O Ocidente

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 06/05/2022)

Miguel Sousa Tavares

O colossal erro político e estratégico de Vladimir Putin ao invadir a Ucrânia tem conseguido, até agora, produzir todos ou quase todos os efeitos opostos àqueles que ele visava com essa invasão. Na exacta medida em que ele, ditador iluminado, conseguiu confundir a Rússia com a sua própria pessoa, está a caminho de transformar o país num Estado pária e de desencadear um sentimento universal de russofobia, que vem a par com a exaltação, por contraponto, do que chamam as “sociedades liberais” — ou seja, as democracias ocidentais ou o Ocidente tout court. Este movimento, fomentado por jornalistas, políticos e intelectuais — e, na sombra, por outros poderes menos inocentes —, é em si mesmo perigoso, antes de ser arrogantemente inculto.

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Mas comecemos pelo princípio. A ideia de Ocidente não é hoje um conceito geográfico, mas sim político ou geopolítico: não abrange África, excepto alguns países do Norte que estão a ser subtilmente comprados pelo Ocidente “democrático”, nem a maioria dos países da América Latina, mas incluí países asiáticos como a Índia e o Paquistão. No conceito de Ocidente cabem, então, todos os países que o “núcleo duro” das democracias liberais aceita dentro do seu clube e que, umas vezes melhor, outras vezes pior, cumprem um mínimo de regras que o clube apregoa defender: eleições livres, liberdade de expressão e de imprensa, justiça independente, economia de mercado, liberdade de circulação de pessoas e bens. Na prática, porém, o cumprimento das regras é tão elástico quanto as necessidades políticas conjunturais do clube o justificam. Assim se passa com Israel sempre, com países como o Chile ou a Argentina em períodos alternados, com a Índia ou o Paquistão em época de monções, com Angola em alturas de oportunidades ou, na própria Europa, com a Hungria ou a agora “heróica” Polónia. Mesmo a Rússia de Putin, antes da funesta decisão de entrar Ucrânia adentro, era tolerada dentro do clube, apesar das suas eleições muito pouco livres, de Navalny e de outros dissidentes misteriosamente envenenados.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Mas, politicamente, o clube está certo nos seus fundamentos. Qualquer cidadão do clube prefere ser “árabe” em França do que palestiniano em Israel, prefere ser da oposição em Itália do que ser dissidente na Rússia. Mas o clube faz as suas próprias excepções: o príncipe e regente saudita Mohammed bin Salman, que mandou matar e cortar aos bocados o jornalista saudi-americano Jamal Khashoggi na Embaixada da Arábia Saudita em Ancara, continuou um respeitado parceiro de negócios do clube; e os melhores amigos de Putin, os salteadores da arca russa, vulgo “oligarcas”, eram os melhores amigos dos tories e da elite inglesa até há dois meses, quando Boris Johnson descobriu em Putin um novo Estaline e em Zelensky um novo Churchill. Mas essas excepções casuísticas às boas regras não invalidavam aquilo que constituía um dos melhores atributos das nações democráticas, actuando sozinhas ou em conjunto, que era a sua capacidade para entenderem e se relacionarem com outras nações de crenças e ideologias diferentes, estabelecendo pontos para o comércio justo e a convivência pacífica.

A democracia é, por definição, o sistema que não exclui nem persegue os que pensam diferente. E a Europa, onde hoje se pensa acriticamente a reboque da vontade de ingleses e americanos, era um belo exemplo disso — embora infrutiferamente, como agora nos contam. Desde que existe qualquer tipo de organização política nas sociedades humanas, nenhuma foi tão longe e foi tão perfeita em matéria de garantia de direitos individuais e de solidariedade entre Estados como a União Europeia.

A tal ponto que até podemos dizer que o país-farol da democracia, os Estados Unidos da América, se quisessem aderir à UE, não cumpririam os critérios de adesão, de tal forma a sua “democracia liberal” consente a usurpação de direitos individuais que os europeus têm como adquiridos e é baseada numa absoluta libertinagem do mercado, corrompendo os fundamentos da própria democracia, como Elon Musk acaba de demonstrar.

