Além do sofrimento e da destruição que tem causado para quem está diretamente envolvido, a invasão da Ucrânia está a provocar muitas outras consequências perversas para lá do teatro de guerra.
Além do sofrimento e da destruição que tem causado para quem está diretamente envolvido, a invasão da Ucrânia está a provocar muitas outras consequências perversas para lá do teatro de guerra. É certo que a comoção gerada pelas imagens das populações em fuga dá também origem a gestos de compaixão, de solidariedade e de acolhimento que são boas lições para o presente e o futuro. Quem diria, por exemplo, ser possível um tão largo consenso sobre o acolhimento de refugiados, nos mesmíssimos países onde tanto ódio e xenofobia foi instigado quando era preciso receber as vítimas da guerra na Síria? Ou no mesmo continente em que se criminalizou imoralmente, como fizeram as autoridades italianas, os ativistas que resgatam a vida de milhares de pessoas que arriscam a sorte, em barcos precários que atravessam o Mediterrâneo, em busca de asilo para si e para os seus filhos na Europa. Quem diria que sanções às oligarquias de Estados opressores poderiam ser afinal objeto de acordo, quando há tantos anos reina a complacência e mesmo a descarada captação desses “investimentos” vindos de territórios violentados de todas as formas?
Será bom que esta cultura anti-imperialista faça o seu caminho, com a condenação generalizada da invasão russa de um território soberano. Não minimizemos, entretanto, a normalização do absurdo ou a desconsideração de direitos humanos e políticos fundamentais que não deveriam, à boleia do clima de exceção que as guerras instalam, ser consentidos.
Uma das consequências intoleráveis é o ambiente de intimidação intelectual ou de repressão política sobre quem se esforça por ter um pensamento sobre o que está a acontecer que vá ao arrepio das narrativas hegemónicas. Nas democracias europeias, procura-se impor a ideia de que a condenação da invasão (que deve ser inequívoca) seria necessariamente sinónimo da reabilitação da ideologia do “choque de civilizações” e dessa espécie de nova divisão do mundo em dois campos: o “modo de vida ocidental” contra a “irracionalidade” do resto do mundo. Esse discurso intelectualmente preguiçoso e politicamente perigoso é uma armadilha que tem de ser rejeitada se queremos verdadeiramente empenhar-nos na paz. Na Rússia, onde Putin vem há muito consolidando uma ditadura cada vez mais ostensiva, o mesmo esquema invertido traduz-se na repressão violenta de qualquer opinião crítica da guerra como “traição nacional”, mesmo quando os cidadãos se limitam a empunhar uma “veemente” folha em branco. Na Ucrânia, entretanto, onze partidos políticos, cuja representação vem do voto do povo ucraniano, foram proibidos pelo presidente, ao abrigo da lei marcial.
Uma segunda consequência é a desvalorização do racismo. Em Portugal, foi noticiado o caso de Domingos Ngulonda e de Mário Biaguê, estudantes portugueses de medicina na Ucrânia, que ficaram cinco dias na fronteira com a Polónia e foram tratados, segundo os próprios, como “animais de carga” com polícias ucranianos com tacos de basebol que repetiam “africanos para o fundo da fila”, onde ouviram ordens para que os negros formassem filas próprias que eram remetidas para o fim. Não se tratou, infelizmente, de uma situação isolada. No final de fevereiro, o presidente do Senegal e o presidente da Comissão da União Africana queixaram-se dos “tratamentos inaceitáveis” e “chocantemente racistas” e o próprio Parlamento Europeu viu-se forçado, no primeiro dia de março, a condenar “o racismo experimentado pelos estudantes africanos e do Médio Oriente que foram impedidos de embarcar em autocarros e comboios na Ucrânia para chegar à fronteira ou impedidos na fronteira sem que pudessem procurar segurança”. Foram posições importantes, mas que não tiveram um eco à altura. Em Portugal, Santana Lopes vangloriava-se, nestes termos, de acolher refugiados: “A receber Dasha, lourinha, de olhos azuis. (…) Absolutamente emocionante”. No Observador, José Crespo de Carvalho, professor catedrático do ISCTE e co-fundador da We Help Ukraine, publicou um artigo repugnante, em que elogiava a “crise como oportunidade”, por poderem entrar em Portugal cerca de 30 mil ucranianos que “colocarão a faca nos dentes, isto é, ninguém espere que sejam trabalhadores das nove às cinco e que venham reclamar o que por cá reclamamos”, fazendo a apologia da exploração dos refugiados – prontos para serem sugados pelo oportunismo empresarial – e da instrumentalização da sua presença para rebaixar os direitos de todos, numa corrida para o fundo dos direitos laborais.
