Guia para vítimas sensatas

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 15/08/2020)

Parece que se descobriu que afinal temos um problema de racismo. Mas quem ainda ontem o negava agora diz que problema está tanto nos racistas como em quem os combate – é tudo gente nervosa. É que o racismo combate-se com muita calma: primeiro nega-se, depois nega-se e no fim culpam-se as vítimas.


Vou começar por um reductiozinho ad hitlerum, para poderem dizer que sou uma exagerada e já perdi a discussão antes de sequer começar.

É a história de seis raparigas que tinham entre 18 e 23 anos quando se deu a libertação dos campos de extermínio nazis, onde elas estavam e aos quais elas, ao contrário da maioria, sobreviveram. Essa sobrevida é contada em Depois de Auschwitz, um documentário de 2017 que narra o percurso de vida dessas seis judias, duas delas irmãs, e que passou na RTP3 na segunda-feira, 10 de agosto.

Nele ficamos a saber como a libertação esteve longe de ser o fim do martírio. As duas irmãs polacas, por exemplo, levaram um mês a conseguir voltar, pelos seus próprios meios, à cidade natal, para descobrirem que não só ninguém da família sobrevivera como a sua casa estava ocupada por polacos, que não tencionavam sair. A receção foi ódio e desprezo: “Porque voltaram? Estão a voltar mais do que os que partiram. Que vêm para aqui fazer? Vão-se embora.”

Ainda assim, tiveram sorte: muitos dos que saíram dos campos de concentração, certifica-nos a voz off, acabaram por ser mortos ao tentar voltar a casa. Uma das irmãs confirma: dois judeus foram acusados de estar a negociar no mercado negro, amarrados a uma carroça e arrastados até à morte. O Reich fora derrotado mas o faroeste antissemita continuava muito bem de saúde, pelo que as duas perceberam que não bastava terem-lhes matado a família e roubado a casa: não tinham país sequer. E, como muitos outros nas mesmas circunstâncias, não viram outro remédio senão rumar à Alemanha ocupada, onde ao menos havia campos para desalojados.

É sempre tão fácil mantermos a calma e a fleuma, até o sentido de humor, em relação àquilo que não nos diz respeito. Raiva porquê, não é? Se podemos resolver as coisas com sensatez. Por exemplo o racismo – por que motivo havemos de nos irritar com o racismo?

“Estava muito zangada”, diz uma delas. “Quando cheguei lá odiava tudo. Odiava o malvado chão, cada pessoa. Um dia estava num elétrico e vi um soldado americano a beijar uma alemã. Envergonho-me de o dizer mas empurrei-a para fora do veículo. Não conseguia controlar-me. Acho que se tivesse uma arma teria matado muita gente. Não podia perdoar o que nos tinham feito.”

Acabaram por, como todas as seis sobreviventes, fugir para os EUA. Lá havia outros judeus, judeus que não tinham passado pelo mesmo. Mas precisamente por isso ninguém queria ouvir o que lhes tinha acontecido. “Cada vez que começava a falar do campo de concentração, diziam-me “Agora estás na América, isso ficou para trás, não interessa””, conta uma delas. E quando uma das irmãs polacas confessou a um primo americano que após a libertação tinha feito parte de um grupo que assaltava casas na Alemanha, a resposta dele foi: “Isso não está correto, roubar.” Isso, explica ela com um sorriso, calou-a. “Percebi que não podia falar, porque seria julgada pelos padrões dele. Ele não sabia que existiam outros padrões.”

Imaginem isto, se conseguirem: terem perdido toda a vossa família, a vossa vida, na mais completa barbárie; terem sobrevivido por um triz sofrendo e assistindo a coisas inomináveis e dizerem-vos que não podiam ter raiva, que não podiam ter vontade de vingança, que não podiam sequer assaltar as casas vazias dos vossos inimigos para sobreviver. Conseguem imaginar? Se calhar conseguem – basta não terem imaginação suficiente para tentarem colocar-se no lugar destas mulheres. Basta acharem que a raiva e o ressentimento são sempre coisas más, que nunca se justificam, mesmo perante o maior mal.

Isto leva-me a outra parábola, contada em Os Irmãos Karamazov, de Dostoievski: a da criança serva que o senhor feudal russo castiga à frente da mãe. A criança magoou sem querer um dos mastins do senhor; furioso, este encerra-a no canil toda a noite e a seguir larga os cães contra ela, obrigando a mãe a assistir à sua morte atroz. A conclusão do narrador é de que a mãe não tinha, mesmo que quisesse, o direito de perdoar-lhe; não podia perdoar pelo filho despedaçado pelos cães – essa dor, esse pavor, não era dela.

