Davos: Fórum do entretenimento mundial!

(Hugo Dionísio, in Facebook, 19/01/2023)

É de rebentar a rir até não podermos mais! Já passei a fase do choro, da raiva e da depressão. Desta feita, a estratégia a utilizar só pode ser a da ridicularização.

Não sei o que é mais ridículo, se o tempo de antena que a imprensa corporativa do Atlântico Norte dá ao Fórum Económico Mundial – que de “mundial” tem muito pouco, não passando de uma feira das vaidades da vassalagem mais rica do império -, ou o facto de desfilarem notícias, comentadores da ordem e eloquentes conclusões sobre as “preocupações” e “soluções” manifestadas pela aristocracia bilionária e seus capatazes. Ao mesmo tempo, tentam fazer-nos acreditar que uma gente que vive absolutamente à margem das dificuldades do comum dos mortais e da esmagadora maioria da Humanidade, quer, de facto, salvar o mundo. É de doidos!

Ouvir o milionário John Kerry, do clã Clinton, ex-candidato a presidente dizer “é o que somos”, a propósito de poderem ridicularizar o facto de gente como ele querer um mundo melhor, salvar o planeta, entre outros objectivos nada consonantes com a sua prática política; ouvir Mário Centeno (ex-chefe do Eurogrupo) dizer qualquer coisa como “afinal isto (referindo-se à economia) pode não correr assim tão mal”; ouvir o mentor, Schwab, dizer que Davos tem “um espírito positivo”… ; é melhor do que assistir aos melhores filmes dos Monty Pyton. É uma comédia sem fim, regada com vinhos e whisky – será que podem comer caviar? – que custam mais do que um trabalhador médio ganha num ano.

Uma das questões fundamentais – jamais colocadas pelos mesmos órgãos que nos querem fazer acreditar nos nobres objetivos de Davos -, consiste em perguntar: “Afinal, para que Humanidade se dirigem as reflexões desta gente”? É que, partindo dos temas que ocupam a agenda da edição deste ano e da lista de “convidados” e principais oradores, imediatamente percebemos que a “Humanidade” a que se dirigem, não é a mesma que povoa este imenso planeta, mas apenas uma minúscula parcela.

O conflito no leste europeu dominou a maioria das intervenções. Ora, acreditar que, para a maioria da Humanidade, esse conflito tem importância, é viver numa bolha fechada e absolutamente opaca. Uma rápida busca pelos principais órgãos de comunicação dos países do Sul Global (85% da humanidade) e todos percebemos que, o conflito em causa, não apenas não está nas prioridades do dia, como nem sequer nas do ano. Simplesmente, quase não se fala do assunto e quando se fala, nem sempre o fazem em termos que agradem à elite que domina as nossas vidas e que nos condena, todos os dias, a uma vida pior.

Os “iluminados” que falam em Davos, falam por quem, afinal? Em jactos pessoais ou institucionais, que poluem numa viagem o que um automóvel de um trabalhador polui em anos, a Davos, vão os representantes, capatazes (CEO, CFO, CTO…) daquela percentagem de seres “excepcionais” que se apropriaram de 63% da riqueza produzida desde 2000, em plena pandemia de Covid, enquanto os salários dos trabalhadores europeus estão estagnados há 20 anos e os dos americanos há 50. E é a Oxfam, financiada em parte pela NED (o mesmo é dizer pela CIA), que o vem dizer, no seu último relatório. É também a mesma Oxfam que vem dizer que 50% da riqueza está concentrada nas mãos desse 1% da população. Os tais que adoram Davos.

E o autismo é de tal ordem que temos de ouvir a anglo-germânica Ursula Von der Lata gabar-se de que a UE “aplicou as mais fortes sanções, fazendo o regime de Moscovo enfrentar 10 anos de regressão económica e falta de tecnologias críticas na sua indústria”. Mas, afinal, de que mundo fala ela? Estará a Europa – que ela governa com uma procuração passada por Washington -, em condições de se gabar de tal coisa? Estará a situação económica da Europa melhor do que a do país que ela acusa de ter pela frente “10 anos de retrocesso económico”? Esse país que, apesar das piores sanções da história do imperialismo, teve apenas uma quebra de 2,1% do PIB e uma inflação de 11%, prevendo-se já este ano crescimento e uma inflação de 3 a 4%. Estará a UE em condições de poder regozijar-se com tal realidade? Afinal, como está a economia da UE?

