22.814 problemas com a StayAway Covid e depois o pior texto de 2020

(Germano Silva, in Expresso Diário, 16/10/2020)

Bom dia,

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António Costa não gosta da lei que o próprio propôs mas não tem problemas em insistir que paguemos multas se não instalarmos a app que ele quer, o Presidente da República não disse exatamente o que pensa sobre isso mas “não tem quaisquer problemas” em mandar a lei para o Constitucional;

António Costa não tem problemas em comparar a decisão de manter os bares encerrados à de obrigar os portugueses a instalarem uma aplicação, Rui Rio não tem problemas em dizer que concorda com a obrigatoriedade de usarmos máscaras na rua mas tem dúvidas sobre a obrigação de instalarmos a StayAway Covid – ainda assim não quer “derrotar a proposta à partida”;

o PS não tem problemas em admitir que “não tomou ainda uma posição sobre esta matéria” porque é preciso ouvir os peritos, a Associação D3 – Defesa dos Direitos Digitais não tem problemas em avançar com uma providência cautelar para travar a obrigatoriedade de se instalar a StayAway Covid – porque “as apps obrigatórias não pertencem a uma Europa democrática”;

portanto: uma app que devia ser de instalação voluntária pode tornar-se uma punição autoritária, quem não a usar (versão iOS aqui e Android ali) convém ter até €500 para pagar ao senhor polícia que lhe fiscalizar o telemóvel – e a socialista Isabel Moreira, que ao contrário do seu partido não tem problemas em assumir já uma posição, escreveu no Expresso que “qualquer pessoa livre prefere ser arrastada pela rua a ceder a sua privacidade a um polícia. Afrontar este apego à liberdade foi um erro político crasso”, Graça Franco não tem problemas em determinar que “as leis que nos envergonham não são para cumprir” porque “a Democracia tem regras e não as podemos suspender”, Daniel Oliveira não tem problemas em apontar uma certa estupidez, “o facto de a imposição [da app] ser impraticável na sua aplicação e fiscalização não a torna menos grave. Torna-a apenas mais estúpida. Cria ruído sobre as medidas essenciais, banaliza a lei e viola princípios democráticos sem sequer conseguir mais eficácia por isso”;

neste texto no site do Expresso, que é um dos mais lidos de ontem, o líder da UGT não tem problemas em dizer que não vai instalar a app e desafia o Governo a obrigá-lo, o presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal não tem problemas em questionar como é que isto vai ser fiscalizado nas empresas mas sublinha que os patrões não são polícias para mexer nos telemóveis dos funcionários, ainda nesse texto as escolas não têm problemas em levantar questões práticas porque o dinheiro não é igual para todos (“nem sempre os alunos têm um contrato de acesso à internet ilimitado, o que leva a crer que, sendo a aplicação boa, poderá não ser retirado todo o seu potencial”);

a Comissão de Proteção de Dados não tem problemas em dizer o óbvio – que neste caso é que esta lei do Governo suscita “graves questões relativas à privacidade” – e o Expresso não teve problemas em fazer um artigo com o ponto da situação dos posicionamentos políticos, está intitulado “StayAway: oposição (e até socialistas) contra uso obrigatório da app, só Rui Rio tem dúvidas”;

ao fim da noite de ontem o socialista Sérgio Sousa Pinto não teve problemas em ir ao Facebook explicar que “aplicações digitais e polícia é um casamento tenebroso, mil vezes pior que o Covid” e no meio de tantas personalidades e entidades que não têm problemas em dizer opiniões – e quão importante é a liberdade de pensar, é esse o lema do Expresso e pode ser também uma regra para as nossas vidas – há um problema que prejudica a liberdade de a StayAway Covid ser bem-sucedida: “desde que a app está disponível foram gerados [até 8 de outubro] apenas 430 códigos pelos médicos e desses só 113 foram inseridos pelos diagnosticados” – e nesse mesmo período Portugal registou 23.244 novos casos, a subtração diz-nos então que 23.244 menos 430 dá 22.814 problemas para a funcionalidade e eficácia desta app que nos querem obrigar a usar e cujo criador diz estar “desconfortável” pelo facto de o Governo querer torná-la obrigatória;

conclusão: entre terça-feira e o dia seguinte houve 73.509 downloads da StayAway Covid, não havia polémica até aí; entre quarta-feira e ontem, com a polémica em curso, 177.470 pessoas instalaram a StayAway Covid – mas este aumento não é um sucesso, é um retrocesso e tem custos e consequências para algo sagrado, diz a socialista Isabel Moreira. “Talvez António Costa queira provocar um debate, talvez queira mexer com as consciências num momento em que a pandemia assusta em número de infetados. Talvez. Acontece que o poder de iniciativa legislativa não serve para dramatizar ou para alertar ou para provocar debates. Quando se apresenta uma proposta de lei é bom que se queira a sua aprovação. (…) Pode ter sido uma mera dramatização. Mas não se dramatiza com a liberdade”.