Uma terceira consequência é a trivialização de exortações arrepiantes, como a de um conselheiro nacional do PSD e professor da Universidade Católica que veio afirmar que “os nossos filhos têm de estar preparados para um dia, eventualmente, combaterem e morrerem se for preciso, pela UE” ou a apologia da corrida armamentista e da remilitarização da política, como se a paz pudesse ser construída com a escalada da guerra. Ou a hedionda decisão da juíza Catarina Vasco Pires, que isentou o neonazi Mário Machado de cumprir as medidas de coação a que foi sujeito pelos crimes que cometeu – estamos a falar de alguém que, entre outras coisas, esteve envolvido no homicídio racista de Alcindo Monteiro – para se dedicar à “ação humanitária” na Ucrânia, isto é, para se reunir com um grupo de nazis empunhando as armas que não pode legalmente utilizar em Portugal e se desobrigar de responder à justiça, decisão aliás já contestada pelo Ministério Público. A polarização da guerra serve de contexto para banalizar o inaceitável.
Uma quarta consequência – entre muitas outras que poderiam ser identificadas – é a regressão absoluta na agenda da justiça climática, essencial para salvar o planeta, com vários países a ponderar e até a anunciar a retomada da produção de energia fóssil, em função da crise energética agravada pela guerra.
Perante isto, mais do que nunca, precisamos de um movimento contra a guerra que atravesse todo o continente e se constitua como potência mundial pela paz, como aquela que se ergueu, em nome da humanidade, contra a invasão do Iraque em 2003 (uma agressão então apoiada por muitos atuais indefectíveis do Direito internacional…).
É na possibilidade desse movimento, creio eu, que repousa a esperança de derrotar a invasão, impôr o fim da guerra e de todas as perversidades que ela traz – a devastação da vida, a violação flagrante do direito internacional, mas também o exacerbar do racismo, da repressão política, da limitação das liberdades e da destruição do planeta.
(Jorge de Freitas Monteiro, in Facebook, 21/03/2022)
1. O ataque russo à Ucrânia não poderia passar sem sanções.
2. Numa primeira fase os Estados membros da UE da Europa Ocidental resistiram à imposição de sanções que pudessem prejudicar as suas economias mais do que o nível que consideraram razoável e apropriado.
3. Foi o período, que agora parece longínquo e para citar apenas alguns exemplos, em que a Itália pretendia excluir os produtos de luxo, a Bélgica os diamantes e todos eles o corte da ligação da Rússia ao SWIFT.
4. Sob pressão americana, coadjuvada pelos Estados membros de leste, a UE acabou por impor sucessivos pacotes de sanções que configuram um nível de sanções inédito.
5. Escapam de momento apenas alguns sectores nomeadamente o energético.
6. Há no entanto pressões americanas sobre os Estados membros da Europa Ocidental, como sempre apoiadas pelos Estados membros de leste (que, neste como noutros aspetos, vêm funcionando segundo uma lógica de cavalo de Tróia), no sentido de uma rutura de toda e qualquer relação comercial com a Rússia, incluindo no sector energético.
7. A verificar-se, uma tal ruptura significaria a paralisação largos sectores da economia de alguns Estados membros.
8. Ao contrário do que é habitualmente afirmado as sanções não foram impostas pela “comunidade internacional”, isto é pelas UN ou sequer por uma maioria de Estados a nível mundial.
9. Impuseram sanções os países da NATO, da UE e alguns países com alianças militares fortes com os US: Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e a Nova Zelândia. A Suíça, tal, como Singapura, depois de recusar num primeiro tempo, cedeu às pressões exercidas a adotou também um pacote de sanções. A Turquia e Israel recusaram-se a fazê-lo.
10. É fácil verificar que de entre os países que impuseram sanções os países da UE e os outros países europeus são de muito longe os que mais sofrem o seu impacto. Na realidade são os únicos que realmente o sofrem enquanto os US poderão até beneficiar com elas graças ao novo mercado que se abre para o seu gás de fracking vendido à Europa a pelo menos o dobro do preço do gás Russo.