Não estará a indústria da UE, por causa das sanções arquitectadas pelos seus mestres, a enfrentar insolvências e deslocalizações? Não está a Alemanha a colocar empresas em lay-off para poder fazer face à falta de gás e aos elevadíssimos preços que, por causa das suas políticas, triplicaram? Não estará a inflação na UE a galopar, o desemprego a aumentar e a economia a retrair-se? Não estará isto tudo a acontecer quando a UE sanciona, ao invés de ser sancionada? Não representará, esta realidade, um falhanço total das ações da Comissão Europeia na proteção do seu espaço? Sendo o país mais sancionado da História, não poderá o maior país do mundo regozijar-se, por oposição, não apenas pela capacidade de resistir ao maior ataque económico e militar desde a Segunda Guerra Mundial, mas, e apesar disso, por conseguir diversificar mercados, fornecedores e até aumentar a produção em áreas chave? O que diz isto, de uns e outros?

Poderá um europeu médio, nos dias de hoje, dizer que nada mudou na sua vida, nos últimos anos, como nós vimos acontecer com transeuntes entrevistados nas ruas de Moscovo, no programa de Tucker Carlson? Deveria dar que pensar. E o que diz isto de Ursula e das suas gentes? Do seu autismo, arrogância, autocracia e falso triunfalismo?

Diz Úrsula que “existem nações a observar com muita atenção o conflito” e que “não se pode permitir que achem que podem invadir quando quiserem”, e por isso – qual louca a lembrar o papel de Jack Nicholson em “Voando sobre um ninho de cucos” -, “a Rússia tem de ser punida”! Afinal, de que nações fala ela? Não serão nações que, ao contrário das dela, nunca invadiram qualquer país, pelo menos nos últimos séculos? E como se arroga ela de um qualquer direito universal para punir nações inteiras? Afinal, quais são as nações que invadem a seu bel-prazer, senão as que a suportam? Eis o caricato da questão: é que ela parece mesmo acreditar nas suas próprias mentiras! E isso é trágico, porque por muito louca que a achemos, ela, uma corrupta empedernida, contra a qual estão a decorrer investigações conduzidas pelo próprio Tribunal de Contas europeu, manda nas nossas vidas, fazendo-o sem qualquer escrutínio ou avaliação!

Ficasse o discurso por aqui e já não seria mau. Mas quando vamos para o dualismo maniqueísta das “democracias” contra as “autocracias”, está tudo arrumado.  Eu gostaria de saber qual foi o processo de consulta utilizado para que os povos europeus se pronunciassem sobre a necessidade de embarcarmos nesta guerra – sim, porque somos parte desta guerra –, e nos sujeitarmos ao ricochete das sanções, trocando uma dependência de gás barato, por uma de gás três vezes mais caro e de pior qualidade. Alguém colocou esta questão aos povos? Será que os europeus pretendiam pagar mais caras as suas casas, energia, alimentação e outros bens essenciais, como resultado da guerra económica movida? Ou, ao contrário, o que é veiculado na Imprensa corporativa do Atlântico Norte, não será que isto tudo acontece “por causa da guerra”, nunca expondo quais os mecanismos através dos quais a “guerra” nos afecta?

Será democrático, uma elite tomar todas as decisões, para mais uma elite não eleita, baseando-se na manipulação que faz através de órgãos de comunicação totalmente arregimentados, incapazes de uma mensagem dissonante e, mesmo quando a apresentam, logo a enquadram com o necessário comentador que tem a função de “explicar” ao público espectador como a enquadrar na narrativa oficial fornecida?