Lembro-me desta história sempre que vejo pessoas a advogar calma e perdão em relação a agravos e dores que não suas – é sempre tão fácil mantermos a calma e o fleuma, até o sentido de humor, em relação àquilo que não nos diz respeito. Raiva porquê, não é? Se podemos resolver as coisas com sensatez. Por exemplo o racismo – por que motivo havemos de nos irritar com o racismo? Foi racismo, claro, que ergueu os campos de concentração dos quais as seis raparigas do início do texto conseguiram escapar; foi racismo que lhes ocupou as casas; racismo que lhes disse, quando vinham do horror absoluto, “vão-se embora, não vos queremos aqui”. Foi o racismo de muita gente, de países inteiros, de povos inteiros, que as vitimizou – mas, hey, elas não podiam ter raiva, não podiam sequer falar disso com fúria. Não puderam falar disso durante anos, décadas – era um assunto chato, desagradável, pesado. Melhor calar.

Com sorte, porém, talvez ninguém tenha dito às jovens judias “vocês com essa conversa sobre o antissemitismo é que criaram o nazismo”. Talvez com sorte ninguém lhes tenha chamado histéricas ou odientas. E agora, dizem vocês que me leem, se chegaram aqui: mas estás a comparar o que aconteceu a essas raparigas com o que se passa com os negros e ciganos em Portugal? Reparem, estou. Estou realmente a comparar vítimas de racismo com vítimas de racismo, e racistas com racistas. Estou a comparar negacionistas com negacionistas e gente bem-intencionada e com muitos princípios que sofre de absoluta falta de empatia e de imaginação, como o primo da miúda polaca, com tantos de vocês, que não fazem a menor ideia do que é ter medo de polícias só porque se é negro ou cigano, que não sabem o que é ser insultado quotidianamente só porque se é negro ou cigano, ouvir todos os dias na vossa terra “volta para a tua terra”. Que não sabem o que é ter a mãe ou o pai a dizer “não ligues quando te chamarem preto, nem respondas, continua como se nada fosse”.

Como se nada fosse: é isso que vocês advogam, baixar a cabeça, calar a boca, engolir a humilhação, assumir o medo “para não ser pior”? Era isso que fariam? Ou nunca pensaram bem nisso sequer, porque não vos acontece, não vos aconteceu nem nunca acontecerá e, importante, não vai acontecer aos vossos filhos?

Reparem: eu, branca, também não sei o que é. Mas posso tentar perceber. Posso por exemplo ouvir crianças e adolescentes contarem a sua experiência de racismo ainda antes de saberem dar-lhe um nome, ainda antes de sequer se verem como diferentes da norma – porque é essa experiência que lhes confere uma identidade outra. Não sei dessa violência, não a senti nunca. Mas sei que não tenho, como a mãe de Dostoievski, o direito de perdoar pelos outros, muito menos exigir-lhes que perdoem ou que tenham calma, que não se irritem, que sejam “sensatos”.

Agora, a outra questão, que é a mesma: se o discurso antirracista, se a denúncia do racismo, se a voz e o protagonismo crescente dos excluídos e discriminados acicata os racistas e os pode levar a uma escalada de violência? Sem dúvida. As mães e os pais negros sabem isso, por isso aconselham os filhos a calar. Se a maior representação e libertação dos grupos oprimidos tem uma relação direta com a ascensão da extrema-direita? Tem. Tal como é sabido que no contexto de violência doméstica o momento de maior perigo é aquele em que a vítima se tenta libertar, é provável que quando as vítimas de racismo se revoltam e começam a combatê-lo e a exigir direitos quem não quer admitir-lhos se sinta na necessidade de assumir mais claramente a sua posição. A violência esteve sempre lá – porque racismo é violência – mas fica mais visível para quem andava distraído.

Se compreendemos que os pais negros por medo do que possa suceder aos filhos negros lhes digam que oiçam e engulam os agravos e andem para a frente, como país não temos esse direito. Não temos o direito de pedir às vítimas que baixem a cabeça, e muito menos de as comparar, de as equivaler aos que as vitimizam e ameaçam.

Mas se sabemos tudo isto, e compreendemos que os pais negros por medo do que possa suceder aos filhos negros lhes digam que oiçam e engulam os agravos e andem para a frente, como país não temos esse direito. Não têm esse direito os representantes eleitos, não tem esse direito o Presidente da República, não tem esse direito o governo nem o líder da oposição. Não têm o direito de pedir às vítimas que baixem a cabeça, e muito menos de as comparar, de as equivaler aos que as vitimizam e ameaçam. Não chegava já termos chegado aqui graças à insultuosa persistência no negacionismo; tínhamos ainda de ouvir prescrições de sensatez e calma que não são mais do que culpabilização das vítimas. Tínhamos de como o primo da jovem polaca dar lições de boa educação à sobrevivente. Talvez dizer: se para sobreviveres tens de usar a tua raiva, então talvez seja melhor não sobreviveres. Soçobra sensatamente ao ódio que te dirigem – vai para a tua terra, vá.


