Consequências da Guerra (2)

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 20/03/2022)

Esta invasão e esta guerra destruíram o precário e periclitante equilíbrio de forças em que o mundo tinha vivido desde o fim da Guerra Fria e da implosão da URSS. Esta é a sua primeira consequência.

As discussões sobre uma (mais uma)”nova ordem mundial” destes últimos anos costumavam girar à volta de duas visões alternativas: Para uns deveria assentar num acordo entre as 3 principais potências (EUA, Rússia e China) capaz de impulsionar a cooperação multilateral. Para outros, aquela ordem deveria resultar do estabelecimento de esferas de influência que, uma vez respeitadas, constituiriam a forma mais segura e eficaz de estabelecer a paz no mundo, ou uma situação de conflito adormecido.

Esta invasão revelou a escolha das oligarquias das 3 superpotências e do anexo que é a União Europeia.

Como tem acontecido com frequência ao longo da história um acontecimento imprevisto ou de consequências mal calculadas provocou uma rutura e desencadeou um confronto. O que estava em jogo desde o fim da URSS e da emergência da China como superpotência militar e económica era e é dividir o mundo, não em três fatias, mas mantê-lo na lógica bipolar do duelo. Desde os anos 90 do século passado que se trava a guerra insidiosa de eliminar um dos competidores, neste caso a Rússia, para que os dois outros, os EUA e a China, se possam defrontar num duelo que segue o argumento dos filmes de gangues mafiosos, ou de cena final de filme de cowboys. A Rússia não aceitou servir de cordeiro sacrificado e desencadeou uma guerra por antecipação. Escolheu o tempo que considerou ser-lhe mais favorável para combater, já que o lugar, a Ucrânia fora escolhido pelo adversário, os EUA.

O que está em jogo nesta invasão pode ser interpretado como o primeiro ato de uma manobra de conquista de poder — militar e económico — para estabelecer uma posição de domínio numa «Nova Ordem Mundial». O que está em causa é a distribuição do poder entre oligarquias reunidas à volta de 3 vértices e em 3 zonas de concentração de interesses.

Independentemente do resultado das operações militares, da maior ou menor destruição, dos futuros estatutos territoriais, das lideranças políticas, uma coisa é certa: a Ucrânia passou à condição de ferida aberta no coração da Europa. Uma ferida que ninguém saberá quando sarará, e se sarará!

O resultado já visível das decisões tomadas pelos dirigentes políticos americanos e europeus tiveram como consequência dividir o mundo em dois blocos, um constituído pelos EUA e os seus satélites da NATO, mais a Austrália, o “velho Ocidente”, e outro constituído pela Rússia, a China e porventura a Índia.

Esta guerra expulsou a Rússia da Europa! Expulsou-a militar, política, científica e até civilizacionalmente. Veja-se o corte de relações de organização universitárias e de investigação europeias e americanas com congéneres russas, de cancelamento de encontros científicos e culturais, de proibição de concertos de música ou de bailado, de colóquios sobre literatura. Tolstoi passou a ser asiático, assim como Tchaikovski! A presidente da Comissão Europeia afirmou com a energia que se lhe conhece e com a alegria vivaça de uma missionária que a Ucrânia de Zelenski fazia parte da família europeia. A Rússia não! Uma das consequências desta guerra foi uma amputação histórica, já que a geográfica era impossível de materializar, a não ser com um Muro. Mais um!

A divisão do mundo resultante da expulsão da Rússia da Europa, com a criação de dois blocos gerará um mais conjunto de fronteiras e barreiras. As sanções económicas americanas à Rússia provocarão a mais rápida criação de uma moeda de troca internacional alternativa do dólar, constituída pelo rublo, o yuan e a rupia. Os europeus pagarão mais caro as emissões de dólares pelos EUA. As sanções tecnológicas conduzirão a sistemas de transmissão de dados alternativos à Internet e tendencialmente incompatíveis, o que obrigará a redundâncias e aos respetivos custos. A cooperação na área do ambiente, dos mares, do espaço, da saúde será reduzida e desenvolvida por cada um dos blocos, segundo os seus interesses. O comércio mundial entre os dois blocos será limitado e controlado, mesmo que a China procure atenuar os efeitos. Esta guerra apresentada como um conflito de sociedades livres e solidárias contra sociedades agressivas e egoístas terá como efeito reduzir a solidariedade internacional e a cooperação: os refugiados de todo o mundo, as vítimas de guerras e calamidades serão ainda mais abandonados. As Nações Unidas e as suas Agências serão ainda mais desprezadas, da ACNUR à UNICEF, da UNESCO à OMS. A cooperação nas várias áreas da investigação científica será restringida ao interior do respetivo bloco. Deixaremos de ser cidadãos do mundo. Seremos regionalizados, racializados, bloqueados. Seremos todos o «outro» em metade do mundo!