Como podem admirar-se, os poderes instituídos, da enorme crise que os grupos económicos que exploram a actividade de imprensa atravessam? Em Portugal, desde 2017, os principais grupos tiveram 191 milhões de euros de prejuízos. Porque será?

Imaginem um qualquer trabalhador, ou estudante, abaixo dos 50 anos, com estudos, capacidade de pesquisa de informação, conhecimentos informáticos suficientes para contornar os condicionamentos do Google e outros motores de busca da Califórnia, e com uma rede de amigos, de todo o mundo, com quem se relaciona em plataformas de comunicação. Essa pessoa, habituada a receber e a procurar e pesquisar a informação que pretende, ao contrário do espectador tradicional acima dos 50 que se habituou apenas a receber, seja através da TV, da imprensa escrita ou das sugestões do Google e plataformas sociais da Califórnia – que funcionam num circuito fechado em conexão com as primeiras -, olha para notícias como “Moscovo bombardeia central nuclear de Zaporizhzhia”, isto depois de os mesmos terem noticiado que essas mesmas forças tinham controlado a central logo nos primeiros dias da operação, ou “Moscovo pode ter rebentado o Nord Stream”.

Se formos para outras áreas, somos confrontados com contradições como as que se têm visto aquando das manifestações violentas no Irão, que os porta-vozes atlantistas apoiam sem excepção, mas que, quando as manifestações violentas acontecem na Europa, nos EUA ou em países nos quais perpetram golpes institucionais, como o Peru ou a Bolívia, nesses casos condenam a violência, apelando à “ordem democrática”. Isto já para não falar do apagamento da Palestina, cuja repressão e genocídio acontece há mais de 70 anos, ou nas guerras de agressão contra inúmeras nações, cujas consequências devastadoras para as respectivas populações nunca são apontadas como “crimes de guerra”.

Perante tanto brincar com a nossa inteligência e tão descarada hipocrisia, não admira a crescente desconfiança na imprensa corporativa do Atlântico Norte e a sua identificação como braço armado comunicacional da elite autocrática e neo-feudal da classe rentista que se formou com a financeirização da atividade económica mundial.

Mas o circo de Davos significa muito mais. Quem olhar atentamente, não deixa de identificar a desgraça da vida de muitos que aí desfilam. Fernando Haddad, ministro de Lula, disse em Davos, numa mensagem muito pouco velada, aos seus interlocutores a norte da América, que o Brasil pretende adiar a conferência dos BRICS de 2024 para 2025, pois, segundo as suas palavras, como têm de organizar o G20, não querem fazer coincidir dois eventos desta magnitude num mesmo ano. Esta posição levantou suspeitas, sobretudo entre alguns parceiros BRICS, após o que sucedeu em 8 de Janeiro no Brasil e após o mais que certo envolvimento das agências de segurança imperiais na organização do sucedido e do seu financiamento. Para muitos, o 8 de Janeiro, foi um sério aviso a Lula: “ou te alinhas”; ou “descarrilas de vez”. Pouco dado a comédias como as de Davos, a Casa Branca passa as suas mensagens através de actos sempre caracterizados por enorme contundência: “é só estalar os dedos e já foste”!

Esta acção de Haddad mostra bem o que é Davos, realmente. Um desfile de prestação de juramentos de vassalagem, mesmo que envergonhados e habilidosos, aos poderes de facto, em oposição frontal aos crescentes espaços de verdadeira cooperação internacional, despidos do tradicional dividir para reinar do imperialismo ocidental, como é o caso dos BRICS. Como em qualquer cerimónia de juramento real, há sempre que contar com os tradicionais e imprescindíveis bobos da corte. Afinal, quem, no meio de tanta miséria, nos faria rir, senão as Ursulas deste mundo? Não obstante, esta ação de Haddad, não deixa de nos trazer uma certa sensação de negritude… E não é de humor negro! É que a sujeição de muitos quadros do PT à doutrina identitária neoliberal – que celebra a liberdade individual enquanto oprime a colectiva, o que, por sua vez, impede a primeira -, não tem nada de engraçado. É uma tragédia para a América Latina.