11. Segundo a Sky News a família média britânica verá o seu rendimento anual diminuir em mais de 3000€ em resultado das sanções. Com algumas variações o mesmo acontecerá no resto da Europa com os mais pobres, países, famílias e indivíduos, a serem os mais sacrificados.
12. Não foram feitas contas sérias e muito menos estudado o impacto profundo das sanções adoptadas, nem a nível da UE nem a nível de cada um dos seus Estados membros.
13. É geralmente aceite que vamos ter uma depressão económica acompanhada da subida em flecha dos preços dos alimentos, dos combustíveis e de forma global de uma inflação generalizada que vai reduzir substancialmente o poder de compra dos salários. O desemprego vai aumentar com as falências e a redução da produção em numerosos sectores. As finanças públicas vão de novo entrar em desequilíbrio. Em resumo, uma espécie de 2008/2011 só que para pior.
14. Se por um lado é óbvio que os governos que decidiram impor as sanções já adotadas (e as que possivelmente estão para vir) não poderiam dispor de um mandato explícito dos seus eleitores nesse sentido (a situação era impossível de prever) é igualmente óbvio que a adoção de sanções desta dimensão inédita com um impacto igualmente inédito na vida dos cidadãos europeus coloca um problema de legitimidade.
15. À medida que os efeitos expectáveis das sanções se fizerem sentir na Europa a questão da legitimidade será cada vez mais evocada, com consequência imprevisíveis para a imagem da UE e para estabilidade dos governos e dos próprios regimes democráticos.
16. Tudo isto ainda poderia ser justificável se as sanções produzissem o efeito desejado de forma rápida, neste caso o fim do ataque russo e a queda de Putin.
17. A experiência demonstra o contrário, as sanções não só nunca atingem os objetivos que se propõem atingir como frequentemente acabam por reforçar os regimes que pretendem enfraquecer. Estes passam a poder apresentar as sanções não só como explicação para as suas falhas mas também como elemento mobilizador e de unidade contra um inimigo externo.
18. Em síntese a UE adotou um conjunto de sanções que lhe foi imposto, que são segundo toda a probabilidade inúteis, cujo fardo suporta de forma completamente desproporcionada em relação aos seus aliados, sem se colocar as questões de custo, de legitimidade e de estabilidade a prazo do consenso social indispensável.
19. Neste momento em que estão em cima da mesa propostas para novas sanções ainda mais prejudiciais aos interesses europeus seria indispensável que os Estados membros da Europa Ocidental se coordenassem para resistirem às já habituais pressões externas e internas, cada vez mais reforçadas por uma opinião pública sabiamente condicionada no sentido da escalada da guerra e das sanções.
20. Isto sob pena de daqui a uns meses vermos os mesmos que agora clamam no conforto dos seus sofás por mais sanções a manifestarem-se violentamente na rua contra os respetivos governos e contra a UE.
Stepan Bandera. Ele não se afirmava nazi, mas apenas « nacionalista » ucraniano. Desde 1935, Bandera pregava a violência política. Ele manda assassinar umas sessenta de personalidades entre as quais dois ministros polacos. Durante a Segunda Guerra mundial, organiza o extermínio dos intelectuais judeus e eslavos. O novo regime ucraniano erigiu monumentos em sua honra entre os quais um em Lviv, cidade onde ele dirigiu um massacre.
(Este texto desmonta muitas das mentiras que as guerras originam. Há censura na União Europeia, aceite inexplicavelmente por muitos democratas. É por isso que o publico, porque acho que se deve ouvir ambas as partes. É uma visão que não nos é dada na nossa comunicação social. Quem discordar pode dizer que é propaganda pró-russa, e atacar o mensageiro em vez de discutir os factos e as mensagens. Mas, se for propaganda revela grande saber e competência. Ao lado do Milhazes e do Rogeiro o autor é um génio.
Estátua de Sal, 21/03/2022)
A opinião pública ocidental está revoltada pela guerra na Ucrânia e mobiliza-se para levar socorro aos Ucranianos em fuga. Para todos, é evidente : o « ditador » Putin não suporta a nova democracia ucraniana.
Como em todos os conflitos, explicam-nos que os outros são os maus, enquanto nós somos os bonzinhos.
A nossa reacção é a das pessoas violentadas pela propaganda de guerra porque essas não se lembram dos conflitos precedentes e ignoram tudo sobre a Ucrânia. Recomecemos a partir do zero.
