Três reflexões para um futuro incerto

(Boaventura Sousa Santos, in Público, 12/03/2024)

Com a mesma certeza com que rejeitou o Chega, a direita aceitou a Iniciativa Liberal, cujo programa eleitoral é muito mais assustador que o do Chega no plano social.


Os resultados das últimas eleições obrigam a uma leitura para além da espuma dos resultados. Três reflexões: a não-democracia; o não-nacional; o não-presente.

não-democracia é o conjunto factores que, não estando sujeitos ao escrutínio democrático, influenciam de modo significativo os processos políticos e, sobretudo, eleitorais. São os elefantes dentro da sala.

sistema judicial é a causa próxima de algumas crises políticas recentes. É importante averiguar se não estarão a ocorrer em Portugal casos de guerra jurídica (lawfare) à semelhança do que tem ocorrido noutros países. Trata-se do uso do sistema judicial, não para averiguar ilícitos jurídicos, mas para neutralizar adversários políticos. Esta nova arma tem sido utilizada preferencialmente contra políticos de esquerda e assenta no uso político da luta contra a corrupção.

O segundo elefante é a comunicação social. Sem pôr em causa o fundamental serviço público dos media, não podemos deixar de reconhecer que nos últimos vinte anos houve uma viragem à direita no tratamento das notícias e nos comentários políticos. O modo como foi tratado o tema da TAP nos últimos anos e o tema das urgências hospitalares nos últimos meses são exemplares a esse respeito. O repetitivo e espectacularizado esmiuçamento dos casos, mais do que esclarecer os cidadãos, visava desgastar o Governo.

O terceiro elefante são as redes sociais que foram utilizadas sobretudo pelo Chega e pela IL, para criar polarização social, transformando adversários políticos a confrontar em inimigos a destruir. Uma lógica tribal ávida de adesão e avessa à confrontação dos factos cria a voragem da destruição do que está vigente de modo dominante sem curar de saber o que (e como) se deve construir para o substituir.

Assine já

não-nacional é a componente dos interesses globalmente organizados que interferem de modo activo nos processos políticos dos diferentes países seleccionados para intervenção em função de estratégias globais. A intervenção nas redes, o financiamento de partidos de extrema-direita ou de ultradireita e de institutos supostamente de investigação, mas, de facto, think tanks e centros de comunicação estratégica são alguns dos mecanismos de interferência. O Atlas Network (anteriormente Atlas Economic Research Foundation) é um dos agentes globais mais conhecidos, uma agência não-governamental baseada nos EUA que “fornece treino, contactos e financiamento a grupos libertários, pró-mercado livre e conservadores em todo o mundo”. A internacional ultraconservadora visa transformar a Europa num aliado incondicional dos EUA, criar o pânico anti-Rússia de modo a justificar os investimentos em armas em detrimento das políticas sociais e ambientais e travar a China.

não-presente é o modo como a memória de um povo é tratada valorizada ou manipulada para produzir resultados políticos concretos. Em Portugal, essa memória assenta em três pilares, cada um deles com a sua temporalidade. O primeiro pilar é a memória da revolução do 25 de Abril de 1974, cujo quinquagésimo aniversário celebramos este ano. Os portugueses concebem o 25 de Abril como o acto fundador da modernidade em que hoje vivem. Em Portugal, a democracia ainda não é um regime formal emocionalmente neutro ou pragmaticamente descartável. Apesar de todas as suas limitações, avaliar políticos e votar é a manifestação de uma potência existencial que, apesar de muitas vezes frustrada nas expectativas, ainda não se transformou numa frustração colectiva. Estão vivos e activos alguns milhões de portugueses que votaram pela primeira vez em 1976. Essa emoção fundadora tem sido agressivamente manipulada pelo Chega, mas, contraditoriamente, o Chega alimenta-se dela, trazendo para as mesas de votos muitos cidadãos descrentes da democracia. O voto de protesto é um voto tão democrático como os outros. Os empreendedores por detrás dele é que o usam para destruir a democracia.