(mas instale a app se puder. e lute pela liberdade mesmo que lhe digam que não pode. e leia a declaração de princípios do PS, o partido do primeiro-ministro que nos quer obrigar a instalar coisas nos nossos telefones: “Ao contrário das correntes políticas de direita que individualizam a segurança como um valor em si mesma, o PS perspectiva-a, sem qualquer hesitação, a partir da liberdade”.)


Stay Away

(Daniel Oliveira, in Expresso, 15/10/2020)

Daniel Oliveira

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Na entrevista que deu ao “Público”, o epidemiologista sueco Johan Giesecke deixou alguns avisos interessantes. Não vou escrever sobre a “via sueca”. Como o próprio diz, saberemos no fim se com a sua estratégia terão números semelhantes aos nossos, sempre com o cuidado de não tentar fazer transposições para realidades económicas, sociais, institucionais e culturais muito diferentes.

Interessa-me o que Giesecke disse sobre a coerência do discurso e das medidas das autoridades suecas: “As restrições e recomendações foram instituídas em Março e não foram muito alteradas. Isso é importante para a forma como o público vê as recomendações e restrições. (…) Vários países impuseram o confinamento, depois abriram o confinamento e a seguir instalaram outra vez o confinamento. Isso confunde as pessoas.” Não há nada mais desgastante do que o confinamento intermitente e espero que nunca cheguemos a esse desnorte que alguns médicos, incapazes de compreender a gestão da psicologia coletiva, já propõem.

Sem ter voltado a confinar, a coisa mais evidente no discurso público tem sido o ziguezague. Inicialmente compreensível (seguimos todos esse estado de espírito), pela ignorância geral. Agora, é inaceitável. Só que a emotividade geral, que salta da euforia para a depressão, marca a nossa forma de estar no espaço público. Como canta Sérgio Godinho, vivemos “entre o granizo e a combustão”. E há, acima de tudo, pouca confiança nas instituições. E as instituições são, elas próprias, fracas. São fracas porque não confiamos nelas, não confiamos nelas porque são fracas. Tanto dá. Esta falta de confiança faz com que sejam elas a acompanhar os humores dos cidadãos. Não sei se a forma de estar dos escandinavos será excessivamente obediente, mas alguém imagina Portugal a aguentar o número de mortes que teve a Suécia e, mesmo assim, confiar no caminho que está a ser seguido? Nem durante uma semana.

A comunicação social contribui para esta impossibilidade. É absurda a rapidez com que se chega ao cume da histeria, com telejornais a anunciaram o caos com 135 pessoas internadas em UCI, em todo o país. Também não ajuda a overdose de covid. Mais uma vez, cito Johan Giesecke sobre os anúncios diários de número de infetados: “É demasiado aberto ao acaso. Os números sobem num dia e pensamos que fizemos algo de errado; noutro descem, também por acaso, e pensamos o contrário. Por isso, fazem-se associações aleatórias na narrativa. Seria melhor termos números uma vez por semana.”

Giesecke tem razão quando defende uma constância nas medidas de prevenção, que não salte do “vão todos para a praia” para o “vamos repensar o Natal”. Que mantenha medidas mínimas e praticáveis, suportáveis pela comunidade durante muito tempo, em vez das exigências irem acompanhando os estados de pânico ou de otimismo da opinião pública. Mas para isso ser praticável era preciso que não sujeitássemos as pessoas a um massacre psicológico diário a que qualquer comunidade acaba por sucumbir e que as pessoas confiassem nas instituições. Ainda assim, podemos tentar. Pedir o possível, mudar pouco, cumprir o pouco possível que é pedido. E baixar os índices de ansiedade.

É no contexto desta fraqueza das nossas instituições, da dificuldade em preparar o SNS e as escolas para a segunda vaga e de um ziguezague entre a dramatização e a desdramatização que surgem as propostas de ontem, com o regresso ao estado de calamidade. Elas seguem o tal movimento incoerente criticado por Giesecke. Era inevitável que o discurso da responsabilidade individual, que corresponde ao discurso da desresponsabilização do Estado, acabasse com o Estado a fazer o que lhe resta: controlar a responsabilidade de cada um.

