Onde é que tu estavas no 25 de Abril?

(Carmo Afonso, in Público, 23/05/2022)

Convido-vos a ler, ou a reler, o último artigo do António Guerreiro no Público, e partilhado aqui. Eu podia ter começado por aí.


Quem a fazia era o Armando Baptista-Bastos, mas quem a imortalizou foi o Herman José: onde é que estavas no 25 de abril? Assistir às entrevistas originais dá mais piada, e sentido, aos sketches do Herman. Para quem não assistiu: o Baptista-Bastos situava cada conversa, e cada entrevistado, relativamente ao 25 de Abril. Interessava-o com indisfarçável curiosidade se determinado acontecimento tinha sido antes ou depois da revolução e, claro, como se tinha o seu interlocutor posicionado no grande evento.

Nessas entrevistas, era possível observar um rodeio que iria sempre eclodir na célebre pergunta e lá ficávamos a saber que papel tinha assumido aquela pessoa, nem sempre eram pessoas muito conhecidas, no 25 de Abril. O processo era genial e genial foi também o Herman em ter reparado nele e em tê-lo recriado.

Neste processo do Armando​ Baptista-Bastos, que aparentemente é uma simples obsessão esquerdista, está a metáfora, em que muitos se reverão, de politizar a vida e de refletir sobre ela subsumindo-a à política. É um processo grato. Tudo é politizável; o amor, o sexo, a amizade, a guerra e a própria religião.

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Há autores que fizeram o processo inverso e que, em ideias e conceitos políticos, viram a religião. Muitos estabeleceram um paralelismo entre o socialismo e o cristianismo. A associação não é difícil. Schmitt escreveu: “O socialismo pretende dar vida a uma nova religião que, para os homens dos séculos XIX e XX, teve o mesmo significado que o cristianismo para os homens dois mil anos antes.” É uma ideia conhecida.

O socialismo, que não quer nada com a religião, é ele próprio muito parecido com uma. Esta afirmação consegue apoquentar cristãos e socialistas. Todos deveriam pensar melhor isto: está em ambos a ideia de igualdade, de distribuição da riqueza, da crítica aos que dominam e exploram (os ricos). É no socialismo e no cristianismo que encontramos uma ideia de indivíduo onde este poderia ser chamado de semente de alfarroba.

O que distingue uma semente de alfarroba? A pergunta arranca mal formulada. Deveria ser: o que é igual nas sementes de alfarroba? Resposta: o mais importante, o peso. São todas iguais. Independentemente da alfarroba e da alfarrobeira onde nasceram, todas as sementes de alfarroba têm o mesmo peso.

Discute-se o rigor destas afirmações, mas é certo que esta característica das sementes de alfarroba determinou que, durante séculos, tenham sido usadas como unidade de peso. Eram sobretudo usadas para pesar ouro e pedras preciosas. Foram de fundamental importância. Ainda são em alguns mercados. Um quilate tem o peso de uma semente de alfarroba.

Mas de volta aos autores que viram religião onde só parece estar política: Walter Benjamin disse que o capitalismo é uma religião e que é a mais perigosa de todas porque não admite expiação. Para Benjamim, os grandes autores da modernidade – Nietzsche, Marx e Freud – eram no fundo solidários com o que ele chamava de religião do desespero. Nenhum dos três teria apreciado a reflexão.

Eu não sei onde estava o António Guerreiro no 25 de Abril. Eu própria estava ainda na cápsula da inconsciência. Mas o que lhe quero dizer é que, dos autores que cita no seu artigo de sexta-feira, há dois que li e de que gosto. Não tiveram foi o poder de erradicar a ideia, que tenho, de que em tudo o que nos move está presente a luta de classes.

E quero dar um exemplo. Chama-se A Criada Zerlina e é um extraordinário texto de Hermann Broch. Aparentemente uma história de amor. São duas horas de um dos mais bonitos monólogos a que tive oportunidade de assistir. Concluí que o amor de Zerlina pelo casto marido da sua patroa e a hesitação que sentiu entre amá-lo ou ao amante da sua patroa e o decurso intenso, mas invisível, da sua vida à sombra da sua patroa – é pura política. Não é nada um relato de amor; é a história de uma mulher de sentimentos profundos a quem foi negada a possibilidade de ter uma vida, como acontecia a todas as criadas, e que inventou uma. É uma história de classes. Uma história feita de direita e de esquerda.

Na Ucrânia continuam a combater duas direitas. A da Ucrânia – que condiciona a atividade dos partidos de esquerda e que faz regredir os direitos dos trabalhadores, retirando-lhes a fundamental proteção face ao patronato, ao ter passado a considerar que, a estas relações, se aplica a equivalência entre as partes do Direito Civil – e a da Rússia; outro etno-nacionalismo com capitalismo de Estado e criptomoedas. Também parece que lá anda o Diabo. Deus terá adormecido. Diz-se que está em toda a parte. Eu digo que a política é que está.

