Reconstruir a Ucrânia ou ressuscitar monstros?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 23/05/2022)

Estava a passar pelos noticiários das TV nacionais. Num, o primeiro-ministro português falava a partir de Kiev na “reconstrução” da Ucrânia, e da sua entrada na União Europeia. Noutro, um friso de senhores e senhoras, que me pareceram gente com lugar no Parlamento Europeu, perorava sobre a “reconstrução da Ucrânia”. Reconheci o deputado Paulo Rangel. Defendia que a Ucrânia devia entrar rapidamente na UE por questões geoestratégicas, mesmo que não cumprisse as regras do clube. Cito de cor: ” Serve-nos, quero lá saber do cadastro dos tipos que dirigem o país!” — já assim geria os seus complacentes princípios ao passear-se com um tal Guaidó, escolhido pelos Estados Unidos para presidente da Venezuela! Seguindo o pragmatismo de Rangel em termos estratégicos, porque não admitir Marrocos na UE que fornece limões, pistácios e caracóis? Ou a Argélia, que fornece gás? Ou a Mauritânia, que fornece peixe? Mistérios da estratégia de Rangel!

Ao lado de Rangel, um senhor de cabelo ralo e de barba, de que não retive o nome, falava sobre a “reconstrução” da Ucrânia. “Há que reconstruir a Ucrânia, refazer a Ucrânia!” (e porque não, também o Afeganistão? Ou a Líbia? Ou o Iraque? Ou a Palestina? Ou o Líbano?) Surgiu depois o que julgo ser o deputado Rui Tavares: “Há que admitir a Ucrânia na UE, mas não na NATO!” Ninguém lhe perguntou porque será que uma Ucrânia aberta a todas as exigências, onde os Estados Unidos e a UE já investiram biliões no armamento e na formação de militares para servir de base da NATO, deve ser menos que a Finlândia e a Suécia, que têm forças armadas respeitadoras do poder político e que colocam condições, nomeadamente a recusa de instalação de bases NATO e já causaram perturbações com a Turquia? A Ucrânia para NATO, já! E ninguém fala mais dos curdos, que não são estratégicos!

A palavra mágica dos políticos europeus é “reconstrução”! Mas reconstruir o quê? A Ucrânia de 2004, dos oligarcas, da corrupção generalizada, da ditadura imposta por um exército nazificado e desde há muito treinado pelos Estados Unidos e a Inglaterra sob a chancela da NATO, na confissão do secretário-geral? A Ucrânia do golpe da praça de Maidan de 2014, a Ucrânia que proibiu os partidos políticos, que chacinou as populações russas do Donbass?

Reconstrução da Ucrânia antes de investigar o que fez a oligarquia da Ucrânia, agora representada por Zelenski, dos biliões que a União Europeia e os Estados ali meteram? É essa “elite” predadora de dinheiro europeu que vai ser reconstruída e é a essa gente cleptocrata que vai ser entregue o dinheiro da reconstrução? Não haverá antes qualquer investigação ao destino dos milhões entregues aos oligarcas que Zelenski representa?

A Ucrânia de antes da invasão russa de Fevereiro, se tinha alguma comparação com algum Estado no planeta seria com a Birmânia/Myanmar, em que um ator popular foi escolhido para figura de cartaz. É este o regime da Ucrânia que os políticos europeus querem “reconstruir”?


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A viagem politiqueira do nosso 1º

(oxisdaquestao in blog Oxisdaquestao, 21/05/2022)

Até há poucos dias a política externa nacional era levada a cabo em acções de baixo perfil, longe do espalhafato e das grandes tiradas de capa e/ou aberturas sensacionais dos telejornais. Agiam os funcionários da diplomacia num regime de baixo perfil ajustado ao servilismo de pequena colónia sem peso nas relações internacionais. Em termos anedóticos agia-se ao estilo fuinha em ademanes de lacaio vestido a preceito.

Circunstâncias da política internacional obrigaram os donos do ocidente a recorrer a países periféricos e sem soberania a tomarem posições e a divulgá-las como propaganda da sua visão única do mundo. É assim que o nosso 1º ministro começou a cirandar e a ditar considerações seguindo os guiões da CEE/NATO. E a dar dinheiro, canhões e tanques no meio de aulas de geografia.

Passou 8 anos calado, não tomou posição alguma face ao golpe de estado na Ucrânia que substituiu um presidente eleito por uma caterva de nazis e ultranacionalistas de raiz hitleriana no parlamento e no governo. É que a CEE ficou contente com o Maidan que lhe daria um mercado extra, mão de obra barata e a aproximação da NATO às fronteiras russas. A. Costa nem tugiu nem mugiu; se o plano era esse, moita calada. Mas agora as coisas vão feias para a CEE, o regime de Kiev e a tropilha da NATO; recebe-se o cómico-nazi na AR em digital e manda-se o chefe do governo nacional para as bandas do conflito. Na Roménia, alguma vez se falava na Roménia nos gabinetes do governo?, marcou as suas-nossas fronteiras rasgando os mapas escolares da Porto Editora ( todos para o lixo, fora das paredes das escolas ). É agora na Roménia que a GNR e a guarda-fiscal vão actuar contra invasões ( de tabaco e droga ? ) perigosas para lisboa e o Vale do Tejo.

Segue à Polónia discutir a entrada dum país falido, quase inexistente em termos económicos e endividado pelos séculos vindouros, na CEE, ela própria em graves dificuldades num horizonte com perspectivas mais que sombrias. Costa olha para cima, o polaco, para baixo: estamos no nosso nível. Como se não bastasse, na sua atitude de lacaio, mandaram que do OGE nacional saíssem verbas para os refugiados que o regime de Kiev produziu na sua russofobia. 