E a União Europeia? Trauteia!

Percebe-se com clareza a estratégia e os objetivos dos Estados Unidos, da Rússia e a China. Percebe-se até o papel de atores secundários, da Turquia, do Irão, de Israel, na fronteira do conflito. O que de todo não se percebe é o papel da União Europeia, no centro do conflito, teatro de operações, base de ataque, base logística, base de recolha de refugiados!

Os europeus vão sofrer com inflação, desvio de verbas destinadas à melhoria das condições de vida, dos serviços de saúde, de educação, de segurança social — que serão privatizados porque não haverá recursos para eles -, de defesa do ambiente, de transição energética, para transferir verbas para um estupido rearmamento, e estúpido porque inútil, apenas lucrativo para os negociantes de armamento, as empresas do complexo militar-industrial americano.

Os europeus vão sofrer uma violenta degradação do seu emprego, em particular do emprego qualificado e bem pago. As indústrias que produzem bens e serviços de alto valor acrescentado serão americanas. O aeroespacial será americano. A Airbus, por exemplo, será inviabilizada em favor da Boeing, como aconteceu com a Embraer brasileira, a EADS (Eurospace, Aeronautical and Defense Systems) que agrega a indústria aeronáutica e aeroespacial europeia e inclui entre outras grandes empresas a Airbus, a Eurocopter, a Rolls-Royce –Turbomeca (produtores de turbinas que concorrem com a General Electric GE) desaparecerão porque o complexo militar-industrial da muito liberal América não aprecia a concorrência.

Os tão “satisfeitinhos consigo mesmo” dirigentes da União Europeia afirmam sorridentes e efusivos que estão unidos. Se existissem jornalistas e não sacristãos para dizer ámen haveria que lhes perguntar porque estão satisfeitos e o que têm preparado para o futuro.

Esta guerra é também um furúnculo de onde se está a reunir e a purgar o pior que existe na humanidade, e na Europa, em particular. Os grupos neonazis que integram as forças da Rússia e da Ucrânia, o Wagner Group, o Russian Imperial Movement (RIM), uma organização paramilitar supremacista branca russa compete no mesmo plano com o conhecido Regimento Azov da Ucrânia, mas na retaguarda destes estão outros movimentos totalitários irmãos, nacionalistas, supremacistas instalados no topo do poder político de estados da União Europeia na Polónia, um estado teocrático e racista, na Hungria, na Roménia, na Eslováquia, nos países bálticos.

Não é pois a defesa de valores e princípios resultantes do liberalismo e da Revolução Francesa, de Justiça, Igualdade e Solidariedade que a União Europeia está a defender com a sua política relativamente à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Também não é a obtenção de vantagens económicas: os europeus vão empobrecer com as suas opções e pagar mais pelos produtos essenciais. Nem sequer com desgraça União Europeia lucrará: a reconstrução da Ucrânia será feita por empresas chinesas, e serão chineses os trabalhadores, não os refugiados da Europa.

Se não existem razões de ética, de princípios que justifiquem a opção da UE, se não existem vantagens económicas, se não há questões de segurança, a pergunta que se faz ao ver os sorrisos abertos dos dirigentes europeus é a mesma que se faz às hienas: de que se riem as hienas?

Que objetivos propõem os dirigentes europeus para a Europa neste conflito, porque deles depende o futuro dos povos europeus para o próximo longo futuro?

