Quase 50 anos de 25 de abril versus quase 50 deputados do Chega!

(Por João Paulo Santos, in Facebook, 11/03/2024)


Os partidos democráticos e fundadores da democracia só podem combater o populismo de André Ventura e reverter o crescimento exponencial do seu partido se fizerem uma introspeção e deixarem de apontar o dedo a André Ventura, ao Chega e aos seus eleitores.

Não foi o 25 de Abril que falhou, quem falhou foi uma série de políticos que sobrepuseram os seus interesses pessoais aos interesses do país e não olharam a meios para atingir os fins.

Desde logo, o 25 de Abril deu-nos a liberdade e não a libertinagem e a própria liberdade tem limites porque, como se costuma dizer, a nossa liberdade termina onde começa a dos outros. E uma das principais conquistas de Abril foi a liberdade de pensamento e de expressão.

Essa liberdade, que nos foi concedida pelo 25 de Abril e que demorou imenso a conquistar com o sacrifício de muitos, alguns dos quais pagaram com a própria vida a sua defesa, no que aos direitos políticos diz respeito, teve como objetivo principal permitir aos responsáveis políticos defenderem livremente as suas ideias e as suas propostas, sem qualquer censura e/ou perseguição.

Nos primeiros anos pós 25 de Abril, assim sucedeu e tivemos políticos, independentemente das suas convicções, que foram verdadeiros estadistas, tais como, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro e Freitas do Amaral, e a ordem é arbitrária.

Esses políticos sempre agiram, de acordo com as suas convicções, em prol do bem comum, ou seja, em prol do bem-estar e da qualidade de vida da população.

No entanto, a partir de determinada altura, a política passou a ser apelativa para muitos que viram nela uma forma fácil de ganhar dinheiro, sem grande esforço e trabalho.

Assim, a política deixou de ser a nobre arte de governar o país e as autarquias e passou a ser a nobre arte de alguns se governarem. Daí o crescimento da corrupção e do nepotismo.

Na verdade, pessoas sem escrúpulos, sem vergonha, sem carácter, sem princípios e sem valores começaram a espalhar-se, qual gangrena, por vários órgãos do poder.

Por isso, o descrédito na política e na generalidade dos políticos passou a ser uma realidade para grande parte da população, que se afastou, por completo, o que levou a grandes índices de abstenção nos diversos actos eleitorais.

Todos sabemos que o descontentamento crescente da população propicia o caldo fértil para alguns navegarem a onda do populismo.

André Ventura, é um desses populistas, que fez parte do PSD por largos anos e que foi candidato desse partido em atos eleitorais, mas que fala como se nunca tivesse feito parte do sistema e diz aquilo que a generalidade da população quer ouvir.

André Ventura promete tudo e mais alguma coisa, porque sabe que nunca será confrontado com a inexequibilidade das suas propostas. É possível prometer tudo a todos, mas não é possível cumprir essas promessas porque as receitas do Orçamento do Estado são limitadas.

André Ventura tem consciência disso mesmo, mas como sabe que o seu eleitorado só se aperceberia da inexequibilidade das suas propostas se um dia o Chega fosse Governo e tivesse que passar das palavras à ação, vai prometendo tudo e mais alguma coisa a todos e vai prometendo aumentar a despesa pública e, simultaneamente, diminuir as receitas públicas, visto que promete descer os impostos.

A generalidade do eleitorado do Chega não se apercebe da incongruência e da impossibilidade prática de aumentar substancialmente a despesa pública e, em simultâneo, descer significativamente os impostos.

Seria o mesmo que achar possível uma família gastar muito mais, ou seja, fazer muito mais despesas, mas diminuindo consideravelmente o seu rendimento. Se isso sucedesse, essa família, gastando muito mais com um muito menor rendimento, ficaria, obviamente, endividada.

Mas André Ventura, para além de prometer tudo a todos, também é aquele que defende uma coisa e o seu contrário. Por exemplo, numa primeira fase, defendeu o fim do SNS e da escola pública, mas, numa segunda fase, já se arvora no grande defensor do SNS e da escola pública.

Portanto, André Ventura tem um discurso que vai adaptando, sem qualquer pingo de vergonha, às circunstâncias e aos destinatários, em função do que estes querem ouvir, surfando a onda do descontentamento e do populismo.

É isto que tem de ser denunciado pelos partidos democráticos, nomeadamente, aqueles que estiveram na génese da democracia, e não o apontar o dedo ao eleitorado do Chega, porque, como afirmou, e muito bem, Pedro Nuno Santos, não há um milhão de portugueses xenófobos e racistas.

Na minha opinião, a generalidade dos eleitores do Chega são pessoas descontentes com as práticas inaceitáveis acima enunciadas, que são transversais a todos os partidos. Daí a necessidade de esses partidos fazerem uma introspeção para analisar o que está errado e corrigirem-no, em vez de optarem por apontar o dedo ao eleitorado do Chega, acusando-o de tudo e mais alguma coisa.Na verdade, essa atuação só irá fazer crescer, ainda mais, o descontentamento e, consequentemente, a base eleitoral do Chega. Como diz o provérbio: “Apanham-se mais moscas com mel do que com fel”.

Os partidos democráticos, nomeadamente, aqueles que estiveram na génese da democracia não podem ter assuntos tabus e não podem deixar de abordar certas temáticas, por mais inconvenientes que elas possam ser. Por exemplo: defender o controlo da imigração, não é ser xenófobo. Conceder mais direitos aos nacionais do que aos imigrantes não é ser xenófobo. Não pactuar com a ideologia de género, não é ser homofóbico. Defender os interesses nacionais e não ser totalmente subserviente a Bruxelas não é ser extremista e radical. Defender uma Europa forte e unida e não subserviente aos interesses políticos, económicos e militares dos EUA, não é ser pró-russo e antieuropeísta.

