedir a Rússia de invadir a Europa (sem que ninguém nos explique o que é que temos que possa interessar a Rússia) e civilizar aqueles malandros dos muçulmanos que tratam muito mal as mulheres.
    Dai que os israelitas teem todo o direito a dar lhes a libertação da morte.
    Faz sentido para a cambada de psicopatas que temos a governar nos.
    E faz sentido para quem se sente mais confortável engolindo propaganda e aldrabices.

  7. tudo encenado, teatralizado, um “faz de conta” para convencer a borregada e outros convencidos que não o são. Há os que mexem os cordelinhos e os atores, de qualidade duvidosa a maioria, outros abertamente senis. Assim vai o mundo!

  8. Grande Matos Gomes, caraças! E viva o Colégio Nun’Álvares de Tomar, onde também estive, de castigo, no terceiro período do meu primeiro 7°ano do antigo curso dos liceus (da Páscoa de 1963 até ao fim do ano lectivo). Julgo que foi também o ano em que Matos Gomes, no mesmo Nun’Álvares, completou o liceu e provavelmente até participámos juntos em algumas daquelas patuscadas em que enchíamos a barriguinha com os “reforços” alimentares que as famílias nos enviavam. Sinto-me retrospectivamente honrado.

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