Independentemente da opinião que cada um de nós possa ter sobre a UE, ela existe, nós fazemos parte dela. Sem ela cada Estado seria ainda mais irrelevante do que o conjunto já é e parece aceitar ser, mas com ela neste estado e com este naipe de dirigentes estamos, enquanto europeus e nacionais dos Estados Europeus, na mesma posição em que os Estados Unidos colocaram Zelenski, o seu homem, na posição dos entalados. Em Portugal temos a figura de Martim Moniz.

O que se ouve dos dirigentes da UE é um discurso absurdo, paradoxal: solidariedade com os refugiados!

Mas como se materializa a solidariedade, tomando a situação da Ucrânia como de irreversível domínio russo e de inultrapassável animosidade com a Rússia, dado que a União cortou todas as pontes? Receber os refugiados temporariamente para os reenviar de regresso? Mas que novo poder estará em Kiev para os receber? E com quem negociará a UE, se atirou a Rússia para a Ásia, ao cortar relações políticas, económicas, financeiras, culturais, até universitárias, se atirou a Rússia para a órbita da China, que cobrará o seu apoio.

A outra parte do discurso dos dirigentes da UE é ainda mais irracional: o discurso do rearmamento da UE. Esse rearmamento é inútil, estúpido a vários títulos. A Europa vai comprar armas americanas (F35 da Lockheed, para a Alemanha, p.ex), carros de combate, navios, artilharia… uma sofisticada e caríssima parafernália em que todos os dinky toys dependem do GPS americano! Sem os satélites americanos todos estão cegos.

A Europa não tem uma política militar aeroespacial, não dispõe de um sistema de geolocalização, sequer! Também não tem redes de transmissão de dados (internet) e também não tem armas nucleares para dissuasão. Por fim: os Estados Unidos jamais permitirão que a Europa seja uma grande potência militar. Quer apenas uma força auxiliar, não um competidor.

A supremacia política e militar dos Estados Unidos traduzir-se-á numa supremacia económica, com resultados devastadores para o emprego dos europeus e para a sua qualidade de vida. Não só o estado social será substituído pelo estado liberal americano — destruição de serviços públicos e segurança social — mas as grandes companhias de alta tecnologia serão americanas. A Europa aumentará a dependência energética dos EUA assim como a dependência alimentar. O gás russo irá para a China, assim como os seus cereais e os da Ucrânia. Os dirigentes da UE trocaram a dependência diversificada, pela dependência de um só fornecedor!

O que podem fazer os cidadãos europeus neste novo mundo para contrariar esta nova e negra ordem mundial?

Mandatar alguém de boa índole, de fora das cúrias das capitais europeias, sem falsos sorrisos, perguntar a Joe Biden, na sua visita imperial à Europa a 24 de Março, a que preço os Estados Unidos fornecerão gás e cereais à Europa, que lugar terá a UE no programa espacial americano, que liberdade terá a UE para fazer contratos noutra moeda que não seja o dólar, por exemplo. E por fim, perguntar-lhe se, para viver em paz na Europa, os Estados Unidos vão exigir aos europeus, como nos Estados Unidos nos tempos do macarthismo, se serão obrigados a assinar uma declaração anti russa, ou a usar uma estrela vermelha na roupa caso o não façam.


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A guerra das paixões

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 19/03/2022)

Há muitos anos, numa biblioteca da Berlim ainda dividida, perdi a pouca inocência que ainda me restava acerca da eventual superior capacidade que os intelectuais teriam – em comparação com a maioria esmagadora das pessoas que não são pagas para pensar criticamente – de, perante uma situação extrema, manter a capacidade de análise para a qual foram educados e treinados. Consultando revistas filosóficas, alemãs e francesas, publicadas na I Guerra Mundial, surpreendi algumas antigas e futuras vedetas filosóficas, das duas margens do Reno, a juntarem as suas penas agressivas ao esforço bélico dos seus exércitos, chegando mesmo a dar crédito à propaganda mais descarada que, como estamos outra vez a recordar com a guerra na Ucrânia, consegue ser uma arma de destruição maciça, nesse campo de batalha onde se ganha e perde a adesão dos espíritos.