Há um longo trabalho que deve ser feito para reconquistar os insatisfeitos, os indignados e os revoltados, em defesa da democracia e do sistema democrático, e isso faz-se no plano das ideias e não no plano dos ataques pessoais. Faz-se demonstrando que, a nível das propostas e da sua exequibilidade, André Ventura tem uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma; não se faz apelidando-o de fascista, xenófobo e racista.


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4 pensamentos sobre “Quase 50 anos de 25 de abril versus quase 50 deputados do Chega!

  1. Dos 4 políticos escolhidos como estadistas, Mário Só ares está a mais. Sá Carneiro, morreu novo, na política bem entendido, logo é ‘herói’. Com Cunhal e Freitas concordo. Declaração de interferisses: não sou comunista, nem nunca votei PCP. Burro velho não aprende línguas. É mais fácil o tal camelo passar pelo buraco da agulha, que o centrão político emendar a mão.

  2. Será que não há mesmo um milhão de portugueses xenófobos e racistas? Gostava de ter toda essa confiança na humanidade.
    Mas quem vive na rua, não quer dizer que eu seja sem abrigo, não pode ter desses lirismos e ilusões.
    Os grunhos teem se ouvido todos os dias, falam contra os ciganos, falam contra esses malandros que andam ai a passear se de turbante, os brasileiros que são todos pastores de IURD e as brasileiras que são todas umas putas.
    Ouvimos as atoardas contra quem recebe rendimento mínimo ou subsidio de desemprego.
    As asneiras ouvidas nos últimos tempos permitiram me ir fazendo a minha própria sondagem e a verdade é que a votação no Chega só me surpreendeu por defeito.
    Claro que quem é político, que tem ainda ambições políticas tem de pôr paninhos quentes. Não pode admitir que temos mesmo um milhão de portugueses xenófobos, racistas e invejosos. Invejosos sim, invejosos de quem recebe a miséria do rendimento mínimo, invejosos do cigano que bebe uns cerveja na esplanada de um café.
    Mas a verdade é que esta gente sempre lá esteve, nós bandos de skinheads que nos anos 90 espancavam negros, nos desgraçados estudantes universitários dos Palops que muitas vezes só conseguiam alugar uma parte de casa nas casas de estrangeiros radicados em Portugal. Muitas vezes vindos de países considerados muito mais racistas que o nosso como a Alemanha.
    Os votantes no Chega estavam nos construtores civis que garantiam que com eles poderíamos estar descansados. Naquele prédio nunca se venderia uma casa a negros e indianos.
    Os votantes no Chega estavam num povo que sempre normalizou o racismo desde o tempo das Descobertas. Por isso fomos durante séculos líderes do tráfico negreiro.
    Os votantes no Chega estavam em todos os que esqueceram a miseria passada e decidiram culpar os imigrantes pelas dificuldades que têm hoje que em nada se comparam a miseria que tinham quando isto era uma miséria tão grande que nem o Diabo queria emigrar para cá.
    Se falhamos em tirar da cabeça das pessoas essa mentalidade podre? Claro que falhamos. Mas essa mentalidade podre sempre lá esteve. Só estava a espera de uma oportunidade e ela surgiu no discurso histrionico e meio tresloucado do Ventura. Que se limitou a repetir, com mais ou menos nuances, todas as atoardas que dizemos nas tascas. Especialmente após a quarta cerveja media.
    Não é a por panos quentes que vamos lá. Era mesmo a ilegalizar essa força das trevas enquanto foi possível porque a nossa constituição assim o permite.
    Ventura apelou ao racismo, a discriminação e a violência com as letras todas. Ou acham que os ciganos seriam levados pacificamente qual rebanho de ovelhas para o “confinamento especial” onde Ventura os queria meter a pretexto que não cumpriam as restrições covideiras?
    Militantes do partido fizeram saudações nazis e muitos definiram se como fascistas.
    Foi a falta de coragem que nos levou até aqui.
    A falta de coragem e o cálculo porque partidos como o PSD viram que essa força das trevas era a única maneira de voltarem ao poder em tempos próximos. Porque efectivamente não há maneira de pôr muita gente a acreditar no milagre da multiplicação prometido pela Iniciativa Liberal. E ninguém se esqueceu do que passou nos anos do ir além da troika.
    Restava mesmo apelar aos mais baixos instintos e isso foi conseguido. Sempre disse que um voto no Chega era um voto no PSD porque passadas as eleições rapidamente dariam o dito pelo não dito pois que o objectivo da criação do Chega sempre foi esse.
    Quem votou Chega vai ter o que não queria. Os troikanos de volta em toda a sua inteireza.
    Quanto aos quatro políticos citados, lamento discordar mas Soares era um catavento e o Carneiro tinha qualquer coisinha de Ventura.
    Os outros eram gente de “tomates” e o Freitas subiu muito na minha consideração pela coragem de ver quase no fim da vida que muito do que defendera era latrocinio puro. Como quando o seu partido embarcou na nefasta Guerra do Iraque.
    Quando teve a coragem de comparar Bush com Hitler e dizer que o único conflito que havia na Palestina era “um povo a destruir outro porque acreditam, porque criminosamente acreditam, que aquela terra lhes foi dada por Deus”.
    Não sei o que Freitas teria a dizer sobre isto se ainda fosse vivo e “com o tino todo” mas não o estou a ver a por paninhos quentes nos cheganos.
    E não tendo eu ambicoes políticas não ponho pano quente nenhum. Temos mesmo um milhão de portugueses xenófobos e racistas e provavelmente até temos mais. É lidar.

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