QUEM COMEÇOU ?
Como no pátio do recreio quando os nossos colegas de classe se batiam uns com os outros, queremos sempre saber quem começou. Quanto a este ponto, não há reportagens : há oito anos, os Estados Unidos montaram uma mudança de regime em Kiev com ajuda de grupúsculos armados. Esses tipos afirmam-se « nacionalistas », mas de forma nenhuma no sentido em que o entendemos. Proclamam ser os verdadeiros ucranianos, os de origem escandinava ou proto-germânica e não eslavos como os Russos. Eles reclamam-se também da herança de Stepan Bandera [1], o chefe dos colaboracionistas ucranianos dos nazis, o equivalente a Philippe Pétain de um ponto de vista simbólico para os Franceses, mas principalmente a Joseph Darnand e aos soldados da Divisão SS francesa Charlemagne. Os Ucranianos, que até agora se consideravam ao mesmo tempo de origem escandinava e proto-germânica por um lado, e eslavos por outro, chamam-nos «neo-nazis».
Aqui, em França, a palavra « nazi » é uma injúria que se usa a torto e a direito. Historicamente, é um movimento que pregava uma visão racialista da humanidade para justificar os impérios coloniais. Segundo ela, os homens pertencem a « raças » diferentes, diríamos hoje a «espécies» diferentes. Não deviam ter descendência em comum, tal como éguas e os burros. Na natureza, estas duas espécies procriam mulas, mas essas são em geral estéreis. Era por isso que os nazis proibiam as misturas inter-raciais. Se somos de raças diferentes, uns são superiores aos outros, daí a dominação ocidental sobre os povos colonizados. Nos anos Trinta, esta ideologia era considerada como uma « ciência » e era ensinada nas universidades, sobretudo nos Estados Unidos, na Escandinávia e na Alemanha. Reputadíssimos cientistas defenderam-na. Por exemplo, Konrad Lorenz (Prémio Nobel de Medicina em 1973) foi um ardente nazi. Ele escreveu que para manter a raça era preciso extirpar em massa os homossexuais e eliminá-los como um cirurgião remove um tumor porque misturavam o seu património genético com o de outras raças sem que nos déssemos conta.
Estes cientistas não eram mais sérios do que aqueles que nos anunciaram o apocalipse durante a epidemia de Covid-19. Tinham o título de « cientista », mas não a atitude razoável.
A Rússia moderna construiu-se sobre a memória daquilo que os Russos chamam a « Grande Guerra Patriótica » e nós a « Segunda Guerra Mundial ». Ela não tem o mesmo sentido para eles que para nós. Aqui, em França, a guerra durou apenas alguns meses, depois acreditou-se na vitória nazi e entrou-se na Colaboração. Viu-se os nazis e os Petainistas prender, a partir de 1940, 66. 000 pessoas, geralmente por « terrorismo » (resistência). Depois a partir de 1942, prender 76. 000 judeus por que eles eram de uma « raça inferior » e enviá-los para o Leste, na realidade para campos de extermínio. Pelo contrário, na União Soviética, os nazis não prenderam ninguém. Eles queriam exterminar, ou reduzir à escravatura, em trinta anos todos os eslavos para limpar um « espaço vital » onde poderiam edificar um império colonial (Generalplan Ost). Foi por isso que a URSS sofreu 27 milhões de mortos. Na memória russa os nazis são um perigo existencial, mas não para nós.
Quando esta gente chegou ao Poder em Kiev, não se declararam como «nazis», mas como « nacionalistas » no senso de Stepan Bandera, que também se dizia « nacionalista » e não « nazi », tendo-se superado em relação às suas intenções genocidas contra os eslavos e os judeus. Eles qualificaram o antigo regime de « pró-russo », o que é factualmente falso, e proibiram tudo o que cheirasse a cultura russa. E em primeiro lugar a língua russa. Os Ucranianos eram maioritariamente bilingues, falando tanto russo como ucraniano. De repente, disseram a metade deles que não poderiam mais falar a sua língua na escola e na administração. A região do Donbass, muito russófona, revoltou-se. Mas também a minoria húngara que recebia um ensino na sua própria língua e que foi apoiada na sua reivindicação pela Hungria. Os ucranianos do Donbass exigiram que os distritos de Donestsk e Luhansk pudessem dispor de um estatuto de autonomia e recuperar a sua língua. Estes municípios (oblast em russo) declararam-se repúblicas. Isso não significava que aspirassem à independência, mas unicamente à autonomia, como a República da Califórnia nos Estados Unidos ou as antigas repúblicas da URSS.