Aliás, os Estados Unidos são o melhor exemplo da dificuldade em apresentar um padrão de conduta que justifique a invocada superioridade moral, adquirida e permanente, das “democracias liberais” sobre tudo o resto. Em todos os campos — científico, artístico, económico, militar — os Estados Unidos são capazes do melhor e do pior. São capazes de liderar pelos direitos humanos e depois transformarem-se quase num Estado teocrático, ao nível das comunidades, dos Estados, do Supremo Tribunal; são capazes de derramar o sangue dos seus para socorrerem os aliados, mas também de os abandonar no campo de batalha, como fizeram com os afegãos e os curdos da Síria; são capazes de se moverem por princípios mas também de conviverem e conspirarem com assassinos da América Latina ou do Médio Oriente. A sua bússola moral varia conforme as maiorias no Congresso e no Supremo Tribunal e conforme o ocupante da Casa Branca: depois de um Kennedy vem um Nixon, depois de um Carter vem um Reagan, depois de um Clinton vem um George W. Bush, depois de um Obama vem um Trump. Toda esta gritaria que Biden faz agora em nome do Bem contra o Mal, não existiria se ele tem perdido as eleições há ano e meio: com Trump reeleito, a Ucrânia estaria entregue à sua sorte.

Graças a Putin, aqui, no Ocidente, estamos confrontados com uma ofensiva dos novos Cruzados para quem, sorte a deles, tudo se tornou cristalinamente claro

Mas agora, graças a Putin, aqui, no Ocidente, estamos confrontados com uma ofensiva dos novos Cruzados para quem, sorte a deles, tudo se tornou cristalinamente claro e quem assim não vê é fuzilado na praça com um rol de novas ofensas: “antiamericanos”, “iliberais”, “russófonos”, “diletantes”. Presumo que tanto fervor ocidental tenha ainda por matriz filosófica a louvada civilização judaico-cristã, mãe inspiradora de todos os nossos valores. Lamento, mas não é a minha. Eu sou filho dilecto da civilização greco-romana-árabe, a que nasceu e floresceu no Mediterrâneo, a civilização da luz e da liberdade, dos pátios, dos terraços e dos templos, e não a das catedrais e do terror, a civilização que derrotou os “bárbaros” (alemães e povos do Norte), a que construiu o único império onde os conquistados preferiam reger-se pela lei do conquistador (Roma) do que pela própria lei, que lhes parecia mais injusta. A minha “casa” na Europa fica nas ilhas gregas, em Roma ou em Taormina, em Trás-os-Montes, em Córdoba ou em Lisboa, e mesmo no Rio de Janeiro ou em Buenos Aires. Não fica em Frankfurt, nem em Manchester ou em Varsóvia, por muito que eu goste de ir a toda a parte e em toda a parte goste de voltar para casa.