Para mostrar serviço, chegássemos aos limites do exibicionismo desnorteado. As máscaras obrigatórias na rua, de necessidade discutível, até se tornaram secundárias perante a obrigatoriedade de uso da “Stayaway Covid”. Talvez tenha sido essa a sua função.

Nenhum governo democrático pode tornar obrigatória a instalação de uma aplicação nos telemóveis de cidadãos, mesmo que seja em contexto laboral ou escolar, como foi anunciado que se vai propor na próxima quarta-feira. O facto da imposição ser impraticável na sua aplicação e fiscalização, não a torna menos grave. Torna-a apenas mais estúpida. Cria ruído sobre as medidas essenciais, banaliza a lei e viola princípios democráticos sem sequer conseguir mais eficácia por isso.

Mostrar-me-ão muitos números, fazendo por falar mais dos infetados do que dos óbitos. E eu responderei que morreram três mil pessoas nas Torres Gémeas e morrem muitos milhares de pessoas em todo o mundo às mãos de criminosos. E eu não deixo de combater os Bush e os Bolsonaros que por aí andam. Nem uma coisa nem outra me fazem abandonar valores democráticos fundamentais em nome da eficácia.

Na sociedade livre onde eu quero viver, ninguém pode ser obrigado a instalar localizadores nos seus telemóveis. E não venham falar das apps que as pessoas voluntariamente instalam. Porque, lá está, é voluntário. Há limites para o show-off para conter danos políticos que qualquer governo sofre com esta pandemia. Esses limites são as portas que abrimos e que, diz-nos a História, nunca mais se fecham.


Sexta extinção em massa já começou. Mas podemos mudar, diz Attenborough

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 09/10/2020)

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Pode parecer estranho mas a covid-19 não é a maior tragédia do planeta. É apenas a consequência do processo humano de ocupação ilimitada do espaço natural e que nos trouxe esta trágica zoonose. Agora estamos atolados neste doloroso outono-inverno que não sabemos onde nos levará. Depois retornaremos à vida, algures, em 2021. Mas continuamos a perder tempo sobre o mais que anunciado desastre climático. Será que as opiniões públicas acreditam realmente na ciência?

Não se pressente um sentimento de mudança na Humanidade. Não só em Trump ou nos negacionistas instalados. Parecemos todos embrutecidos por um processo nos salvarmos enquanto indivíduos, não percebendo que é exatamente esse movimento coletivo que nos levará a uma destruição gigantesca, talvez muito mais rápida do que julgaríamos.

É por isso notícia este grande documento/testamento audiovisual do grande David Attenborough, com uma carreira extraordinária na BBC e agora num documento especial para o Nextflix. O “doc” chama-se “Uma vida no nosso planeta” e é imperdível. Quem não gosta do “oportunismo” de Al Gore ou da “ira” de Greta Thunberg, vai ter dificuldade em escolher a pedra a atirar ao naturalista inglês. Exatamente porque ele, nos seus atuais 94 anos, atravessou décadas e décadas para concluir isto: “Nós destruímos o planeta. Não nos limitamos a estragá-lo. Aquele mundo não humano desapareceu”.

O que é este “mundo não humano”? Dois pontos-base: a devastação florestal e a delapidação dos oceanos.

Diz Attenborough que vivemos um declínio global acentuado por uma só geração. Talvez o mais simbólico exemplo seja o da destruição da Amazónia. Não é só um desastre de proporções inimagináveis para a biodiversidade terrestre, como está a ser alterado o ciclo dos oceanos – a Amazónia é a maior contribuinte para o alimento dos peixes a nível global e decisiva para o seu movimento oceânico.

Com a continuação do abate de árvores, a Amazónia perde o entrelaçar do seu ecossistema húmido e morre de forma vertiginosa e coletiva, transformando-se numa savana, à imagem de África.

Em paralelo, o aquecimento da atmosfera faz desaparecer o gelo nos polos. Esses gigantescos territórios, nus, passam a emitir o catastrófico metano, fatal para uma ainda maior aceleração do aquecimento do planeta. Entretanto, os oceanos acidificam-se cada vez mais pelos nitratos libertados pela agricultura intensiva que destroem rios e depois mares, pelas consequências dos incêndios cada vez mais devastadores, e pelo aumento da temperatura da atmosfera. Sem oceanos saudáveis não há oxigénio na Terra.

David Attenborough sublinha o mesmo ponto doutro documentário também da Netflix, “Kiss the Ground – agricultura regenerativa”: estamos a curtíssima distância de perder a capacidade de ter solo fértil para manter a agricultura produtiva. Quando? Algo tão assustador como… daqui a 60 colheitas… Isto acompanhado de uma galopante perda de insetos polinizadores, outra faceta decisiva para a nossa alimentação. Em resumo: um cenário de fome extrema, generalizada, por mais que a ilusão da tecnologia alimentar nos faça pensar que a abundância é eterna.

