Estado corporativo

(Daniel Oliveira, in Expresso, 29/08/2020)

Daniel Oliveira

O caso de Reguengos conta a história do Portugal profundo. O cacique local que, além de presidente da Câmara, dirige o lar. Uma assistência social baseada em IPSS dependentes de teias partidárias e religiosas. Idosos abandonados a um negócio que não cuida nem ninguém obriga a cuidar. E um poder central incapaz de confrontar os poderes locais despóticos de que se alimenta. Só falta uma peça: o corporativismo, grande doença nacional. Para o percebemos temos que compreender o que esteve em causa em Reguengos para além das condições do lar e da má resposta do Estado. Tudo aconteceu num cenário de contestação à mobilização de médicos do SNS para os lares em caso de surto. Reguengos foi um instrumento nesta guerra, que também envolve dinheiro. Há médicos que querem fazer pelo privado (ou receber à parte, no público) o que têm achado profissionalmente intolerável fazer pelo SNS. Tenho dificuldade em aceitar que um médico, seja qual for a sua especialidade, resista a socorrer quem precisa em plena pandemia. Por piores que sejam as condições. Estou certo de que os utentes daquele lar têm direito ao serviço público de saúde e sei que nenhum lar pode ter um corpo médico capaz de responder a um surto pandémico.

Assistimos à substituição do Estado democrático pelo Estado corporativo, em que elites profissionais capturam as funções públicas para seu benefício

Quando o caso do obstetra de Setúbal chegou aos jornais, o bastonário assumiu a clamorosa negligência de quem o devia fiscalizar e explicou que, quanto às clínicas, nada podia fazer: a Ordem “não tem funções de auditoria e fiscalização”, isso cabe às entidades reguladoras do Estado. Agora, que pensa o contrário, podemos pedir-lhe contas por clínicas e hospitais. Mas espera-se mais rigor nas comissões de inquérito. A de Reguengos era composta por dirigentes locais da Ordem e por duas pessoas com responsabilidades partidá­rias, não ficando atrás da teia socialista da ARS. Sem qualquer cuidado em proteger a investigação, um dos membros vinha de uma guerra aberta com as autoridades de saúde regionais sobre a mobilização de médicos do SNS para o lar. E assim se explica por que é má ideia dar poderes de fiscalização sobre o Estado a uma ordem profissional. Esse poder acabará por ser usado como forma de pressão corporativa sobre o Estado empregador, concorrente e contratante daqueles que ela representa.

A segunda parte desta história é a confusão entre ordens e sindicatos. Já o tínhamos visto com os enfermeiros, contra Costa, e com os médicos, contra Passos. Neste casamento, os sindicatos serão sempre subalternizados. Não têm os recursos da quotização compulsiva, o poder disciplinar e a representação universal.

As ordens, que em Portugal têm delegações de poderes mais extensas do que em muitos países europeus (em alguns nem a inscrição é obrigatória), têm alargado a sua influência. Transformam-se em sindicatos únicos de inscrição obrigatória, reguladores dos profissionais e fiscalizadores de entidades públicas e privadas. Assistimos à lenta substituição do Estado democrático, sujeito ao escrutínio de todos, pelo Estado corporativo, em que elites profissionais capturam as funções públicas para seu benefício.

E à substituição do sindicalismo por uma nova unicidade sindical corporativa. Reguengos é o Portugal profundo. Mas quem cavalga a onda corporativa não o mudará para melhor.


4 pensamentos sobre “Estado corporativo

  1. Enquanto em Portugal os criadores de opinião, políticos, e todas as massas falantes que se consideram intelectuais e inovadoras, não deixarem de se influenciar nas tendências americanas e de outras proveniências e começarem realmente a olhar e eventualmente a vislumbrar um país com futuro para todos, pensado para e pelos cidadãos nacionais e nunca somente decidido pelo governo e pelo parlamento, que se dedicam atualmente apenas a tapar buracos. A democracia supostamente deve também nos temas importantes e vitais ter em conta a decisão do povo, logo o plano do sr. Silva, deveria ser referendado, assim como todas as decisões estratégicas e fundamentais para o desenvolvimento nacional. Claro, dizem os “cultos”, o povo é como o rebanho não sabe o caminho correto a seguir, então porque não criarem-se grupos da sociedade civil de todas as áreas para assim se discutir e planear de forma democrática o futuro de todos. Será que ainda ninguém em Portugal, percebeu, que a falta de soberania, é por culpa do governo, assim como a falta de soluções para o país evoluir sempre foi mérito de todos os governos desde a instauração do processo democrático. A culpa não é da esquerda, centro ou direita, mas da forma como os lideres nacionais foram todos ao longo da história curta da democracia, manipulados pela finança externa e por interesses económicos contrários ao desenvolvimento nacional, mas não ao seu próprio enriquecimento. O turismo que cria poluição em excesso nunca será a solução, a agricultura intensiva enriquece poucos e desfavorece outras culturas necessárias ao próprio povo, a falta de investimento no sector primário e secundário e em excesso no sector de serviços criou mão de obra barata e destruiu a alimentação do povo e a escassa industrialização do país, claro, que a culpa nunca foi do povo. O caminho aparentemente vai ser mais do mesmo, logo, bem vindos à distopia nacional, dependentes do estado que usa o povo como os seus fiéis escravos e destrói ou aprisiona as futuras gerações, ao apostar nos modelos errados de luta contra as alterações climáticas e a continuar a beneficiar o modelo poluidor da alta finança e da oligarquia que manda no ocidente. A inteligência artificial foi criada para gerir os humanos no presente (já o faz) e claro no futuro, e o estado português agradece, pois, também ganha com isso. Os americanos inventaram na política e não só o método da mentira repetida muitas vezes até por milagre ser pura verdade, e esta, prevalece no mundo inteiro. A internet criada nos anos sessenta pela DARPA, inicialmente um projecto militar para comunicações rápidas entre vários pontos do globo, evoluiu para um espaço aparentemente livre com acesso a muita informação e conhecimento, claro que ninguém esperava que se tornasse hoje em dia no meio dominante a nível global, mas claro, privacidade zero, o que implica uma forma magnifica de se dominar e saber dos segredos de tudo e de todos, e com a gestão “eficiente” da “inteligência” artificial começa o capitulo do estado corporativo mundial (oligarquia dos mais ricos) debaixo da batuta dos Estados Unidos que sabem de tudo, menos da china, rússia e outros que perceberam a tempo a finalidade da rede “aberta”.

    • Caro Daniel, você fala muito mas nunca toca nos pontos que realmente interessam. A saber.

      – O que interessa ao povo.
      Os resultados da bola.

      – Aos políticos da situação.
      Empregos na administração de empresas.

      – Aos empresários.
      Roubar isto tudo com a ajuda dos contactos que fizeram contratando políticos para a administração das suas empresas.

      – Aos esquerdistas conservadores.
      Conseguir finalmente convencer os incréus que a Coreia do Norte é uma democracia.

      – Aos esquerdistas liberais.
      Convencer o mundo que em matéria de relações de género e raciais o ocidente não evoluiu nada desde o Século XV.

      – Aos conservadores de direita.
      Proibir os casamentos homossexuais para não cederem à tentação de se vestirem de noiva barbada.

      Enquanto você não abordar estas legítimas aspirações realmente importantes para a sociedade escusa de vir com pormenores insignificantes a que ninguém liga. Como modelos de desenvolvimento e essas chatices.

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