O segundo pilar da memória dos portugueses é a crise existencial de 2011: a tutela da troika e um governo de direita para quem a austeridade imposta externamente aos trabalhadores e à classe média não era suficiente e devia ser ainda mais agravada por iniciativa própria. Os trabalhadores e os pensionistas, os jovens e os idosos, lembram-se do que então ocorreu. O que correu para o rio da memória não foram apenas os cortes nas pensões, a perda de direitos laborais, a pobreza abrupta e a iniquidade com que o sofrimento foi distribuído entre as diferentes classes sociais. Correu sobretudo a ferida na soberania e na auto-estima de um povo que se libertara do pesadelo colonial para, pouco depois, abraçar o sonho europeu, e que via agora esse sonho convertido num novo pesadelo (muitos se lembram dos termos usados pelos jornais alemães e ingleses para se referir a Portugal e aos portugueses). Era a destruição de uma materialidade muito concreta traduzida no aumento de bem-estar que as classes populares tinham vindo a experimentar apenas há três ou quatro gerações.

As forças de direita estão coladas a essa memória e durante a campanha eleitoral fizeram tudo para a avivar (Passos Coelho na campanha). O retumbante êxito, que estava ao seu alcance, fugiu-lhes. Menos visível por agora é que a direita moderada pensou que ao respeitar a primeira memória (do 25 de Abril) podia desqualificar a memória de 2011. Com a mesma certeza com que rejeitou o Chega, aceitou a Iniciativa Liberal, cujo programa eleitoral é muito mais assustador que o do Chega no plano social. Se o Chega representa a destruição política do 25 de Abril, a IL representa a destruição socioeconómica do 25 de Abril. O seu programa é uma versão do paradigma ultraliberal de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, ridicularizado nos anos de 1930 e reabilitado quarenta anos depois no Chile do ditador Augusto Pinochet (1973). O programa da IL significa a privatização de tudo o que se move e pode dar lucro.

Os dirigentes e eleitores da IL professam a democracia, mas talvez nem se dêem conta de que o seu programa é inaplicável em democracia. Já o mesmo não se pode dizer dos seus mentores. Hayek admitia o colapso da democracia como um dano colateral das suas políticas económicas, cuja implementação era de longe o mais importante. Escreveu ao diário alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung em 1977 a protestar contra a crítica injusta feita no periódico contra o regime de Pinochet no Chile; considerava o Chile de Pinochet como um milagre político e económico e invectivava contra a Amnistia Internacional, considerando-a “uma arma de difamação da política internacional”.

O terceiro pilar da memória dos portugueses diz respeito ao desempenho do Governo durante a pandemia do coronavírus. Foi um excelente desempenho enquanto uma articulação exemplar entre políticos, profissionais de saúde e cidadãos conscientes da seriedade da emergência de saúde pública. Pouparam-se vidas que noutros mais países mais ricos se perderam. Esta memória foi desvalorizada e o Governo que a tornou possível desbaratou o capital de confiança que granjeara ao não saber compensar adequadamente os enormes sacrifícios do SNS num contexto em que a saúde privada desapareceu como que por encanto. Se o Governo, no dia seguinte a dar por finda a pandemia, tivesse aumentado em 100% os salários de todos os profissionais do SNS, o povo português teria aplaudido de pé. Lamentavelmente, as contas certas não acertaram com o país.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

6 pensamentos sobre “Três reflexões para um futuro incerto

  1. Se as rendas de casa estão pela hora da morte podemos agradecer ao Governo PSD/CDS e a famosa Lei Cristas que desregulou completamente o sector.
    Quando a nao ter saúde, com as propostas dos partidos que ganharam estas eleições só pode piorar.
    Mas foi isto que os portugueses alegadamente afundados na falta de direitos básicos escolheram.
    A liberalização sem regras so traz miséria e mais miséria.
    Na Argentina em menos de três meses “El loco” Milei conseguiu a proeza de passar a taxa de pobreza de 40 para 67%e fazer o país passar a Venezuela no que a inflação diz respeito. A agravar a coisa todos os apoios sociais estatais desapareceram. Se e isso que os pobres “descontentes” querem para o nosso país vão ver se o mar dá choco.
    O liberalismo sem regras só é possível de ser imposto por uns ditadura que mate mais que o dum dum justamente pela miseria generalizada que causa.
    Isso ou o país é tipo Estados Unidos que quando esgota os recursos por lá vai roubar os recursos na terra dos outros em nome da democracia e dos direitos humanos.
    O liberalismo é uma fraude mas os, seus caudilhos dizem o que os ignorantes querem ouvir. Por isso estamos metidos neste saco de gatos.
    E sim, cá me parece que vão arranjar outra “bancarrota”. Alguma desculpa terão de arranjar para não cumprirem nada do bom que prometeram. Vão ver se o mar dá choco.