Uns milhões que não existem para o SNS e médicos de família, para investimento social, para apoio a medidas que permitam um salário mínimo decente, reformas condignas e o fim da precariedade laboral saem da cartola de A. Costa, justificam a viagem, permitem a foto e fazem dele um ternurento caniche da Europa.

Vai a Kiev e, num intervalo sem ressaca do cómico-nazi, será protagonista de uma foto de rua encenada com o tonto mentiroso que manda converter uma rendição sem condições, como a das suas tropas nas instalações da Azovstal, numa vitoriosa evacuação de heroicos guerreiros nazis tatuados de suásticas por todo o corpo ! A. Costa gosta disto, é o seu ambiente, e caminha para não ter problemas alguns com possíveis sanções de Washington e dos seus colegas-CEE, Borrell/Der Leyen/Ch. Michel (o cara de nabo belga). Só não chega cheio de gás: já anda a poupar para se acautelar e … dar o exemplo!

Ao regressar do tour saberá que uma rede de créditos ilegais ficava com as casas dos clientes, talvez da mesma forma e debaixo dos mesmos conceitos que permitem aos seus amigos ocidentais congelar e roubar reservas em divisas de qualquer país do planeta!

E eu que perdi a oportunidade de fazer chegar a Zelensky meia dúzia de ovos de galinhas do campo sem cabeça, pouco estranhas à espécie que as doninhas desbaratam nos galinheiros da nossa querida Europa…

Fonte aqui


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Para além da esquerda e da direita

(António Guerreiro, in Público, 20/05/2022)

António Guerreiro

Na sua crónica da passada segunda-feira, dia 16 de Maio, neste jornal, Carmo Afonso desenvolveu o argumento de que a esquerda não encontra na guerra da Ucrânia nenhum reduto onde se possa instalar e procurar aí uma identificação política. Porquê? Porque, diz a autora, “é uma guerra entre direitas”. É louvável e até um pouco temerária esta tentativa para introduzir alguma ordem e orientação naquilo que tem sido a desorientação generalizada da esquerda (não me refiro apenas ao Partido Comunista Português), um pouco por todo o lado, na sua reacção a esta guerra e na relação com as duas partes em conflito. Mas utilizar as categorias de esquerda e direita para analisar e representar as coordenadas essenciais deste conflito é inadequado e incapaz de penetrar em zonas para as quais não serve o léxico conceptual da tradição.

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Esquerda e direita constituem, como sabemos, as categorias centrais com que identificamos as posições políticas e representamos as coordenadas essenciais da divisão social e política, na modernidade. Sabemos também que não é fácil, nem sequer possível, estabelecer um critério geral que permita distinguir, ao longo de mais de dois séculos de história povoada por muitas esquerdas e muitas direitas, o que é de esquerda e o que é de direita. Por exemplo, o conceito de Nação foi de esquerda, no Iluminismo, foi de direita, no Romantismo, e foi novamente de esquerda nos movimentos de “libertação nacional” que lutavam pela descolonização. Giddens, com a sua ideia da “terceira via”, entendeu que se devia retirar da lógica dicotómica do esquema esquerda/direita um grande número de questões contemporâneas (tais como os problemas ecológicos e as mutações na estrutura e na ordem da família), mas o que ele achou que escapava ao esquema acabou quase sempre por ser reapropriável e ser mais uma prova da persistência da famigerada dicotomia. E quando alguém se declarou antipolítico ou que não é de direita nem de esquerda, quase sempre isso foi visto como uma tentativa de denegar posições de direita, já que a direita, por princípio e por tradição, está sempre mais do lado da metapolítica (conceito que tem afinidades com o de “metafísica”) do que da política propriamente dita.

Mas há um lugar, nem o da política nem o da antipolítica, que não é apropriável pela dicotomia esquerda/direita. É uma zona que o pensamento político clássico deixa à sombra, é uma margem impensada, uma negatividade que abre um outro horizonte categorial. Esta guerra pertence a esse espaço: nem de esquerda nem de direita, mas de modo nenhum despolitizada. E é isso que a análise de Carmo Afonso não vislumbra. Ela — tal análise — revela que não conhece senão o conceito de política da modernidade e dos seus autores canónicos, que vão de uma concepção teológica da política a uma concepção puramente técnica. As ferramentas conceptuais da autora só lhe permitem concluir que se não existe “um lugar com que a esquerda se possa identificar politicamente”, então é porque tudo se passa entre a direita. Se Carmo Afonso analisasse esta guerra a partir da leitura de autores como Hermann Broch, Elias Canetti, Simone Weil, Bataille e Blanchot, e não a partir dos conceitos políticos que se tornaram um esquema formal de análise, cristalizado, encontraria uma modalidade de olhar o avesso problemático da política que seria de muita utilidade para analisar esta guerra e para fugir aos impasses a que, pelos vistos, ela conduz, sobretudo à esquerda. Cito estes autores não porque tenha chegado a eles, pelos meus próprios meios, quando percebi que de pouco serviam as categorias de direita e de esquerda para analisar tudo o que envolve esta guerra (as suas origens, as suas motivações, mas sobretudo as reacções que desencadeou nos diversos sectores políticos), mas porque são eles que estão na base da categoria do “impolítico”, a que o bem conhecido e reconhecido filósofo italiano Roberto Esposito dedicou um livro que já se tornou um clássico. O livro chama-se Categorie dell’ impolítico (1988).

O tema do impolítico (que não deve ser confundido com o antipolítico ou o apolítico) nasce da consciência de que as categorias do léxico político contemporâneo estão esgotadas ou, pelo menos, não iluminam o avesso, as zonas de sombra, a negatividade, o irrepresentável, as margens, os vazios. E este é o espaço de muita da política contemporânea. E desta guerra.



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