A invasão russa da Ucrânia provocou uma tempestade emocional nalguns dos nossos comentadores da imprensa e do audiovisual, que está a atingir os limites da decência. Mesmo sem fazer nenhum esforço de pesquisa para tal orientado, já surpreendi estrategistas instantâneos a corrigirem militares profissionais, por escritos ou entrevistas televisivas, ou a censurarem cronistas como Miguel Sousa Tavares, ou académicos como Boaventura Sousa Santos, pelo simples facto de estes tentarem oferecer aos seus espectadores e leitores uma visão mais alargada e historicamente contextualizada da complexidade de causas e problemas que nos conduziram à actual guerra.

Repare-se que nenhum dos visados deixou de condenar o ataque de Putin, e de sentir solidariedade com as vítimas da ofensiva russa. Para aqueles plumitivos censores, traindo esse obscuro conformismo que também mora na nossa tradição cultural, tudo o que não se acolhe na sua grelha bicolor e binária, que arruma os contendores em demónios e anjos, implica uma cedência indesculpável ao “putinismo”…

Infelizmente, a delicadeza e gravidade da situação militar e política dispensa o daltonismo moralista destes vigilantes da opinião alheia. Para distinguir o essencial do acessório, importa não esquecer que estamos a viver dias muito semelhantes àqueles que, entre 28 de Junho e 4 de Agosto 1914, assistiram a sucessivos erros de cálculo que desaguaram no massacre da I Guerra Mundial. A paragem da ofensiva russa, mostrando Putin mais como medíocre jogador de poker do que xadrezista exímio, só poderia ser invertida com uma escalada russa nas forças envolvidas e baixas sofridas, comportando um preço político incalculável, tanto na frente externa como na doméstica. A Ucrânia pode resistir longamente, mas só poderia tomar a iniciativa com a aceitação do repetido pedido de Zelensky para a NATO fechar o espaço aéreo da Ucrânia. Esse passo, contudo, arriscaria generalizar o conflito, rumo à escalada nuclear. A prioridade é baixar a violência e não acicatá-la. O que une a Rússia e a Ucrânia é a urgência de escolher entre um processo negocial, em que ambas têm de fazer compromissos e cedências mútuas para calar as armas, ou mergulhar numa espiral de violência que poderá escorregar para uma guerra global.

É do interesse geral, incluindo ético e humanitário, encorajar Moscovo e Kiev a seguirem pelo primeiro caminho. Dar tempo à diplomacia para restaurar a paz. Exactamente o oposto de um aventureirismo que poderia fazer alastrar o incêndio bélico a potencialmente toda a Europa.

Professor universitário


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O monstro da Europa

(Por Nuno Nunes, in Facebook, 15/03/2022)

Manda quem pode, obedece quem deve (ditado popular).

Esta guerra não é nada comparada com a guerra que virá a seguir. E devia, antes de mais, servir como aviso para se evitar um posterior mal maior. Mas tudo indica o contrário: não só não se soube evitá-la, como ainda se procede de forma a criar condições para que, mais tarde ou mais cedo, tenhamos humilhação de países, vencidos e vencedores, ultranacionalismos internos e ressentimentos a criar terreno para um novo conflito, mais abrangente e incendiado pelas mazelas provocadas pelo primeiro (a História a repetir-se).

A Ucrânia foi vilipendiada. Está a ser usada como tabuleiro duma guerra maior, tratada como mercadoria descartável, passando-se por cima de vidas com a máxima ignomínia. A guerra na Ucrânia é uma fístula do projeto europeu. Na medida em que a Europa não agiu para a evitar, representa a falência da Europa política e, de alguma forma, a falência do ideal humanista, pluralista, mundividente e solidário do projeto europeu.

E a resposta que dá, cobarde, irresponsável e ignóbil, confirma essa falência: humilhação da Rússia, desprezo pelo seu povo através duma ofensiva do “desaparecimento” do país (cancelamento de artistas, da literatura, de atletas, equipas desportivas, despedimento de pessoas – por não declararem uma posição anti Putin, ou seja, saneamento do pensamento, da liberdade de pensamento – censura de órgãos de comunicação), medidas despóticas medievalistas que fariam corar de vergonha e repúdio qualquer dos fundadores da UE.