Daí que a grande ironia que Davos nos traz, e que quem o noticia é incapaz de nos contar, é que, em Davos, programa-se, não a “salvação do mundo” e muito menos a sua libertação, mas a sua continuada e renovada submissão aos interesses que até aqui o trouxeram.

Davos é como um qualquer circo… Como em qualquer circo, no meio de todo o espectáculo, é na parte dos palhaços que mais rimos, e é também nessa parte que melhor percebemos o que o circo é! Entretenimento!

O entretenimento esconde as condições nefastas em que o circo opera! E quem melhor do que os palhaços, para o disfarçar perante as crianças?

Eis, pois, Davos no seu esplendor!

Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

O ‘mundo fragmentado’ caminha como um sonâmbulo para a Terceira Guerra Mundial

(Por Pepe Escobar, in Presstv.ir, 18/01/2023, Trad. Estátua de Sal)

As autodenominadas “elites” de Davos estão com medo. Tanto medo. Nas reuniões do Fórum Económico Mundial desta semana, o seu mentor,  Klaus Schwab – exibindo a sua marca registada como o vilão de Bond – reclamou repetidamente como um imperativo categórico: precisamos de  “Cooperação num Mundo Fragmentado” .

Embora o seu diagnóstico da “fragmentação mais crítica” em que o mundo está agora atolado seja previsivelmente sombrio, Herr Schwab afirma que “o espírito de Davos é positivo” e, no final, todos poderemos viver felizes numa “economia verde sustentável”.

O que Davos tem feito bem, esta semana, tem sido inundar a opinião pública com novos mantras. Há “O Novo Sistema” que, considerando o fracasso abjeto do tão alardeado Great Reset, agora parece uma questão de atualizar à pressa o atual – agitado – sistema operacional.

Davos precisa de novo hardware, novas técnicas de programação e até mesmo de um novo vírus. No entanto, no momento, tudo o que está disponível é uma “policrise”: ou, na linguagem de Davos, um “aglomerado de riscos globais relacionados com efeitos compostos”.

Em bom português: uma tempestade perfeita.

Os chatos insuportáveis daquela ilha “Dividir para Reinar” do norte da Europa, acabam de descobrir que a “geopolítica”, infelizmente, nunca entrou realmente no túnel do “fim da história”: para seu espanto, ela está agora centrada – novamente – em toda a Heartland, como tem sido durante a maior parte da história registada.

Eles reclamam da geopolítica “ameaçadora”, ou seja da Rússia-China, com o Irão como aliado.

Mas a cereja no topo do bolo é a arrogância/estupidez, na verdade entregando o jogo: a cidade de Londres e seus vassalos estão lívidos porque o “mundo que Davos fez” se está a desmoronar rapidamente.

Davos não “criou” nenhum mundo além de seu próprio simulacro.

Davos nunca acertou em nada, porque as suas “elites” estavam sempre ocupadas elogiando o Império do Caos e as suas “aventuras” letais pelo Sul Global.

Davos não apenas falhou em prever todas as grandes crises económicas recentes, mas acima de tudo a atual “tempestade perfeita”, ligada à desindustrialização gerada pelo neoliberalismo do Ocidente coletivo.

E, claro, Davos não tem noção do verdadeiro Reset que está a ocorrer em direção à multipolaridade.

Os autodenominados fazedores de opinião estão ocupados “redescobrindo” que A Montanha Mágica, de Thomas Mann, foi recriada em Davos há quase um século – “tendo como pano de fundo uma doença mortal e uma iminente guerra mundial”.

Bem, hoje em dia a “doença” – uma perfeita arma biológica – não é propriamente mortal, em si mesma. E a “iminente Guerra Mundial” está de facto sendo ativamente encorajada por uma cabala de neoconservadores e neoliberais straussianos dos EUA: um deep state não eleito, inexplicável e bipartidário, nem mesmo sujeito à ideologia. O centenário criminoso de guerra, Henry Kissinger ainda não entendeu isso.