Em “O Sentimento dum Ocidental”, Cesário Verde escreveu: “Ocorrem-me em revista exposições, países:/ Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o mundo”. Fosse hoje, e ele teria de cortar São Petersburgo da lista, pois que, pelos novos mandamentos, a Rússia deixou de ser sinónimo de Europa e de “mundo”, no sentido de civilização ocidental — ou apenas de civilização — que ele lhe deu no seu poema. E, todavia, poucas cidades são hoje tão europeias, sob todos os pontos de vista, como São Petersburgo. E não apenas porque Pedro, o Grande sonhou com uma Nova Amesterdão ali, no Báltico, e trouxe alguns dos melhores arquitectos europeus para a desenharem e Catarina, a Grande encheu o Hermitage com milhares de obras que testemunham séculos da melhor pintura europeia. Apesar de Putin e tudo o resto, apesar do discurso de Putin sobre o destino euro-asiático da Rússia (de que não foi o inventor nem o único sonhador e que é natural num país que se estende de Murmansk e Vladivostoque, ao longo de 12 fusos horários), a verdade é que São Petersburgo, tal como Moscovo, é hoje uma cidade exuberantemente europeia. Nas “noites brancas” de São Petersburgo, os extraordinários restaurantes da cidade estão abertos até às duas da manhã e há uma animação e uma história latente em toda a cidade que contrasta de forma chocante, assim que se faz a curta travessia férrea para Helsínquia, com a desolação e a tristeza fúnebre da capital finlandesa, onde os restaurantes fecham às 8 da noite e a grande distração dos locais é atravessar de ferry para Taline, na Estónia, para irem comprar álcool mais barato. No meu conceito de civilização, São Petersburgo é irremediavelmente ocidental, geneticamente europeia e até tem qualquer coisa de estranhamente mediterrânico; Helsínquia… não é nada, é como se nada ali tivesse acontecido. Mas parece que agora, indo paradoxalmente ao encontro das ideias de Putin, a Rússia deixou de ser Europa e Ocidente aos nossos olhos, enquanto que a Finlândia — futuro membro da NATO, terra de pilotos de rallies e Fórmula 1 e pátria de dois arquitectos notáveis, Alvar Aalto e Eero Saarinen, e nada mais — é um verdadeiro símbolo dos nossos valores culturais e civilizacionais. Assim sendo, só resta regressar, concordando, a “O Sentimento dum Ocidental”: “Nas nossas ruas, ao anoitecer/ há tal soturnidade, há tal melancolia/ Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia/ Despertam-me um desejo absurdo de sofrer”.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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8 pensamentos sobre “O Ocidente

  1. parabéns pela sua elegante escrita de conteúdo. É um enorme prazer lê-lo todas as semanas também no “Expresso”

  2. Um texto que é uma homenagem à Língua e á Cultura Portuguesa. MST só tem um defeito: ainda não compreendeu a realidade e a importância dos professores no nosso País.

  3. Um Texto que devia ser lido e ouvido nas Escolas e não discursosde `odio….que não lhe doa a mão e apena…

  4. «confundir a Rússia com a sua própria pessoa (Putin), está a caminho de transformar o país num Estado pária e de desencadear um sentimento universal de russofobia (…) Este movimento, fomentado por jornalistas, políticos e intelectuais…»
    – claro, e por isso mesmo é caso para colocar “jornalistas” e “intelectuais” entre enormes parêntesis! Nem demos pelo fim da Democracia, mas de facto já se foi, como eu constatava há que tempos, e o Miguel constatou a seguir.

    «A democracia é, por definição, o sistema que não exclui nem persegue os que pensam diferente. E a Europa, onde hoje se pensa acriticamente a reboque da vontade de ingleses e americanos, ##### ERA ##### um belo exemplo disso…»
    – este “ERA” é a parte mais importante deste texto, a mais verdadeira, a mais objectiva, e a mais difícil de engolir por quem lhe tinha estima (à Democracia), embora baste abrir uma rede social para ver que a maioria já não lhe tinha estima absolutamente nenhuma…

    Tão bem, o Miguel, mas depois cai na esparrela de acreditar na propaganda da sua própria ideologia:
    «Desde que existe qualquer tipo de organização política nas sociedades humanas, nenhuma foi tão longe e foi tão perfeita em matéria de garantia de direitos individuais e de solidariedade entre Estados como a União Europeia.»

    – quais direitos? Os dos LGBT na Polónia? Os da oposição na Hungria? Os dos rappers anti-monarquia e dos Catalães em Espanha? Os dos trabalhadores em geral, cada vez mais precários num retrocesso de 150 anos? Os do bloguer ucraniano opositor de Zelensky que foi preso em Espanha? Do Puigdemont que foi vigiado, perseguido, e preso pela Alemanha?

    – e qual solidariedade? A ameaça de imposição de sanções a Portugal em 2016 por causa de uma décima do défice? A GUERRA económica feita contra o povo Grego como castigo por ter eleito o Syriza? O ultimato aos Irlandeses para salvarem a banca? O roubo às contas bancárias no Chipre? O acentuar de desigualdade entre núcleo e periferia, em nome de uma moeda que beneficia uns e prejudica outros? O pagamento de milhares milhões para a Turquia parar os refugiados escurinhos (vítimas da NATO/EUA) de cá entrar?