Estão loucos? Esqueceram-se do que aconteceu com a Alemanha na sequência da Primeira Guerra e o que resultou disso? Procede com boicotes económicos que vão para lá duma resposta à guerra, visando isolar a Rússia do mundo, empobrecê-la e aproveitar-se da situação para, no fundo, servir o amo americano no intuito deste recuperar um poder planetário que está em declínio.

Não podemos esquecer duas simples premissas: a dependência europeia do gás russo (o projeto do Nord Stream 2), e o alimentar da conflitualidade com a Rússia, via NATO, mesmo depois do fim da URSS. E é preciso atender ao facto de nunca a NATO ter posto a hipótese da Rússia fazer parte ou ter qualquer papel construtivo na Aliança, mesmo quando Putin fez a proposta. São 30 anos a alimentar animosidades com os Russos, a produzir a figura do monstro, a criar o pretexto para o que está à vista. Só que, desta vez, o monstro antecipou-se e agiu antes que fosse tarde demais para ele próprio (o mesmo não puderam fazer Saddam, Assad ou Kadafi).

A Rússia tinha marcado a sua linha vermelha e, apesar disso, os norte americanos continuaram a instigar uma aproximação apoiada pela Europa. Em 2014, após o golpe de Estado na Ucrânia, temos a secretária de Estado norte-americana Victoria Nuland preparando o novo arranjo governamental para o país e a dizer “fuck the UE“, ou seja “aqui mandamos nós”. E a Europa a comer e calar. Armamento, dinheiro, brigadas nacionalista para alimentar uma guerra civil contra as hostes pró-russas, e a intenção declarada de pertencer à NATO.

A Rússia já tinha engolido a adesão da Estónia e da Letónia (2004), e isso já era a linha vermelha traçada em 1991. Que esperávamos nós que a Rússia fizesse perante esta militarização junto às suas fronteiras, na antecipação da Ucrânia à adesão a uma aliança cuja génese e fundamento é a de se constituir e perdurar como força adversária… e está a vê-la vir plantar-se à sua porta? Não devia ter a Europa assumido um papel na prevenção de todo este desenvolvimento? Que desrespeito foi este, ao longo de todos estes anos, por uma nação tão próxima, tão essencial na definição do que é a própria cultura, identidade e História europeias?

Claro que, dum ponto de vista financeiro, a Rússia foi sendo interessante e o seu dinheiro foi atravessando, de bom grado para todos, o espaço comunitário. A oligarquia russa estava muito bem inserida até agora, quando foi declarada criminosa… Só agora é que os oligarcas russos se tornaram subitamente “ladrões do seu próprio povo”, como declarou a presidente da Comissão Ursula Von der Leyen? Até ao dia 23 de fevereiro seriam apenas importantes investidores, mas no dia seguinte tornaram-se ladrões?

Pergunto-me – aludindo à entrevista de 1 de março do João Oliveira, na RTP – se a Ursula não conhecerá também outros oligarcas que roubem povos por aí. E se esse esforço louvável de fazer justiça retendo as suas fortunas colossais, não poderia inaugurar um procedimento que nos encheria de esperança, a nós e a todos os povos do mundo, pondo fim aos monopólios económico-financeiros e procedendo à distribuição justa da riqueza produzida. Mas a Europa não serve para isso.

Todos os dias me vem à lembrança a descrição que Orwell faz do equilíbrio instável das potências no mundo distópico de 1984. Entre a Eurásia, a Oceânia e a Lestásia, a guerra é permanente e tem funcionalidades várias. Precisa de ser mantida porque essa permanente acendalha, sobretudo nas zonas de fronteira, nas periferias, permite consumir e regenerar ad eternum as forças de produção e de agressão (e os interesses, a economia de guerra, consumo de excedentes, etc), canalizando para aí as tensões que permitem, ao centro, viver em relativa Paz.

E daí o postulado: “GUERRA É PAZ”. Pois nesse sentido, também esta guerra é dessa natureza e, consequentemente, é estúpida e inútil (sobretudo no que ao sofrimento do povo ucraniano diz respeito).