Um painel de Davos sobre desglobalização estava repleto de não aderentes, mas pelo menos uma dose de realidade foi fornecida pelo ministro das Relações Exteriores húngaro, Peter Szijjarto.

Quanto ao vice-primeiro-ministro da China, Liu He, com seu vasto conhecimento de finanças, ciência e tecnologia, ele foi muito útil para estabelecer as cinco principais diretrizes de Pequim para o futuro próximo – ignorando a costumeira sinofobia imperial.

A China concentrar-se-á na expansão da procura interna; manterá as cadeias industriais e de abastecimento “suaves”; aposta no “desenvolvimento saudável do setor privado”; aprofundará a reforma das empresas estatais; e terá as portas abertas a  “investimentos estrangeiros atraentes”.

Resistência russa, precipício americano

Emmanuel Todd não esteve em Davos. Mas foi o antropólogo, historiador, demógrafo e analista geopolítico francês que acabou por arruinar todas as esperanças do Ocidente colectivo nestes últimos dias com um objecto antropológico fascinante: uma entrevista baseada na realidade.

Todd falou com o Le Figaro – o jornal preferido do establishment francês e da alta burguesia. A entrevista foi publicada na última sexta-feira na página 22, espremida entre proverbiais discursos russofóbicos e com uma menção extremamente breve na parte inferior da primeira página. As pessoas, realmente, tiveram que porfiar para a encontrar.   

Todd brincou com o facto de ter a reputação – absurda – de “destruidor rebelde” em França, enquanto no Japão é respeitado, tem destaque nos grandes media, e os seus livros são publicados com grande sucesso, inclusive o mais recente (mais de 100.000 exemplares vendidos): “A Terceira Guerra Mundial Já Começou”.

Significativamente, este best-seller japonês não existe em francês, considerando que toda a indústria editorial baseada em Paris segue a linha da UE / NATO quanto à guerra na Ucrânia.

O facto de Todd acertar em várias coisas é um pequeno milagre no cenário intelectual europeu atual, abissalmente míope (existem outros analistas especialmente na Itália e na Alemanha, mas têm muito menos peso do que Todd).

Então, aqui estão, de forma concisa, os maiores sucessos de Todd:

– Uma nova Guerra Mundial está em andamento: “Passando de uma guerra territorial limitada para um choque económico global, entre o Ocidente coletivo de um lado e a Rússia aliada à China do outro, isso se tornou uma Guerra Mundial”.

– O Kremlin, diz Todd, cometeu um erro ao calcular que uma sociedade ucraniana em decomposição entraria em colapso imediatamente. É claro que ele não entra em detalhes sobre como a Ucrânia foi armada ao máximo pela aliança militar da NATO.

– Todd está certo quando enfatiza como a Alemanha e a França se tornaram parceiros menores na NATO e não estavam cientes do que estava sendo planeado militarmente na Ucrânia: “Eles não sabiam que os americanos, britânicos e polacos poderiam permitir que a Ucrânia lutasse numa guerra prolongada. O eixo fundamental da NATO agora é Washington-Londres-Varsóvia-Kiev.”

– A principal revelação de Todd é demolidora: “A resistência da economia da Rússia está a levar o sistema imperial americano ao precipício. Ninguém previu que a economia russa resistiria em frente ao ´poder econômico’ da NATO”.

– Consequentemente, “os controles monetários e financeiros americanos sobre o mundo podem entrar em colapso e, com eles, acabar a possibilidade de os EUA financiarem de graça seu enorme déficit comercial”.

– E é por isso que “estamos numa guerra sem fim, num confronto onde a conclusão é o colapso de um ou de outro”.

– Sobre a China, a visão de Todd pode soar como uma versão mais combativa de Liu He em Davos: “Esse é o dilema fundamental da economia americana: ela não pode enfrentar a concorrência chinesa sem importar mão-de-obra chinesa qualificada.”

– Quanto à economia russa, “ela aceita as regras do mercado, mas com um papel importante para o Estado, e mantém a flexibilidade de formar engenheiros que permitem adaptações, industriais e militares”.

