Bestas quadradas

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 04/11/2019)

Ser (muito bem) pago para estar num canal televisivo a despejar opiniões é um raro privilégio, ainda mais raro e de mais alto privilégio quando do programa em causa saiu um primeiro-ministro. A pose, os maneirismos, na “Circulatura do Quadrado” transportam-nos para um microsenado onde os participantes cultivam uma gravitas de estufa. Não sei se a influência que alcançam iguala aquela onde se embrulham na vaidade respectiva, mas sei que representam tipos socialmente influentes na comunidade que somos.

Lobo Xavier é a voz da oligarquia económico-política, actuando literalmente como advogado dos interesses de quem tem o poder financeiro e estrutural (empresas, advogados, institutos de educação, a Igreja Católica, e, claro, os órgãos de comunicação e partidos da direita que servem os mesmos interesses). Pacheco Pereira é um parasita do sistema político que usa ao serviço da sua remuneração mensal e da fantasia ego-melancólica com que se vê ao espelho. E Jorge Coelho não é nada, por nada conseguirmos fixar das banalidades que lhe enchem as intervenções.

Ora, num caso com as ondas de choque e espectacularidade da “Operação Marquês”, um verdadeiro caso de regime aconteça o que acontecer, o que estes protagonistas mediáticos digam no espaço público ganha conotações que ultrapassam inevitavelmente o âmbito das suas individualidades. Vejamos dois significativos exemplos do programa de 30 de Outubro.

Pacheco Pereira – Eu não quero participar nesta onda de hipocrisia do “alegadamente” culpado. A minha convicção é a de que é culpado. Pelo que eu conheço. Pelas declarações que ele fez. Pelo que eu conheço das mentiras compulsivas que eu conheço directamente. As declarações dele, eu não preciso de mais nada para ter esta convicção.

Eis um argumento ad hominem na sua pureza. Esta pessoa declara outra merecedora de uma pesadíssima pena de prisão a partir de uma convicção estritamente subjectiva a respeito da imagem construída no passado e não a partir dos factos na berlinda no processo judicial presente, convicção essa formada a partir da interpretação de afirmações avulsas sem qualquer assunção de culpabilidade criminal – isto é, Sócrates sempre negou ter cometido crimes de corrupção, o que de arrasto equivale a negar o branqueamento de capitais. Que leva o Pacheco a querer ser visto, ou a não se importar com tal, como alguém que despreza o Estado de direito e qualquer noção de Justiça? Qual a motivação que o faz passar por potencial e horrendo criminoso, posto que foi contra tiranos que faziam justiça pelas próprias mãos que a Civilização – na sua essência – se criou e tem vindo a desenvolver?

Há várias hipóteses possíveis, obviamente, optando por iluminar esta: o Pacheco é profundamente ignorante. A sua ignorância não está no recurso automático aos universais mecanismos de diabolização, onde um adversário se pinta como inimigo desumanizado, os quais explicam a repetição maníaca do assassinato simbólico de Sócrates que faz desde 2009. De cada vez que repete a acusação, o bibliotecário da Marmeleira está a reactualizar o confronto político em que foi derrotado pelo Engenheiro, servindo-lhe o ressentimento e o rancor como combustível inesgotável para o desforço. A sua ignorância está na incapacidade para ser crítico de si próprio, e essa incapacidade nasce de ser ignorante nos terrenos da psicologia.

O Pacheco largaria gargalhadas soberbas perante a sugestão de ser ignorante a respeito da psicologia, ele que se considera um especialista na natureza humana, dando caudalosas e semanais provas disso mesmo quando explica enfastiado a história contemporânea do rectângulo aos leitores e telespectadores não tão afortunados como ele em leituras e experiência de vida. Porém, se, por milagre, algum dia fosse confrontado com uma pergunta a respeito de Fritz Heider, dobrado contra singelo como ficaria à nora. Igual resultado para a tentativa de descobrir o que conhece a respeito do conceito de “enviesamento correspondente” ou “erro fundamental de atribuição” e para as teorias da Atribuição Causal e das inferências espontâneas de traços. E não há enigma nenhum nesta previsão, basta reconhecer que o Pacheco não discursa como um filósofo ou cientista (leia-se “investigador”), antes como um moralista. Todo o moralista é uma besta que prefere o egocentrismo à curiosidade. Todo o moralista é, tem de ser, profundamente ignorante.