16 pensamentos sobre “Guia para vítimas sensatas

  1. O autor abaixo, amante da liberdade africana, mas sem cultura (ou deformação) marxista, religioso e meio ocidentalizado, será talvez uma testemunha menos abonatória – Eduardo Mondlane:
    A) 10/09/51 – Não sou cidadão da África do Sul, embora tenha sido educado em Johansburgo. Nasci na África Oriental Portuguesa, na capital, chamada Lourenço Marques.
    (…) Os problemas sociais, políticos e económicos do meu país são um pouco diferentes dos da União da África do Sul. Por exemplo, nós não temos uma barreira de cor ou discriminação racial no nosso país.
    (…) Pessoalmente penso que há duas maneiras que ajudarão os africanos:
    1.Educação massiva…
    2.O espalhar da verdadeira cristandade.
    (…) É esta a razão porque eu tenho a obrigação de regressar a África para fazer tudo o que puder para contribuir com a pequena parte de boa vontade com que eu sei que Deus quer que eu contribua na vida.
    B) 24/09/51 – Lembra-te que eu próprio não sou cidadão sul-africano. Sou cidadão português. No meu país não temos leis de segregação… Eu farei tudo para lutar pelos direitos do meu povo no meu próprio país…
    C) 24/04/54 – O meu desacordo com o governo tem pouco a ver com a sua política racial porque, embora não seja a ideal, não é tão má como a dos países vizinhos… O que não posso suportar é a falta de liberdade de expressão. Isto é verdade para todos os cidadãos portugueses, em Portugal e em África.
    PS: enxertos das cartas de Mondlane a sua mulher Janet.
    Livro de Nadja Manguezi, Maputo 2001, Centro de Estudos Africanos e Livraria Universitária:
    Com “Uma história da vida de Janet Mondlane” com o título “O Meu Coração está nas Mãos de um Africano”
    Primeiro presidente da FRELIMO.

  2. Não, de facto não sei o que é ser preto ou cigano e ter medo da polícia – sou um cidadão cumpridor, é normal que não tenha medo e aceite a autoridade -, mas sei: 1 – o que é morar perto de ciganos e ter medo, medo deles e do seu espírito epidérmico de vingança e principalmente medo de perder a cabeça e confrontá-los publicamente quando passam à frente dos outros nas filas – presumo que tenham uma vida pejada de compromissos inadiáveis -, quando vendem de forma ilegal no meio da rua, sem pagar impostos e atafulhando os caixotes do lixo de forma a que já não os consigo usar; 2 – morar perto de africanos e ter de me desviar da urina e das fezes que tão alegremente largam na rua como se estivessem na savana. É muito fácil acusar os outros de serem racistas e trogloditas quando se vive em condomínios de luxo ou em bons bairros e se vê a “diversidade” como algo exótico, cosmopolita, excitante…

    Quem é pobre ou classe média-baixa até consegue perceber que as minorias – que nalgumas zonas já são mais maiorias do que outra coisa – estão mais próximos delas do que as classes altas e as esquerdas caviar, que todos estamos a dar o nosso melhor e a procurar viver da melhor maneira possível e a respeitar a lei, mas não podemos pactuar com comportamentos pouco cívicos e, nalguns casos, criminosos, permanentemente desculpados pelo manto diáfano do “racismo”.

    No fim do dia, não quero ter medo. Quero viver bem onde sempre gostei de viver.

  3. Pela descrição comparativa desta porca racista com o terceiro reich e os pogrows do leste até parece que temos câmaras de gâs a funcionar no centro Colombo e crematórios na praça do Rossio.

    Famílias pretas e ciganas são levadas para a morte amarradas nas traseiras das carroças da morte que todo o dia sobem a avenida da liberdade.

    Crianças negras são torturadas pela população branca que dá gargalhadas maldosas ao ouvir os gritos de dor das suas vítimas.

    Isto é mais ou menos a imagem que estes porcos das novas elites querem dar do povo português.

    A verdade é só um “poucochinho” diferente.

    Não só tudo isto é mentira como os brancos têm muito mais medo dos pretos e ciganos do que o contrário.

    É nos bairros pretos e ciganos que os brancos têm medo de entrar por serem vítimas de agressões e não o contrário.

