A final four na Ucrânia – a Europa apanha bolas

(Carlos Matos Gomes, in Blog a Viagem dos Argonautas, 28/02/2022)

Hoje o pensamento é um subproduto do futebol. O futebolês passou a linguagem filosófica. Aderindo então aos ventos do momento:
A “final four” é um torneio em que quatro equipas disputam uma classificação. Uma versão da final four apura os três primeiros e o quarto desce de divisão. O que se está a passar com a crise da Ucrânia é uma final four em que os dirigentes da União Europeia já decidiram que ficam em quarto lugar e deixam de participar nos jogos ao mais alto nível nas próximas temporadas.
O que está em jogo na Ucrânia é decisivo para a União Europeia. Escrever e debater o papel da União Europeia neste confronto entre a Rússia e os Estados Unidos, tendo a China a observar, é decisivo em dois pontos: o político e económico (que papel para a União Europeia no Mundo?); e, principalmente, quanto à questão melindrosa e por isso raramente aflorada do conflito de civilizações.
Dirão alguns que se fala demais da Ucrânia, que a questão é da maldade intrínseca de Putin – e saem insultos, que são a negação do pensamento e a revelação da falta de argumentos: czar, filho de Estaline, soviético, facínora – e resmas de folhas de História para garantir que os russos veem aí, filhos dos comunistas sanguinários.
Na realidade:
A primeira questão que a Ucrânia coloca à UE é que o conflito assenta numa luta entre potências Estados Unidos e Rússia, com 3 vetores por parte dos EUA: (1) manutenção do dólar como moeda de troca internacional (a UE é o maior parceiro da Rússia e o segundo dos Estados Unidos); (2) o domínio militar em terra, no mar e no espaço (a Europa não tem poderio militar significativo em nenhum destes espaços); (3) por fim a questão energética (em particular o gás, de que a Rússia é um grande produtor e o coloca na Europa a 1/3 do preço do gás americano).
Quanto à Rússia: A Rússia reassumiu o papel de grande potência que teve no passado (de muito antes da URSS) e como grande potência não aceita que a fronteira Leste dos Estados Unidos possa ser a Ucrânia, ou, de outro modo, a Ucrânia deve regressar ao seu espaço natural, o da Rússia e jamais a Rússia aceitará que seja uma base de ataque dos Estados Unidos. (Durante a guerra colonial Portugal conheceu essa situação com as bases de guerrilheiros no Congo, na Zâmbia, na Tanzânia, no Senegal, em Conacri e muito se debateu o direito de perseguição – hot pursuit, que os anglo-saxónicos da África do Sul e da Rodésia sempre apoiaram e sempre praticaram.)
O alinhamento da União Europeia pelos objetivos estratégicos dos Estados Unidos coloca a União Europeia na situação factual de Estado vassalo daqueles, daí a desvalorização e a distância (por vezes chocante) com que a Rússia tratou os seus dirigentes.
A Rússia, os seus dirigentes fazem esta leitura do papel adventício da UE, que é de meridiana clareza e retirou as conclusões lógicas: as suas fronteiras a Ocidente são com os Estados Unidos e a Ucrânia faz parte do seu território!
A segunda questão que a Ucrânia coloca à União Europeia é, porventura, ainda mais crítica do que a da servidão política, económica e estratégica da União Europeia, é uma questão civilizacional.
A civilização (entendida como um conjunto essencial de valores perenes e de formas de ver o mundo, de partilha de passados e de regulação das sociedades) dita ocidental tem uma matriz cristã. A grande ameaça a esta civilização vem das civilizações ditas islâmicas, que não separaram o religioso do governo terreno. Os eslavos, os russos, têm a mesma matriz cristã de toda a Europa, gostem ou não os incendiários ideológicos. A Rússia não começou com a revolução de 1917, os russos não são uma espécie nova sobre a Terra, os seus dirigentes leram os mesmos livros que todos os outros ocidentais, da Bíblia ao Príncipe de Maquiavel.
Mais, os russos, por razões de dimensão territorial da Rússia e diversidade étnica dos seus habitantes conhecem bem os problemas e os perigos das políticas multiculturalistas, que a Europa Ocidental, por sentimentos de culpa colonial, tolerou e desenvolveu com os resultados conhecidos do radicalismo islâmico. O radicalismo islâmico não foi uma criação russa, foi uma criação americana. Mas os europeus escolheram ser os amigos servis dos americanos e eleger os russos como inimigo, agora ainda com mais vigor do que na guerra fria!
Perguntava Putin: Porque nos considera a Europa seus inimigos?
De facto: As vagas de migrantes do Médio Oriente, milhões, iraquianos, afegãos, sírios, palestinianos, magrebinos que obrigam a União Europeia a pagar à Turquia e à Grécia, a ter o seu Mediterrâneo enxameado de bateiras com desesperados, e a levaram a sofrer atentados no seu território não foram originadas pela Rússia, mas pelas invasões dos Estados Unidos. A Europa nunca cobrou sanções nem compensações aos Estados Unidos por estas invasões, nem pelos mortos nos atentados em Paris, em Bruxelas, em Madrid, em Nice e tantos outros locais, mas tem os Estados Unidos como amigos e como senhores!
Também não foi a Rússia que criou a Al Qaeda (foram os Estados Unidos, crismando-os de combatentes da liberdade! (Reagan), nem o ISIS (no Kosovo), nem quem entregou o Afeganistão aos talibans, até os combateu…mas os Estados Unidos são os amigos!
São questões de facto, mas o nó da questão não é da bondade e maldade intrínseca do senhor Biden ou do senhor Putin, é de exercício de um poder e de defesa de interesses. E a União Europeia colocou-se de fora desse jogo. Serve de apanha bolas.
Por fim, a análise do presente não pode partir do princípio da repetição dos acontecimentos e das decisões históricas.

Os atuais dirigentes da Rússia analisam a situação e definem os seus objetivos de acordo com as circunstâncias do presente. Os dirigentes dos Estados Unidos comportam-se do mesmo modo. A Europa serve bebidas, como as de Durão Barroso, Aznar e Blair nos Açores a Bush filho. Visionários antecessores dos atuais dirigentes da UE como camareiros e ordenanças!

Infelizmente (em minha opinião) os dirigentes da União Europeia colocaram-se de fora e abdicaram de jogar a final four. Os extremismos populistas nascem e medram neste caldo cozinhado por medíocres e nesta ausência de grandeza e de esperança.
Os europeus deviam ser chamados a pronunciarem-se sobre o papel da União Europeia no mundo.


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4 pensamentos sobre “A final four na Ucrânia – a Europa apanha bolas

  1. Afinal o cogito parece que cogita pouco. O articulista usou uma metáfora interessante para definir a posição da união europeia que escolheu não jogar e fazer o jeito aos jogadores no terreno, mais especificamente a um dos jogadores, o mais forte, os Estados Unidos e o seu braço armado, a NATO. De facto quem está preocupado com o que acontece na Ucrânia, e tem toda a razão para estar,, devia procurar perceber porque é que acontece, porque so se controlam os efeitos quando se conhecem as causas, e devia perguntar o que é que se pode fazer para evitar causas que conduzem a esses efeitos. Mas para isso, garanto que realmente é preciso cogitar, e muito, exercício esse a que o articulista se entregou e que não quero deixar de agradecer. .

  2. Tergiversaçoes de hipocritas que não tem a coragem de assumir o seu execrável posicionamento e falam de bolas. Mas aqui não se trata de bolas que divertem mas de balas que matam.

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