  2. No tempo do Salazar, também, não estava tudo mal! Para além de se ter criado a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, foi no tempo dele que se pôde ter acesso aos rebuçados Santo Onofre, para alívio das dores de garganta e ao restaurador Olex, para o rejuvenescimento capilar!

  3. Os resultados das eleições antecipadas de 10 de Março deixaram muito claro o repúdio do povo português às políticas que conduziram as suas vidas a uma degradação crescente, que se traduz na inexistência dos direitos mais básicos, como a saúde, a habitação e mesmo, o não acesso a bens alimentares, obrigando a escolhas cada vez mais apertadas.
    E esta é a realidade que os partidos que estiveram até hoje no poder criaram, pela qual são responsáveis.

    • Todos os indicadores económicos e sociais desmentem o que afirma. Essa é a narrativa da comunicação social, do Chega e da IL. “Está tudo mal”, dizem, mas “tudo” é o que?

      • Bem, então, quer indicadores? Comecemos pelo supermercado. Azeite a 10 paus, carne de vaca nem vale a pena falar, Alimentos processados, pizzas, refeições prontas, esqueça. Vamos sair do supermercado. Vamos chegar a casa: electricidade, 18 por cento de aumento num ano. Internet e tv, mais 4 ou 5 euros do que era. Gás? Ajuda à festa, uma botija que custava 30 paus nem à um ano custa agora 36. Mas, espere, ainda não saímos de casa…. Crédito à habitação, renda? Quanto mesmo? era 350 paus há um ano e meio e agora é 600 euros? Ahahaha. Vamos então pegar no carro que da casa nem vale mais a pena falar e vamos ali à bomba de gasolina…. Quer mais indicadores? Veja lá se quer mais indicadores.

  4. Concordo com toda a análise. Precisamos de mais gente, académicos e outros, que ponham o dedo na ferida e desmontem sem complexos as cabalas (sim, cabalas) que estão montadas.
    Acrescento, falando num tema tão querido dos “cheganos”, que a ação subversiva dos “mérdia” e da “justiça” só pode ser possível graças à verdadeira corrupção encapotada da qual ninguém fala. Sejam portas abertas nas carreiras, sejam recompensas em géneros ou numerário (cargos docentes em universidades, administração de empresas recentemente privatizadas, etc, etc).
    Seria interessante fazer um levantamento dos rendimentos de alguns atores do recente “golpe de estado”. Falo de juízes, procuradores, jornalistas, sindicalistas, bastonários e outros que criaram o clima propício à percepção da ideia de “crise sistémica” que nos trouxe a este resultado.
    A ingerência de países terceiros e corporações transnacionais é crucial e já não pode ser ignorada. Por isso, limitarmo-nos a discutir política nacional esquecendo o contexto, e interferência de interesses globais é um exercício inutil.
    Não me vou alongar mais, embora tenha muito a acrescentar. Apenas discordo da ideia final que, apesar de considerar muito justa, creio que seria completamente impraticável porque toda a gente iria reivindicar o seu quinhão e podemos calcular o resultado. Basta ver as consequências dos aumentos na PJ.
    Não esqueçamos, também, os gastos estraordinários causados pela pandemia (vacinas, indemnizações, apoios, etc) relutante e residualmente comparticipados pela rainha Van der Leyen.
    Apesar disso, e num contexto de guerra e recessão económica europeia, as (rápidas) melhorias, nítidas, em termos económicos e financeiros (dívida, défice, etc), até alguns (tímidos) aumentos de rendimento, ou reduções de impostos foram completamente encobertos e esquecidos.
    Na volta, ainda vão descobrir outra “bancarrota”.
    Esperemos para ver…

Leave a Reply to J. CarvalhoCancel reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.