– E isso nos remete, uma vez mais, para a globalização, de uma forma que as mesas de Davos foram incapazes de entender: “Deslocalizámos tanto a nossa atividade industrial que não sabemos se nossa produção de guerra poderá ser sustentada”.

– Numa interpretação mais erudita dessa falácia do “choque de civilizações”, Todd aposta no soft power e chega a uma conclusão surpreendente: “Em 75% do planeta, a organização da paternidade era patrilinear, e é por isso que podemos identificar uma forte compreensão da posição russa. Para o coletivo não-ocidental, a Rússia representa e afirma um conservadorismo moral tranquilizador”.

– Portanto, o que Moscovo conseguiu foi “reposicionar-se como o arquétipo de uma grande potência, não apenas “anticolonialista”, mas também patrilinear e conservadora em termos de costumes tradicionais”.

Com base em tudo o que foi dito acima, Todd destrói o mito vendido pelas “elites” da UE/NATO – incluindo Davos – de que a Rússia está “isolada”, enfatizando como os votos na ONU e o sentimento geral em todo o Sul Global caracterizam a guerra, “descrita pela comunicação social mainstream como um conflito entre valores políticos, mas de facto, num nível mais profundo, como um conflito de valores antropológicos”.  

Entre a luz e a escuridão

Será que a Rússia – ao lado do verdadeiro Quad, como eu os defini (com China, Índia e Irão) – está prevalecendo nas apostas antropológicas?  

O verdadeiro Quad tem tudo para florescer num novo foco intercultural de esperança num “mundo fragmentado”.

Mistura a China confucionista (não dualista, sem divindade transcendental, mas com o Tao fluindo por todo o lado) com a Rússia (cristã ortodoxa, reverenciando a divina Sophia); com a India politeísta (roda do renascimento, lei do carma); e com o Irão xiita (o Islã precedido pelo zoroastrismo, a eterna batalha cósmica entre a Luz e as Trevas).

Essa unidade na diversidade é certamente mais atraente e edificante do que o eixo da Guerra Eterna.

O mundo aprenderá com isso? Ou, para citar Hegel – “o que aprendemos com a história é que ninguém aprende com a história” –, estaremos irremediavelmente condenados?

Pepe Escobar é um veterano jornalista, autor e analista geopolítico independente focado na Eurásia.

(As opiniões expressas neste artigo são do próprio autor e não refletem necessariamente as da Press TV.)

Fonte aqui


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Artistas e Populistas — Deuses e Vigaristas

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/01/2023)

A propósito de um cartaz e das atitudes de duas estrelas da sociedade. Passei por um cartaz onde a fotografia de um figurão que há uns tempos defendia nas Tvs os negócios sujos da bola e as sujas “vivências” dos agentes da bola, tudo gente séria, como se sabe. Clamava o dito no cartaz o grito de guerra da sua claque (agora reunida sob a respeitável denominação de partido político): Vergonha! O dito Ventura, em primeiro plano, anunciava com cara séria que ele, à frente da sua milícia, ia fazer uma limpeza no regime político! Bastava entregar-lhe o voto, ele fornecia as vassouras (e os jagunços, presume-se).

Ventura, o antigo comentador da bola e dos negócios do ramo, um negócio em que devem ser poucos os empresários e comissionistas que não sejam arguidos em processos que vão da prostituição à lavagem de dinheiro, da participação em negócio à falsificação de documentos, de pagamentos por debaixo das mesas à extorsão e à agressão física, em que um dos empreendedores de maior sucesso é conhecido no meio pelo «Macaco», o futuro almeida Ventura, saído do impoluto mundo da bola, apresentava-se à sociedade como candidato a “almeida da Pátria”! A sociedade, ao que parece, toma com complacência esta atitude gozo e desfaçatez. Os mais críticos, olhando para o cartaz pensarão que se trata do anúncio de um Motel, ou a um filme da Mafia, agora que um dos principais capos foi preso na Sicília.

