A tentativa de golpe de Estado de Donald Trump e do Partido Republicano

(José Pacheco Pereira, in Público, 11/12/2020)

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Escrevi exaustivamente sobre Trump nestes últimos quatro anos e houve quem achasse que exagerava. Escrevi que o que de mais importante em política se passava vinha dos EUA, e houve quem achasse que exagerava. Escrevi que havia “novidade”, ou seja, criação, como criação nas artes, nas letras, no que Trump estava a fazer e que este era uma personagem carismática no verdadeiro sentido da palavra, que é tão abastardada no seu uso corrente, e houve quem achasse que era um disparate. Escrevi que o Partido Republicano de Trump se tinha tornado num estendal repugnante de sicofantas pelas benesses do poder e de covardes, vergando-se por interesse a um culto de personalidade maléfico sem princípios, e não houve quem achasse coisa nenhuma porque Trump ainda suscitava atenção, mas os republicanos eram uma coisa americana. Escrevi que Trump não era democrata, era autocrático e autoritário, desprezava a lei e a Constituição, era capaz de tudo para se servir a si próprio, tendo cometido ilegalidades a seguir a ilegalidades. Escrevi que havia claros sinais de perturbação mental na personalidade de Trump, um narcisista mentiroso patológico (como disse numa intervenção certeira Ted Cruz antes da sua epifania pró-Trump…), e houve quem achasse que era apenas “política” de novo tipo e uma excepcional demonstração de inteligência de um génio da economia e da negociação. Escrevi que a melhor definição de Trump dada por um nova-iorquino sobre outro nova-iorquino era que ele era um “con man, um trapaceiro, um vigarista em tudo nos negócios e na política. Escrevi que o “trumpismo” estava para ficar mesmo que Biden ganhasse as eleições. Escrevi que Trump não iria sair a bem e que iria tentar uma espécie qualquer de golpe para se manter no poder e de novo passei por exagerado, mas neste último caso já havia bastantes “trumpistas” em Portugal, pelo que na cloaca das redes sociais houve quem jurasse que não, sairia com elegância, etc., etc.. Na verdade, por muito que dissesse, estava bastante abaixo do que aconteceu e do que acontece.

Sim, Trump teve 74 milhões de votos, muito voto, mas Biden teve 81 milhões, muito mais votos. O que há de significativo nessa votação é que os 74 milhões eram só para Trump e os 81 milhões eram contra Trump e não por Joe Biden. Nas eleições simultâneas para o Congresso e para o Senado, os democratas tiveram um mau resultado e os republicanos ganharam lugares no Congresso e vão quase de certeza manter o Senado. As explicações que Biden e Pelosi dão para os maus resultados é atribuírem-nos à esquerda do partido e a palavras de ordem como “defund the police”. Talvez seja, em parte, verdade, mas, como muitas vezes acontece, os efeitos perversos e os benéficos vêm em conjunto e, como Biden não entusiasma ninguém, o enorme entusiasmo anti-Trump nos mais jovens, nos novos eleitores, nas comunidades negras, veio dos mesmos sectores que encheram as ruas à volta do Black Lives Matter, e que eram pouco amigos da polícia e com boas razões. E assim chegámos às eleições que Biden ganhou por muitos, no voto popular e nos votos do colégio eleitoral.

Trump sabia que ia perder no fundo da sua mente complicada e simples e começou a preparar o cenário para se autojustificar e para não ter que aceitar os resultados, fazendo uma campanha sistemática contra o voto por correspondência e com a sua “lata” habitual, com excepção na Florida, onde ele era sempre fidedigno. Em tempos de pandemia particularmente mortífera nos EUA pela irresponsabilidade criminosa de Trump, os anti-Trump que usam mais máscara e que seguem mais as regras de distanciação usaram essa faculdade, aliás habitual em vários Estados, mas agora mais generalizada.

Trump tentou sabotar os correios colocando lá um servo que começou a desmantelar as máquinas de distribuição e a dificultar a chegada a tempo dos votos. Trump começou a dizer que todos os votos que não chegassem no dia das eleições deveriam ser deitados fora, esquecendo-se de que eles tinham sido enviados antes das eleições e eram particularmente legítimos. Depois, ele e Giuliani e uma série de personagens inomináveis vinham com nova teoria todos os dias: que as máquinas automáticas de contagem dos votos eram resultado da mão póstuma de Chávez e que os votos eram contados fora dos EUA, que havia malas de votos descartados (num vídeo falso) e testemunhos de que 5, 10, 20 votos tinham entrado erradamente, etc., etc.. Alguns desses “testemunhos” eram tão ridículos que se tornaram virais pelo gozo.