Em 2014, o Presidente François Hollande e a Chancelerina Angela Merkel sentaram as gentes de Kiev a uma mesma mesa com os do Donbass e negociaram os Acordos de Minsk. Foram a França, a Alemanha e a Rússia quem ficou como os garantes.
Kiev recusou sempre aplicá-los, apesar de os ter assinado. Em vez disso, armou milícias « nacionalistas » e enviou-as para estoirar os nervos nos limites do Donbass. Todos os extremistas ocidentais vieram então dar uns tiros na Ucrânia. Estes paramilitares eram no mês passado, segundo o Governo de Kiev, 102.000. Eles constituem um terço do Exército ucraniano e estão integrados nas Forças de Defesa Territoriais. Cerca de 66. 000 novos « nacionalistas » —ainda que estrangeiros— acabam de chegar como reforço, do mundo inteiro, por ocasião do ataque russo.
Durante os oito anos que nos separam dos Acordos de Minsk, estes paramilitares mataram 14. 000 pessoas no Donbass, segundo o Governo de Kiev. Este número inclui as suas próprias perdas, mas estas não são numerosas. A Rússia diligenciou a sua própria comissão de inquérito. Ela não só contou os mortos, mas também os feridos graves. Encontrou 22. 000 vítimas. O Presidente Putin fala a propósito de « genocídio », não no sentido etimológico de destruição de um povo, mas no sentido jurídico de crime cometido por ordem das autoridades contra um grupo étnico.
É aí que é bate o ponto : o Governo de Kiev não é homogéneo e ninguém deu de forma clara a ordem para um tal massacre. No entanto, a Rússia responsabiliza os Presidentes Petro Poroshenko e o seu sucessor Volodymyr Zelensky. Nós também o somos, pois fomos fiadores dos Acordos de Minsk que nunca foram aplicados. Sim, somos co-responsáveis desta hecatombe .
Mas, o pior ainda estava para chegar. Em 1 de Julho de 2021, o Presidente Zelensky, que armava os paramilitares « nacionalistas » e recusava aplicar os Acordos de Minsk, promulgou a Lei nº 38 sobre os Povos Autóctones [2]. Ela garante aos Tártaros e Judeus caraítas (ou seja, aqueles que não reconhecem o Talmud) o exercício dos seus direitos, nomeadamente o de falar a sua língua, mas não aos eslavos. Estes não existem. Eles não são protegidos por nenhuma lei. Eles são Untermenschen, infra-humanos. Foi a primeira vez, depois de 77 anos que uma lei racial foi adoptada no continente europeu. Direis vós para vós próprios que existem organizações de Direitos do Homem e que elas protestaram. Mas nada. Só um grande silêncio. Pior: aplausos de Bernard-Henri Lévy.
Dmytro Yarosh. Por trás dele a bandeira de Stepan Bandera : negra e vermelha com o Tridente ucraniano. Agente das redes “stay-behind” da OTAN. Em 2007, organizou a aliança dos neo-nazis europeus e dos jiadistas medio-orientais contra a Rússia. Ele desempenhou um papel central durante a mudança de regime de 2014 (Maidan-ndT). Hoje, é “conselheiro especial” do Chefe das Forças Armadas ucranianas.
PORQUÊ O RECURSO À GUERRA ?
A nossa visão dos eventos é deformada pelos nossos preconceitos. É ainda mais marcada nos Estados bálticos e nos países anteriormente esmagados pela « doutrina Brejnev ». Estes povos imaginam a priori que os Russos são os herdeiros dos Soviéticos. Ora, os principais dirigentes soviéticos não eram russos. Joseph Stalin era Georgiano, Nikita Krutchev Ucraniano etc, e mesmo Leonid Brejnev era Ucraniano.
Enquanto as repúblicas de Donetsk e de Lugansk eram ucranianas, o massacre dos seus habitantes era uma questão exclusivamente ucraniana. Ninguém estava autorizado a protegê-los. No entanto, ao assinar os Acordos de Minsk e ao fazê-los confirmar pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, a França e a Alemanha assumiram a responsabilidade de lhe por um termo. O que não fizeram.