Não é o dito Ventura e o seu desplante que me chocam, mas sim a complacência da sociedade para com um vendedor de banha da cobra, um dos muitos viciosos, falsos defensores da virtude para os outros que andam por aí à babugem (dos dicionários: espuma produzida pela água que se agita ou que está poluída). A mesma sociedade que se tem encarniçado contra o futebolista Ronaldo e a comunicadora Cristina Ferreira porque um decidiu ir terminar a sua milionária carreira na Arábia Saudita e se fez fotografar ao lado de um RollsRoyce oferecido pela sua companheira, a outra porque realizou um espetáculo de conversa num grande auditório e contou um episódio tomado como premonitório do seu êxito ao encontrar uma imagem da Senhora de Fátima dentro de uns sapatos de alta gama admite um Ventura como um santo franciscano e não como uma tainha, o peixe que se alimenta dos dejetos saídos dos esgotos.

Numa sociedade limpa (aproveitando o slogan dos Chegas) a proposta do tal Ventura que se propõe limpar Portugal e as atitudes das duas estrelas do espetáculo deviam motivar reações contrárias às que de facto provocaram, porque elas são radicalmente distintas. A do chefe do Chega é do mais básico populismo, demagogia em bruto: Vão por mim que não vos engano! Ele é o que vende o que não tem. O que me impressiona não são os tipos que vendem cabritos sem terem cabras, mas que haja tanta gente que compre os tais cabritos que não existem!

Quanto ao futebolista Ronaldo e à vedeta da TV Cristina Ferreira, criticados, um por ter ido para a Arábia Saudita terminar a carreira com um carregamento de petrodólares (o que Calouste Gulbenkian fez com muito maior proveito) e a outra pela invocação de uma ocorrência de contornos miraculosos com o aparecimento de uma imagem da Senhora de Fátima dentro de um sapato (o que originou a construção de uma cidade e a credenciação de eminentes figuras do pensamento, incluindo a do atual presidente da República). Ambos, Ronaldo e Cristina Ferreira, pertencem ao mundo dos que se apresentam à sociedade como são, a vender o melhor que têm: os seus talentos. Nada prometem, mas ambos transmitem a mensagem de que é possível escapar ao destino marcado pela origem. Compreendo e respeito as atitudes de ambos. Todas as sociedades cultivam figuras simbólicas de êxito, que por sua vez exibem perante as massas os objetos que representam as suas vitórias, sejam báculos, coroas, peles, sejam agora automóveis (os RollsRoyce de Ronaldo) ou sapatos com solas vermelhas (o que as perdizes também usam). Os gregos divinizavam estas personagens que enfrentavam as leis e os costumes, que violavam interditos e saíam como vencedores dessa luta: atribuíam-lhes a categoria de semideuses.

O que Ronaldo e Cristina Ferreira estão a dizer aos comuns é que podem aspirar ao estatuto de semideuses, se os candidatos correrem os riscos inerentes, se esforçarem como eles e se tiverem a sua sorte. Eles correram os riscos e venceram. Tenho um sincero respeito pelos que à custa do seu talento conseguem ter sucesso. Cristina Ferreira apresenta uma particularidade reveladora da sua perspicácia. Ela limitou-se (o que não é pouco) a recuperar o episódio da medalha da santa no sapato a parábola da moeda perdida, relatada no Novo Testamento da Bíblia: “Qual é a mulher que, tendo dez dracmas e perdendo uma, não acende a candeia, não varre a casa e não a procura diligentemente até achá-la? Quando a tiver achado, reúne as suas amigas e vizinhas, dizendo: Regozijai-vos comigo, porque achei a dracma que eu tinha perdido.” (Lucas)