E depois fez aquilo que durante toda a vida fez como empreiteiro: litigar, litigar, litigar. Até aos dias de hoje, ganhou uma acção por coisas menores e perdeu 60, algumas julgadas por juízes por si nomeados. A última é um remake da Guerra da Secessão, colocando estados contra estados e praticamente suplicando o Tribunal Constitucional para a aceitar, numa violação da teoria dos “state rights” de que até agora os republicanos eram firmes partidários. E depois continuar a radicalizar com insultos e ameaças a todos, mesmo republicanos, que não aceitavam que ele tinha “ganho as eleições e por muitos”. A sua “base” traduziu e bem as suas palavras ameaçando de morte os recalcitrantes que têm que andar com protecção policial. Já houve mortos, vai haver mais. Trump quer uma guerra civil e faz tudo para a ter.

Se o que se passa hoje nos EUA fosse no Burkina Faso, já a ONU, as organizações de defesa da democracia e dos direitos humanos, o Conselho da Europa estariam a aprovar resoluções denunciando a tentativa de golpe de Estado do candidato perdedor para sabotar os resultados eleitorais. A questão é que, mesmo que Trump tenha que sair a mal, não vai acabar.

Biden não vai conseguir governar sem maioria no Senado e Trump, que já está a abusar do seu poder para tomar decisões para comprometer o seu sucessor, vai continuar a sabotar a democracia deslegitimando o seu sucessor. Quem percebe bem isto não são os democratas, mas os republicanos anti-Trump do Lincoln Project. Vai ser preciso mão de ferro. Não sei se haverá.


5 pensamentos sobre “A tentativa de golpe de Estado de Donald Trump e do Partido Republicano

  1. Tudo o que JPP diz sobre Trump é verdade como verdadeira é a venalidade dos Republicanos tornados meros factótuns do Presidente. Mas muito mais perto da porta tem aquele que, segundo um certo Joe Biden, não passa de um clone de Trump, por ser tão mentiroso como ele, tão charlatão como ele, mas muito mais perigoso do que ele pela sua inteligencia e cultura, e pela maneira hábil como soube criar uma imagem que, de tão inofensiva, popular e trapalhona, fez com que ganhasse o referendo do Brexit e as ultimas eleições para o Parlamento, estas com uma maioria Conservadora não conseguida nas ultimas cinco décadas.
    Amanhã se saberá se as negociações com a UE resultaram num acordo de Comércio Livre que Boris, (Aliás, Alexander Boris), apresentará como um triunfo sobre a traiçoeira e malévola Europa, contra cujas pérfidas manobras mobilisou hoje mesmo 4 corvetas da Royal Navy em defesa das sacrosantas águas territoriais Britânicas.
    E se assim for, se a UE ceder por pouco que seja, apesar das mentiras, dos insultos e das ameaças dos ultimos anos, muito assunto terá JPP sobre que escrever.

  2. Golpistas há os por todo lado, uns mais bem sucedidos que outros.
    Os calculistas, manhosos, sofisticados, subrepticios, gobernam-se. Os boçais, previsíveis, primarios, broncos, afundam-se. Lamento é que só haja justiça para estes.

  3. No momento em que escrevo continuam as negociações frenéticas em Bruxelas sobre os termos do possivel Acordo de Comércio Livre entre a UE e o Reino Unido. Nada que me cause surpresa: Desde o referendo de 2016, que deu a vitória ao Brexit, os que vivem na Grã-Bretanha e que tenham participado activamente neste psico-drama, quer estejam entre os 48% que votaram e fizeram campanha a favor da Europa, entre os quais orgulhosamente me incluo, quer estejam entre os 52% que dizem serem os unicos “verdadeiros patriotas” por preferirem o Brexit, foram avisados que Bruxelas iria levar as negociações até ao ultimo minuto, para então ceder assinando um Acordo que, de tão opaco, vago e contraditório, poderia ser vendido simultaneamente aos Britânicos e aos Europeus como sendo uma grande vitória. Liam Fox e David Davis, os nossos primeiros negociadores, assim o garantiram desde o começo e hoje tenho de reconhecer que tinham razão.

    Hoje também George Soros publicou um artigo no Project Syndicate que é importante para se perceber o que está em jogo, um verdadeiro grito de alarme sobre o futuro da União Europeia e que deve interessar a quem pense que a sobrevivencia da União, não apenas como uma zona de comércio mais ou menos livre, mas sobretudo como um projecto politico unificador, é de fundamental importancia, e não só para os Europeus. Por essa razão, e com devida vénia ao Autor, aqui se publica traduzido do Inglês.

