Medricas

(José Pacheco Pereira, in Público, 30/11/2019)

Pacheco Pereira

Poucas palavras portuguesas são mais sinistras e pegajosas e retratam, com a sua pequenez, o servilismo do medo – é como ser covarde até na covardia.


Como quem escreve sabe, muitos artigos começam pelo título. Vem um título à cabeça e o resto vem depois. É o caso deste. O primeiro título foi “medricas”, o segundo “meter o rabinho entre as pernas”. Nesta altura do artigo, segunda ou terceira linha, não sei o que vai ficar, mas um deles será. Sei também que o título não vai nunca ser uma coisa soft do género “meteu a cabeça na areia como a avestruz”, ou qualquer coisa como “um passo em frente e dois para trás”. Mas sobram provérbios, brocardos, expressões idiomáticas e algumas palavras suficientemente insuportáveis, de que um bom exemplo é “medricas”.

Tudo isto vem a propósito da reacção da Câmara Municipal de Lisboa a uma moção aprovada na Assembleia Municipal de Lisboa, um órgão institucional eleito do município, que condena a “repressão ao povo catalão” e pede a libertação dos “presos políticos”, na sequência de uma “deriva autoritária” do Estado espanhol na Catalunha. Tudo coisas sensatas, realistas, justas e aceites sem discussão perante os factos por qualquer pessoa no mundo, caso se referisse ao Burkina Faso, ao Egipto, ao Ceilão, às Filipinas, à Turquia, à Federação Russa, e a mil e um lugares do mundo sobre os quais vota-se de cruz todos os dias e mesmo assim vota-se certo.

O problema é ser Espanha, aqui ao lado, uma democracia até chegar ao independentismo, em que aí começa a velha Espanha de Francisco Franco. E quem sabe história não tem dúvidas, todos os sinais estão lá, a excitação nacionalista, a violência agressiva do espanholismo, a vontade de punir a matraca, prisão e as várias formas de ferro e fogo, esses “traidores”. Se pensam que o Tsunami Democratic é o protótipo da violência inscrita na história e na política espanhola, desenganem-se. Olhem para o Vox, a ponta de um icebergue que a democracia espanhola nunca conseguiu derreter, como agora se está a ver. Junto dessa montanha de raiva, os incendiários de caixotes do lixo são meninos do coro.

O problema é que qualquer pessoa sensata percebe que a recusa de fazer um referendo, como a Escócia fez há uns anos, para se saber a vontade dos catalães é sinal de uma “deriva autoritária”, usando a Constituição como arma de arremesso por aqueles que não cumpriram os compromissos autonómicos que assinaram. O problema é que qualquer pessoa sensata percebe que o modo como se reprimiu a tentativa de referendo dá à palavra “repressão” o seu sentido pleno. O problema é que qualquer pessoa sensata percebe que os presos condenados a longas penas de cadeia por posições políticas que estavam mandatados a tomar pelos seus eleitores são “presos políticos” dê lá por onde der. O problema é que qualquer pessoa sensata que tem um sentido de justiça e solidariedade, não se fica e protesta, incomoda-se, vota moções, manifesta-se, indigna-se. O que os responsáveis políticos espanhóis, com vergonhoso destaque para o PSOE, estão a fazer é tapar o sol com uma peneira e o sol não deixa. Daí a fúria.

E depois contam com os fracos. Parece que os representantes do PS na Assembleia Municipal não se esqueceram do que foi o seu partido quando homens como Mário Soares, Tito de Morais, Salgado Zenha, Sottomayor Cardia, Cal Brandão, Teófilo Carvalho dos Santos, Vasco da Gama Fernandes e muitos outros, conheceram a prisão e o exílio por se revoltarem contra a “Constituição vigente”, como se dizia. Claro que, bem sei, o Portugal de Salazar não é a Espanha actual, mas quando chega à Catalunha tornam-se parecidos e para os presos políticos catalães são até bastante iguais. Ora esses representantes do PS votaram a moção contra a repressão na Catalunha, o que só os honra.

Mas não contaram com os fracos, quer os do PSOE, que fizeram queixinhas, chamaram aos socialistas portugueses “ignorantes”, nem os de cá, que foram logo pedir desculpas pela ousadia dos seus camaradas com memória. O comunicado da Câmara Municipal de Lisboa é uma vergonha de cobardia: “Esclarece que apenas as decisões tomadas em sede de reunião de vereadores vinculam a Câmara Municipal de Lisboa, e que nenhuma deliberação foi tomada, ou será aprovada, com esse teor.” Reparem no arrogante “nem será aprovada”. E depois coloca-se ao lado dos repressores: “A posição da Câmara Municipal de Lisboa é a este respeito inequívoca: total respeito pela soberania do Estado espanhol, da sua constituição, das suas leis e do funcionamento das suas instituições.” Podiam ter poupado o “inequívoco”, mas dobrar a cerviz precisa destas juras de fidelidade quando se usa a linguagem do poder.

Como todos sabem, que estão a ler este artigo, fiquei-me pelo “medricas”. Poucas palavras portuguesas são mais sinistras e pegajosas e retratam, com a sua pequenez, o servilismo do medo –​ é como ser covarde até na covardia.


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7 pensamentos sobre “Medricas

  1. Não me situando na área política de Pacheco Pereira, reconheço a lucidez e seriedade que põe nos seus escritos.

  2. Já no outro referendo de 2017, os avatares mais ilustres da Lusolândia foram a Madrid evidenciar a sua vassalagem ao Rajoy, através do Costa e ainda da figura que preenche o inútil cargo de distribuidor de beijos, abraços, selfies e verbais vacuidades pelo mundo e arredores

    Dois anos depois aí está de novo a manifestação de vassalagem. E ficamos sem saber o que dirá o Sanchez ao seu luso camarada Costa – que por coincidência estará presente na COP em Madrid; mesmo que Costa lhe peça desculpa pelo acontecido na Assembleia Municipal da capital

    Por absurdo, imaginemos que o Puidgemont passava por Lisboa. Têm dúvidas de que Costa o aprisionava e remetia direto para Carabanchel ?

    VL

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