Em «Apocalíticos e Integrados», Umberto Eco escreveu uma frase que se aplica a Ronaldo, ele “é o herói dotado de poderes superiores aos do homem comum é uma constante da imaginação popular de Hércules e Siegfried, de Roldão a Pantagruel e até Peter Pan”. Nos livros mais antigos de várias civilizações, da Odisseia de Homero à epopeia de Gilgamés e às modernas obras de Ficção Cientifica, nas palavras de um critico que li algures: os astros (eles são estrelas) representam apenas um dos fins do percurso; eles são, antes de mais, um símbolo da insatisfação eterna do homem. A raça humana mal tinha nascido já pensava em evadir-se da Terra. Em todos os tempos as estrelas foram objeto de ambição dos homens; e acabaram por as atingir. […] Falta qual­ quer coisa aos homens que eles esperam encontrar nas estrelas. É este qualquer coisa que figuras como Ronaldo e Cristina Ferreira materializam num estádio ou num pavilhão. Eles demonstram uma superação visível e leal entre as limitações que lhes seriam impostas pelo nascimento e uma carreira abençoada pelos deuses.

A lealdade entre estes seres eleitos e os seres comuns distingue-os de forma irredutível dos populistas que utilizam os truques mais iníquos da demagogia para arrastar os seres comuns, ludibriando-os com promessas de salvação, regeneração e de limpeza, segundo a mais recente promoção nos cartazes, sejam de bispos da IURD, de Trump, Bolsonaro, Salvini ou do indígena Ventura. Os pastores religiosos de várias empresas de embalar almas com dízimos e os pastores políticos de diversas coletividades obtêm sucesso com a mais velha falácia da História: convencer os outros de que existe uma Justiça a posteriori reparadora das infelicidades e sofrimentos dos homens comuns no presente. Que existe um Além (muito além) de Justiça, de acerto de contas! Aceitai as dores do presente que na Eternidade receberão unguentos reparadores!

Mesmo antes do surgimento dos “deuses morais”, 2800 anos antes da nossa era, no Egito, com a figura do deus Rá e da sua filha Maat, que serviram de modelo aos deuses das grandes religiões monoteístas, existiram os “deuses justiceiros”, que castigavam os humanos mais por faltas quanto às obrigações com as divindades que lhes garantiam justiça do que por ofender outros humanos. Os “deuses justiceiros” foram as primeiros divindades a quem os homens prestaram culto; deuses que exigiram obediência antes da prática do Bem. É ao regresso a esses deuses primordiais, vingadores, que estamos a assistir e é para irmos aclamá-los e servi-los que os populistas nos estão a convocar.

Os modernos populistas políticos e religiosos voltaram a utilizar a prática de exigir sacrifícios por faltas cometidas contra a divindade, punindo os hereges que negam o divino, que não pagam o dízimo, que respeitam estrangeiros, que não acreditam em milagres. Julian Assange, preso à ordem dos interesses dos Estados Unidos por ter desvendado segredos do regime, ou a jovem Masha Amini presa e morta pelo regime dos ayatolas do Irão por não vestir de acordo com a moda imposta pelo profeta Maomé aí pelos idos do século sete são vítimas desta visão do “deus justiceiro” contra os que ofendem o seu poder totalitário. O populista político e religioso promete justiça, condenação, razia dos descrentes. Os cartazes dos populistas afirmam querer limpeza, mas eles querem a limpeza dos que os desmascaram e não acreditam nas suas promessas!

Nunca vi Ronaldo jogar, nem vi qualquer programa de Cristina Ferreira, mas é uma questão de gosto, de interesses pessoais, no entanto reconheço que não pertencem à categoria de figuras esbracejantes que clamam pela obediência dos seus crentes! Ronaldo e Cristina Ferreira vendem-se (sem qualquer desprimor) a si, não vendem um produto virtual, um pechisbeque ideológico de domínio e obediência embrulhado sob a forma de uma divindade justiceira de que os demagogos e os promotores de limpezas são os representantes e de que recebem os lucros devidos pelas comissões.

Entre quem se esforça todos os dias e se apresenta como é, independentemente dos méritos, e o vendedor (ou pregador) que faz sermões sobre a virtude, a salvação e se apresenta em cartazes a fornecer serviços de limpeza, vai a distância entre o trapezista que corre os riscos das acrobacias nas alturas e o candongueiro manhoso que, rente ao chão, vende bilhetes para um circo que não existe.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.