O jornalismo e a propaganda de guerra

(Carmo Afonso, in Público, 04/04/2022)

É difícil distinguir a informação que as máquinas de propaganda russas e ucraniana põem a circular da que nos chega através do verdadeiro trabalho jornalístico. Há outras máquinas de propaganda a trabalhar e estão todas ao rubro. É um facto.

Poderia pensar-se que ninguém aceita ser informado pela propaganda de guerra mas é um erro. Algumas pessoas querem precisamente receber informação que corrobore na íntegra a sua interpretação da guerra. Aplaudem quem noticia factos que deem razão ao que têm vindo a dizer. Têm pouca, ou nenhuma, margem para dar atenção ao que contradiz, ou que julgam contradizer, essa interpretação.

Em tempos de guerra o jornalismo é especialmente preciso, mas nem todos o querem. A mediação entre o acontecimento e as pessoas, como meio adequado ao exercício do espírito crítico por parte destas, deixa de ser uma necessidade coletiva. As pessoas preferem as evidências que deem razão ao seu acantonamento. Chamam bom jornalismo àquele que as ajuda nesse processo.

O perigo é enorme. Passa a chamar-se propaganda ao que não lhes dá razão e jornalismo apenas ao que vem de encontro a esta. Grandes profissionais aos que defendem as suas visões do mundo e embustes a todos os outros. Mata-se o jornalismo, mata-se o pensamento. Acaba o escrutínio. A dialética da discussão pública fica inquinada e ainda mais estéril do que já é habitual.

Só que mesmo quem prefere a propaganda ao jornalismo precisa dele. Não se conseguiu ainda pensar numa forma de preservar as democracias ocidentais sem defender o jornalismo. O jornalismo fora destas democracias tem a vida dificultada mas estas democracias sem jornalismo não existem. Deverá então cuidar-se de o valorizar.

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Valorizar o jornalismo implica atacá-lo, na parte em que aceita difundir propósitos de propaganda, na parte em que se abstiver de procurar saber a verdade, de relatar os factos com rigor e sem cuidar avaliar a quem agrada ou desagrada.

O grande crítico do jornalismo foi Karl Kraus, o homem que lhe dedicou a sua vida como um sacerdócio. Escreveu durante 37 anos – desde 1899 e até à sua morte – na revista Die Fackel e acabou a fazer a publicação sozinho. Parte do seu trabalho jornalístico era a própria crítica jornalística. Deveriam recuperar-se os seus ensinamentos puros e radicais. Kraus criticava a manipulação da opinião pública por parte do jornalismo; dizia que, mais do que manipular a opinião dos leitores, inquinava a possibilidade de fazerem uma análise própria.

Foi Kraus que disse que o jornalismo se deveria sentar no banco dos réus por ter responsabilidade na disseminação da violência que levou à 1ª Guerra Mundial. Não aconteceu nem metaforicamente. O jornalismo nunca se destacou pela autocrítica.

Na verdade, a lógica do banco dos réus leva quase sempre a que todos se sentem lá. Nos processos colectivos poucos estão isentos: as pessoas que não querem jornalismo mas sim propaganda; o jornalismo que lhes faz a vontade; quem assiste e nada diz. Quando o que queremos defender tem falhas, tem de se começar por expurgá-las. E não se pode fazê-lo sem as apontar.

Esse banco deveria ter um lugar guardado para a União Europeia. Errou quando censurou o canal russo RT e a agência de notícias Sputnik. Foi uma decisão ao nível do que se critica, e bem, em Putin, que fez o mesmo com a BBC e a Deutsche Welle. Quem se sentiu agradado com essas decisões é fraco defensor dos valores democráticos.

Não estamos em guerra mas estamos muito perto de uma. Uma guerra que já fez muitas vítimas. Não se deve permitir que faça mais uma: a verdade. Nesta fase, só o jornalismo a poderá evitar.


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“Isto é o futuro”?

(Manuel Loff, in Público, 05/04/2022)

Manuel Loff

Parece que nem se reparou. O ultradireitista Viktor Orbán ganhou as quartas eleições consecutivas. Há doze anos no poder, Orbán transformou por via constitucional o sistema político húngaro, para dele fazer um caso paradigmático de liberalismo autoritário (liberal nas formas, autoritário no conteúdo), derrotou uma coligação verdadeiramente inacreditável de forças da oposição que vão desde os socialistas aos neofascistas do Jobbik, e que escolheu um candidato para disputar o Governo a Orbán que é toda uma metáfora dos tempos que vivemos: Péter Márki-Zay é um neoliberal de formação americana, contrário ao salário mínimo e a imposto sobre fortunas; católico conservador que, só para efeitos da campanha eleitoral, se comprometeu a deixar de opor-se ao divórcio e ao aborto; e defensor da política de Orbán de bloqueio à entrada de refugiados não europeus.