Sejamos claros: esta é uma guerra entre EUA e RÚSSIA, em que os EUA estão sentados a ver e a Europa serve as pipocas. Só se perdem as vidas de inocentes, de resto é um reciclar de matéria, de dinheiro, de energia. Neste tabuleiro de forças, o último fito está no lucro, na vantagem, na acumulação dum grupo restrito de multimilionários, na destruição de riqueza para posterior produção de novos bens. Os oligarcas em Washington rejubilam.

O que se coloca, em última instância, é o empobrecimento, desde logo da Rússia, para vantagem dos EUA, e logo a seguir, de todos nós (como aliás já está a acontecer… outra vez!). E temos uma Europa serviçal e inoperante, que se presta a ser a bandeja deste veneno calculista, traiçoeiro, intromissivo, quezilento, desleal, que é a política externa americana.

E está a permitir que empobreçamos para gáudio desses. É que é muito fácil ter em Putin o monstro horrível que justifica todo o mal, é aliás desejável que assim seja e é nisso que se tem trabalhado desde o início.

Mas o que se está a fazer, também com a opinião pública, através da censura e da comunicação social (e os Média que temos, se são informação, o que seria se fossem propaganda…!) é tomar-nos por tolos, é alimentar a ignorância, é manipular os bons sentimentos, é explorar o horror e o medo, criar uma realidade fácil de entender (fácil não, preguiçosa), criar esse monstro que justifique toda a arbitrariedade do lado de cá e do lado de lá.

Mais tarde – e não será muito mais tarde, infelizmente – esse mal-estar, essa ignorância, esse ressentimento acumulado, darão ainda mais força a ideologias nacionalistas radicais que já se estão a afirmar entre nós (e no espaço europeu), e poderemos ter de encarar um cenário de conflitualidade ainda mais irracional e imprevisível do que aquele que temos. O monstro da Europa é a sua própria imagem refletida num espelho.

Por que lutam os ucranianos? Pelo seu presidente? A sério?! Alguém que foi levado em braços pela comunicação social, pelo mainstream audiovisual, uma marioneta nas mãos dos poderes ocidentais, um populista que da noite para o dia se torna líder dum país…! Acreditamos neste conto de fadas, a sério?! (Ainda por cima, um conto que parece o argumento dum mau filme… “um ator que na ficção faz o papel de presidente e depois, no plano do real, funda um partido e, no ano seguinte, torna-se verdadeiramente presidente…”). Pois esse presidente não foi capaz de prever e de proteger o seu país da atual situação, apoiado que estava sobre uns tacões de dólares?

Lutam os ucranianos pela independência? Claro! E bem! Mas para isso, valerá a pena derramar sangue? Ver destruir as cidades (e as escolas, hospitais, maternidades, pontes… tudo!) Não era melhor despedir o presidente e o governo? Estão a defender-se do quê? Do papão soviético? Isso acabou!

A ideia de que Putin pode almejar alargar a Rússia para as fronteiras da URSS é um engodo. Ele não tem poderio económico militar para sustentar tal coisa, nem tem opinião pública favorável a isso, nem teria apoio dos países seus aliados e, muito menos, se meteria a jeito para uma guerra com o Ocidente (NATO). Seria totalmente irracional e suicidário. Quem se ilude com esse Putin, está a ver um monstro no mínimo burro, não o líder que Putin mostrou ser nos últimos 20 anos. Estamos a sofrer nós mesmos uma escalada sem precedentes no preço dos combustíveis por causa disto?! Porque aos EUA não agrada a ideia duma Rússia forte, capaz de se impor economicamente a leste, inclusive de ser o principal fornecedor de energia à Europa?! É por causa disto?!

O melhor que pode acontecer é a Rússia ganhar esta guerra rapidamente, sem mais sangue, sem resistência e sem intromissão exterior (reforço de meios militares dos países a oeste), e que a Ucrânia assuma a sua neutralidade com um governo que resulte da genuína vontade popular, e que o país se reconstrua e a vida recomece com toda a ajuda da comunidade internacional.

E a Europa terá, dolorosamente, de encontrar formas de limpar a face por todo este vergonhoso episódio – esperaria eu que fosse apenas um episódio, mas isto seria na minha otimista perspetiva para o futuro.


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