    – e qual democracia? A de uma Comissão de NÃO-eleitos que no caso da Úrsula nem sequer concorreu às eleições mas acabou Presidente? Um Parlamento Europeu sem poder de propor leis? Obrigação de cumprir acordos negociados em segredo (ex: TTIP) que nos retiram democracia só para nivelar por baixo ao nível do “exemplo” EUA? Ter de obedecer a regras sem fundamento científico e nunca escrutinadas pelos eleitores? Ser forçado a uma integração que nos retira Soberania (neste caso sinónimo de nos retirar Democracia) com base em eleições europeias onde taxas de abstenção chegam ou ultrapassam a das eleições Venezuelas que foram BOICOTADAS pela oposição?

    A Democracia Europeia está em coma, e a “democracia” da União Europeia NUNCA existiu. E esta era já uma das confusões feitas pelos tais “jornalistas” e “intelectuais” (e aqui o Miguel faz parte do problema), que se hoje têm treino para confundir a Rússia com Putin, é porque passaram anos a treinar ao confundir a Europa com a UE, e antes disso a confundir o Capitalismo com a Democracia.

  5. Tem piada como o malvado do Putin estraga os sonhos a toda a gente, o homem é pior que o Freddy Krueger, estraga os sonhos à NATO, aos Biden, ao Boris, ao Zelensky e à Ursula e agora até ao nosso Miguel!!… é que estou aqui farto de pensar e não consigo perceber quando é que este Ocidente idílico, que agora convenientemente o MST reduz a uma parte da Europa, este paraíso de luz e liberdade e restaurantes abertos até de madrugada, existiu… no tempo do Cesário Verde não foi de certeza, portanto só posso concluir que este farol de civilização foi um sonho lindo que o MST teve… e claro que o Putin tinha de dar cabo dele!

    Ora o que ninguém tem dito é que o Putin tem estragado os sonhos a toda a gente menos aos russos, cujo apoio tem aumentado nos últimos tempos, e que é aos russos que ele tem de prestar contas em primeiro lugar e não a quem vai jantar a São Petersburgo. E se o MST nas suas viagens prestasse mais atenção às pessoas e menos à restauração, saberia o que pensa do seu conceito de civilização quem vive em África, na América Latina, na China, na Índia… talvez ouvisse o mesmo que ouviu o jornalista que um dia perguntou a Gandhi o que pensava da civilização ocidental, «acho que seria uma boa ideia» foi a resposta.

    Portanto o meu desejo é que o MST leia e releia muitas vezes o Cesário Verde, talvez um dia consiga perceber o que ele realmente quis dizer em O Sentimento de um Ocidental, pois pelo que se vê nesta crónica ainda lá não chegou…

    E mais podia ser dito mas fico-me por aqui para não estragar os sonhos a quem gosta de ler o MST, ele às vezes até acerta mas não foi o caso de hoje na minha opinião.

  6. Excelente texto, cuja leitura deveria ser obrigatória em todos os canais televisivos.

    Parabéns pela sua escrita escorreita , clara e segundo a antiga ortografia. E não esqueça que a deve em parte à classe docente, por quem não morre de amores.

  7. Putin. quem este personagem? Parece que saiu de um banda desenhada das más.
    Putin é um louco como existiram outros no mundo um ditador, um fascista como existiram outros parece que que andamos todos distraídos, é verdade que os EUA nunca serão o farol da democracia, estou de acordo mas ao pé da Rússia nem comparo o pretexto da Rússia para invadir a Ucrânia não dá vontade de rir porque as mortes e a destruição é devastadora, alguém como Putin falar em nazismo alguém que apoia os le penes deste mundo deveria ter no mínimo vergonha.
    O texto do MST é muito bom, é quase tudo verdade eu sinto-me em democracia na Europa Ocidental, Na CEE

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