Chico Buarque, Caetano Veloso, Sting , Mia Couto e Noam Chomsky, entre outros, pedem ajuda internacional contra censura de Bolsonaro

(Christiana Martins, in Expresso Diário, 08/02/2020)

Medo do escuro? Jair Bolsonaro durante uma cerimónia em Brasília a 9 de fevereiro, pouco mais de um mês depois de ter assumido a presidência do país

Um manifesto subscrito por mais de dois mil artistas e intelectuais brasileiros e intenacionais pede ajuda da comunidade mundial para travar a escalada censória do governo Bolsonaro. O episódio mais recente foi a criação de um index que proíbe a divulgação de clássicos da literatura daquele país nas escolas públicas do estado de Rondónia


O governo do estado de Rondônia, no extremo norte do Brasil, determinou a recolha de 43 obras literárias por considerá-las “conteúdo inadequado’ para as escolas da rede pública. Entre os livros censuradas estão clássicos da literatura brasileira de autores como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Ferreira Gular, ou Rubem Fonseca, aquele que teve mais títulos excluídos: 19.

Também Aurélio Buarque de Holanda, autor do mais referenciado dicionário brasileiro e primo do autor e cantor Chico Buarque, tem obras retiradas do ensino público. Mas nem só autores brasileiros são censurados, também nomes universais como Franz Kafka ou Edgar Allan Poe foram rejeitados.

Entretanto, artistas, intelectuais e políticos brasileiros e de diversos outros países lançaram esta sexta-feira um manifesto contra a limitação da atividade de instituições culturais, científicas e educativas. O documento com cerca de duas mil assinaturas, convoca a comunidade internacional a manifestar-se publicamente contra a censura no Brasil.

Nomes da cultura brasileira como Caetano Veloso, Chico Buarque ou internacionais como Sting, William Dafoe, além de autores de portugueses como Valter Hugo Mãe ou o moçambicano Mia Couto assinam a carta, que conta ainda com as subscrições de intelectuais como o linguista Noam Chomsky ou o cientista político Steven Levitsky.

No texto, que foi publicado no jornal britânico “The Guardian”,os subscritores afirmam que “a administração Bolsonaro deixou claro que não tolerará qualquer desvio de sua política ultraconservadora” e que “a partir de um programa moralista e ideológico fechado e compactuado, essa administração busca mudar o conteúdo dos livros escolares, dos filmes nacionais, restringir o acesso a bolsas de estudo e de pesquisa, intimidar o corpo docente, os jornalistas e os cientistas.”

A Academia Brasileira de Letras também classificou como “deplorável” a decisão de retirar os livros do ensino público, afirmando ainda tratar-se de um desrespeito à Constituição brasileira e ao princípio da liberdade de expressão.

Rondónia é governado pelo coronel Marcos Rocha, seguidor da orientação ideológica de Olavo de Carvalho, considerado o mentor do Presidente Jair Bolsonaro. A ordem para retirar os livros terá vindo do secretário da Educação, Suamy Vivecananda, que classificou os livros incluídos na lista como tendo “conteúdos inadequados a crianças e adolescentes”.

O governo do estado não negou a existência do documento exigindo o recolhimento e o listão das obras, segundo um jornal do estado de Rondónia, confirmando numa nota oficial que as obras em causa estão a ser analisadas, remetendo mais explicações para um comunicado da Secretaria Estadual de Educação, mas confirmando que os livros que não se adequarem às normas pedagógicas fixadas serão substituídos.

Depois da polémica pública, contudo, o secretário da Educação afirmou a jornais locais que o documento “é apenas um rascunho”. No início deste ano, em declarações públicas, Bolsonaro afirmou que os livros didáticos “têm muita coisa escrita” e que é necessário “suavizar” os conteúdos transmitidos aos estudantes brasileiros.