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O ter apoiado, contra a posição do Governo, o envolvimento húngaro na ajuda militar à Ucrânia contra a Rússia parece ter-lhe custado tantos votos que permitiu a Orbán aparecer como o homem que quer proteger a Hungria da guerra e ganhar por uma margem maior que a anterior. Se podem ser limpas e justas eleições disputadas no contexto autoritário que é o húngaro, essa é outra história; as dúvidas sobre a democraticidade da Hungria levantam-se num contexto de generalizada erosão democrática que tem as suas componentes centrais no securitarismo de Estado, na intimidação das minorias étnicas e políticas, na hipervigilância feita sistema, a que agora se soma uma nova corrida ao armamento.

Normalizada, integrada, assumida. A presença generalizada da extrema-direita por toda a Europa faz de Orbán, juntamente com o governo da extrema-direita católica polaca, mais um caso de sucesso que de exceção. De norte a sul do continente, partidos da extrema-direita povoam os corredores do poder político e/ou as suas agendas e as suas propostas são adotadas com mais ou menos adaptações por governos que se dizem democráticos depois de encenarem a rejeição do racismo, da xenofobia e do autoritarismo.

Ao contrário do que se tem escrito, a grande maioria da extrema-direita (a começar pela própria ucraniana) tem-se assumido como anti-Putin e, coerentemente com o seu discurso nacional-historicista, descreve a Rússia como o inimigo ancestral daquilo a que agora se voltou a chamar a civilização europeia – precisamente a mesma que outras extremas-direitas acham ter na Rússia de Putin um dos seus defensores. No poder (da Polónia, da Letónia, da Eslováquia), ela pode posicionar-se a favor de tudo quanto possa arrastar a NATO para uma guerra com a Rússia, ou, pelo contrário, como no caso da Hungria, manter com o governo russo uma relação semelhante àquela que se tem descrito haver (ou ter havido) entre a extrema-direita francesa, italiana ou austríaca.

O que a guerra tem propiciado é uma normalização das extremas-direitas do centro-leste da Europa, a começar pela polaca e pela ucraniana, descritas agora como “aliados fiéis” do Ocidente na luta contra a Rússia.

Não é, portanto, a posição perante Putin que define a extrema-direita, da mesma forma que tomar partido nesta guerra, como bem se percebe, não distingue quem é democrata de quem não o é. O que a guerra tem propiciado é uma normalização das extremas-direitas do centro-leste da Europa, a começar pela polaca e pela ucraniana, descritas agora como “aliados fiéis” do Ocidente na luta contra a Rússia. (Pensando bem, é exatamente o que elas diziam de si próprias quando por toda a região se aliaram a Hitler em 1941.)

Outra das lições destes anos de autoritarismo húngaro e polaco – hoje com atitudes diferentes perante a guerra na Ucrânia, mas que permanecem os aliados de sempre nas suas políticas racistas – é que nenhum deles pretende deixar a UE: o que eles querem, como sublinha Steven Forti (Extrema-derecha 2.0, 2021), é “mudá-la mas não destruí-la”. Toda a extrema-direita do leste da Europa (a começar por Orbán) é partidária da adesão quer à NATO, quer à UE, e aquela que na Europa ocidental pôs em causa não a primeira, mas a segunda, deixou de o fazer a partir de 2017-18. Podem húngaros e polacos enfrentar, com muita calma, de resto, a ameaça de sanções de Bruxelas (de que não mais se ouviu falar), mas nenhum dos dois governos pretende abandonar a UE. Pelo contrário, o que demonstra a reação ocidental à guerra é que eles têm ganho um significativo espaço de manobra. Como disse Orbán no domingo passado, “o que estamos a dizer à Europa é que isto não é o passado – isto é o futuro.”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


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De que matéria se faz uma guerra?