Convido-vos a ler, ou a reler, o último artigo do António Guerreiro no Público, e partilhado aqui. Eu podia ter começado por aí.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


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Vai ficar tudo bem — regresso ao passado. A Ucrânia deixou de existir!

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 23/05/2022)

Na atual fase do discurso ocidental sobre a guerra na Ucrânia os dirigentes políticos transmitem a mensagem de, após a guerra, a situação na UE voltar ao passado: não haverá inflação, desemprego, a energia será barata, a União Europeia continuará a vender os seus produtos de alto valor acrescentado no mercado mundial — apesar de a energia vinda dos EUA ser muito mais cara — o estado de bem-estar com serviços de saúde e de previdência social vai ser sustentável, mesmo que as despesas com armamento cresçam e as exportações diminuam…

O discurso dos políticos europeus aos crentes das suas nações lembra a afirmação de Aristóteles há 2500 anos: o tempo não existe, uma vez que nem o passado, nem o futuro realmente existem, o passado porque já passou, o futuro porque ainda não é. O presente, por sua vez, é momentâneo, fugaz, imediatamente se torna passado. Mas para os atuais dirigentes políticos europeus não existe o problema da aporia, o “caminho inexpugnável, sem saída”, o paradoxo, a contradição entre o tempo e o movimento. Para Aristóteles é o movimento que organiza o tempo, para os atuais dirigentes políticos a verdade é a falácia que impingem aos europeus de que, apesar do movimento que entretanto ocorreu (com a invasão sobre vários eixos do território, o tempo parou na Ucrânia e arredores. A guerra na Ucrânia, para eles, não vai ter consequências. O presidente português chegou a afirmar que até vamos ganhar com ela. Vamos ficar melhor!

Os dirigentes europeus transmitem aos europeus a mesma mensagem que a igreja Católica transmitiu no início do século vinte através da senhora de Fátima a três pequenos pastores: a Rússia será vencida e tudo ficará bem. Há quem acredite!

Os dirigentes europeus falam como se a guerra na Ucrânia não tivesse consequências. Como se a Rússia já estivesse a arrumar as malas e a voltar para casa (Venham mais 5, de Zeca Afonso), deixando a Ucrânia disponível para a “reconstrução”! Zelenski, o porta-voz do mais que corrupto regime de Kiev, e cabeça de cartaz eleito por um exército de ideologia nazi, de segregação racial e política, de ditadura sobre o povo e de negação de direitos democráticos elementares, chegou ao ponto delirante de exigir que a Rússia pague a dita “reconstrução”!

De facto, goste-se ou não, a situação real em nada corresponde a esta encenação idílica. De facto, uma das três superpotências mundiais sentiu-se ameaçada o suficiente para romper uma situação pantanosa de ameaça nas suas fronteiras e desencadear uma invasão a um Estado que vendera a sua soberania e se dispusera a ser uma base para o seu “enfraquecimento” continuado (objetivo explicitado pelas autoridades dos EUA, a velha tática do envenenamento por arsénio). A Rússia decidiu cuspir a mistela e tomar a iniciativa: invadiu a Ucrânia.

Com perdas maiores ou menores, o facto é que a Rússia ocupou uma faixa de terreno de cerca de 200 km que vai do norte (Donbass) até ao controlo das margens dos mares de Azov e Negro, e dos seus portos. A Rússia controla estes terrenos decisivos e destruiu o tecido produtivo da Ucrânia e as suas vias de importação e exportação.

A situação de facto é que a Rússia tornou a Ucrânia um Estado inviável, pois a Rússia controla toda a produção de cereais e a exportação de bens e matérias-primas; controla o território que podia servir de base de ataque próximo (Donbass); controla os dois mares e os seus portos. O poder político ucraniano apenas existe porque tem apoio político e militar dos EUA e o apoio financeiro da UE. O poder político da Ucrânia apenas se mantem apoiado pelas suas forças armadas, que em nada se parecem com forças armadas de Estados de Democracia liberal.

Sendo esta a situação, a Ucrânia deixou de existir como existia em termos do que define um Estado: uma soberania aceite pela população e pela comunidade internacional sobre um território. Na realidade uma superpotência ocupa os pontos decisivos do território e tem uma reserva de armas (incluindo armas nucleares táticas) para impor uma decisão militar quando o entender e, depois das sanções ocidentais e da rutura civilizacional que lhe foi imposta pelo Ocidente, não tem nada a perder em termos reputacionais se usar essas armas. A superpotência invasora, a Rússia, tem o apoio de retaguarda de outra superpotência, a China e do grupo dos países emergentes e foi colocada na situação de que mais vale um rei ser temido do que amado (Maquiavel).