5 pensamentos sobre “Chico Buarque, Caetano Veloso, Sting , Mia Couto e Noam Chomsky, entre outros, pedem ajuda internacional contra censura de Bolsonaro

  1. O conservadorismo está para o cérebro como o sedentarismo está para o coração: demora um pouco mas, mais tarde ou mais cedo, acaba por o destruir. A grande diferença está no facto de que um humano sem coração funcional é um cadáver mas o mesmo humano sem um cérebro funcional é um conservador. A sociedade tende a sepultar os primeiros e a tomar medidas para minimizar as falhas coronárias no futuro mas, infelizmente, tende a normalizar e eleger os segundos para cargos de poder. Enquanto a sociedade não encarar o conservadorismo com a mesma seriedade que já encaramos outros problemas de saúde potencialmente mortais que nos matam às centenas diariamente, não vale muito investir em investigação médica enquanto ao mesmo tempo se permite aberrações intelectuais deste género ditarem o quer que seja na sociedade.
    Um conservador nos dias de hoje é alguém que escolhe viver numa caixa. É mais fácil viver na caixa visto que só tem que lidar com o que se passa dentro da caixa. Tudo o que acontece fora da caixa é para ignorar, nem que seja à força, que é exactamente o que os conservadores brasileiros liderados pelo grande aborto estão a tentar fazer. Tentar enquadrar o que é abordado nestas obras é impossível sem destruir a caixa no processo, daí estas medidas absolutistas, pois o conservador enquanto houver uma única pessoa que seja fora da caixa, o conservador não passa disso mesmo: um parvo que têm medo da vida fora da caixa.
    A censura sistemática é a única forma de um conservador passar por legítimo ou inspirador. Só removendo artificialmente grandes porções da realidade é que um conservador conseguem convencer quem quer que seja com a sua ideologia pateta. Bolsonaro está a tentar reescrever a história não porque ache que esta está errada mas por saber que a mesma é a maior arma contra a sua ideologia. Não há fascista que sobreviva à combinação mortal de história + objectividade. Num país de mais de 200 milhões de habitantes, claramente a segunda é mais prática de controlar, o que explica estas acções.
    Mas se Hitler não o conseguiu fazer em 1939, sem Internet e com as redes de informação (telefone, televisão e rádio) primitivas qundo comparadas com as actuais, será que o aborto espera ter sucesso? Claramente ainda está ofuscado pelo que conseguiu fazer com o seu exercito de bolsominions e as redes sociais. Aquele cérebro, claramente fruto de gerações de incesto, não consegue perceber que a Internet e a tecnologia é tão conservadora ou liberal como um martelo ou um serrote.
    Honestamente? Tomara que ele siga o exemplo de Hitler e queime essas obras em praça pública. Que faça a maior fogueira possível com tudo o que o seu cérebro limitado não consegue entender. Há 70 anos atrás o povo estava limitado a ficar especado a olhar para as cinzas fumegantes. Hoje? Antes do primeiro livro do Rubem Fonseca acabar de arder, já centenas de pastas zipadas com todas as suas obras em pdf ou epub circularão anonimamente e de forma segura entre milhões de brasileiros usando, ironicamente, o mesmo WhatsApp que o elegeu.
    Há uns meses atrás, um padre polaco, depois de uma noite onde claramente bebeu mais sangue de cristo que devia, decidiu queimar os livros do Harry Potter no jardim da Igreja. Ressacado, achou que as menções a magia e feiticeiros nas obras iriam afastar crianças da sua diocese (sim, o problema entre as crianças e a Igreja Católica são os livros do Harry Potter…). Resultado? A J.K. Rowling viu a sua já grande fortuna inchar mais uns milhões com o resultado e milhões de crianças polacas receberam a série como presente no Natal passado. Não há nada mais eficaz para trazer atenção a uma obra que ter conservadores de cara vermelha a cuspirem ódio na sua direção.
    Bolsonar pode criar as caixinhas e caixotes que bem entender que, enquanto a malta se enfiar dentro delas com um smarphone no bolso, não lhe serve de nada.

    • Interessante.

      Mas não fale só dos conservadores fascistas.

      Os conservadores comunistas perseguiram os homossexuais, promoveram o “realismo socialista” forma de arte conservadora que fora eventuais foices e martelos seria do agrado de Hitler e Bolsonaro.

      E mais recentemente vimo-los no parlamento português alinhar com os conservadores de direita a favor da tortura de toiros e contra o direito de escolha na questão da eutanásia.

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