(Raquel Varela, in Ionline, 05/04/2022)

A grande maioria dos historiadores é suficientemente virtuoso para esquecer os motivos frívolos que os fautores das guerras apresentam. Discursos dramáticos, propaganda de valores morais auto atribuídos, tudo com os anos se enche de pó em caixas que acabam, quando muito, num livro de curiosidades à venda num aeroporto. O assassinato do arquiduque Francisco Fernando é o facto menos relevante da Primeira Grande Guerra, ninguém ensina que é a causa da guerra. Mas afinal qual é a razão da guerra em curso?

Durante a Primeira Guerra Mundial, o jornalista John Reed, convidado a discursar num clube das classes dirigentes dos EUA, deu uma resposta contundente à pergunta que os seus anfitriões lhe fizeram: “Quais as motivações desta guerra?” “Profits”, respondeu ele. Lucros. A grande motivação dessa como de outras guerras.

Nem todos os metais raros têm a mesma importância. Esta é definida por três razões: a sua disponibilidade (a sua raridade), localização e importância na cadeia de produção. Metais raros são um grupo de cerca de 60 (segundo dados de 2010 e 2014).

Devido às suas propriedades óticas, químicas e magnéticas, eles são fundamentais para baterias de carros, eólicas, indústria aeroespacial, medicina, robótica, automação, segurança cibernética, biotecnologias, nanotecnologia, iluminação, catalisadores, indústria militar.

Entre eles há 17, os mais estratégicos, considerados como “terras raras”, 15 mais o ítrio e o escândio. Em geral, estes materiais são produzidos em muito pequena quantidade (por vezes escassas toneladas), muito longe da produção de cobre, por exemplo – produzem-se 15 milhões de toneladas de cobre anualmente. Para se ter uma ideia do que falamos, algumas das matérias raras atingem um preço superior ao do ouro (50 mil ou mais euros por quilo).

Parte destes materiais são considerados críticos para a UE devido à “vulnerabilidade do abastecimento”, ou seja, veem de países onde há conflitos e guerras, há monopólios, ou por fatores ambientais. O grau de vulnerabilidade é ainda definido pelo grau de necessidade nas indústrias mais lucrativas. É o caso das terras raras, do crómio, tungsténio, antimónio, índio, nióbio, gálio, silício, grafite, magnesite, antimónio, entre outros. A produção destas matérias-primas está muito concentrada em poucos países, com a China à cabeça, a Rússia (grupo das platinas) África do Sul, Brasil, Turquia, Congo, Estados Unidos e Cazaquistão.

As terras raras (o conjunto de 17 materiais) não são raras pela quantidade em que ocorrem, apenas pelas necessidades mundiais e concentração em poucos países. São aplicadas nos ímanes das eólicas, painéis solares, lâmpadas de baixo consumo, baterias dos carros elétricos, catalisadores, lasers, mísseis, óculos de visão noturna, indústria aeronáutica, aparelhos médicos de diagnóstico, submarinos. Sem eles não há “transição energética”. As reservas mundiais estimam-se em 124 milhões de toneladas, das quais 44 milhões estão na China, 22 milhões no Vietname, 22 milhões no Brasil, 12 milhões na Rússia e 6 milhões na Índia. Recordo que destes cinco países, quatro abstiveram-se de condenar a invasão russa, só o Brasil votou a favor. A China detém não só as maiores reservas, como produz atualmente 90% das terras raras do mundo.

A Rússia e a Ucrânia produzem 25% do trigo mundial e, em alguns, casos a Rússia metade dos adubos, essenciais para a produção de soja no Brasil, carne na Argentina, por exemplo. A UE é dependente do gás e petróleo russos. A substituição do gás da Rússia pelo gás dos EUA tem custos materiais e ecológicos insuportáveis (na produção, porque parte em fracking; na liquefacção, gaseificação, transfer, transporte). Para liquefazer o gás norte-americano e transportá-lo é necessário arrefecê-lo a 162 graus Celsius, com um brutal gasto de energia e poluição. Os gasodutos estão construídos de leste para oeste e ramificam-se quando entram dentro de cada país, inverter isto tem custos astronómicos. É como uma barragem para um regadio e não o contrário. A anunciada venda dos EUA à UE que fez reluzir Biden não cobre nem 10% do que a EU importa este ano da Rússia. Além disso, a imaculada Noruega, com o parque automóvel mais eletrificado do mundo, tem como contraponto a cidade de Antofagasta, no Chile, que exporta minérios para as limpas “economias verdes” e que tem uma das taxas de cancro respiratório mais altas do mundo (10%).