O problema mudou de natureza quando, em 21 de Fevereiro de 2022, a Rússia reconheceu a independência das duas repúblicas do Donbass. O massacre dos seus habitantes já não era mais uma questão doméstica, mas internacional. Em 23 de Fevereiro, o Conselho de Segurança reuniu-se de novo enquanto o Exército russo se preparava para intervir. Durante a reunião, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, não contestou nem a legitimidade do reconhecimento russo das repúblicas do Donbass, nem a da intervenção militar russa contra os neo-nazis. Ele pediu apenas à Rússia para dar ainda uma oportunidade à paz [3].
O Direito Internacional não interdita a guerra, mas tenta preveni-la. Ora, não tendo esta reunião do Conselho de Segurança dado nada, a Rússia estava no direito de ir em socorro aos habitantes do Donbass massacrados pelos neo-nazis. O que ela fez no dia seguinte, em 24 de Fevereiro.
O Presidente Vladimir Putin, que havia já esperado oito anos, não podia adiar mais. Não só porque todos os dias morriam pessoas, não apenas porque o Exército ucraniano preparava um vasto massacre em 8 de Março [4], mas porque a lei russa o torna pessoalmente responsável pela vida dos seus concidadãos. Preparando o seu eventual êxodo, a grande maioria dos residentes de Donbass haviam adquirido a cidadania russa nos últimos anos.
O ÊXODO DE 2 MILHÕES DE UCRANIANOS
Como durante todas as guerras da OTAN, assistimos à fuga da população. Para os Franceses isso lembra o êxodo de 1940 face ao avanço das tropas alemãs. É um fenómeno de pânico colectivo. Os Franceses acreditavam que a Wehrmacht ia cometer as mesmas violações em massa que haviam sido atribuídos no início da Primeira Guerra mundial à Deutsches Heer. Mas os Alemães eram disciplinados e não se dedicavam a esse tipo de violência. Finalmente, a fuga dos Franceses sem um fim não tinha nenhuma razão objectiva, senão o medo.
A OTAN, depois da guerra do Kosovo, desenvolveu o conceito de engenharia de movimentos de população [5]. Em 1999, a CIA organizou a deslocação, em três dias, de mais de 290. 000 Kosovares da Sérvia para a Macedónia. Se têm mais de trinta anos, lembram-se dos vídeos incríveis da longa fila de pessoas, caminhando uns atrás dos outros, em dezenas de quilómetros, ao longo de linhas de caminho de ferro. Tratava-se de fazer crer numa repressão étnica pelo governo de Slobodan Milošević e de justificar a guerra que chegava. Os Kosovares não sabiam porque fugiam, mas pensavam encontrar um futuro melhor lá para onde iam. Há sete anos atrás, recordam-se do êxodo dos Sírios. Tratava-se de enfraquecer o país privando-o da sua população. Desta vez, trata-se de manipular as vossas emoções com mulheres e crianças, sem deixar partir os homens que se requerem para combater os Russos.
Ficamos sempre perturbados. Mas não é por os Kosovares, os Sírios ou os Ucranianos sofrerem que eles têm todos razão.
A União Europeia aceita todos os refugiados ucranianos. Os Estados do espaço Schengen aceitam todas as pessoas que se apresentem como fugindo à guerra na Ucrânia. Segundo a administração alemã, cerca de um quarto destes « refugiados », que juram pela honra trabalhar e morar na Ucrânia, não dispõe de passaportes ucranianos, mas sim argelinos, bielorrussos, indianos, marroquinos, nigerianos ou usbeques; pessoas que claramente aproveitam a porta aberta para serem registados (registrados-br) legalmente na União Europeia. Nenhuma verificação prévia da sua anterior estadia na Ucrânia é efectuada. Para o patronato alemão, é uma regularização não confessada.
Devemos perguntar-nos porque é que o povo ucraniano não manifesta o seu apoio ao seu governo. Durante a guerra do Kosovo, os habitantes de Belgrado haviam velado dia e noite nas pontes da cidade para impedir que a OTAN as bombardeasse. Durante a guerra da Líbia, vários milhões de pessoas haviam-se reunido em Tripoli para manifestar o seu apoio ao Guia Muamar Kaddafi. Durante a guerra da Síria, um milhão de pessoas havia expresso o seu apoio ao Presidente Bachar al-Assad. Desta vez : nada. Pelo contrário, dizem-nos que a equipa da Defesa territorial caça os « sabotadores russos infiltrados », quando a OSCE atesta que não havia nenhum soldado russo na Ucrânia antes do início da operação.