A proposta de reconstrução da Ucrânia parte do fantasioso pressuposto de que a Rússia iria aceitar ceder tudo o que conquistou a duras penas em vidas e bens para deixar que os Estados Unidos e a UE e as suas empresas reconstruíssem a situação anterior e até, na delirante proposta de Zelenski, que a propaganda apresenta como um tipo a ser levado em conta, que a Rússia pagasse a reconstrução! Os dirigentes da UE têm apresentado este alucinado raciocínio como um programa a ser levado a sério!

Um dos elementos essenciais de análise de situação militar é pensar como o adversário. Não se trata de moral, nem de proselitismo, mas de análise, de encontrar as hipóteses mais prováveis e as hipóteses mais perigosas. É assim que os militares abordam as situações e não em termos de bondade e maldade, em termos morais.

A Rússia tem uma longa história assim como as suas forças armadas, os seus exércitos. É credível, como nos tentam convencer os dirigentes europeus, que depois dos sacrifícios em vidas e em destruições materiais a Federação Russa retire da Ucrânia, deixe a situação como estava em Fevereiro, que pague a reconstrução de edifícios e infraestruturas, apresente os seus militares e políticos algemados (supõe-se) na gaiola de um tribunal internacional na Holanda, em Nova Iorque, ou em Bruxelas?

Este cenário faz algum sentido? Mas é o que os dirigentes europeus têm estado a impingir aos europeus e há um coro de comentadores que faz eco desta insanidade!

Vamos (os europeus) pagar a reconstrução de quê, de que Ucrânia?


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Neocromicon – os feitiços para ressuscitar antigas divindades

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 23/05/2022)

Neocromicon é um grimório, uma coleção medieval de feitiços, rituais e encantamentos mágicos onde são descritos rituais para ressuscitar os mortos, contactar com entidades sobrenaturais, viajar pelas dimensões onde habitam esses seres, trazer de volta à Terra antigas divindades banidas e aprisionadas.

Os discursos do primeiro-ministro português, da presidente da Comissão Europeia, das três figuras que surgiram em mais um programa de propaganda da estratégia dos EUA para o seu confronto com a Rússia, fazem deles mágicos árabes como os descritos por Abdul Alhazred, um poeta louco originário do Iémen, autor de Neocromicon. Infelizmente os sermões e rezas dos políticos europeus não explicam se eles pretendem ressuscitar o monstro político (se comparado com as democracias liberais maioritárias até agora na União Europeia) que era e continua a ser o regime ucraniano, se propõem construir de raiz um novo regime baseado no Estado de democrático de Direito que a Europa tem desenvolvido desde a Revolução Francesa e foi buscar os seus fundamentos na cultura grega.

Os dirigentes da União Europeia têm duas opções: ressuscitar o iliberal monstro de corrupção que as intervenções externas (EUA) implantaram na Ucrânia e fazer de conta que nada se passou desde 2004 a Fevereiro de 2022, ou criar de raiz um regime higiénico a partir da base, com outras leis, com outra gente.

A dita “reconstrução” da Ucrânia assenta no embuste vendido pela propaganda ocidental de que a Ucrânia em 2004 era um Estado de direito democrático, com um poder político eleito de forma aceitável pela comunidade internacional, com um sistema judicial independente do poder político, com partidos da oposição, com forças armadas subordinadas ao poder político e a uma lei constitucional baseada na igualdade, em vez de milícias nazis, defensoras da supremacia racista e da ditadura por si imposta, ao serviço de oligarcas locais. A reconstrução ou ressurreição da Ucrânia deve esclarecer se esta vai continuar a ser um regime que aceita desempenhar o papel de agente provocador da Rússia respaldado nas promessas dos EUA e para servir os interesses estratégicos destes, para continuar a ser o regime que esteve na origem da sua destruição e desta guerra ou se vai ser outra coisa, que convinha esclarecer o que é antes de “reconstruir”. Algum político explicou o que quer “reconstruir” na Ucrânia?

Os dirigentes europeus, quando falam em “reconstruir” a Ucrânia, apenas pretendem a hibernação do monstro até à próxima oportunidade, ou têm uma outra qualquer ideia? Qual?

A UE deve pagar a reconstrução de uma base dos EUA na fronteira da Rússia sob a forma de um Estado racista e de ditadura, como o que está em vigor? A UE deve ressuscitar o monstro que anda a criar desde 2004? A UE deve realizar um batizado a Zelenski e mergulhá-lo nas águas da democracia, como fez o bispo Macedo da IURD a Bolsonaro, no rio Jordão? Vamos pagar esse espetáculo?

É a ressurreição de um monstro que os políticos europeus querem que paguemos? E, sendo assim, porque não aproveitar o mesmo batismo, as mesmas águas, batizar Putin e admitir a Rússia na UE, que até fornece energia para nos movermos e aquecermos e cereais para comermos?


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