Os seis metais industriais mais produzidos no mundo são o ferro, alumínio, crómio, cobre, manganés e zinco e são fundamentalmente produzidos na China, Rússia, Índia, Brasil, EUA, Canadá, Austrália, África do Sul, Cazaquistão e Turquia. Nenhum país europeu. O urânio, essencial para a energia nuclear, que a UE defende como alternativa, tem no Cazaquistão 43% das reservas mundiais.

Uma curiosidade: cada telemóvel contém 65 a 70 materiais diferentes, parte deles raros, entre os quais oito “terras raras”; cada carro elétrico tem entre nove e 11 quilos de “terras raras”; cada um dos grandes aero geradores precisa de uma tonelada de metais raros.

 O Médio Oriente está devastado por ser alvo da disputa pelo petróleo, o Norte de África, do gás, a Nigéria, do petróleo, a guerra de Cabo Delgado é por estes recursos, a do Iémen e do Ruanda também foi. Há no mundo 82 milhões de refugiados, a fugir das guerras desta disputa mundial. Hoje, tudo indica que a Ucrânia é o palco de guerra por uma redefinição dos blocos económicos e militares, em que a disputa destas matérias-primas à escala mundial é essencial para uma economia baseada no lucro e não nas necessidades da vida.

 A única economia verde sustentável seria a redução do horário de trabalho sem redução salarial, encerramento de fábricas à noite, melhores relações cidade/campo, fim da especulação imobiliária, melhores transportes públicos, tempo de lazer, fim da obsolescência programada. Em vez disso, fábricas laboram noite adentro, retirando o último sopro de força anímica aos milhões de trabalhadores que na UE, sem qualquer necessidade, trabalham de noite. O modelo de acumulação esgota os trabalhadores e esgota os recursos, e leva o mundo para a guerra. É anti-ecológico, com ou sem baterias de lítio. A militarização da UE seria atirar gasolina para este fogo. E, ao contrário do que se pensa, faltam bombeiros na UE.

A União Europeia assegura-nos que a paz duradoura e a estabilidade política no continente e no mundo têm como elo fulcral de mediação a UE, que seria o reduto da democracia e dos direitos humanos, salvaguardando os princípios de um livre mercado regulado enquanto última instância de toda e qualquer liberdade. As suas regras, a um só tempo, “firmes e flexíveis.” Os seus leitmotifs combinariam a solidariedade e a eficiência. Durante 30 anos a fio – de 1992 a 2022 – venderam o peixe da chamada “Cultura de Paz” como produto fresco das águas europeias. Mas há algo de podre neste reino arquetípico: as disputas por matérias-primas, e os maiores conflitos armados do mundo na história contemporânea, tiveram a mão de “oligarcas” e Estados europeus.

A prazo, creio, que iremos olhar esta guerra – que porventura irá parar em breve, mas pode tornar-se mundial dentro de poucos anos – como uma tentativa dos Governos ocidentais de socorrerem as suas empresas para tentarem sair da crise estrutural de acumulação. Crise provocada pela intensificação da concorrência na globalização, avançando para a exploração direta, sem intermediários, de matérias-primas da Rússia, e para a disputa com a China destas matérias e mercados.

Sem estas matérias-primas não haverá reconversão industrial 4.0 e acordo “verde”, o “milagre europeu” será impossível (o custo da reconversão verde sem mudar de modelo económico seria a destruição do Estado social pela canalização de recursos da saúde, educação e reformas para a restruturação “verde” e a economia de guerra). Do outro lado são o capitalismo russo e o capitalismo de Estado chinês e – quem sabe? – o indiano que disputam à escala mundial os lugares no pódio da acumulação. É o capitalismo, de todos os lados, que está à beira do precipício e dá um passo em frente. Os motivos apresentados são a defesa do “mundo livre” de um lado, da “segurança” do outro. A Ucrânia é hoje o palco regional de uma disputa mundial. Quem no terreno morre são os filhos das classes trabalhadoras e médias, quem paga a guerra somos nós, contribuintes, com a degradação da qualidade de vida, saúde, educação. Bem-vindos à barbárie!

Fonte aqui


Raquel Varela, Historiadora, autora de Breve História da Europa (Bertrand, 2018).

Fontes: Atlas Mondial des Matières Premieres

Bernadette Mérenne-Schoumaker e edição da National Geographic de Março de 222 sobre Terras Raras.


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