    Até polícias e bombeiros tripulantes de ambulâncias são rotineiramente agredidos e roubados nesses bairros. Nem os entregadores de pizzas escapam. Muitos recusam fazer serviço nesses bairros não é por racismo. É por terem medo de ir parar ao hospital ou pior.

    Qualquer pessoa que frequente os transportes públicos de certas zonas como as linhas de cintra e de Cascais sabe do que lá se passou durante décadas com assaltos e agressões constantes por gangs ás vezes de dezenas de elementos de certas etnias que chegaram a fazer arrastões na praia.

    Estes merdosos das elites estão fartos de saber isto.

    O que é que pretendem com o acirrar constante ao ódio racista contra a população branca vai acabar por se descobrir.

    Para já, por reação estão a alimentar o Ventura, o que já é mau.

    Parece que estão a dividir para reinar. Acirrar as raças umas contra as outras enquanto eles vão puxando as suas agendas por detrás.

    • Estas elites querem que os brancos aceitem – no fundo até o merecem, pelo seu passado “explorador” -, não reclamem – que são logo acusados de racismo, muito provavelmente são filmados e tudo se torna “viral” e com sorte ainda perdem o emprego (… a nossa empresa não se revê nestes valores…) – e entreguem de mão beijada tudo o que têm – que foi “roubado” às minorias -, enfim, um nojo.

      • O resultado a longo prazo vai ser muito pior do que isso.

        Gerações de imigrantes africanos estão a ser “educados” desde pequenos nesta propaganda de ódio contra as populações brancas hospedeiras.

        Uma criança negra vai crescer a pensar que as pessoas brancas são más e perversas – isto é o que os nazis faziam aos putos na Hitler Jugend educando-as no ódio aos judeus.

        Já adultos com certeza vão querer proteger as suas famílias dos brancos monstruosos que só andam no mundo para perseguir pretos.

        E temos o caldo de cultura racista que levou ao exterminio dos Tutsis.

        Porcos racistas como está Câncio são potenciais genocidas.

    • Já agradeceste ao Goebbels os seus discursos sobre a maldade dos judeus ?

      É que a narrativa destaa elites racistas contra o povo português, como o desta Câncio, é igual.

  4. Pérolas a porcos. Pior, pérolas a porcos sem ouvidos e preferem lutar contra o que ninguém diz, como mostra o mestre que é o querido líder.

    • Porcos racistas são vocês ó Marques.

      E de tão mentirosos que até fingem que a porca racista não está 99% do texto a comparar explicitamente a realidade portuguesa com o III Reich e os pogrows onde foram assassinadas milhões de pessoas.

      Tem mesmo tudo a ver…

      É que os pretos em Portugal, coitados, estão a ser vítimas de genocidio mas os portugueses malvados não lhes ouvem os gritos lancinantes de aflição.

      Como se estes “activistas” não ocupassem todos os meios de informação até à exaustão.

      Mesmo que alguém não os quisesse ouvir levava com eles de manhã à noite a descrever como o povo português é maldoso e perverso.

      Isto é uma verdadeira lavagem ao cérebro.

      • Do Manuel Machado na manhã até ao Marques Mentes à noite?
        Não é a realidade portuguesa, são actos de alguns portugueses e os actos de alguns alemães, ambos ignorados, até ao dia em que não são. É preciso esperar que piorem, portanto.

        • 👍🏿

          É verdade.

          Tirando a tabuleta da entrada nem se percebe a difetença entre Lisboa e Treblinka.

          O cheiro dos crematórios é insuportável.

          E nem temos de capturar as nossas vítimas que imigram em massa para cá de livre vontade.

          O povo português é o povo mais nazi que há.

          O que eu não percebo é a esquerda depois andar a dizer que gosta muito do povo que insulta e apresenta como um monstro a abater.

        • Outra coisa, só agora reparei no que disseste.

          Explica lá onde o Marques Mendes cometeu crimes racistas que essa não percebi.

          E já agora quem é o Manuel machado ?

  5. grande Fernanda Câncio sempre na vanguarda da verdade na defesa dos direitos das minorias, bem haja.só é pena que os suicidas não aproveitem estes mimos para crescerem socialmente. esta tendência que eles tem para o suicídio vai levá-los à morte.

    • Ou isso ou é uma porca racista que está a incitar ao ódio contra o povo português inventando perseguições inexistentes contra as comunidades imigrantes.

      Por falar nisso, onde é que os direitos das minorias são desrespeitados em Portugal ó aldrabão ?

      É-lhes negado o direito à assistência médica ? Educação ? Reforma ? Assistência social ?

      O segurança da loja do cidadão expulsa os pretos e os ciganos que tentam lá entrar ó seu manhoso ?

      Diga lá ou assuma-se como mentiroso.

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