Outros dados: 30% dos stocks de pesca no mundo estão em estado crítico devido à sobrepesca; 15 mil milhões de árvores são abatidas por ano; a biodiversidade das espécies nos ecossistemas de água doce foi reduzida em mais de 80%.

Mais: estamos a substituir a natureza selvagem pela natureza domesticada. Metade dos solos férteis da terra são agora agrícolas (e não zonas de biodiversidade para espécies que não a humana). Setenta por cento das aves no planeta são aves domésticas, a maioria delas galinhas.

Talvez ainda mais impressionante: os seres humanos são mais de um terço de todos os mamíferos da Terra. E, surpresa… os outros 60% são animais que comemos. Os selvagens – de ratos a baleias – são apenas 4%. “Este é agora o nosso planeta. Gerido pela humanidade, para a humanidade. Resta pouco para os outros seres vivos”, sublinha o inglês.

O que fazer então? Ele defende a corrente ambientalista que considera a “Renaturalização” do planeta como a medida-chave.

Uma das ações essenciais é a da redução de agricultura intensiva e das monoculturas florestais. Por exemplo, o dendezeiro (óleo de palma) é um problema global, fruto do uso intensivo na indústria alimentar. Por cá, a nossa monocultura crítica é a do eucalipto, espécie exótica incapaz de gerar biodiversidade e que alimenta fogos de grande dimensão por não ser enquadrada num rigoroso mosaico florestal que trave os incêndios.

A Costa Rica é o exemplo que David Attenborough escolheu para mostrar como um país, há 100 anos coberto em dois terços por floresta, acabou por deixá-la reduzir a apenas 25% do território, na década de oitenta. Nessa altura o Governo apoiou os proprietários a replantarem floresta selvagem. Hoje o país está recoberto de novo em 50% pela floresta e é um caso de sucesso mundial em turismo de natureza.

Ocupar menos espaço humanizado significa recuperar florestas – selvagens e biodiversas. Este seria o mecanismo mais rápido e inteligente de voltarmos a aprisionar carbono a grande escala. Sem isso não sobrevivemos.

Há outra nota essencial: a da revolução alimentar. “Sempre que optamos por comer carne, reclamamos – mesmo que involuntariamente – uma enorme quantidade de extensão de território. O planeta não consegue suportar milhares de milhões de grandes comedores de carne. Não há território para isso. Se tivéssemos todos uma alimentação baseada em plantas precisaríamos de metade do espaço que ocupamos hoje”, frisa Attenborough.

Demografia. O naturalista alerta para a necessidade de se diminuir o crescimento demográfico a médio prazo. Vamos chegar a 11 mil milhões no final deste século porque viveremos muito mais anos. Reduzir a população passaria também por aumentar o tempo de formação académica para as mulheres, dando-lhes ferramentas de escolha para uma vida profissional e pessoal mais igualitária, além de acesso generalizado a planeamento familiar. Em muitos países os rapazes prosseguem os estudos enquanto as raparigas vão trabalhar.

Ponto essencial: “É uma loucura que os nossos bancos e os fundos de pensões estejam a investir em combustíveis fósseis quando são precisamente eles que estão a comprometer o nosso futuro”. O que financiam as nossas poupanças para a reforma nos fundos a cargo da Segurança Social? Enquanto o dinheiro for usado sem critérios aprovados pelos seus detentores, a especulação financeira mundial continuará a aplicá-lo onde a rentabilidade usurária for mais elevada, mesmo destruindo a rentabilidade natural do planeta.

Uma nota final: espera-se que David Attenborough viva ainda muitos anos, para continuar a ser veemente e certeiro como foi agora. Mas, mesmo que os seus dias cessassem hoje, ter-nos-ia deixado um documento definitivo sobre a soberba e a ganância humana que deveria passar a ser obrigatório nas escolas (e nos Natais em família). Ele usa frases simples e que reforçam princípios cada vez mais óbvios: temos de parar de crescer, entrar em equilíbrio, sermos sustentáveis.

“No mundo natural uma espécie só prospera quando as outras à sua voltam também prosperam”.

“Se tomarmos conta da Natureza, ela tomará conta de nós”.

“A Natureza é o nosso maior aliado”.

“A espécie humana tem de deixar de ser a mais inteligente para ser a mais sábia”.

Este não é apenas um documentário. É uma vida inteira. Muito obrigado Sir David.