No vídeo do bombardeamento da central nuclear de Zaporijjia, não se distingue nenhum tiro sobre a própria central.
O CHOQUE DAS IMAGENS
Já deveríamos ter aprendido com as guerras precedentes que a primeira vítima é sempre a verdade. Desde a guerra do Kosovo, a OTAN tornou-se mestra da propaganda de guerra. À época, mudaram o porta-voz da organização em Bruxelas. O seu substituto, Jamie Shea, detalhava todos os dias uma história exemplar, fosse sobre os horrores dos criminosos sérvios, fosse sobre a exemplar resistência dos Kosovares. Na altura, publiquei um jornal diário por fax, o Journal de la Guerre en Europe. Eu fazia um resumo das declarações da OTAN e dos despachos de pequenas agências de imprensa dos Balcãs. Diariamente, via as duas versões distanciar-se um pouco mais uma da outra. No meu espírito, a verdade devia estar algures entre as duas. Uma vez terminada a guerra, percebeu-se que as declarações de Jamie Shea eram pura invenção destinada a enegrecer as colunas dos jornais crédulos, enquanto os despachos das pequenas agências de notícias dos Balcãs diziam a verdade. E essa não era favorável à OTAN.
Eu abordo, pois, o consenso mediático (da mídia-br) ocidental com uma certa desconfiança. Por exemplo, quando nos dizem que a Rússia bombardeia uma central (usina-br) nuclear, penso nas mentiras do Presidente George W. Bush sobre as armas de destruição maciça do tirano « Saddam ». Ou quando nos dizem que os Russos acabam de bombardear uma maternidade em Mariupol, eu lembro-me dos bebés kuwaitianos retirados das suas incubadoras pelos horríveis soldados iraquianos. E quando me asseguram que o malvado Putin é louco e se parece com Hitler, lembro-me da maneira como trataram Muamar Kaddafi ou o Presidente Bashar al-Assad.
É por isso que não levo estas acusações a sério. Os soldados ucranianos na Ilha da Serpente não foram massacrados pelas bombas como fingia o Presidente Zelensky, eles entregaram-se ao Exército russo, como ele admitiu mais tarde. O memorial judaico de Babi Yar não foi destruído pelos Russos, os quais respeitam todas as vítimas da barbárie nazi. A central elétrica de Zaporizhia também não foi bombardeada. Ela está guardada desde há dias por equipes mistas de russos e ucranianos. Além disso, a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) confirmou que nunca houve qualquer perigo radioactivo. A maternidade de Mariupol também não foi bombardeada. Ela fora evacuada três dias antes e transformada em caserna do Regimento Azov (neo-nazis), tal como a Rússia havia assinalado na altura à ONU.
Assim quando me dizem que é preciso matar o « ditador » Putin, fico petrificado.
AS BATALHAS
Como não notar que as imagens que vemos das « batalhas » vitoriosas do Exército ucraniano são sempre as mesmas? Como não notar que se vê apenas alguns veículos destruídos? Os nossos repórteres de guerra já viram guerras reais? Não se interpretam as imagens em função do que se vê nelas, mas dos comentários que as acompanham.
Desde há uma semana, dizem-nos que o Exército russo cerca Kiev a quinze quilómetros de distância, que progride todos os dias (mas, no entanto, permanece a quinze quilómetros de distância) e vai dar o assalto final. Quando nos dizem que o « ditador » Putin quer a pele do simpático Presidente Zelensky (que arma os neo-nazis e promulgou a lei racial), dou um passo para trás.
O Exército russo jamais teve como plano tomar as grandes cidades. Ele, aliás, mantêm-se afastado (excepto Mariupol). Ele combate os paramilitares « nacionalistas », os neo-nazis. Como francês, partidário da Resistência que fez face aos nazis, as Forças Armadas russas têm, portanto, toda a minha admiração.
O Exército russo aplica na Ucrânia a mesma táctica que na Síria: cercar as cidades que servem de refúgio aos inimigos, depois abrir corredores humanitários a fim de possibilitar a fuga dos civis e finalmente bombardear os combatentes que restam no interior. É por isso que os paramilitares neo-nazis bloqueiam esses corredores e impedem a população de fugir. É o princípio dos escudos humanos.
