A vidente e a pandemia

(José Gameiro, in Expresso Diário, 21/06/2020)

Há muitos anos tive uma doente que era vidente. Acompanhava pessoas que a procuravam com os mais variados problemas da vida. Dava-lhes apoio, tinha uma capacidade empática fora de vulgar, mas também, um bom senso notável. Cada vez que se apercebia que quem a procurava tinha sérios problemas mentais encaminhava para um psiquiatra ou psicólogo.

Recebi vários doentes que me referenciava e eram sempre situações clínicas complexas ou que poderiam tornar-se graves sem tratamento. Um dia foi ela que me procurou. Estava triste, cansada, tinha parado a sua atividade, disse-me que não conseguia ajudar as pessoas. “Sabe o que mais me custa, quando estou exausta? Prever o futuro.” Dei-lhe uma resposta de bom senso: “Mas ninguém consegue prever o futuro…”

Explicou-me que estava completamente enganado. “Claro que não acerto completamente, mas frequentemente fico lá perto.” Como é que consegue isso, perguntei. “É muito simples, as minhas previsões condicionam parcialmente as atitudes da pessoa. Se eu lhe digo, por exemplo, que vai conhecer um príncipe encantado, ela fica mais predisposta a que isso aconteça.” Fiquei por aqui e não lhe perguntei nada acerca do meu futuro… Ao longo da pandemia tenho-me lembrado muito desta história. Será possível prevenir o futuro, condicionando-o?

Se quisermos pensar no que nos aconteceu, sem recorrer a raciocínios epidemiológicos, feitos com a melhor das boas vontades, mas com uma alta dose de aleatório, temos uma forma mais simples de o fazer. Ao confinarmos uma grande parte da população, tentámos condicionar o futuro. Mas será possível que uma tão grave decisão política tivesse sido tomada utilizando a mesma ‘epistemologia’ de uma vidente?

Imaginemos que não queremos encontrar alguém, que temos a certeza de que nos irá fazer mal. Naturalmente, evitamos todos os caminhos, situações, contextos em que a probabilidade de encontro seja a mais próxima possível do zero. Mas, no limite, a única forma segura de o fazer é não sairmos de casa e não deixar ninguém lá entrar. Os que tentaram fazer de forma diferente, talvez numa atitude de indiferença perante o perigo — vamo-nos encontrar tantas vezes que acabamos por criar defesas —, ‘espalharam-se’. Os exemplos não faltam, Reino Unido, Suécia, Suíça foram alguns dos países com taxas de letalidade muito mais altas do que nós. Estes países optaram por pensar que sabiam. Utilizaram o conhecimento de outros vírus e aplicaram-no cegamente. Uns persistiram no erro, outros arrepiaram caminho, mas já era tarde.

Agora, passados mais de três meses, é fácil dizer que a estratégia da vidente, foi boa mas não suficiente. Se alguém, responsável, se tivesse lembrado dos lares e não tivessem metido os pés pelas mãos, com a obrigatoriedade de usar máscara, os resultados teriam sido melhores. Desde cedo que se soube que o maior risco é a idade, variável, cada vez mais evidente, mas por razões que me escapam (constitucionais, discriminatórias?), os mais velhos foram pouco protegidos. Ou seja, com o tempo, a epistemologia da vidente foi sendo afinada. Quando se soube que só cerca de 10% dos infetados o tinham sido em contexto social, cerca de 35% tinham sido infetados nos lares e que a taxa de mortalidade dos mais de 70 anos é de cerca de 17% foi possível estratificar melhor o risco.

Tivemos a sorte e o saber de não deixar passar muito tempo, entre afirmar que seria uma situação semelhante à da gripe e perceber que não percebíamos quase nada do que estava a acontecer. Tal como a vidente que ganha a sua vida a prever o imprevisível, mas que tenta condicionar o futuro, nós fechámos as portas e pusemos uma pancarta a dizer: “Não entras.”

Talvez esta pandemia nos faça mais humildes e nos leve a aceitar melhor que percebemos muito pouco do que se está a passar. Mas a incerteza não é muito popular. Uma boa e dramática lição de vida.


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