    “Nova Iorque – A União Europeia enfrenta uma ameaça existencial, e no entanto a liderança da UE responde com um compromisso que parece reflectir que o que deseja é que simplesmente essa ameaça desapareça por si.
    O regime cleptocrático de Viktor Orbán na Hungria e, em menor escala, o illiberal partido Lei e Justiça que governa a Polónia, estão abertamente a pôr em causa os valores sobre os quais foi criada a União Europeia. Tratando essa atitude como sendo uma posição politica legitima, que deve ser reconhecida como tal e como tal merecedora de um compromisso, essa decisão resultou num aumento exponencial dos riscos que a UE enfrenta.

    Tenho de reconhecer que Angela Merkel está sobre enorme pressão: Depois de 15 anos como Chanceler da Alemanha irá retirar-se em Setembro de 2021. Com o Presidente da França, Emmanuel Macron, presentemente ocupado com a reafirmação da laicidade do Regime e com os problemas de segurança que daí advêm, Merkel é a unica líder capaz de tomar decisões pela UE.

    Também compreendo que a Chanceler Alemã não queira que um outro país, a Hungria, abandone a UE durante o seu mandato, o que Orbán se preparava para fazer nos ultimos dias porque simplesmente não podia permitir que a enorme corrupção do seu regime fosse exposta, se a Hungria, para aceder aos fundos comunitários tivesse de respeitar o principio do respeito pela Lei.

    Orbán roubou e apropriou-se de vastas somas durante a sua década no poder, incluindo fundos comunitários que deviam ter sido utilizados em beneficio do povo Hungaro. Orbán não poderia permitir que limites legais pusessem um limite à sua corrupção, sendo que ela é a fonte do dinheiro que lubrifica o funcionamento do regime e paga aos seus apaniguados.
    A ameaça de torpedear as finanças da Comunidade vetando o seu orçamento foi uma jogada desesperada de Orbán. Um bluff que devia ter sido desmascarado. Infelizmente parece porém que Merkel se rendeu à extorsão Hungara e Polaca.
    Enquanto escrevo estas linhas, parece óbvio que Merkel fez um acordo com Orbán e com o Vice Primeiro-Ministro Polaco Jaroslaw Kackynski, que é quem detém verdadeiramente o poder na Polónia Este pacto que a Alemanha celebrou com dois regimes fora-da-lei foi a pior coisa que poderia ter feito. Segundo o texto desse acordo, que fontes anónimas deram a conhecer e que será incluído nas conclusões finais do Conselho Europeu de 10 de Dezembro, ele peca por 3 defeitos fundamentais:

    Primeiro, o seu conteúdo altera a substãncia e a intenção do regulamento que foi aprovado pelas instituições Europeias em 5 de Dezembro, fragilizando a condição do respeito pela Lei. Nem a Comissão Europeia, nem o Parlamento Europeu e muito menos os Governos dos países membros, que tinham no Conselho Europeu feito o respeito pelo Lei a sua maior exigencia, deveriam ter permido ser marginalizados nesse processo.

    Segundo, o acordo feito por Merkel permite adiar por dois anos a implementação do principio da condicionalidade de acesso aos fundos Europeus à do respeito dos países beneficiários pelo “primado da Lei”. Este adiamento foi um verdadeiro golpe de Orbán, que fica assim livre de ter de tomar medidas antes das eleições Parlamentares na Hungria de 2022.
    Este adiamento será o suficiente para que o Fidesz, o Partido de Orbán, possa mudar a legislação e a Constituição Hungaras, redefinindo em proveito próprio a definição de “fundos publicos” permitindo que eles possam ser transferidos para “fundações” privadas controladas pelos seus cumplices. A principal vitima do acordo alegadamente feito entre Merkel e Orbán será o povo Hungaro.

    Finalmente, a declaração da cimeira do Conselho Europeu não respeita os limites da sua autoridade ao constrangir a capacidade da Comissão Europeia em interpreter a legislação Europeia em vigor, o que constitui um precedente perigoso ao diminuir a indepêndencia legal da Comissão, violando possivelmente o Tratado de União Europeia.”

    • A Eurolândia, que votou a favor, dos poucos que teve oportunidade, é isso. Isso e a austeridade a acompanhar a “ajuda” manifestamente insuficiente a mais uma crise, desta vez sem narrativa de ser culpa de alguém.
      Não que o outro lado tenha maioritariamente votado pelos melhores motivos, mas, estranhamente, o céu continua sem cair daquele lado do canal…

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