Trata-se de uma guerra de movimento. É preciso agir rápido. As tropas russas movem-se em camiões (caminhões-br) e em blindados. Não se trata de batalhas de tanques. Estes são hoje em dia inoperantes nos teatros de operação. Viu-se, em 2006, o Hezbolla reduzir a destroços os Merkavas israelitas. As tropas russas deslocam-se em veículos motorizados, é por isso que eles têm blindagem. Como forneceram dezenas de milhar de mísseis anti-tanque ao Exército ucraniano, aos paramilitares neonazis, essas armas destroem-nos como destroem os seus camiões. Não são batalhas, apenas emboscadas.
O Estado de Israel não se enganou : o Primeiro-Ministro Naftali Benett aconselhou ao Presidente Zelensky aceitar as condições russas de paz, a saber : a retirada de todos os monumentos dedicados a Stepan Bandera e prender os nazis que foram incorporados na Defesa territorial ucraniana.
TRÊS NOVOS PROBLEMAS
Como se a situação não fosse já bastante complicada, o Presidente Zelensky anunciou durante a Conferência de Segurança de Munique, logo antes da guerra, a sua intenção de adquirir a Bomba Atómica, em violação, pelo seu país, da assinatura do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.
Depois, as Forças Armadas russas apreenderam e publicaram um documento de trabalho do Governo de Kiev planeando um ataque militar à Crimeia e ao Donbass para 8 de Março.
Por fim, o Exército russo pôs a descoberto uma quinzena de laboratórios de pesquisa de armas biológicas que trabalhavam para o Pentágono. Ele anunciou que ia publicar a documentação apreendida e destruiu 320 recipientes (contêineres-br) de agentes patogénicos. Os Estados Unidos, que são signatários da Convenção das Nações Unidas sobre a Proibição de Armas Biológicas, respeitam-na em casa, mas violam-na no exterior. Há dois meses já haviam sido publicados documentos por uma jornalista búlgara. Em 8 de Março, o Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros pediu ao Pentágono para se explicar sobre os 330 laboratórios biológicos que mantém, sob variados nomes, em 30 países. O Departamento de Estado negou então essas práticas. Mas a Sub-secretária de Estado, Victoria Nuland, em audiência no Senado, reconheceu que o Pentágono “colaborava” nestes programas realizados no estrangeiro e que ela estava preocupada com a ideia que essas pesquisas caíssem nas mãos dos russos. Logo que a Rússia levou o assunto ao Conselho de Segurança, os Ocidentais viraram as acusações contra ela, acusando-a de preparar um ataque biológico sob falsa-bandeira. Por seu lado a Organização Mundial da Saúde indicou ter sido avisada sobre pesquisas biológicas civis ucro-americanas e ter pedido à Ucrânia para destruir os seus agentes patogénicos a fim de prevenir a sua disseminação.
Portanto, temos assim que a Ucrânia mantêm mais de cem mil « nacionalistas », e os incorporou na sua « Defesa territorial », depois adoptou uma lei racialista, trabalha em armas biológicas ilegais e espera conseguir a Bomba atómica. Prefere-se esquecer os exemplos de coragem de Jean Moulin e de Charles De Gaulle e apoiar o Presidente Zelensky !
Notas
[1] Após ter participado nos massacres de judeus com as SS, Stepan Bandera foi preso pelos nazis, em 1941, e internado numa prisão para VIPs. Depois, foi libertado para participar com as SS activamente na luta contra os Soviéticos. Ele jamais foi adversário ideológico dos nazis, mas, antes colaborou sempre com eles contra a URSS. Ver Stepan Bandera : The Life and Afterlife of a Ukrainian Nationalist, Fascism, Genocide, and Cult, Grzegorz Rossoliński-Liebe, Ibidem (2014).
[5] “Strategic Engineered Migration as a Weapon of War”, Kelly M. Greenhill, Civil War Journal, Volume 10, Issue 1, July 2008. “Understanding the Coercive Power of Mass Migrations,” in Weapons of Mass Migration : Forced Displacement, Coercion and Foreign Policy, Kelly M. Greenhill, Ithaca, 2010. “Migration as a Coercive Weapon : New Evidence from the Middle East”, in Coercion : The Power to Hurt in International Politics, Kelly M. Greenhill, Oxford University Press, 2018.
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