Outro galo canta, em harmonia, pelo bico de Lobo Xavier. Vejamos:

Lobo Xavier – [quando Pacheco realçava a fragilidade da acusação] Mas é muita matéria, é muita matéria. Esteja descansado, Pacheco Pereira, esteja descansado…

Lobo Xavier – [para Jorge Coelho, o qual realçava a gravidade da situação caso não existam provas de corrupção contra Sócrates] Não se aflija, não se aflija, não se aflija…

Este passarão não se contém, não resiste a pavonear-se com o poder que usufrui ocultamente. Aqui aparece a garantir que Sócrates vai mesmo ser condenado, de uma forma que salvará a “Operação Marquês” de qualquer suspeita de manipulação política. E prevê que vamos ter muitos anos de processo. Não custa a descodificar a mensagem. Lobo Xavier está a profetizar que, na eventualidade de Ivo Rosa ilibar Sócrates ou apenas o mandar para tribunal pela acusação fiscal, o Ministério Público irá recorrer e, nas instâncias seguintes, Sócrates será triturado por juízes sem as manias garantistas desse que actualmente está com a coisa nas mãos. Daí o seu júbilo ao referir a quantidade de pontas por onde se pegar e dar a Sócrates o tratamento que o regime precisa que seja dado. O tratamento que já foi dado a Armando Vara e que correu tão bem.


Fonte aqui

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10 pensamentos sobre “Bestas quadradas

  1. Magnifico artigo
    Análise completa sobre os fazedores de opinião deste triste país, que se deixa manipular. É que entretanto os “passarões ” continuam incólumes por mais crimes e roubalheiras que cometam. Para esses não há “convicções de culpabilidade ” ” mentiras compulsivas que eu ( Pacheco Pereira)conheço pessoalmente !
    E assim se vão prendendo pessoas, destruindo carreiras !
    É evidente que os políticos, todos os que fizeram as leis , foram permitindo que uma nova classe, o poder judicial que ninguém controla, sem qualquer legitimação dos cidadãos, siga em roda livre.!
    É que se alguma conclusão se pode tirar é que fizeram a cova onde se vão enterrar ! Aguentem !

    • ???

      Como neste artigo, das raras vezes que um passarão é apanhado temos logo uma coorte de leais servidores a tentar tapar o Sol com uma peneira.

      • – Acha impossível que exista um “cofre” (material, metafórico?) na posse da mãe de Sócrates com dinheiro vindo de uma herança. Contudo, apenas possui como informação a respeito desse tema o que acabou de ser espalhado em violação do sigilo judicial e está a apagar a ideia, com décadas, de realmente ter existido tal herança.

        Nota. Toma lá, Pedro, que o post de ontem (e os comentários) ainda são melhores… irresistível!

        #pardalões ❤️

  2. > Que leva o Pacheco a querer ser visto, ou a não se importar com tal, como alguém que despreza o Estado de direito e qualquer noção de Justiça?

    O Valupi querer ouvir o que ele não disse, a começar por confundir um julgamento pessoal com um jurídico. Ou não me diga que confiava na pureza de Cavaco, Relvas ou Maria Luís e não tinha problemas que por aí andassem a fazer política.

  3. Nota. Ó Paulinho, olha aqui: o Valulupi tal como a dondoca d’Um Jeito Manso são bonecos da net, e portanto não existem. Deal, consegues perceber isto sem um pingo de alienação? Ora, quando tais personagens se referem a terceiros/as, no Aspirina B nomeadamente, fazem-no, normalmente, em favor de uma turminha completamente imprestável, passando-lhes a mão pelo lombo; da mesma forma, quando se referem, acintosa e obsessivamente, a um tipo como o José Pacheco Pereira* o objectivo é, obviamente, o mesmo de sempre: dar e obter credibilidade, ou condicionar outro alguém (jornalistas &etc). Entender isto deveria ser fácil, acho.

    Asterisco. Vale mais uma lasca de uma unha do JPP, principalmente pelo que o tipo faz no Ephemera, do que estes e outros piolhosos todos juntos. É a partir deste pressuposto que deve ser entendida cada investida quando ela é replicada n’A Estátua de Sal, pelo que me parece ser conveniente que se tenha a cabeça minimamente arrumada.

  4. Agora querem que a gente acredite em heranças milionárias das quais não há qualquer documentação ?

    Em amigos que emprestam milhões em dinheiro vivo em envelopes, sem qualquer registo e sem que o emprestador e o recipiente façam ideia do total ?

    Em “casas de amigos” em que o hóspede manda o suposto dono para apressar as obras e escolhe a cor em que as paredes vão ser pintadas ?

    Este artigo é uma vergonha.

    Vá vender ouro falso para a estação do Rossio.

    • Conhecem aquela do
      Sócrates que entra numa
      churrascaria? Encomenda
      dois frangos, mas depois vê
      quatro codornizes e pede
      para as levar em vez dos
      frangos. Quando já está de saída, o
      empregado informa José Sócrates
      de que se esqueceu de pagar as
      codornizes. Sócrates responde:
      “Eu não comprei as codornizes.
      Troquei-as pelos frangos.” Diz o
      empregado: “Certo, mas também
      não pagou os frangos.” Responde
      José Sócrates, indignadíssimo: “É
      verdade, mas também não os estou
      a levar, pois não?”

      LOL

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